Arquivo de novembro, 2005

Clodisvaldo

Clodisvaldo. Ao contrário do que possa parecer o nome nunca foi problema, para todos os efeitos ele era o Clodô. Um cara como outros tantos que existem por aí. Metódico. Pós adolescente carreirista pressionado pelos hormônios, dividia sua atenção entre os estudos e as garotas; quando muito, cerveja e garotas.

Foi assim que Clodô entrou na faculdade. E como dizem que e mais fácil entrar do que sair, ele não quis saber de dispersões. Estudo, dedicação, provas de empenho.

Enfim, aula de Básico de Métodos Quantitativos. Ficou vidrado, não sabia que aquilo era possível. Espaço amostral. Aquilo fazia sentido para ele. Clodô adorava aquilo mas não de um jeito “nerd”. Ele gostava era das possibilidades que dali surgiriam, aplicações reais que ele poderia exercitar.

Entre uma apostila e outra (era preciso dedicação), uma garota para conversar, vez em quando uma cerveja com os amigos. E que qualidade de amizade, viu? Clodisvaldo só conhecia mulher, e se empenhava nisso. Mulheres de todos os jeitos, trejeitos; todos os estilos. Clodô pensava assim: espaço amostral!

Começou que toda mulher que ele conhecia, ele conseguia criar um vínculo interessante que lhe proporcionaria algo também interessante e esperava que a recíproca fosse verdadeira. Esperava.

Sua aula de métodos quantitativos tinha que dar resultados, a teoria era infalível, era lógica. Cada dia que passava sua agenda aumentava. Não media esforços; se uma Mariana qualquer estivesse disponível ali na lanchonete, Clodô esquecia das aulas e engatava na conversa; ia até o intervalo. Nesse ponto ele já teria o número do telefone e pelo menos um cineminha marcado.

Dia após dia, Clodô sentia-se mais confiante, sua auto-estima subia a níveis estratosféricos. E quando chegou na Lua, ele parou. Não sabia o que fazer. Espaço amostral. E agora? Todo esse tempo, uma agenda lotada e nenhuma namorada. Zero. Precisava mudar isso.

De A a Z começou a ligar, Adriana, Amanda, Bethy, Carol, Carol Pini, Daniela, Dani Martins, … Ligou, ligou e ligou. Todas as vezes que ligou foi bem atendido, até com certa ternura na voz. Todas as vezes que ligou foi trocado pelas amigas – o que é uma amiga que não deixa a outra sair com um cara legal como ele? -, namorado – namorado? se ela tinha namorado porque ficava se jogando pra cima dele? Sem falar nas inúmeras vezes que foi perguntado: “quem mais vai?” Não podia acreditar, uma teoria inteira… por àgua abaixo em algumas dezenas de ligações. Sua lógica estava ferida. Não conseguiu pensar em mais nada a não ser mudar de aula. Algo mais pragmático, talvez pintura com as mãos.

Natal é Tempo de Alegria

“Querida, chegou a hora de termos aquela conversa
– Não dá para adiar uma semana pelo menos, estou com muita coisa do trabalho na cabeça.
– Já te disse que você precisa aprender a separar as coisas.
– Eu sei, eu sei, não queira ter essa discussão agora, por favor.
– Sim, lógico, melhor falarmos do que interessa de uma vez.
– Pode perguntar?
– Mas antes eu queria…
– Pergunta logo!
– De cara assim…
– Vai Alberto, não me enrola.
– Onde você quer passar o Natal esse ano?
– Você sabe. Nem sei por que você pergunta.
– Por que você pediu. Eu ia dar uma sugestão, mas você não deixou.
– Ah, uma sugestão. Deixa eu adivinhar. Hum. A casa da sua mãe, em Orlândia?
– Bem, a idéia era ficar num hotel.
– Eu sabia Alberto. Todo ano a mesma coisa. Todo ano você me promete um Natal na casa da minha irmã e sempre acabamos indo para aquele fim de mundo.
– Não fale assim. Eu nasci lá.
– Grande coisa. É longe, é chato e sua mãe me odeia!
– Ela não te odeia, ela só tem um pouco de ciúme.
– Ciúme? Imagina, você lembra o que ela fez da última vez?
– Não querida, que foi mesmo?
– Ela disse que ainda não entendia porque você tinha casado comigo, já que a única coisa que eu faço em casa é sorrir.
– Você sabe que ela é uma mulher conservadora, ela sempre sonhou que os filhos deveriam estar casados com mulheres “”do lar””.
– Ela podia me respeitar pelo menos, eu sou executiva de uma multinacional.
– Seu arroz empapa. Ela até poderia respeitar você, mas se você não sabe fazer um arroz decente esse negócio de ser executiva não deve ser algo tão difícil de fazer.
– Pois bem Alberto, eu não passo por essa humilhação novamente.
– Querida, minha mãe tem oitenta e nove anos, a única alegria dela é ver os filhos no Natal.
– E humilhar as noras.
– Que seja, pense que você está fazendo um bem para a humanidade.
– Está bem, talvez eu vá, mas vamos no dia 24 e voltamos no dia 25.
– Então, sobre isso, podemos passar para o outra conversa?
– De separar o trabalho do resta da minha vida?
– Não, de passar o Reveillon em Orlândia!”

