Arquivo de dezembro, 2005

O Rio de Janeiro Continua Lindo

cronica desaparecida, aguarde.

Inconsciente

O coração pulando no peito, o corpo estava encharcado, o tecido grudado no tronco como uma camisa de força me impedia de fugir daquilo que estava vendo. Os olhos fitavam mas não conseguiam ver, uma névoa branca translúcida me impedia de ver aquilo que eu sabia que estava acontecendo. Bem ali na minha frente, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se me apunhalassem ás costas olhando nos meus olhos.

Tentei reagir, gritar, bater, chorar. Parecia que nada tinha efeito. Nunca fui de gritar em público, odeio escândalo, mas pego pelo desespero não me controlei, esbravejei o mais alto que podia, ninguém escutou, todos estavam surdos. Apelei para a violência, ainda que nunca tenha sido um bom brigador, era muito estúpido para minha racionalidade. Meus murros passavam no vazio e os chutes acertavam o ar acima da minha própria cabeça. Cansei. Ajoelhei aos pés de meus malfeitores, e chorei. Meu queixo era a foz de um rio de incredulidade. Desaguava forte, como estivesse na época das chuvas, bravas e agitadas as lágrimas juntavam-se a poça de gelo derretido no chão. Eles brindavam a minha desgraça.

Uma hora o choro secou. Restou a dor. O estômago queimava, o coração parecia acorrentado, nada saia e nada entrava. Lá dentro só a mágoa. Precisava me colocar de pé, me apoiando nos próprios joelhos ergui meu corpo molhado. Mal conseguia andar, as pernas bambas me faziam pendular como um bêbado. Da direita para esquerda fui vagando sem rumo, cruzando esquinas que nunca tinha visto, percorrendo ruas que nunca havia conhecido. A exaustão foi tomando conta do meu corpo, não sei se havia se extinguido a força dos meus músculos ou a própria vontade de continuar. Os olhos cerraram e deixei-me despencar.

O coração voltou a pulsar após profunda inspiração. Havia saído da água, recobrei parcialmente os sentidos, não sei como tinha chegado onde eu estava, nem como aquela camisa de força voltou a me apertar. Procurei socorro ao meu lado, mas não havia ninguém. Recobrei a fala. Peguei o telefone disquei os oito dígitos, aqueles de sempre que se tornariam os de nunca mais em questão de minutos. Um último adeus, uma última chance de entender. Ela me atendeu com voz de sono, tranqüila, e logo me coloquei a indagar. O amor pra sempre, os planos de matrimônio, o nome dos filhos. Como havia beijado outra boca, deixado outras mãos a tocarem, outro corpo lhe sentir. Não conseguia parar de falar, as palavras saiam da boca descontroladas, tinham vida própria e tiravam satisfações por mim. Foi aí que ela me disse a única coisa que me faria recobrar os sentidos por completo, que libertaria meu coração e enxugaria minha alma.

– Foi um pesadelo amor, foi um pesadelo.

Subconsciente

Ás 3:27 da manhã, puto da vida, todo suado, ele simplesmente não pode acreditar. Rapidamente pega o celular que estava do lado de sua cabeça, aperta a discagem rápida número 2 e aguarda a sem-vergonha atender…

Ela atende com voz de sono, tranqüila.

– Alô?

Ele prontamente se põe a indagar.

– Isabela como você teve coragem? Não to acreditando no que você fez. E toda aquela história de amor pra sempre que você vive falando? Eu acredito naquela merda toda, meus amigos me enchem o saco falando que eu pareço uma moça quando estou no telefone com você. Falo na frente deles que vou te amar pra sempre e é isso que eu recebo? Tínhamos até combinado que iríamos casar fora da igreja pra não ter que ficar agüentando aqueles sermões chatos. E quer saber de uma coisa? Eu gosto do sermão, das flores e queria casar de branco, que nem imaginei desde garotinho. Mas abri mão disso por você. Ahhh, sem falar nos filhos né, escolhemos os nomes dos quatro rebentos já, Joselino, Joselildo, Josefino e Josemílson. Eu não abro mão de Josemílson de jeito nenhum.

Ele não conseguia parar de falar, as palavras saiam da boca descontroladas, tinham vida própria e pareciam tirar satisfações por elas mesmas.

– Bebela. Eu ainda não acredito que você deixou outro beijar sua boca. Outra língua fazendo chenhenhézinho no seu molar direito. Deixou outra mão dar uma apertada na popa da bunda que nem eu adorava fazer enquanto você ficava no telefone pedindo esfiha delivery. Não quero nem imaginar que ele pode também ter ficado de frique-frique com sua perseguida.

