Arquivo de janeiro, 2006

Estádio

“Uma linda manhã de sábado, na bilheteria:

– Você tem certeza?
– Eu venho aqui toda semana.
– Não me parece correto.
– Mas é assim.
– Não me conformo, se tem o número, o lugar é marcado.
– Considere como uma formalidade.
– Mas não é uma formalidade, é uma burrice.
– Bem, é desse jeito e pronto.
– É por isso que eu não vou a estádio.
– Larga de ser fresco.
– Na minha casa eu tenho o meu lugar marcado, a minha cerveja e a minha castanha de caju.
– Ah, no estádio é quase igual.
– É nada.
– É sim, veja bem, vamos pegar um lugar bom numa parte do estádio que eles não vendem ingresso a mais, lá tem cerveja e sementes.
– Sementes?
– Sim, não é bem castanha.
– Não.
– É amendoim.
– Credo. Quem come isso? E a cerveja do estádio é sem álcool até onde eu sei.
– Bem, é.
– Entendi, é idêntico à minha casa.
– Não seja velho, você vai gostar.

Um dia depois, no estádio:

– Quanta gente.
– Acho que venderam uns trinta mil ingressos.
– Mas cabe?
– Lógico. É um estádio. Olha para cima, já entramos.
– Nossa.
– Viu. Eu te disse que você ia gostar.

Vinte minutos depois, com um saco de pipoca e um copo de guaraná Dolly:

– Mau aí, não tinha amendoim.
– Pipoca, lugar de pipoca é no cinema! Nem vou falar do guaraná.
– Calma, olha a torcida, olha o espetáculo.
– To olhando. Parece uma micareta.
– Micareta? Porque?
– Olha a música, olha como eles pulam, olha como está apertado.
– Tem razão.

Poucos minutos antes do jogo começar:

– Emocionante, não?
– Muito. Acho que vou gostar dessa coisa de vir ao estádio.
– Te falei! Ninguém vai acreditar.
– Esqueci uma coisa importante. Onde a gente vê replay?”

Proposta de Referendo

Dá licença que eu quero participar. Também tenho uma proposta para um referendo. É hora de aproveitar essa disposição da sociedade de se mobilizar e pôr em pautas perguntas maiores. Não é uma crítica aos outros, não. De modo algum. Temos que começar por algum lugar. Além do quê, está certo começar com temas mais pontuais e específicos para irmos treinando. Ajuda a tirar a pressão. Se erramos ou nos atrapalhamos, não tem muito problema.

Agora que vencemos esse medo da estréia, porém, chegou o momento de pensar grande, de ir para as cabeças. De assumirmos de vez o nosso papel – não só de brasileiros, mas de cidadãos do mundo. Chega de bairrismo. Se nós podemos ajudar o mundo, patriotadas não devem nos deter. Conclamo todos a deixarem de lado qualquer diferença mesquinha, qualquer reserva, e se elevarem à estatura da nossa nação no cenário global. Fazer jus à boa figura de que gozamos junto à comunidade internacional é praticamente um dever cívico. Portanto, não nos apequenemos. Vamos usar a Alegria e a Boa-Índole tão características do nosso povo para ajudar a humanidade e, com Jeitinho, resolver os problemas que assolam o planeta.

Nós temos o poder – não, mentira, a responsabilidade – de mudar o mundo. Sabe como? Apertando um botão, nada mais. Mas, ao contrário do dos presidentes dos EUA, o nosso botão mudará o mundo para melhor. Muitos dirão que a possibilidade de resolver as mazelas globais desse jeito não passa de uma ilusão, de um sonho. Com conflitos tão numerosos e questões tão complexas espalhadas por aí, talvez a idéia soe mesmo um pouco pretensiosa para a maioria. Vão falar em ingenuidade. Uns tantos até podem chamar de viagem. Ainda haverá o pessoal que nem vai se dar ao trabalho de procurar um adjetivo, vai só dar risada mesmo. O negócio é não ligar. Um pouquinho de paciência com eles e as coisas se ajeitam. A participação é obrigatória, certo? Então eles terão que levar o assunto a sério, se envolver no debate e votar quando aparecer na urna eletrônica a minha foto com a pergunta “Você é a favor da utilização do meu ´ultra-mega-super-master-hiper raio da morte´™?”. Depois, sentindo os efeitos práticos, darão o braço a torcer. Certeza.