Ah é?

– É. Tem gente que não tem simancol mesmo?
– Quem amor?
– O pessoal lá do trabalho.
– Mas o que aconteceu?
– Sabe o Leivinha?
– Leivinha?
– É, o Leivinha.
– Que Leivinha amor?
– O Leivinha, aquele que no churrasco do Ramos dormiu com mão na pança, embaixo do sol.
– Ah! Sei, sei.
– Então, ele foi transferido há pouco tempo para o meu departamento. Graças a ele, não poderemos viajar no fim do ano.
– Mas como assim? Não acredito! Você diz no Natal e Ano Novo?
– Exato.
– Você está louco que eu não vou pra praia. Tô até fazendo dieta pra vestir o biquininho.
– Pois pode voltar a comer seu meio-kilo de bolinho de chuva diário. O lugar mais longe que iremos nesse final de ano é Diadema.
– Não acredito nisso. Isso é um ultraje, uma afronta, um obséquio. Vou matar esse Leivinha, acabar com a raça dele, fazer ele pegar leptospirose. Mas o que ele fez mesmo?
– Então, o Pit Bull, nosso chefe de departamento, veio nos perguntar se conseguiríamos terminar todos os relatórios relativos a esse ano antes do Natal, pra ver se daria para emendarmos os feriados.
– Entendi.
– Ele me perguntou e prontamente respondi que tinha certeza que ficariam.
– E ficariam?
– Não tenho idéia. Mas provável que não.
– Imaginei.
– Mas isso não importa, o negócio é que logo depois de responder, passei a bola pro Leivinha, se ele confirmasse o que eu disse, no dia 23 estaríamos queimando o chão.
– Queimando o chão?
– É amor, indo embora.
– Eu sei o que significa, só não sabia que alguém ainda falava isso.
– Bem, que seja. Pra ajudar a besta do Leivinha, quando perguntei pra ele sobre a os relatórios, já preparei o terreno. Perguntei daquele jeito que pela entonação você já saca a resposta. Sabe?
– Não.
– Daquele em que já se sabe o que se quer dizer sem precisar continuar.
– Bem, que seja, como foi?
– Falei pra ele “eu acho que dá pra terminar Leivinha, será?”
– E?
– E ele falou que não tinha certeza, que seria difícil.
– E daí?
– E daí que o Pit Bull já encerrou o assunto. Sem emenda.
– Mas você mesmo me disse que provavelmente não daria. Que culpa tem o Leivinha?
– Tem culpa em não ter entendido minha mensagem.
– Que era?
– Ele teria que ter respondido “é lógico”.
– Mas como ele ia saber?
– É óbvio. Se eu pergunto “Será?” a resposta automática é “É lógico”.
– Como assim óbvio? Nunca soube disso.
– Como não? Vivo falando essas coisas.
– Nunca ouvi.
– Você que não presta atenção.
– Me dê algum exemplo então.
– Fácil, é só lembrar da nossa briga do reveillon do ano passado.
– Nem me fala do ano passado.
– Não vou entrar no mérito da discussão, mas lembra como começou?
– Lembro.
– E como foi?
– Eu falei pra você que minha mãe ia ficar sozinha lá na casa de Cordeirópolis no ano novo e você respondeu com aquele seu jeitinho “Ah é?”.
– Exato. Esse jeitinho. Porquê você ficou brava com um simples “Ah é?”
– Porquê te conheço seu vigarista. Estava querendo dizer “Ah é? Fooooooda-se!”
– Então.
– Então o que? Achava que eu não ia ficar brava? É minha mãe.
– Não! Tô falando sobre o jeito de falar. Você percebeu o meu tom sem eu falar, o Leivinha não.
– Ah!Agora entendi.
– Por isso nós vamos ter que ficar pra passagem do ano da Paulista mesmo.
– Vamos nada!
– Como assim?
– Você acha que depois do que passei no reveillon passado vou ficar mofando aqui em São Paulo? Aqui ó! Vou pra praia me esticar o dia inteiro lá no Gonzaga pra voltar preta.
– Mas amor, eu acabei de te falar que o escritório não vai emendar.
– Emenda por conta própria, não quero nem saber.
– Não posso, o último cara que fez isso com o Pit, perdeu o emprego. Encontrei o sujeito uns dois meses atrás, quase bati na carroça de papelão dele. Se eu emendar vou ter o mesmo futuro.
– Ah é?