Aos poucos ele vai perdendo o pique e parece querer chegar a alguma conclusão.

– Mas é isso viu Bebelzinha. Só queria falar com você uma última vez, tentar entender porquê tudo isso aconteceu, porquê raios você foi beijar aquele filho de uma égua do Chiquinho. Aquele safado. Gordinho safado.

Ela, ainda calma, toma a palavra pela primeira vez e pergunta.

– Que Chiquinho amor?

Ele, confuso, confabula.

– Chiquinho, do programa da Eliana. Aliás, nem sabia que você conhecia ele, mas vi vocês dois se beijando. Aliás, estranho, parecia que vocês estavam na vila do Chaves.

Ela, como sempre, calma.

– Foi um pesadelo amor, foi um pesadelo.

Presente de Natal

Na sala de espera estão assim dispostas: Clara, Marisa e Joana.

Joana começa, impaciente com a demora:
– Menina, filho dá um trabalho né?
– Pois é, o meu está naquela fase terrível.
– Nem me fale! Como é seu nome, mesmo?
– Clara, e o seu?
– Joana.
– Olha, o meu está cada dia pior! Eu não posso ir à lugar nenhum que ele fica pegando tudo! Quer isso, quer aquilo, olha…um inferno!
– Nem me diga! Ainda mais nesta época do ano: Papai Noel, brinquedo, corre pra comer, corre pra comprar, “mãe quero isso”, “mãe quero aquilo”.
– É verdade, eles ficam loucos com essa história de ganhar presente, “mãe compra pra mim?”, “mãe compra pra mim?”. Ninguém merece!
– Quantos anos têm o seu?
– Sete, e o seu?
– Nove.
– Esses dias o “meu” viu um brinquedo desses japoneses que só falta falar…
– Iiiii você não sabe de nada, eles já falam!
– Nossa, estou atrasada mesmo! E eu achando isso o fim!
– Pois é, agora eles querem tudo e tudo se mexe e fala… o pior é que com tudo isso eu ainda não consegui comprar nada pra ele, é tanta coisa que não dá! Ele me pediu um tal de Robô Lord Venom do Maxi Steel. Não acho em lugar nenhum! Não faço nem idéia do que seja, além de ser um robô e ainda assim posso estar enganada.
– E o meu que pediu um tal de Winning Eleven Special Edition Competitive, acho que é videogame, preciso perguntar pra algum sobrinho meu pra ver se algum deles me ajuda, porque está impossível de achar esses presentes. Antigamente era tão mais simples né? Uma boneca, Barbie; uma bola de futebol, qualquer marca; ou um carrinho, roupa, sei lá, era diferente.
– É mesmo, cada dia fica mais difícil e caro, também, né?
– Menina, não tem condições de andar nos shoppings da cidade, qualquer um em qualquer dia ou horário da semana…está uma loucura! Você não acha…desculpa, qual é mesmo o seu nome?
– Marisa.
– Você não acha Marisa?
– Não.
– Nossa você deve ter comprado tudo antes né?
– O seu filho deve ter pedido uma coisa mais fácil também. Isso é que é filho bom, pede uma coisa simples pra mãe e facilita nossa vida né? Dá até tempo pra ir no cabelereiro.
– É mesmo, queria que meu filho tivesse pedido uma coisa fácil assim de achar!
– Nossa fiquei até curiosa! Você desculpa eu perguntar Marisa, mas é que a gente fica curiosa com essas coisas, né? Sabe como é mulher…
– Ainda mais mãe, né?
– Um japonês. Ele me pediu um japonês.

Do que os Homens Gostam

Beto, Fábio e Cidão estavam naquele bar há horas. Todos os assuntos importantes já haviam flutuado sobre a mesa. Mulheres, carros, futebol, aqueles santos de Brasília, mulheres, emprego, aqueles santos dos seus respectivos chefes, mulheres e etc.

Como eram freqüentadores de bar semi-profissionais (ainda iriam descobrir um jeito de ganhar dinheiro com isso), não se incomodavam com os silêncios que teimam em pairar sobre boas conversas numa mesa. Sabiam que no decorrer do período o tempo abriria.