As mudanças serão sentidas quase instantaneamente. Até os mais impacientes ficarão maravilhados. Já nos dias seguintes ao uso do ´hiper-ultra-mega-super-master raio da morte´™ será possível notar o salto em todos os indicadores sociais e econômicos. Para começar, haverá uma correção imediata na distribuição de renda. Ao mesmo tempo, a fome será praticamente eliminada. As instituições nacionais e internacionais serão fortalecidas graças à milagrosa melhoria do nível da classe política. O aumento incrível de bom senso circulante só será menor do que a tolerância racial, sexual e religiosa inundando todas as esferas da vida social. Nem tudo vai ser perfeito, obviamente. Enfrentaremos uma difícil discussão da nossa relação com o meio-ambiente, mas pelo menos essa dê-érre vai valer a pena. Só temos a ganhar com um relacionamento mais maduro com a natureza. Cedendo aqui e ali, com um pouco de boa vontade, provavelmente conseguiremos espantar aquele velho fantasma da escassez – isso para ficar em um exemplo. Como não quero enganar ninguém, devo dizer: o analfabetismo não será erradicado. Ele deve encolher bastante, mas ainda teremos trabalho a fazer nessa área de educação. A boa nova é que não faltarão pessoas dispostas e capacitadas para atacar a questão. Sem contar que o fim da corrupção e o imenso aumento de eficiência em todo tipo de sistema e processos garantirá que as melhores soluções sejam implementadas com uma senhora vontade.

Sem contar as transformações em áreas de primeira grandeza, como na cultura e no nosso estilo de vida. Mulheres bonitas, inteligentes e legais comporão a esmagadora maioria da porção feminina da humanidade. As damas acostumadas a reclamar do sortimento masculino do mercado terão uma aguardada e deliciosa surpresa. Vai parecer que aqueles caras que todas vocês dizem querer dão em árvore. Por uma dessas desgraças que acontecem quando fazemos escolhas, artistas clássicos e de vanguarda como Silvinho Blaublau, Mirisola, Todd Solonz, Clodovil, João Kleber e Tati Quebra-Barraco vão sumir. O lado bom é que as bandas, escritores, cineastas e etecéteras remanescentes escreverão livros, músicas, peças, shows e etecéteras imperdíveis de verdade. A provável extinção da necessidade de filas no banco, na padaria, na balada, nos bares, nos restaurantes, nos estádios, nas casas de espetáculos (e de tolerância), na faixa de pedestres, nas avenidas, nos estacionamentos, nos shopping centers, nas lojas, nos aparelhos da academia, nas rodas lisérgicas e etílicas e uns outros poucos lugares provavelmente frustrará alguns paulistanos. Quero que saibam: entendo o pesar pela privação de uma opção de lazer tão enraizada, apesar de restrita a apenas alguns aspectos da vida social da cidade. Peço, no entanto, que sejam magnânimos. Conto com um desprendimento muito parecido, senão maior, dos amantes de cidades maravilhosas e carnavalescos. Sacrifícios engrandecem a alma, lembram? Entusiastas do futebol, força! Não desanimem! Pode levar um tempo até o esporte se reorganizar depois da realocação dos juízes e da maioria dos dirigentes (e mesmo de um punhado de jogadores), verdade. Vocês devem se concentrar em não perder de vista a emoção e beleza resultantes, óquei?

