Arquivo de outubro, 2005

Observações

Jessica e Kaka, amigas desde sempre, moravam juntas numa república, ou principado como elas preferiam chamar. O principado tinha um sofá, duas camas de solteiro, um dormitório e uma lavadoura de roupa suicida que vivia andando em direção a janela. As princesas namoravam Tiago e Leo, quase irmãos, que moravam com os pais mesmo.

O quarteto era inseparável. Nada mais natural. Amigas e amigos, tudo em casa. Mas sem putaria. Putaria aliás, não havia de nenhum tipo, pois dividir o quarto ninguém queria. Assim, um casal sempre estava no caminho do outro, se esbarrando no pequeno principado. A solução era o revezamento. Quando um casal viajava, o outro ficava com a casa. Jessica e Tiago já tinham viajado uma vez com os pais do Tiago. A viagem pra Itanhaem foi ótima, pena que tiveram que dormir na sala com os quintuplos da tia Luiza. Agora era a vez deles governarem o principado. Leo e Kaka iam pra Santos.

– Nossa! Achei que eles não iam mais embora.
– É saco, o Leo enrola demais, até carregar as malas pro carro é um parto. Tem que fazer duas viagens pra pegar um porta-escova de dentes.
– A Kaka também não colabora, sempre esquecendo alguma coisa. “não to esquecendo nada?” “não to esquecendo nada?”
– Nem me fala. Mas agora já foi. Vem pra cama comigo vem.
– Já vou!!! Deixa só eu desligar esse computador.

Jessica ja ia desligar o computador quando Tiago, vendo a webcam, teve a idéia. Fazer um filminho dos dois. A vontade sempre houve mas faltava a oportunidade. Jessica meio receosa topou com a condição de que fosse apagado em seguida. Fechado.

– Como mexe nessa câmera amor?
– Clica aí no programinha que tem a camera, novo arquivo.
– Ah! Achei! Abrir arquivo.
– Não! É novo arquivo.
– Xiii, que que eu fiz, tem umas imagens aqui amor.
– Eu falei pra clicar em novo linda, fecha essa….ei peraí o que é isso?
– Não sei será que a câmera tá com problema?
– Não. Isso é um arquivo que está gravado aqui. Alguém gravou. Mas quem ….ahhhh
– Mas quem pode ter gravado algum….ahhhh
– Você está pensando no que eu to pensando?
– Não sei, você tá com vontade de comer doce?
– Não Jé.
– Então não estamos pensando a mesma coisa.
– Linda, você não ta percebendo o que é essa filmagem?
– Não o que?
– É um video do Leo e da Kaka.
– Ah que legal. Mas video do que? Aonde?
– Transando Jé. Eles tiveram a mesma idéia que a gente. Deve ter sido quando fomos pra praia.
– Ai credo.
– Credo o que?
– Não esperava isso da Kaka. Que vaca.
– Como assim “que vaca”? Você estava prestes a fazer a mesma coisa.
– Mas eu sou eu. Agora ela…
– Isso já não me importa, o que importa é que vamos assistir.
– Hein? Como assim? Que nojo.
– Nojo nada, animal!
– O que você quer dizer com isso Sr Tiago?
– Nada…err, nada não. É que eu tenho curiosidade. Você não tem?
– Humpf.
– Tem um pouquinhozinho vai… Vamos só dar uma olhada. Só tem nós três aqui, ninguém vai falar nada.
– Nós três?
– Sim, eu, você e sua lavadoura de roupa suicida.
– Engraçadinho…
– Vamos vai…
– Tá bom. Vamos assistir. Mas só um pouquinho.
– Aeee…errr…quer dizer, legal.

PLAY

Jessica repara nas coxas do Leo. Nunca tinha percebido que eram tão grossas. Caracterísca que aliás, parece estar presente no seu corpo inteiro. Tiago olha pra bunda da Kaka. Que abundância. Não essa coisa mirrada da Jessica. A marquinha do biquini é de deixar louco.

– Interessante né?
– É.

A sessão continua, de olhos fixos, Jessica percebe que Leo se mexe de um jeito diferente e faz mais de uma coisa ao mesmo tempo. O Tiago mal conseguia fazer uma direito. Tiago vê que Kaka tem várias técnicas diferentes de agradar o parceiro. Nem sabia que existiam.

– Nada demais né.
– Não. Nada mesmo.

De repente, algo inusitado acontece e ambos concordam.