Desta vez o salvador foi Beto. Com cara de intrigado, sem saber muito bem por onde começar, soltou relutante :

– Acho que o Repórter Vesgo …
– O quê ? – replicou Cidão.
– É … acho que seria o Repórter Vesgo.
– Seria o quê ? – perguntou interessado Fábio. Ele conhecia muito bem seu colega de “semi-profissão”. Naquele mato tinha cachorro.
– Veja bem. Caso, eu disse CASO, eu fosse mulher, acho que eu escolheria dar pro Repórter Vesgo.
– HEIM?! – exclamou o Cidão.
– PRUUHF – Fábio preferiu cuspir no chão.
– É, manolos! Vamos supor que a gente virasse magicamente, mulher. Tudo bem, ia demorar um tempo pra se conformar.
– Um pouco?! – disse Cidão – Um pouco?!
– É ! Eu sei, ia ser uma merda e tal, mas vamos supor! Só nós três saberíamos que éramos os bons e velhos Fábio, Cidão e Beto.
– Certo … – disse Fábio, já entrando na história.
– Uma hora ou outra a gente ia ter que dar pra alguém. Na boa, mesmo sendo um homem dentro de uma mina, uma hora ia ter que rolar. No meu caso, eu acho que eu daria pro Vesgo.

Cidão ria contido. Ele conhecia o amigo. Fazia aquela cara de “Porra … o Vesgo?!”, mas havia de concordar que formariam um belo casal. O Beto sempre riu das bobagens do cara. Podia dar certo.

-Além do quê … – Beto continuou- … sem aquele terno marrom até que ele não é feio.
– Mas heim? – pergunta o Cidão, ainda não muito conformado com a situação. Fábio resolve apoiar o colega.
– Digo … eu sou macho, porra. Mas … vamos dizer … acho que pro “eu-feminino” do Beto, o Vesgo ia ser o cara ideal.
– Sim, sim … – murmurou baixinho Beto.
– Já não é o meu caso. Tipo. Daqui eu sou o mais feio, logo seria a mais bucha de canhão da mesa. Se fosse pra escolher, acho que daria pro Santoro. Ainda mais depois do comercial com a Nicole Kidman e tal. Mas na boa, ele é muito pro meu bico.
– Fábio ? Presta atenc- ia dizendo Cidão.
– Num interrompe o cara, mano. Num é fácil admitir essas coisas! Mulher é bicho vaidoso. A mina seria mó traumatizada e pá … – interrompeu o Beto.
– Então … – pensando – … acho que a Fábia, digo, Fabiola, vai? Pelo menos no nome eu ia poder dar uma garibada. Sei lá, acho que ia querer um cara pra me defender …
– Tem o Wanderley Silva ! – Cidão finge entrar na brincadeira, tentando avacalhar um pouco pra que não chegasse na sua vez.
– Orra, mano! Precisa ser muito mulher pra encarar o cara! Eu não ia ter tanta cancha assim! Pega leve … Tinha pensado num esquema mais de defesa intelectual. Um malandro. Um George Clooney …
O Beto é obrigado a intervir :
– Fabião … Na boa, se nem o Santoro ia ser pro teu bico, imagina o Mr. Ocean.
– Fato. – concorda Cidão, sério, começando a perceber que ficaria sozinho nessa brincadeira. Fábio continua na sua busca.
– Difícil, heim? Não tem um homem que preste hoje em dia! Porque … que nem … o Vesgo, num tou querendo roubar seu cara, Betão!
– Belê.
– O Vesgo é doidão e tal, mas já li entrevista do cara falando que na real ele é sensível e pá. Tipo, é o personagem, mas acho que ele deve ser um cara que te faria feliz. E você, com todo respeito. Seria mó gostosa. Então … pô … rola. Mas eu …
– Já sei! – grita Beto!
– Opa! – Fábio responde desesperado – Fala!
– O Gianecchini!
– Boa! – exclamaram os dois.
– O cara é gato! Esforçado, parece ser gente boa, e porra … num liga pras aparências!
– Fato! Meu número! Bom, ia dar um trampo roubar o cara da Marília Gabriela, mas tipo, vocês sabem que quando eu coloco um lance na cabeça, vou até o fim.
– Porra Fábião. Tou feliz por você, cara! Acho que você ia ser feliz com o cara! Agora …

Beto olha para Cidão, que está com o olhar fixo em uma caricatura da Seleção Brasileira de 70 colada na parede do bar. Fábio e Beto percebem a gravidade da situação. Eles esperam o tempo necessário para o amigo falar algo:

-Porra, cara. Será que eu ia ficar pra titia …
– Não cara ! Magina.
– Nunca! Impossível.
– Titia … putz. Fiquei aqui tirando sarro enquanto vocês corriam pra arranjar seus caras e acabei ficando pra trás. Eu não vou sair sozinha na balada caçando homem não!

Silêncio.

– E … pelas regras do Beto, só a gente saberia dessa história toda. Ou seja, ou eu teria aproveitado a época de caça de vocês. Ou … Titia, brother. Putz, não acredito.
Mais silêncio.
– Fato. – diz Beto.
– Fato. – concorda baixinho Fábio.