Eu poderia continuar aqui, listando as conseqüências positivas, mas parei para reler as que escrevi. Realmente parece conversa mole. Não é verdade, mas não tenho como demonstrar o contrário neste momento. Estamos correndo atrás disso. Já tem um monte de gente dando duro e trabalhando com imparcialidade para levantar dados objetivos, necessários se queremos um debate bem-informado e de alto nível. Durante a campanha, prometo que vou fundo no assunto. Até lá as pesquisas estarão prontas, assim como os relatórios de especialistas e as simulações de uso do ´ultra-hiper-super-mega-master raio da morte´™. Acredito cem por cento nos argumentos a favor. Sem dúvida, com a força deles e a consciência de vocês, cidadãos de bem, o “sim” ganha com folga.

Claro que a vontade da pessoas é meio imprevisível. Pode acontecer de a sociedade decidir não querer o mundo que temos o potencial para ter. É errado, mas do jogo democrático. Qualquer um pode fazer uma escolha estúpida e votar “não”. Eu vou ficar desiludido, vou perder minha fé no sistema, mas, por mais idiota que seja, a opinião das pessoas deve ser respeitada. E vou respeitar. O lance é ter maturidade e encarar a adversidade com naturalidade. Vou ter que ignorar o resultado e botar o ´hiper-ultra-mega-super-master raio da morte´™ para funcionar assim mesmo. Espero que, como eu, elas saibam respeitar uma posição diferente e não tentem simplificar a questão colocando rótulos. É fácil apontar o dedo, julgar os outros e dizer: “supervilão”, “gênio do mal”, bobagens do tipo. Agora, se não rolar nem esse mínimo de compreensão, tudo bem também. Paciência. Mas que não reclamem se, depois de apertado o botão, elas estiverem lá em cima ajudando a recompor a camada de ozônio, entre os 5,2 bilhões de pessoas vaporizadas.

Show Chique Demais

“Pedrinhas era uma típica pequena, muito pequena, cidade do interior. Seus cinco mil habitantes nunca haviam passado tanto nervoso, alias, não imaginavam que era possível passar tanto nervoso. Tudo começou logo depois da páscoa. Dona Cotinha, a fofoqueira oficial da cidade trouxe as notícias de Monte Médio que depois viraram rumores e portanto se espalharam rapidamente, algo em torno de 4 a 5 minutos até chegar na última fazenda.

– Zé, eles vem mesmo?
– Ô Jão, Cotinha disse.
– Mas essa traste não é confiáver.
– Parece que é o trem é certo.
– Vixe sô. Eu duvidedodó.
– Eu vô me apressa para mó de compra o ingresso.
– Ingresso?
– É uai. O show vai ser na igreja. Só entra de ingresso.
– Mas lá é titico. Lugar prumas cem gentes.
– Por isso vô compra logo, imagina que eu dexo de vê o show dos “”Us Dois Irmão””.
– Eu também vô compra logo. Donde vai vende?
– Na agência central do Banco do Brasil.
– Eta nois, e é caro?
– Deiz mirréis para adulto e 5 para criança.
– Que disgracera. Não pago não.
– Mas é um ivento único em todo o tempo. Imagina quando eles trazem a viola aqui de novo sô.
– Não pago e ainda vô esculacha.

Jão tentou boicotar o show, ou “”boicotear”” como ele dizia, mas não houve maneira. Na segunda feira anterior ao início das vendas dos ingressos, havia fila no Banco do Brasil. As 4 da manhã da terça feira chegou a centésima pessoa na fila. Era o fim dos ingressos. A cidade podia ser rebatisada de os quatro mil e oitocentos desesperados, excluindo cem pessoas que não estavam nem aí para os “”Us Dois Irmão””.

E como todo bom capitalismo, a lei da oferta e da demanda começou a exercer uma força nunca antes exercida por aquelas bandas. Tudo era permitido, compra de lugar na fila, grávida passando na frente, velho passando na frente, pessoas comprando grávidas e velhos para passarem na frente e outros golpes sofisticados que só esse tipo de situação permite.