– CARALHO!
– PUTA QUE O PARIU!
– Mas como que ele consegue…
– E a mão dela? Você viu onde estava a mão dela?

Jessica começa a notar na bunda da Kaka. Era bem maior que a dela, e a desgraçada não tinha celulite nem em movimento. Tiago, por sua vez, começa a pensar que talvez tenham mentido pra ele sobre ele pertencer ao grupo dos bem-dotados.

– ….
– ….

Jessica começa a ficar deprimida com a perícia da amiga. Achava que abafava. Tiago se sente um mimeógrafo comparado a impressora/xerox/fax extra multi-funções que Leo é.

STOP.

– Estranho né?
– É.
– O que você achou Ti?
– Olha. Você quer que eu seja sincero?
– Quero sim.
– Você dá de dez nela.
– Eu também achei que você é muito melhor que ele.
– Que bom. Assim fico tranquilo.
– Eu também amor.
– Vamos no cinema?

Trimm!

Trimm!
– Marcão!
– Fala Rogê!
– Como o seu telefone faz trimm ainda hoje?
– Como você sabe que meu telefone faz trimm?
– Acorda! eu já fui na sua casa lembra?
– Tá, lembrei.
– Então, cara, porque você não sai mais de casa? Tá tudo bem com você?
– Tá…
– Mas você esqueceu o aniversário da Tina, o que é que deu em você? Ela é um monumento à feminilidade, uma Deusa! E adora você!
– Você acha ela tudo isso?
– O mundo acha, eu acho, você não?
– Acho, claro!
– O que aconteceu então?
– Eu me descobri!
– O qu…?
– Calma, calma, Rogê! Não é nada disso!
– Tô calmo Marcão, mas explica rápido…
– Cara, não posso mais sair de casa, para minha própria segurança! Descobri que sou uma pessoa volúvel demais.
– Que é isso Marcão, você virou gay?
– É sério Rogê, acho que devo ter alguma coisa como volubilidose crônica ou coisa assim, e não é de hoje.
– Deixa de bobagem, de onde você tirou essa idéia?
– Rogê, a gente se conhece a muito tempo não é verdade?
– Pô Marcão, você é meu irmão cara!
– Lembra quando a gente era pequeno e todas as crianças ganhavam bicicletas no natal, BMX, Monark, CaloiCross, e tal?
– Claro, você acabou ganhando aquela Cross azul e tudo. Agente podia ter feito algum passeio ciclístico, sei lá; mas você só saía com os seus pais?!
– Acorda Rogê, eu não sei andar de bicicleta até hoje! Só pedi uma porque todo mundo tinha, só porque era legal ter! Meus pais me levavam para passear de bicicleta mas eu nem encostava na magrela.
– Marcão, isso é coisa de nada, coisa de criança…
– … e quando vocês ficavam tirando sarro da Martinha “quatro olhos”?
– O que tem a Martinha?
– Eu gostava dela; mas ficava com vocês ajudando a esculhambar a coitada.
– Você tá brincando…
– Tô não. Não consigo ter opinião própria sobre nada, só sei o que as pessoas sabem, só penso o que elas pensam, não consigo lembrar de nada que eu tenha feito por vontade própria, de nenhuma conclusão que eu mesmo tenha chegado. Sou uma ameaça à minha pessoa.
– Que nada Marcão, isso aí é estresse.
– É……..é mesmo……..
– …é se bem que você sempre foi meio estranho, Marcão!
– É…é mesmo…
– Você nunca teve uma opinião muito forte assim, né?!
– Pois é…
– Você não acha?
– É, eu estava pensando nisto esses dias, sabia?
– Às vezes você parecia meio tonto, também…
– É verdade…
– …
– Não………..que coisa! Pára Rogê, vê se ajuda, pô!
– Mas fala uma coisa: porque ficar trancado em casa assim? Que paranóia é essa a sua?
– Não sei não Rogê, esse lance da parada gay nas ruas, metrosexuais, pansexuais, prefiro manter minhas últimas convicções intactas.

– Mas você ainda gosta de homem, né?
– Claro, é só que…….Pára Rogê – cacete – não avacalha vai!
– Tá certo Marcão, eu falo pra galera que você está doente!
– Valeu Rogê, ainda bem que posso contar com você…
– …
– …
– E que ficou de boiolagem na cama.
– Parou vai……

Connaisseurs

– Agora, sim! Aqui, de frente para… – as palavras falham. Indica do que fala só num gesto ao mesmo tempo de reverência e incredulidade, abanando os braços enquanto abaixa a cabeça. Aí faz uma pausa. Respira fundo. Continua. – Agora dá para entender a urgência.
– Não falei? Não falei?