Dessa vez o silêncio pesava. O garçom passou e perguntou se queriam mais uma rodada. Ninguém respondeu. O clima estava cada vez pior.

Um bêbado da mesa de trás levantou para ir ao banheiro e acabou acertando com seu cotovelo, a cabeça do Cidão quase o derrubando da cadeira. Ele empurrou o cara de volta e antes de que falasse qualquer coisa o bêbado se adiantou :

-Mal aê! Mal aê! Se Eusébio não foi o cara em 74, não sou eu quem vou saber. Não era pra eu ter te empurrado. Mal aê!

Homens! Deixa pra lá.

Mais silêncio na mesa. Depois de alguns minutos tomando coragem, Fábio ia levantar para ir ao banheiro quando se assustou com um urro.

-AHÁ! – gritou Cidão, batendo no tampo da mesa com toda sua força!
– Que foi!? – responderam os dois amigos em coro.
– Xena!
– Heim?!
– É cara! Se eu virasse mina … eu acabaria perdendo a chance de dar prum cara na época de vocês, certo?
– Ahãn !

Cidão continua empolgado:

– Então, ia virar uma balzaca mal resolvida. Ia acabar freqüentando uns clubes de lésbicas só pra ver qual era. Ia acabar gostando. Daí … eu vivo viajando pra Los Angeles naqueles congressos da firma, certo? É ela, mano! Eu tomando meu Moccha no Hustler Café, ela entraria perdida por lá. FINALMENTE eu poderia exibir pra alguém todo meu conhecimento sobre esse maldito seriado.

Os dois amigos não ousavam discordar. Ele realmente sabia tudo da Xena. Cidão continuava radiante.

-É isso, cara! Ninguém no Mundo sabe mais dessa mina que eu! E eu nunca pude admitir que tinha tesão por ela porque senão iam me chamar de viado! É a Xena, cara! Meu homem ideal é a Xena!

Cidão não se continha com a recém descoberta. Fábio brincava, constrangido, com a bolacha de chopp. Beto, preferindo nunca ter começado a conversa, depois de relutar um pouco, acenou positivamente com a cabeça e baixinho concordou.

– É Cidão …. Xena, cara. Xena. Fato.

Fábio, que até perdeu sua vontade de ir ao banheiro, desistiu da bolacha. Aos poucos tinha que se acostumar ao fato de que uma de suas melhores amigas seria lésbica. E pior, provavelmente seria a mais completa das três. Cidão amava a Xena.
Ainda tímido, não teve como dizer outra coisa :

– É o cara, Cidão. Fato!

Mas tão cedo?

– Armando, to indo cara.
– Pô Roberto, mas já?
– É ta na hora.
– Fica mais um pouco Betinho, você nunca aparece.
– Mas pro seu aniversário eu vim né.
– Então, vamos tomar mais uma Betinho. Em homenagem aos velhos tempos.
– Eu não bebo Armando.
– Então, vamos beber um guaraná.
– Eu adoraria, mas tenho que ir mesmo.
– Mas porquê tão cedo?
– Amanhã é dia.
– O que você ta falando Robertinho? Amanhã é Domingo.
– Err…É…eu sei. Mas é que tenho coisas a fazer.
– Ah Betinho, larga de bichice, fica mais um pouco. O Damiani ta chegando, você tem que ficar para ouvir as histórias dele. Ele é uma piada.
– O Damiani vem aqui?
– Opa, já está chegando.
– Mais um motivo para eu ir.
– Hein? Não entendi, você falou baixo.
– Eu disse que é um motivo para rir.
– Ah sim.
– Mas tenho que ir mesmo Armando, obrigado por tudo e parabéns pela festa.
– Ahhhh Betinho. Fica aí. Sério, já vamos cantar parabéns, daí você vai.
– Não dá mesmo Armando. Se eu dormir tarde não acordo amanhã.
– O bolo.
– Bolo?
– É o bolo. Você não pode perder o bolo. É Floresta Negra.
– Floresta Negra?
– É, seu bolo preferido.
– Não sabia.
– Hahaha, você continua piadista Betinho. Você junto com o Damiani, xiii, não quero nem ver.
– Não tem como Armando, sério. Amanhã ás 5 estou de pé.
– É isso aí Betinho. Deus ajuda quem cedo madruga.
– Espero.
– Mas hoje, eu exijo que você fique aqui mais um pouco. Pô Betinho, eu gosto tanto de você. Você é um dos meus preferidos.
– Sim, eu sei.
– Então, não me faça essa desfeita. Se fosse um qualquer, um Vitinho da vida que só convido por educação tudo bem. Mas não você.
– …
– Vai ficar?
– Não.
– Mas…
– Mas nada Armando. To indo.
– Pô cara não fica nervoso. Só quero você junto de mim no meu aniversário. Somos especiais.
– Tá, tá, que seja. To indo.
– Não vou deixar. Vai ter que passar por cima de mim.
– Ah para com isso Armando.
– Me dê um motivo para eu deixar você passar que eu deixo.
– Um motivo?
– É, um único motivo. Mas que seja convincente. Nada de ficar chorando, “tenho que acordar”, “amanhã é dia”, “sou baitola”.
– O motivo é que minha paciência em escutar você, bêbado que nem uma vaca, me chamando de “Betinho” já esgotou.
– Você não gosta que te chamem de Betinho?
– Meu nome é Vitor.