Criatividade

– Façam isso!
– Mas o que?
– Isso!
– Mas porque devo fazer isso?
– Porque eu disse. Analisadas as opções, variáveis e situação o mais certo é fazer isso.
– Mas você sabe se isso é a melhor coisa a se fazer?
– Acredito que sim.
– Acredita ou tem certeza?
– Acredito.
– Mas como podemos fazer isso se estamos agindo baseados apenas na sua crença?
– Fazendo.
– Fazendo?
– Isso. Pelo nosso bem.
– Mas você tem certeza que vai ser para o nosso bem?
– Imagino que sim.
– Imagina?
– É. Tudo leva a crer.
– Tudo o que?
– Ah, os fatos.
– Que fatos?
– Aqueles.
– Você quer me dizer que aqueles fatos te levaram a conclusão que isso é o melhor a ser feito?
– Não exatamente.
– Mas o que então?
– Os fatos dizem que fazer isso é mais seguro.
– Mas não existe a possibilidade de que aquilo seja mais eficaz?
– Existe.
– E porque não fazer?
– Porque é arriscado.
– Arriscado?
– É, pode não dar certo.
– Mas já fizemos isso e também não deu certo.
– É verdade.
– Então…
– Então o que?
– Temos mesmo que fazer isso? Não podemos tentar aquilo?
– Melhor não.
– Mas se você concorda que isso já não funcionou e aquilo talvez possa ser melhor não é melhor fazer aquilo. Ou mesmo aquilo outro?
– Complicado.
– O que é complicado?
– Fazer aquilo.
– Qual a diferença?
– Estaríamos trocando o certo pelo duvidoso.
– Mas não faz sentido. Se o certo certamente está errado e o duvidoso talvez esteja certo porque insistir no certo que com certeza é errado.
– Pode dar certo.
– Como?
– Já tivemos experiências com isso no passado.
– Sim e isso sempre deu errado.
– Sim mas ao menos temos um histórico.
– De erros.
– É.
– E no que isso é positivo para nós?
– Nos dá segurança. Sabemos o que esperar.
– Sim, sabemos mesmo. Podemos esperar o errado.
– Certo.
– Aquilo
– Isso.
– Errado.
– É.
– Mas e aí? O que fazemos então?
– Façam isso!

Nas Mãos de Mohammed

Mohammed é marroquino. Pouco mais de trinta anos, um tanto alto, magro, bem apessoado. Pele morena, rosto alongado e nariz aquilino. Fala francês com o sotaque característico do Maghreb, transformando os “eu” em “o”. Mohammed mora na França, em Gennecy, entre Gex e Ferney. Durante a semana, acorda todo dia às 4 horas da manhã. Já está acostumado, mesmo quando não trabalha levanta cedo. “Ficar na cama até tarde é coisa de preguiçoso”. Veste-se, come alguma coisa. Em dez minutos atravessa a fronteira, chega ao pátio da viação. Começa a trabalhar às 5h45, no verão já é pleno dia, no inverno ainda fará noite durante algumas horas.

Mohammed trabalha na Suíça, dirige o ônibus da TPG que faz a linha V, de Versoix em direção à estação ferroviária de Genebra. Vai e volta diversas vezes, sua jornada termina às 15 horas. Na saída, pega os dois filhos na escola. Prefere o turno da manhã, embora sobre pouco tempo, à tarde, para alguma outra atividade. “Mas é assim a vida”.

O melhor, para Mohammed, é ter um trabalho. “A gente vê tanta gente forte por aí, bem disposta, querendo trabalhar, e não tem emprego”. O pior período de sua vida foi há quinze anos atrás, quando ficou desempregado por oito meses. Passa mal só de lembrar. “Trabalhar é bem melhor”.