Para quem ainda tem dúvidas, não custa esclarecer: trata-se de um trecho notório, não, mais ainda, obrigatório, de dois homens entregues a uma prática saudável e muito cara ao gênero – a alimentação de obsessões. É um padrão tão observado, estudado e repetido que a expressão seguinte só pode ser “E aí?”, “Então”, “Que tal”, ou outra pergunta que permita ao outro finalmente entrar no jogo, encaixando uma opinião já de saída; algo como:

– Robusto!

Como relações dessa natureza são baseadas no respeito e admiração mútuos, e até por uma questão de educação, essa primeira sentença é recebida com uma virada de olhos para cima, que pode ser traduzida como “óbvio” ou “dããããã”. É uma forma elegante de indicar ao outro que ainda é a vez dele:

– Mas, olha…. Apesar de encorpado, não sei, parece que….
– Sim?
– Espera… Preciso ter certeza… Talvez….
– Deixa ver se adivinho. Não sabe se é cítrico demais ou se está no ponto certo.
– Isso! É exatamente isso! Você…. Né?
– Sem dúvida. Essa pergunta me atormentou que você não faz idéia.
– E qual a sua conclusão?
– Então… – abre um sorriso de antecipação. É a deixa para o outro. Completam a resposta num coro – Não tem fórmula!

“Não tem fórmula” é perfeito. “Não tem fórmula” é melhor do que dizer “Perfeito”. É a fronteira final. O limite da eternidade. A certeza de que o assunto é inesgotável e que; bom, já deu para pegar a idéia.

– Se você prest – não conclui. Se interrompe, corta a gafe no meio. O convidado ainda não acabou. Ficou barato, só na censura ocular. Cabia fácil o “shhh, shhhh”. Foi por pouco. Mirim, mirim.
– E macio. Bem macio. Aposto que é daqueles que ainda por cima vai melhorando com o tempo…. É ou não é? – O outro só faz aquele movimento: cotovelos para trás, mãos espalmadas coladas no peito. Aquele. – Sabia! Só podia!

Ah, a satisfação!

– Tem mais. Chegou a –
– Reparei, claro; ô se reparei!
– Uma beleza, uma beleza…. Lindo trabalho….
– O tanto exato de madeira. Nem mais, nem menos; na medida para valorizar o todo, o conjunto, sem roubar a cena.
– A classe típica dos produtores.
– Quase uma assinatura… –

Olhar cúmplice. Contentamento transbordando.

– Aliás, para quem conhece, para quem realmente conhece, isso é a assinatura.
– Já que falamos da assinatura… Consegue dizer o ano?
– Que é isso agora?! Pegadinha….?A essa altura? Faz favor, né?
– ;-)
– Mas sabe o quê? Quem vai te pegar sou eu. Quer saber o ano? Vou dizer!
– Sério? Porque nos últim –
– Eu sei. Todos têm essa mesma característica. A mesma “assinatura”. Mesmo assim, aposto que acerto.
– Você é que sabe….
– Pronto?
– Manda.
– 2-0-0-3. Dois mil e três.

Espanto. Emoção. Estupefação.

– Como…?
– Fácil. Aqui, ó – inspirando. O outro acompanha – Está vendo?
– O aroma?
– Sim.
– É baunilha. Extrato clássico.
– Não, não. Tenta mais uma vez. Presta atenção – os dois inspiram de novo.
– Tá….
– Achou?
– Achei. Bem leve, tem um traço novo….

O êxtase, o êxtase.

– Tem. Uma fragranciazinha leve, leve…. Incidental… Um detalhe exclusivo, coisa fina, que ninguém mais tem….
– Parece familiar…. O que é?
– Babaloo banana!

O ÊXTASE, O ÊXTAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH

Tinha uma Pedra no Meio do Caminho

“Quando eu tinha 11 anos e acreditava que estudar era uma chatice, eu me lembro de ter dito uma vez: “”tinha uma pedra no meio do caminho, que frase mais idiota””. E me lembro bem de repetir isso por alguns anos, até que me deparei com a primeira pedra.