Sindicato

Cinco para a meia noite. Eles já não suportavam mais! Seus caminhos estavam traçados de uma maneira tortuosa, sem volta, não viam possibilidades de mudanças. Trabalhavam o ano inteiro, jornadas diárias de 8 horas, viva a CLT (que Deus a tenha!). Mas trabalhar de final de semana, feriado, trabalhar na época de Natal e agora, ali, nas vésperas; sem ver a família, sem poder comemorar. Onde estava o espírito natalino? E a solidariedade, a confraternização?
– Que confratenização que nada, eu vejo vocês o ano inteiro, inclusive final de semana, porque eu deveria me confraternizar com vocês? Pra mim chega!

– É … pra mim também. Fazer o meu trabalho, o dos outros e ainda assim ganhar o equivalente a prestação de favor, o que é isso?

No outro canto…

– Eu não aguento mais essa palhaçada! Quando nós vamos ter respeito e profissionalismo aqui dentro! Eu que só deveria empacotar, agora tenho que empacotar, dividir e encaminhar para a expedição…eu sou um só!

Lá no fundo se ouvia…

– Vocês não sabem o que é ficar aqui esperando a decisão alheia para ver se eu continuo fazendo ou paro tudo. Já estou aqui ha 30 minutos e nada!
– E você não sabe o pior: me ligaram agora – cinco pra meia noite – para eu vir aqui trabalhar. Sem respeito nenhum, acordaram minha esposa e meus dois filhos porque precisavam de mais gente na montagem.
– Pois é…época de Natal é assim, todo mundo quer faturar, ninguém quer pagar e ainda te desejam Feliz Natal. Hipocrisia.
– Hipocrisia, nada; é cara-de-pau mesmo! Tanto tempo trabalhando aqui e nem férias eu posso tirar direito.

Perto do maquinário…

– A gente precisa se impor, dizer que não dá mais. Não é queståo de ganhar aumento – que disso eu nem faço questão -, é ganhar qualidade de vida; tempo pra ver os filhos, tempo pra namorar.
– É, eu que o diga! Não consigo ter vida social, não saio de casa nos fins de semana (quando não estou aqui trabalhando), não vejo, nem conheço pessoas novas e ainda por cima me cobram porque eu não casei. Mas como se eu sou praticamente um heremita?
– Precisamos nos unir! Vamos criar um sindicato, uma organização, algo que nos represente e faça valer nossos direitos.
– Ok, deixa que eu falo com o “homem”.

Já no escritório…

– Precisamos acertar as coisas, não dá mais pra fazer três funções e ainda assim ficar motivado. Não tem como mostrar competência e nós nem ao menos ganhamos pra isso. Você precisa resolver isso de uma vez por todas. Sem essa de baixar custo às nossas custas, ou então…, ou então …é greve!
– Todos estamos exaustos; eu, vocês, as renas; mas por favor, compreenda: uma greve agora seria o fim do seu natal, do meu, de todo mundo. Eu sei que tenho sido desatento quanto à organização dos processos e relapso quanto à motivação dos meus funcionários, mas vocês devem compreender que antigamente eram poucas e hoje, só na China, são quase 700 milhões de crianças esperando seus presentes!

Ponto de Fuga

Céu aberto acima da Beócia. A foz do Sperhios morre no mar, perto de onde nasceu Aristóteles, enquanto a ilha de Eubéia continua indiferente a tais espetáculos. O avião, sem metafísica, se inclina para a esquerda e toma a direção noroeste. Queria eu poder mudar de rumo com tanta segurança.