Pergunto se é muito difícil dirigir o ônibus. É um articulado, mais de vinte metros de comprimento. Mohammed é modesto. “É, é difícil, mas qualquer um pode aprender. É como pilotar um avião, eu não sei, você não sabe, mas a gente pode aprender. Sabe, as pessoas são inteligentes, a gente ensina, elas aprendem”. A empresa tem um período de treinamento, e só emprega motoristas com experiência. “Tem que ter trabalhado em companhia boa, ter ficha limpa, se você foi demitido eles vão perguntar por que, aí não pega bem descobrir que você provocou acidente, xingou o chefe, coisas do tipo”.

Dirigir um articulado não é óbvio. O motorista precisa saber a posição de cada uma das seis rodas a cada momento, planejar a trajetória de cada curva. “O pessoal com experiência consegue calcular a posição das rodas com cinco, dez centímetros de precisão. Passam entre duas fileiras de carros estacionados sem piscar”. Para fazer isso, não podem dar um toque sequer na direção, senão a rabeira do ônibus pode oscilar e atingir os carros.

Outra dificuldade é a aceleração. Num veículo desse tamanho, nem pensar em frear bruscamente. “Você imagina, oitenta, cem passageiros, muita gente de pé, se eu dou uma brecada de repente e voa todo mundo, é um acidente feio!”. Faz parte da habilidade do motorista antecipar constantemente a desaceleração. Os passageiros nem sentem que ele está reduzindo a velocidade. “Quer ver, vou mostrar. Agora vou frear como a gente tem que fazer”. Imperceptível. Nenhum ruído, nenhuma sensação de inércia. “Se segura, que agora eu vou mostrar o que acontece se eu der uma freada brusca”. A essa hora da manhã, sou o único passageiro que sobe no ponto inicial. Tenho direito a uma demonstração prática. “Apoia os pés no banco da frente!”. Um pisão no breque, minha pasta voa através do corredor, o choque é violento. “Viu? Isso porque a gente estava só a 40 por hora. Imagina se estivesse com o ônibus lotado, descendo a avenida no embalo!”.

Mohammed sabe o que faz. Continua a achar que não é difícil. Mas eu me permito discordar. Agora, todo dia, no trajeto para a cidade, admiro sua arte suave de dirigir o articulado. Ele é, à sua maneira, um sábio.

Eu só Queria Dormir

“Ao longo da história do homem, empiricamente, forem percebidas muitas diferenças entre representantes do sexo feminino e do sexo masculino. A parte física é mais do que óbvia. O desenvolvimento de certos comportamentos também são muito claros, na pré história os homens caçavam e as mulheres cuidavam dos filhos. No mundo moderno de hoje depois que a mulher conquistou quase tudo que nós homens já possuíamos (grande coisa) alguns outros comportamentos puderam ser detectados.

Mulheres gostam de falar. Falam pelas tampas. Antes a gente não sabia disso por que elas passavam o dia inteiro conversando entre si, falando com as crianças, falando com o gerente do banco, com o encanador, com o jardineiro, com o cara da padaria, com todo mundo em geral! Hoje não podem mais ficar de papo o dia inteiro, tem que trabalhar (quem mandou).

As consequências para os homens do mundo moderno são gravíssimas. Todo dia que chegamos em casa somos bombardeados por milhões de palavras, histórias e lamúrias. Viramos a vizinha, as crianças, o gerente do banco, essa turma toda. Não há como escapar: Ontem por exemplo, olha o que me aconteceu:

– Oi querida. Tudo bem.
– Sim, tudo ótimo.

Não perguntei nada, fui direto ao chuveiro

– Não quer saber do meu dia?
– Não te escuto do chuveiro amor.

Ela entrou no banheiro.

– Meu chefe foi um cachorro hoje.
– Ele te cantou?
– Não. Ele me mandou fazer um relatório para ele. É um incompetente.
– É só um relatório, faça e não crie problemas.
– Mas ele protege muito a Ritinha. Só da atenção para ela. Ela pode ter duas horas de almoço, pode chegar tarde, atrasa tudo. Não é justo.
– O mundo não é justo. Acostume-se. Que vamos jantar?

Fugi do quarto e fui para a sala de TV. Pensei, ligo a TV e pronto ela não vai me interromper. É uma mulher muito educada.

– Querido, estou infeliz.
– Não, você pensa que está infeliz. No fundo você só está frustrada. Assiste esse seriado comigo que passa.
– É sério. Eu não tenho futuro!
– Está pensando em se matar? Melhor fazer o testamento antes.
– Larga de ser besta, preciso pensar na minha carreira.
– Concordo. Vamos fazer isso no café da manhã.