A primeira pedra é inesquecível. O intervalo de tempo entre o tropeço e a queda é quase eterno. Quando você cai a primeira vez, invariavelmente surge a sensação de que não há mais volta. Não há como levantar. É melhor ficar caído, assumir a queda. Será que dá para ficar invisível, me perguntava?

Depois de algum tempo, com um pouco de esperança e fé, há de se mudar os rumos e tentar erguer-se novamente. De pé vê-se a pedra – estive cego? Preciso continuar, não posso ficar aqui. Segue-se a inexorável inércia da vida.

O horizonte do homem varia de acordo com a amplitude entre o que ele é e o que ele espera ser. Invariavelmente surpreendentes, as mudanças nesses pontos de referência nos levam a tomar decisões radicais, estabelecer rupturas no nosso ambiente. O esforço para sair da situação atual para a desejada vai estabelecer uma seqüência de comportamentos individualistas.

Invejo aqueles que enxergam a longa distância, e conseguem medir seus atos pelas sua direções tomadas. São nobres no cuidado com a vida. Ao contrário dos que olham fixamente para baixo, preocupados com o momento, que são incapazes de enxergar onde pisará depois. Eu sou dos segundos.

Há várias pedras. Infinitas. No final das contas há um mar delas, espalhadas por aí, aguardando a todos nós, os desavisados. Poder olhar a frente não é importante para evitar quedas, e sim para escolher quando há disposição para o risco de queda.

Hoje com 26 anos, eu humildemente me retrato: “”tinha uma pedra no meio do caminho, quisera eu ter visto antes””.”

Sexo das Renas

– É, tá chegando o Natal!
– Chegando? Nós estamos no meio de Outubro.
– Então, Natal tá aí.
– Como assim “tá aí”? Faltam mais de dois meses.
– Que nada. Outubro já está acabando. Chega Novembro e já tem feriado dia 2 e feriadão dia 15, daí, já chegou o fim do mês de novo. Depois, já estamos em Dezembro, com as decorações, promoções e o Papai Noel no Center Norte. Viu como tá aí?
– É. Vendo desta maneira realmente “tá aí”.
– Tenho que começar a ficar feliz.
– Feliz? Porque feliz?
– Ué, é Natal!
– E daí?
– E daí que no Natal devemos ficar felizes.
– Quem disse?
– Todo mundo.
– Todo mundo quem?
– Todo mundo. Meu pai, minha mãe, a Ana Maria Braga, o Papa.
– Ah sim claro. Então tá falado. E o Rudolph? Também falou?
– Quem é Rudolph?
– A rena do Papai Noel.
– Hahaha. Rudolph? Que burro.
– Porque burro?
– É Rudolpha.
– Não fala bobagem. Se tem uma coisa que entendo é de rena.
– Entende?
– É, assisto todo ano “A Rena do Nariz Vermelho”
– Estranho.
– Por que estranho? É normal. Lembra minha infância. Você não devia julgar as pessoas assim, sei que pode parecer um pouco infantil mas…
– Não to falando disso. To falando dessa história da rena.
– Ah tá. Mas o que tem de estranho? Achou que era outronome normal.
– Não é isso o problema é ser um nome masculino.
– E qual o problema nisso?
– Não sabia que existia rena macho.
– Lógico que existe.
– Porque lógico?
– Porque como um mamífero desse tamanho pode ter apenas um sexo? Isso não existe.
– Existe sim, se acontece com os cachorros pode acontecer com as renas também.
– Hein?
– Sabe, essas raças de cachorro que só tem um sexo.
– Quais raças de cachorro só tem um sexo?
– Várias. Yorkshire, bulldog, pitbull, maltês.
– Como assim? Não to entendendo.
– Por exemplo; yorkshire, maltês só tem menina, já bulldog, pitbull só tem menino.
– Mas que bobagem.
– Bobagem porque?
– Porque é impossível. Como iam nascer outros desses cachorros se só houvesse um sexo?
– Cissiparidade.
– Hein?
– Cissiparidade, divisão simples ou fissão binária, processo de divisão celular na qual um organismo unicelular se reproduz em dois por mitose.
– Como você sabe uma coisa dessas e me fala que só existe cortês fêmea?
– Maltês.
– Que seja.
– Se estou errado me prove o contrário.
– Pensa cara, você mesmo disse. Cissiparidade só funciona em organismos unicelulares. Como uma coisa dessas aconteceria num cão.
– Ah, não sei , não sou biólogo.
– Te juro cara, confia em mim, tenho um primo que é veterinário.
– Ok, vamos dizer que eu acredite em você, mesmo assim não entendo, porque nunca vi um yorkshire com cara de macho, ou um pitbull de vestidinho?
– Isso quem manda é o dono. É só estética.
– Será?
– Claro. Se o cara compra um cachorro bravo vai querer que ele tenha aparência de machão, já se compra um bonitinho o quer o mais meigo possível. Independente do sexo.
– É uma possibilidade.
– Lógico que é. Não parece uma coisa muito mais plausível pra você?
– É verdade. Um pouco mais.
– Entendeu agora que sua teoria é improvável.
– Entendi sim. Era uma idéia idiota mesmo.
– Que bom que você entendeu.
– …
– …
– Mas schnauzer só tem macho né?
– Lógico que não.
– Mesmo com aquele cavanhaque?