Uma explosão, e outra. Mesmo carregado de dinamites, o gato Tom não morre, corre novamente para pegar o rato Jerry. Invulnerabilidade de dar inveja. Tiro da mala o guia de viagem e procuro o mapa. Avisto agora o monte Othris, muito prazer. Mal temos tempo de nos apresentar, desponta o monte Pelion, atrás dele o monte Ossa. Espero não confundir os nomes, seria tão indelicado.

Sem consideração nenhuma pela etiqueta, o Airbus me priva da companhia dos recém-conhecidos e me arrasta pela planície da Tessália, de longe vejo a cidade de Larissa. De que adianta Platão dizer que se pode chegar a Larissa de várias maneiras, se nosso relacionamento terá de ser tão fugaz? Tantas promessas, uma única ruptura, o jogo de gato e rato se repete incansavelmente, e sempre usamos a boa desculpa de que o destino nos leva para outro lado.

Não me preocupo, pois um sonho de grandeza poderá apagar todo remorso. Serei Olimpo, pico mais alto da Grécia, e do alto dos meus 2917 metros ambicionarei ultrapassar as nuvens, cobrir-me de neve e hospedar os deuses. Se não conseguir ser feliz, acreditarei que estou acima de quem não me quis, e farei girar a roleta dos continentes.

Fui sorteado! Sigo para oeste-noroeste e passo por cima da cadeia montanhosa do Pindo, falta pouco até o mar Jônico. Então surpreendo a todos com uma guinada para o norte, chego à fronteira com a Albânia, instalo-me à beira do mar Adriático, na linda baía perfeitamente circular com vista para Tirana. E não deixo que ninguém pilote minha vida.

A uma altitude de cruzeiro de 11.000 metros, quem se atreveria a contradizer minhas decisões? São racionais e acertadas, tomadas friamente, como convém à temperatura externa de 60ºC negativos. Se alguém não gostar, pode se juntar aos imigrantes clandestinos, lançando-se da costa albanesa em botes precários. Das pequenas ilhas alongadas como a esperança, a Itália parece tão próxima, a felicidade mais ainda. Todavia, entre trabalhar no restaurante e ser comido pelo peixes, o cardápio do destino parece cada vez menos apetitoso.

Ainda bem que sempre haverá uma TV para liquidar a angústia. Posso escolher câmera frontal ou ventral no meu transmissor individual, e assumir a personalidade que mais me convém, aviador ou gaivota. Recompensa: a costa da Croácia, muitas montanhas altas, baías de cor cinza clara e uniforme, a ilha de Krk. Se do alto não se vêem fronteiras, tampouco aparecem os problemas.

Tudo seria tão mais fácil se eu pudesse somente seguir a rota que traçassem para mim. Com tantas perguntas a menos, teria tempo de sobra para contemplar Veneza, jóia incrustada no mar, e repousaria despreocupado até ouvir “Willkommen in Zürich”. No entanto, minha posição se assemelha mais aos Alpes italianos de pedra muito escura, aos cumes escarpados cobertos de neves eternas a perder de vista, sem um único lugar plano onde descansar.

Então devo parar de reclamar e pensar que a cada nova tentativa serei mais experiente. Do idílio mediterrâneo à decepção transatlântica, o que muda é só a distância. Calejado, passarei sem pestanejar pelas Canárias, por Cabo Verde, sete horas de oceano me parecerão mero intervalo. Terei a sorte de emocionar-me ao dobrar a esquina do Brasil, por cima da cidade de Natal e de suas dunas brancas. Mesmo do alto, saberei que existe um consolo ao voltar para casa, eu familiarizado com esse continente que não conheço, o enorme rio São Francisco e a costa clara no horizonte, Baía de Todos os Santos que vieram me receber, Salvador que me resgatou quando precisei, sua foz, suas ilhas, alegres em me ver.

De presente ganharei uma imensidão de terras planas, que bordarão para mim o quadriculado dos campos com cidadezinhas nas intersecções, as plantações em forma de triângulos e trapézios, enfim vales e riachos para acrescentar linhas curvas. Sob essa colcha me abrigarei de um mundo grande demais para meus medos, pequeno demais para minhas ambições, cruel demais para meus amores. Mas dormirei com um olho aberto, pois a terra é redonda, e nunca se sabe se quem ficou para trás voltará lá na frente.