Desisti do seriado e jantamos com trilha sonora de “”eu odeio a Ritinha”” a “”eu sabia que devia ter feito medicina””. Meus ouvidos ardiam, então fui dormir.

– Querido, você já dormiu?
– ….
– Querido, fala comigo.
– ….
– Acorda!!
– Oi, oi, que foi mulher?
– Você acha que eu ganho pouco?”

Cientistas e Feirantes

Depois de uma longa temporada sem feriados prolongados, chegou a proclamação da república, deliciosamente situada numa terça-feira. Após o longo e tenebroso inverno nada melhor que descer pra praia embaixo de um solzão. Assim, entre muitos, pensaram Doca e Vitinho. Depois das primeiras geladas e algumas calabresas Vitinho perguntou:

– Cadê?
– O quê?
– O baralho.
– Pra que?
– Para colocar na roda da bicicleta e deixar ela barulhenta.
– Hein?
– Pra que você acha? O pessoal vai jogar truco.
– Sei lá onde está o baralho. Pergunta pra quem trouxe.
– Como assim pra quem trouxe? Ninguém trouxe. Você não tem baralho aqui?
– Não.
– Como não?
– Não tendo.
– Como assim não tem?
– Cara, não é muito complicado, fui no mercado olhei para gondola e falei, olha tem baralho pra vender aqui, eu não vou comprar!
– Mas porque?
– Porque o que?
– Porque você não trouxe baralho?
– Não acredito neles.
– Não acredita neles? Como alguém não “acredita” em baralhos?
– O que quero dizer é que acho que baralhos são superestimados.
– Superestimados?
– É. Acho que valorizam demais esses jogos de cartas.
– Você não gosta de jogos de cartas?
– Nhé….não.
– Nem aqui? Assim com os amigos.
– Principalmente com os amigos. “Paciência” até vai, mas qualquer outro jogo que envolva amigos e cartas não aprovo.
– Não faz sentido cara. O legal de ter baralho é poder socializar num joguinho, dar umas blefadinhas, chamar o outro de marreco….
– Então, tudo uma chatice. Prova minha teoria que baralho promove a desunião de um grupo. Somos todos irmãos, uma grande família, toda aquela bichice, daí chega um dia e resolvemos jogar “buraco”, uma canastra aqui, uma sequência ali, até que aparece alguma coisa suja, quando menos se vê, estou batendo sua cabeça contra o portão da garagem.
– Acho que você está sendo um pouco radical Doca. Não ouviu o que eu disse? Blefe? Marreco?
– Justamente, tudo ferramenta de destruição. Terror psicológico. Aquele coringa sempre rindo da sua cara sabendo que em breve você será o próximo dois de paus.
– Você está delirando cara. Vê que nem tem um argumento para o que está dizendo?
– Claro que tenho. Observe os comportamentos numa mesa de carteado.
– O que tem eles?
– Num jogo de cartas existem dois tipos de comportamento, e ambos são prejudiciais ao melhor entendimento do grupo.
– Dois comportamentos?
– Sim dois. Vou te explicar. Existem os “Cientistas” e os “Feirantes”.
– Cientistas e feirantes? Do que você está falando?
– Deixa eu terminar. Os “Cientistas” são aqueles jogadores que ficam quietos. Mudos na verdade. Agem como se estivessem enriquecendo plutônio. Poderiam simplesmente abrir as cartas e vê-las. Mas não. Eles vão puxando-as vagarosamente, uma colada a outra, como se a desestabilidade de um ás de espadas pudesse explodir um pequeno país. Reconhecem as cartas por pequenos pontos na lateral esquerda superior da mesma. Descartam como se estivessem repousando um frasco de nitroglicerina em cima de uma velha lavadora de roupa ligada.
– E os feirantes?
– Os feirantes são os jagadores barulhentos. Geralmente jogam truco, mas arriscam umas partidas de roba-monte, porco e sete-belo. Esses parecem ter deficiência auditiva pois gritam a granel. “TRUCO”, “VOU MIJAR”, “SEIS, SEIS, MEIA DÚZIA É SEIS”, “DÁ DESCARGA”, “OLHA O PATO”. Esses nem olham as cartas. São malandros demais pra isso, sabem a ordem das cartas antes mesmo do baralho ter chegado á mesa, não mexem com alfafa porém fazem “maço”. Mas isso ele não grita, é uma informação surrupiada já sabendo que usar agrotóxicos não ajudaria na sua negociação. Deixa o fato pendurado no palito no canto da boca, malandragem pura. Em certo momento ninguém escuta mais nada, no fim de feira pra deixar claro que carta tem é necessário estampá-la na testa do companheiro.
– …
– Entendeu.
– Acho que sim.
– É simples cara. Por isso não gosto de baralho. Desunião. Brigas. Decaptações.
– Mas cara, se você reparar a maioria dos jogos provoca esse tipo de reação nos participantes. Faz parte da competição.
– Concordo. Por isso gosto de poucos jogos.
– Mas como você é chato cara.
– Não é questão de chatice. Estou prezando pela verdadeira diversão e boa convivência entre meus amigos.
– Tá , tá. Sua casa, suas leis. Já sei. Mas então o que vamos fazer?
– Sei lá, podíamos jogar “WAR”.