Freestyle

É engraçado! Eu não sei porque as pessoas complicam tanto essas coisas!

Eu por exemplo … não sou bonito, então resolvi estudar. E falar besteira também. Era pra dar certo.

Dizem que as mulheres gostam de homens que as façam rir.

Gostam de orgasmos múltiplos também. Mas aí, já bem mais difícil. Olha só. Taí um exemplo claro de que as coisas simples começam a se complicar.

Era pra dar certo. Eu até que sou engraçado. Quer dizer, as pessoas riem de mim.

Uma vez eu estava num bar quando 2 judeus entraram e … bom … Deixa pra lá.

Freestyle. Poucas coisas são tão divertidas para um cara que gosta de falar besteira do que um texto escrito de modo “freestyle”.

Um “jazzista” é admirado por muitos quando faz um solo de 12 minutos. O resto do mundo acha isso um saco. Mas aqueles 3 caras gostam tanto de um solo desses, que acabam virando uma multidão. Eu sei disso. Eles sempre me ligam quando querem alguém pra conversar sobre o assunto. É um belo casal.

Já um skatista pode até ganhar uma medalha no X-Games, ficar rico e famoso. Mulheres. Dez, dez mil dólares, mulheres, automóvel, mulheres, iates, mulheres, mansões, mulheeeereees…

No meu caso, eu fico aqui. Escrevendo. Olha que legal.

Num dia como hoje, eu poderia ficar escrevendo assim por horas. E não pensem vocês que eu não releio o que escrevo.

Tenho muito critério. Sei o que não funciona, só não tenho coragem de apagar. Ou você acha que os pais do cara mais chato do Mundo não pensaram em matar o próprio filho? Faltou coragem.

Fiquei pensando em quem seria essa pessoa. A resposta mais imbecil de todas, seria : eu. Mas não sou eu não. Eu sou legal. Só estou sofrendo de incontinência mental.

Merda. Fiquei tanto tempo pensando numa analogia esdrúxula pra “coisa/pessoa mais chata do Mundo” que acabei perdendo completamente “free” desse texto.

Era como se o Oscar Peterson acabasse quebrando a mão num solo de piano, ou se o Bob Burnquist quebrasse a perna em uma das suas apresentações. Eu sei. Eu sei que ele não faz freestyle, só vertical, mas não me enche. E por favor dá licença que o meu ponto está chegando e eu preciso descer.

Bola ou Campo?