Rosa

“Rosa é cor de gay!
– Não.
– É sim, qualquer um sabe.
– Não é não. Rosa é cor de menina.
– Exato. Então um homem que usa rosa é gay.
– De forma alguma, um homem que usa rosa consegue se adaptar a uma cor que é mais aplicada a moças.
– Portanto é gay.
– Eu sou gay?
– Vai saber, te conheço a alguns anos, mas não ponho a mão no fogo por ninguém.
– Carlão, na boa você está me irritando, é isso que você quer?
– Aí, começa a usar rosa, fica irritadinho. Daqui a pouco sai dando por aí.
– …
– Olha, não queria te irritar, mas sou seu amigo. Se não fosse, ia deixar você pagar o mico sozinho.
– Rosa não é cor de gay. Todo mundo usa rosa.
– Quem, por exemplo?
– Estilistas.
– Ah, esses são homens.
– Atores.
– Pronto, falta só falar que os bailarinos também usam.
– Você não está ajudando. Seja sincero, está feio.
– Cara, feio não está, mas não é adequado.
– Mas eu pus tanta grana nisso.
– Vende.
– Quem vai querer comprar.
– Tem louco para tudo. Você comprou!
– A moça da loja me disse que era uma peça exclusiva.
– Lógico que é, ela deve ter aberto um champagne por ter conseguido vender isso.
– Agora estou me sentindo mal.
– Não fica assim cara. Foi um erro. Todos erramos.
– Achei que a Martinha fosse gostar, ficar impressionada.
– Era mais fácil ela cair na gargalhada, e aí meu amigo, nem com remédio.
– Nem me fala, isso nunca aconteceu comigo antes.
– Mesmo?
– Opa, aqui não falha não.
– Por que você é macho, correto?
– Lógico.
– Então troca logo essa cueca rosa e vamos embora.”

Hipoteticamente

Acordar nunca é muito legal. Pelo menos pra mim. Motivo pelo qual atraso de manhã, invariavelmente todos os dias, nos últimos anos da minha vida. Isso sempre me obriga a ficar até tarde no trabalho.

Hoje acordei de uma maneira menos agradável que o comum.

O telefone tocou, eu já estava atrasado, é claro. Atendi preocupado achando que já tinha estourado alguma bomba no meu trabalho.

Foi pior, bem pior:
– Por favor, o Ricardo.
– Quem fala ?

A empregada atendeu junto comigo na outra linha. Mais uma situação legal acontecendo.
-É o professor de Boxe do Ricardo.
-Opa! Pode deixar, já atendi.
-Fala aí Ricco. Tú ta ligado do amigo secreto da galera do Boxe, hoje, né?

Só pra explicar: Ricco é o meu apelido nas aulas. Se fosse lutar, provavelmente seria anunciado – Ricardo, Riccooooooo, Laganaaaaroooo! Mas não pretendo ouvir isso tão cedo. Bom … consegui ir nas aulas de boxe (um dia explico o porquê pratico esse esporte, mas essa é história pra outra crônica) 2 vezes apenas, nas últimas 3 semanas. Ou seja:
-Não. Num tou sabendo não.
-Pois é, seu nome tá na lista. Colocou o nome, tá dentro.
-Ah … bacana. (eu não tinha colocado o nome em lugar nenhum).
-Você vai, né?

É importante deixar claro pra todos aqui, que meu professor de Boxe, é um cara bem bacana. Mesmo! Brincalhão, divertido, não força a barra nos treinos, respeita o limite de cada aluno. Porém, quando ouvi essa pergunta, me lembrei de uma coisa : tive a oportunidade de vê-lo treinando “pra valer” uma vez. Cada soco no ar que ele dava tinha a capacidade de deslocar, num tranco só, todo o resto do seu corpo para a frente. Lembrando que a Quantidade de Movimento é calculada pela massa de um corpo multiplicada pela velocidade que ele adquiri, essa situação era algo bem impressionante. Um pulso (aproximadamente 700 gramas, creio eu), deslocando um corpo de, pelo menos, 80 vezes o seu peso, é algo que deve ser levado em consideração. Em qualquer circunstância.
-Então … na verdade eu n-
-Eu tou com a minha mão aberta aqui …
-Bem, eu …
-Com os papelzinhos e vou sortear pra você, tá?
-É … na verd-
-Você já foi sorteado, sabia?
-Puxa, que bacana, eu fico feliz! Mas é que eu trabalho hoj-
-Você não vai querer estragar a festa de toda a galera do Boxe, né?
-Magina, longe de mi-
-Se não, todo mundo vai querer fazer luvas com você no próximo treino.

Explico mais uma vez: “fazer luvas” é o equivalente no boxe, ao jogo no final do treino de futebol. A diferença é que, neste caso, você está no local para bater num cara que não te fez nada e para apanhar de alguém que treina exaustivamente pra socar alguém.
-Magina, eu nunc-
-Já tirei o papelzinho, você vai, né?