A verdade sobre a beleza

Era uma vez uma cidade muito, muito bonita em um lugar muito, muito distante onde tudo era lindo e nada era feio. A população seguia as apolíneas tradições venerando tudo que era belo, tudo que era agradável aos sentidos. E assim é que era…
… e era lá, nesta cidade muito, muito bonita em um lugar muito, muito distante que vivia Fernando, um rapaz simples, vindo de uma cidade muito, muito comum – alí da vizinhança – onde nem tudo era tão lindo assim, se é que vocês me entendem.

Todos trabalhavam duro sem perder de vista o que mais dignificava o homem (depois do trabalho): a beleza. Consequentemente as pessoas eram muito preocupadas com a saúde, e faziam do culto ao corpo uma diversão que era quase obrigação.

Na cidade muito, muito bonita tudo era como ela, tudo perfeito e muito, muito bonito às luzes da ribalta. Foi em um dia ensolarado, de temperatura amena, com passarinhos chilreando que Fernando, alto, bronzeado, de porte atlético e gentil (depois de muito, muito esforço; um homem muito, muito mudado), encontrou Clarice – sua antiga amiga de infância e impressionantemente a atual mulher mais bonita da cidade muito, muito bonita, muito muito mudada; lá em um lugar muito, muito distante.

Clarice estava maravilhosa. Cabelos longos, castanho-claro e com médio volume, davam formato àquele rosto angelical de nariz fino e lábios carnudos. Convidativos. Seu corpo era escultural. Seios, nem grandes, nem pequenos, tiravam a atenção daqueles que atraídos pelo reto abdômen ficavam perdidos no quebrar dos quadris de Clarice. Suas coxas eram desejáveis obras de arte não assinadas. Um verdadeiro convite à descoberta da autoria. Tudo isto coberto por uma alva e fina seda a que chamava de pele.

Foi amor à segunda vista. É……..porque Fernando estava deslumbrado com uma Maserati Spyder GT muito, muito irada que passava naquele instante. Mas logo viu que nada se comparava à beleza de Clarice.

Por dias os dois se encontravam nos lugares mais comuns, academia, clínica de bronzeamento, cromoterapia. Tomaram inúmeros cafés enamorados nas saídas para lipoescultura e drenagem linfática. Uma corridinha aqui, um peeling químico ali, depois uma conversa romântica na sessão de invel (cada um na sua maca, afinal Clarice era moça de família).
Então, uma quarta-feira depois da depilação a laser e esfoliação facial que eles tinham combinado, Fernando teve a certeza, só precisava achar o momento certo.

E o momento certo finalmente chegou: ia ser no dia do preenchimento com ácido hialurônico; depois desse dia só restaria a semana da bioplastia.

Não houve dúvidas, agora, o casal mais lindo da cidade muito, muito bonita, decidiu pelo casamento; nada poderia dar errado, teria que ser maravilhoso e foi. A cidade em festa, os padrinhos lindos – corredores, triatletas, jogadores, todos esportistas; tudo saiu como tinha que ser.

O resultado foi instantâneo, em poucos meses já se via desfilar a grávida mais bonita da cidade muito, muito bonita que ficava ali depois do rio à esquerda, em um lugar muito, muito distante.

O bebê do casal, outrora migrados, foi mais aguardado que copa do mundo e no dia do nascimento todos os jornais estavam prontos para notíciar o acontecimento. O parto não foi fácil, houve complicações de ordem de competência. Não havia um obstetra na cidade. A sorte foi que um cirurgião plástico que estava dando plantão tinha um primo na cidade vizinha – que também era muito, muito distante, mas não dali – e conseguiu buscá-lo a tempo.

Tudo pronto, nasceu o filho de Fernando e Clarice; e ainda na mesa de cirugia os dois se entreolharam e lembraram da infância (cada um da sua) e de como a genética nunca mente.