– Vamos lá, par ou ímpar?
– Par ou ímpar não.
– Como assim, par ou ímpar não?
– Não gosto.
– Não gosta porquê?
– Não acredito.
– Não acredita em par ou ímpar?
– Não acredito. Não acho confiável.
– Como assim? São números!
– Por isso mesmo.
– São exatos, não existe chance de dar errado. Você coloca um número, eu outro, somamos os dois e vemos se é par ou ímpar.
– Mas quem disse que vai estar certo? Será que dois é par mesmo? Vai saber. Não confio. Se fosse simples assim…
– Mas é simples assim!
– Cara, você quer jogar ou não? Se ficar insistindo não vamos começar nunca. Já disse que par ou ímpar não rola.
– Tá bom, tá bom. Então o que você quer? Dedos?
– Como assim dedos?
– Não quer decidir fazendo Dedos?
– O que é isso?
– De que planeta voce veio cara?
– Porque?
– Ímpossível você não conhecer Dedos.
– Nunca ouvi falar.
– Bem, Dedos é assim. Cada um coloca um número, depois somamos eles, daí, pegamos o total e contamos esse número apontando para um de nós em cada número. Para quem estiver apontado o dedo quando acabar a contagem é dado o direito da escolha.
– Hummmm, não sei.
– Não sabe o que?
– Você vem com números de novo. Acho que deveria ser alguma coisa mais exata. Mas tudo bem vai…
– Hein…mas…deixa pra lá, vamos logo. Deeeeeeedos!
– …
– Porque você não colocou um número?
– Era pra colocar?
– Lógico. Quando eu falar Dedos você coloca um número.
– Ah tá.
– Vamos de novo. Deeeeeeeeedos!
– Aê.
– Deixa eu ver, você colocou quatro e eu cinco. A soma dá nove. Vamos contar. UM, dois, três…
– EI, EI, pode ir parando!
– O que foi, qual o problema?
– Porquê você contou o “UM” apontando pra cima?
– Porquê é assim que se faz.
– Aaahhh, você não tinha me falado isso!
– E que diferença isso faz?
– Toda. Não discuto, pratico nem decido quem escolhe por meios religiosos.
– Religiosos?
– É, você aponta pra Deus, faz sua rezinha aí com esse “Deeeeedos” e é favorecido…Tá na cara que é um ritual.
– Cara, você tá louco.
– Pode me chamar de louco a vontade, mas eu não mexo com esse tipo de coisa.
– Tá. Ok. Como você quer decidir isso então?
– Uma maneira sensata seria Jokempô.
– JOKEMPÔ?
– É! Papel, pedra e tesoura sabe?
– Sei, lógico que sei. Mas adultos não decidem as coisas no Jokempô!
– Porquê não?
– Oras, porquê é coisa de criança.
– As crianças fazem boas escolhas.
– Tá, tá, tá. Jokempô então.
– Vamos lá. Tá preparado?
– ….
– Não fica bravo. Jóóóóóókeeeeemmmmmpô!
– Aê, ganhei.
– Ganhou nada.
– Lógico que ganhei, papel ganha da pedra.
– Lógico que não ganha.
– Como não? Papel enrola a pedra.
– Grande merda.
– São as regras.
– Só se for no seu mundo lunático.
– Meu mundo lunático? Em qualquer mundo. Papel enrola a pedra.
– Se isso fosse útil mesmo ladrões do mundo inteiro iam largar as armas e começar a assaltar com um lençol. A pedra rasga o papel.
– Cara, numa boa, que seja. Você ganhou então. Escolhe o que você quer e vamos jogar logo.
– Não quer dar o braço a torcer mas sabe que está errado né.
– É isso aí, isso mesmo. Escolhe.
– Hummm….eu quero bola.
– Beleza eu queria campo mesmo.

Mudança

“Ontem eu estava voltando de Ituverava e fui parado por um policial rodoviário. Perplexo parei o carro. Ele me abordou:

– Senhor, documentos por favor.
– Pois não seu guarda. Aqui estão.
– O senhor sabia que o seu farol esquerdo estava queimado?
– Não seu guarda.
– Venha ver aqui.
– Sim. Está realmente queimado. O que fazemos?
– O senhor pode voltar para o carro e ver se não é mau contato.
– Ah. Acho que não. Pode fazer a multa.
– O senhor tem certeza, terei que apreender sua carteira.
– Sem problema. Manda bala.

Calhou que o guarda nem sabia o que fazer com meu farol queimado, e comecei a questionar se realmente as pessoas eram multadas na estrada ou se tudo se resolvia no “”mau contato””. Depois andei pesando em todas as possibilidades de saídas ilegais que já haviam aparecido na minha frente, nos meus poucos e não representativos anos de vida.

Como um qualquer como eu poderia ter acesso a tanta sacanagem? A sacanagem deveria estar restrita a poucas pessoas. No resto do mundo funciona assim, pelo menos. Aqui pelo visto a coisa degringolou de vez, mas não podemos perder as esperanças. Eu vou consertar essa bagunça.

A primeira coisa a fazer era exigir um serviço público decente. Fui até a prefeitura verificar a situação do alvará de funcionamento do estacionamento que acabara de comprar. A moça foi muito atenciosa:

– Não sei informa-lo.
– Como não. Ninguém viu o processo?
– Não.
– Quero falar com o seu chefe.
– Ele é o subprefeito, só com audiência marcada.
– Quero falar com o responsável.
– Sou eu mesma.
– E como você pode estar tão desinformada?
– Tudo é uma questão de conversar.