Duas faculdades, palestrante na Universidade de São Paulo. Metido a escritor. Você num é “dotô”. Sai dessa, então?
-Claro! Com todo prazer!
-Começa às 19h30.
-Acho que é meu rodízi-
-Você tirou o Cadú. Sabe quem é?
-Hmm … não.
-O cara é grande, mano. Num vacila no presente, heim? Se for roupa, é pelo menos GG.
-Ah, bom saber!
-Se não der pra ir, manda um representante.
-Opa! Até dois!
-Falou então, Ricco. Té mais!
-Opa!

E assim comecei meu dia … Depois disso, corri desesperadamente pra chegar no trabalho. Tive a infeliz idéia de comprar o presente pegando uma carona de garupa com o moto-boy da firma. Só durante o caminho de ida, vi tantas vezes o filme da minha vida passando que na última sessão o projetor quebrou. Mas prefiro parar por aqui. Mesmo porque, como o próprio nome da crônica diz. Tudo isso é hipotético!

Top Secret

– E aí? Quem você tirou?
– Como assim quem eu tirei? Isso é pergunta que se faça?
– Pô diz aí. Vai ficar de frescura?
– Não é frescura. É amigo secreto. Coisas secretas devem ser mantidas em segredo.
– Ah! Frescura!
– Se é frescura fala o seu então.
– O meu o quê?
– O seu amigo secreto. Quem você tirou?
– Eu falo o meu se você falar o seu.
– Eu falo o meu se você falar o seu.
– Fala o seu primeiro.
– Não fala você.
– Não, eu perguntei primeiro.
– Então eu não falo nada.
– Então ta.
– Então ta.
– …
– …
– Fala aí vai.
– Mas que saco.
– Por favor.
– Mas porque você quer tanto saber.
– Porque sim.
– Me dá uma boa razão que eu falo, do contrário não.
– Não sei se poderia te falar.
– O que? O que você sabe?
– Não posso dizer.
– Porque não?
– Poderia te envolver demais nisso.
– Nisso o que minha nossa senhora?
– Sabe o que é…
– O que?
– É uma parada secreta entende?
– Que parada? Me conta cara, você está desconfiado de alguma coisa?
– Bem, não sei se eu poderia te falar maas…
– O que, o que?
– Eu suspeito que os resultados foram manipulados.
– Manipulados? Mas como assim?
– Acho que o sorteio não foi isento.
– Isento?
– É.
– E o que isso significa.
– É o que estou tentando descobrir. O Jader disse isso pra mim e não tenho idéia do que ele quis dizer, mas pretendo descobrir.
– Parece grave.
– Ô!
– Nossa.
– É.
– Salafrários.
– Nem me diga.
– Precisamos apurar isso.
– É, me diz aí quem você tirou.
– Não posso.
– Porque não? Você acabou de dizer que temos que apurar isso.
– Eu sei, mas…
– Mas o que?
– Você pode ser um deles.
– Eu? Um deles? Como assim?
– É. Você sabe demais.
– O Jader que me contou.
– Isso é o que você diz.
– Ah vai. Pára de bobagem.
– Não é bobagem. Não posso tomar nenhum partido antes de saber com quem estou lidando.
– Como assim saber com quem está lidando? Sou eu pô!
– Será?
– Será o que?
– Que é você.
– Lógico que sou eu. Você não me conhece?
– Não sei cara. Nesses jogos de espiões tudo é possível.
– Cara, o que você está falando? Que espião? Estamos falando de um amigo secreto.
– Exatamente.
– O que?
– Secreto. Sei como essas coisas são levadas a sério.
– Como assim levadas a sério? Nós usamos um guardanapo de bar para escrever os nomes.
– |Pode desistir que você não vai conseguir me confundir. Sei o que está tentando fazer.
– Não estou tentando fazer nada.
– Conheço suas técnicas. Sou perito. Assisti Missão Impossível.
– Ah cara, então ta bom. Quer saber, não fala nada, você vai ver.
– Vou ver o que?
– Aguarde.
– Aguardar o que? O que você vai fazer?
– Você verá.
– Me fala cara. Não vou ficar tranqüilo assim. O que você quer dizer com isso?
– Represálias virão. Nós não ficaremos passivos diante disso?
– Represálias? Nós? Passivos? Não! Como assim? Eu não disse nada.
– Você não sabe com quem está lidando.
– Por favor, tenha misericórdia. Perdão
– Agora é tarde.
– Não faça isso comigo, eu tenho muito pra viver ainda.
– Deveria ter pensado nisso antes.
– Me fala, por favor, o que faço para me desculpar. Faço qualquer coisa.
– Qualquer coisa?
– Qualquer coisa.
– Então me fala uma coisa. Quem você tirou?