Conhecer o Sogro

“Chega um momento em que todo homem adulto, passível de reprodução, precisa conhecer o progenitor da sua companheira de sexo oposto. Esse momento varia de relacionamento para relacionamento. Pode ser na primeira semana, quando o casal é louco normalmente, ou pode ser depois de 2 anos, normalmente quando o pai da menina ameaça mandar matar o desgraçado que nunca aparece. De qualquer forma, em qualquer um dos casos, nunca é um momento agradável. Ninguém se sente bem, ninguém se diverte de verdade e quando termina todo mundo bufa: Ufa.

Eu lembro da minha primeira vez, ou melhor, da primeira vez que conheci os pais da minha primeira namorada. Eu era adolescente, não muito bonito e muito menos bem vestido. Gostava de rock e ficava o dia todo no computador. Tinha até mania de escrever textos num site com uns amigos. Era bem bacana, a gente escrevia sobre quase tudo, as professoras broacas, os colegas esquisitos, os acontecimentos em geral e logicamente, sobre mulheres, óbvio. A gente pensava 100% do tempo em sexo, fazer o que.

Era um sábado. Fui convidado para almoçar na casa da dita cuja, apenas com elas e os pais. Pessoas conservadoras da cidade. Iam me comer vivo, pisotear-me como se eu fosse um inseto. Mas fazer o que? Depois de dois meses, era o mínimo que eu podia fazer. Me lembro bem da casa, bom recuo, muitas janelas, plantas por todos os lados e dois cachorros bem grandes, isso está bem claro na minha memória, eram imensos, os cachorros e os dentes.

Almoçamos sem trocar muitas palavras. O pai mau olhou na minha cara durante o tempo da refeição. Falava com a filha, com a esposa e quando queria me perguntar alguma coisa não perguntava para mim, e sim para minha namorada. Triste. Terminado o almoço, que durou quarenta minutos, fomos até a sala de estar. Mal sabia eu o que estava prestes a acontecer.

– Pois então me jovem. Espero que você esteja tratando bem da minha filha, certo?
– Pai, isso é coisa que se pergunte?
– Ué filha, eu trouxe o rapaz aqui para conhece-lo melhor. Preciso saber o que, realmente, passa na cabeça dele.
– Mas não precisa envergonhar o Tito. Ele já está morrendo de vergonha.

Vergonha, que nada. Eu suava bicas. Ensopado de suor sentado num sofá de couro. Faltava pouco para começar a escorregar.

– Pois é meu jovem. O que você quer ser quando crescer?
– Engenheiro.
– Ah, entendi, vai passar fome.
– Querido, pare com isso! Deixe o menino em paz, ele está todo nervoso.

Nervoso, que nada. Ela tinha medo que meu suor estragasse o sofá novinho da casa. Só pensava em desaparecer, mas não era possível.

– Pois é meu jovem. Você conhece o site: www.cretinosagrupados.com.br?
– Sim senhor. Eu escrevo para esse site.
– Eu sei. Inclusive, durante a minha busca, sim, eu fiz uma busca, eu achei a seguinte frase: “”mulher mal comida é infeliz, faça um sacrifício e coma bem uma delas. Eles sempre melhoram o humor””
– Papai!
– Querido!
– Pois é meu jovem. Tenho apenas uma pergunta para você. Minha filha é feliz?”

Da série “Investimentos Pessoais” – De Pé

Sempre que posso, tento me colocar em situações limite. Talvez por isso o meu fascínio por velocidade. Gosto de testar o limite de forma concreta. Num kart, se você errar, vai pra grama. Num aeroplano, se errar, cai. Num bungee-jump se amarrarem mal a corda, você se esborracha no chão. Enfim …

Além dessas atividades mais “radicais”, existe outro tipo de atividade. Não-física, mas que pode despejar tanto ou mais adrenalina no seu sangue do que qualquer uma das modalidades presentes nos X-Games.

Stand Up Comedy é uma delas. Pra quem não sabe do que eu estou falando, Stand Up Comedy é aquele tipo de show que tem um humorista em cima de um palco, apenas com um microfone, falando um monte de bobagem para uma platéia. Sem cenário, sem figurino, sem diretor e sem personagem. A forma mais pura e desesperadora de se enfrentar um público.

Eu sempre gostei de contar histórias engraçadas pra amigos e sempre tentei fazer as pessoas ao meu redor rir. Também escrevo textos cômicos, ou pelo menos tento, há 6 anos.