Mas que merda. Como eu iria consertar isso. O jeito seria marcar uma maldita audiência com o presidente, mas até eu conseguir isso já estarei muito velho e mal-humorado.

Então está decidido. Vou embora dessa merda! Fiquem com a Amazônia, a alegria, a hospitalidade, os bois e até com a droga da feijoada. Eu vou para um país organizado e honesto. Olhei no mapa. Minha mãe mandou eu escolher esse daqui. Letônia. Acho que não, de novo. Vou jogar uma pedrinha no mapa. Onde ela cair é o meu destino. Portugal. Nem a pau! Vai Espanha então. Barcelona tem balada, ar puro, uma catedral inacabada. É lá mesmo.

Chegando no aeroporto fui falar com a autoridade de imigração.

– Bom dia oficial.
– Documentos por favor.
– Aqui estão.
– Por que senhor veio a Espanha.
– Vou morar aqui.
– O senhor tem visto para isso?
– Precisa?
– Lógico, ou visto de trabalho, ou visto de permanência ou até passaporte espanhol.
– Mesmo. Será que não é um mau contato no seu computador?”

Pequeno detalhe

Ah, que prazer. Pequenos detalhes, pequenas coisas que trazem sentido à nossa vida. Um molho de salada com alecrim, um comercial divertido, um passe moleque num jogo desimportante. E aquele dedo mindinho do pé que bateu no cantinho do pé da cama. Só um pequeno detalhe, daqueles imprescindíveis. Ah, que dor.

Shampoo revitalizador. Está no comercial (divertidíssimo, por sinal) que o shampoo faz maravilhas para o cabelo das mulheres, inclusive dando a entender que sua mulher vai ficar tão interessante usando aquela calça branca igualzinha à das modelos que você nem vai reparar no cabelo. Realce, fios mais fortes, mais vida. Sua mulher compra, usa por duas semanas. Mesmo sem saber direito o que é, você tem certeza de que não tem nada de “realce” ali. Nem a calça branca ela comprou. Mas, na embalagem, vem o detalhe imprescindível de fazer inveja ao dedinho do pé: “para melhor utilização deste produto, mantenha o shampoo aplicado por 2 horas, enxágue, use o produto novamente e depois utilize o nosso super-condicionador com Plumb-Zoiton por mais 2 horas”.

Nunca se sabe quando um detalhe pode vir à tona. Você recebe um guia de como comer de forma saudável. “Prefira vegetais frescos. Mastigue devagar e sem pressa. Mantenha os dois pés firmes no chão. Escolha lugares agradáveis e tranqüilos”. Espere um minuto. Por que dois pés firmes no chão? Será alguma razão mística, algo como “manter ligação com a Mãe Natureza”, mesmo que o restaurante fique no décimo oitavo andar de um arranha-céu? Será que existe alguma ligação fisiológica que interfira no delicado equilíbrio entre os calcanhares e o duodeno? Não, nada disso. É só um detalhe. Mas tente almoçar balançando numa gangorra. Não vai dar certo. Ou você vai ficar enjoado ou vai manchar sua bela camisa de microfibra com o molho de salada de que você gosta. Detalhe imprescindível, toda mãe sabe disso.

Ou seja: esses detalhes imprescindíveis podem ser muito perigosos. Deveria existir algum órgão supra-nacional, capitaneado pela ONU, que zelasse pelo bom regulamento dos detalhes, de forma que todo detalhe imprescindível fosse devidamente demarcado, protocolado e acompanhado de um aviso em letras garrafais, em vermelho. Ou pelo menos acompanhado de um post-it laranja, vá lá. “Cuidado: detalhe imprescindível. Vista este sapato apenas depois das meias”.

Existiriam profissionais capacitados internacionalmente na observação, catalogação e prevenção dos detalhes imprescindíveis, para que eles não tomassem de assalto as sociedades do mundo. Ficaria tudo mais fácil, com o efeito colateral de acabar com todos os advogados.

Ou então o mundo deveria se dar conta que ou uma coisa é apenas um “detalhe” ou é “imprescindível”. Nunca as duas coisas juntas. Se o mundo fosse um pouco mais sensato, não existiriam nem o João Kléber nem esses “detalhes imprescindíveis”. Enquanto isso, você só precisa ignorar os detalhes que são realmente detalhes e prestar bastante atenção naqueles “imprescindíveis”. O complicado é saber distinguir entre os dois.