Descobri que existe em São Paulo (finalmente!) um grupo que se dedica à Stand Up Comedy ( o Clube da Comédia Stand-Up). E pra piorar as coisas, soube que eles abrem o microfone, todos domingos, para convidados.

Isso tudo, porque um amigo ia se apresentar como tal convidado. Só de ler o e-mail-convite, senti um frio na barriga.

No dia do seu show, eu estava nervoso como se um filho fosse lutar boxe. Ganhando ou perdendo, só queria que meu amigo saísse vivo do ringue, digo, palco.

Ele foi o primeiro a subir no palco, e logo na primeira piada, o público riu. Ele não aparentava nervosismo, e parecia controlar bem o adversário. Aos poucos, ia soltando seus golpes. E a platéia delirando.

Maravilha! O show acabou, todo mundo alegre, eu meio desgastado pela tensão, mas muito feliz pelo resultado. Quando fui parabenizar o vencedor, veio a pergunta fatal : “E aí, você é o próximo?”.

Eu sabia que todo meu nervosismo na verdade, era uma espécie de projeção. Adoro lugares de altos e sempre tive aquele “instinto suicida” de pular quando estava numa situação em que isso fosse possível. Na única vez que pude pular sem maiores danos, como a morte, por exemplo, eu pulei. Foi ótimo.

Lá estava eu, de novo, pronto pra assinar o termo de compromisso.

No dia seguinte mandei alguns textos para a organizadora do Clube da Comédia. Ela gostou, e me convidou pro tal do “Open Mic”. Eu, me conhecendo bem, disse que só aceitaria se ela lesse o texto que eu apresentaria e aprovasse. Ela topou, e aprovou. Pronto. Agora não tinha mais volta.

Me sentia como uma modelo que aceita posar nua. O ensaio, creio eu, é nervoso mas passa rápido. O problema é no dia do lançamento da revista, quando cai a ficha de que o BRASIL INTEIRO vai te ver nu.

Depois aceitar a proposta, eu só me preocupava em ensaiar o texto e fazê-lo mais e mais divertido.

Três semanas depois de muito trabalho, chegava o dia da minha apresentação. Era a hora de descobrir se eu ia aproveitar a festa de lançamento, ou ia sucumbir ao temor da nudez, digo, público.

Horas antes de subir ao palco, eu estava tranqüilo. Ficava repassando todo o texto na cabeça. Tudo sobre controle.

Cheguei ao bar onde aconteceria a apresentação, e pouco a pouco o público foi chegando. Cumprimentava os conhecidos, fingia que tudo aquilo “não era comigo”. Via em alguns amigos a mesma apreensão que senti ao ver meu colega se apresentar. Não podia tranqüilizá-los até subir no palco, mas sabia que a noite poderia ser boa.

Depois de uma hora, o show começou.

Eu, antes de qualquer coisa, concentrado. Assistia às apresentações dos “residentes” do Clube, e me divertia.

De repente, um deles me avisa “Vai lá, cara. É sua vez. Merda!” (não se diz “Boa Sorte” para alguém que vai subir no palco “Merda” é o mais comum).

Subi no palco com muitos aplausos, peguei o microfone, ajeitei o tripé em uma disposição que não atrapalhasse a minha rotina. Comecei.

Em momento algum tentei olhar para o público. Meus olhos focavam os refletores quando eu falava, e o chão quando enquanto esperava os risos.

Sim! As pessoas riam! E em alguns momentos tive até que esperar aplausos cessarem para continuar. Eu estava fazendo uma curva perfeita de kart, estava pilotando um jato, estava no meio do salto de bungee-jump antes do elástico me resgatar.

Depois de 9 minutos, minha rotina chegou ao fim. Se me perguntassem quanto tempo fiquei lá em cima poderia dizer 3 minutos, ou 2 horas. O tempo funciona de um modo absolutamente indefinido em cima de um palco. Fantástico!

Voltei para a “platéia” leve. Meus pés não tocavam o chão. Meu corpo, pouco a pouco, começou a denunciar o estado de tensão que havia enfrentado. Me lembro de ter ficado assim algumas horas depois do salto de bungee-jump. Só que desta vez, eu era meu próprio elástico.

Vendo as fotos, e re-vendo a apresentação num vídeo que um dos apreensivos amigos gravou, sorrio não só pela comprovação de que o trabalho daquelas 3 semanas não foi em vão, mas porque sei que naqueles instantes estava experimentando alguns dos minutos mais intensos da minha vida. E isso não tem preço.