Mas isso é só um pequeno detalhe, claro.

Eu te amo! (e nem vou cobrar nada por isso)

O sexo vende. E muito. Milhões de sites de internet e a Rede Globo sabem muito bem disso. Mas e o amor? Não seria um produto negligenciado?

Depende do tipo de amor. Temos claramente dois tipos de amor. O amor clássico é aquele legítimo, que faz rir, chorar, que abre a porta do carro e vai no estádio de futebol mesmo sem gostar. O outro é o verbalizado, aquele que é apenas falado, sem significado necessário, que decepciona, dá esperança, esquece de ligar e finge que está dormindo.

O Amor, assim verbalizado está em alta, e o amor legítimo está em falta. Ainda que Adam Smith tenha nos mostrado que quanto menor a oferta maior a procura, o amor legítimo está tão ausente que já se tornou um tipo de lenda urbana.

– Sabe o Rui?
– Que Rui?
– O Rui, primo do Claudinho.
– Claudinho….
– Aquele amigo da Mari, gordinho que usa dockside.
– Ah sei.
– Os pais deles são casados há 50 anos e ainda se amam.
– Você os conhece?
– Não, mas a Fê, irmã da Mari disse que já os viu uma vez.

Como quem compra guia de cidades as quais nem sabe se vai visitar , as pessoas se conformaram com a verbalização do Amor, com a oferta de uma promessa de algo que não acontece, mas não deixa de ser desejado Amor como diria o povo, vende igual pão quente.

O mercado é amplo. Historicamente, as mulheres são compradoras em potencial e os homens vendedores. É verdade que o mercado mostra uma tendência de inversão dos públicos. A troca é constantemente praticada também. Ainda que nem sempre os negociantes cheguem a um acordo:

– Pati, eu esperei muito pra dizer mas acho que é a hora.
– O que Michel?
– Eu te amo!
– …
– …
– Eu amo passar tempo com você.

O mercado é muito promissor. As aplicações são infindáveis. O produto tem atributos indiscutíveis. Não é perecível.

– Você me ama môr?
– Claro bebê.
– Quanto você me ama?
– Te amo pra sempre bebezinha, agora faz minha massagem.

Tem grande potencial no atacado.

– Mas você disse que me amava.
– E amo.
– E porque tava beijando aquele cara.
– Porque eu amo o Júlio. Mas também te amo Té. Você não acredita que é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo?
– Não!
– E o que você me diz daquele nosso menage, então?
– Errr….é…!?

O mercado paralelo também se aquece. Genéricos e similares são bem cotados no mercado. Diversifica-se para se atingir todo poder de compra. Por uma pechincha se consegue um “Gosto de você”, num investimento razoável pode-se obter um “Te adoro muitão” e apostando um pouco mais alto se fatura possivelmente um “Te adoro muito-muito-muito-muito-infinito”.

– Mas já?
– Acha cedo?
– Aliança depois de dois dias cara. Acho rápido demais.
– Eu também achava. Mas depois do que ela me falou.
– O que?
– “Te adoro um montãozão”. Isso é bastante né?

Ainda existem poucos puristas que acreditam no legítimo amor, que invariavelmente se tornarão um grupo altamente restrito (algo parecido com os fãs de Star Trek). Não vendem seu Amor verbalizado nem pelas causas mais nobres.

– E aí, já transou com ele?
– Não. Tá doida? Ele nem disse que me ama ainda!

Observando tudo isso podemos projetar o Amor como a mercadoria do futuro. Quer premiar? Dê Amor. Não sabe onde investir? Ações de Amor. Chega sua fatura do cartão de crédito. Você olha seu programa de milhagem: “Parabéns, até esta data você acumulou 50.000 milhas, entre em contato com nosso SAC e efetue a troca por uma TV de 29 polegadas, um sistema de Home Theather ou uma declaração de Amor de um de nossos atendentes”. Vão sobrar TVs e Homes.

O Amor estará finalmente na casa de todos que se dispuserem a pagar o preço. Logo, o ser humano não vai ter mais o que buscar, e sem propósito tende a parar, estagnar. O Amor estará banalizado.

– Eu te amo.
– Grande merda.

A esperança vai então residir naquele pequeno grupo restante, a ordem do legítimo amor, ou algo do tipo, com aqueles poemas estranhos e mania de pedir licença podem, quem sabe, devolver nossa esperança.