O preço do ingresso já estava em média de 50 reais quando a notícia do tumulto se espalhou, e dessa vez como a coisa era muito ruim, foi em menos de 3 minutos que chegou a última fazenda. Por coincidência, na última fazenda morava o Coronel Trapa. Homem de pulso, neto do fundador de Pedrinhas, homem pratico, das antigas, sem nheco nheco.

O Coronel ao saber da notícia não teve duvida, ligou para o empresário dos “”Us Dois Irmão”” e de forma gentil indagou:

– Que merda é essa?
– Quem fala?
– Não interessa. Que merda é essa na minha cidade?
– É o sucesso, o progresso, o dinheiro, o “”chou buzines””!
– Pega e….
– Calma Sinhô.
– Quanto custa esse showzinho mequetrefe?
– Mais hein?
– Vai logo seu coisa.
– Dois mil mirréis.
– Tá pago.
– Como assim?
– Tá pago. Manda esses “”Dois Inúteu”” virem tocar na minha fazenda. Vou convidar a cidade toda para assistir.
– Eu acho a gente….
– Você gosta da sua vida, coisa?
– Gosto, sim, lógico, sim, sim.
– Ótimo, amanhã terminamo de prosea.

O Coronel pegou sua 4×4 e foi ao banco central. Parou em frente. Deu três tiros para cima e disse.

– O show foi cancelado, mas para ninguém ficar triste, no mesmo dia, vou fazer um campeonato na minha fazenda. Tiro ao alvo.”

Carlinha

– Conta da Carlinha Di?
– Então…Não tenho muito pra falar.
– Como assim? Dormiu com ela essa noite e não tem nada pra contar? Pode ir contando, quero todos os detalhes.
– Ah foi legal.
– Legal? Só legal? Que xôxo. Não tem nada de interessante para contar? Onde vocês foram antes? Como ela tava vestida? Foi romântico? Vai dar namoro?
– Que namoro o que! Ta doida?
– Ué, porque? Você dormiu com ela e tudo. Acho que não está querendo contar porque está apaixonado.
– Não é nada disso. É que não sei se devo te contar.
– Olha, se está falando nesse tom você PRECISA me contar. Que foi? É sobre você ter feito amor com ela?
– Então, na verdade acho que não dá pra chamar aquilo de amor.
– Aquilo? Porque?
– Olha…Vou te falar que estava muito mais para ódio.
-Nossa, mas porque? O que aconteceu?
– Foi assim. Tudo ia bem, o jantar foi usual, muito pouco rigattoni regado a bastante tinto. Combinação fatal. As coisas estavam funcionando, tudo como o planejado, fomos para um flat próximo, subimos no elevador embalados por beijos apaixonados.
– Apaixonados? Que lindo.
– É, mas de repente…
– Conta, conta.
– Quando entramos no quarto tudo se transformou. Ela fechou a porta com as costas, franziu a testa e me olhou com aqueles olhos?
– Que olhos?
– Aqueles olhos de quem quer dizer “Agora você ta fudido!”.
– Ai Di, que horror.
– Eu juro pra você. Não imaginava que ela era uma dessas.
– Mas o que ela fez? O que você fez?
– Ah, tentei agir com naturalidade. Entrei no jogo, encarnei o estilo selvagem.
– E deu certo?
– Nada, eu não sabia o que era realmente selvagem até ontem. Perto daquela fêmea sou apenas um bichinho domesticado.
– Caramba, mas o que ela fez de tão grave?
– Bem, ela tava cavalgando…
– Ai que coisa feia Diego!
– Ué o que você quer que eu fale. Ela tava cavalgando mesmo.
– Não precisa falar assim. Parece até que a menina é um animal.
– É que você não estava lá para entender.
– Tá, tá, continua.
– Então, a gente tava lá, no rala e rola. De repente, ela começou a gritar.
– O que?
– “ Vai, vai, vai”
– E?
– Eu tava até gostando. Adoro quando elas gritam. É o sinal que ou você está no caminho certo ou ela já desistiu de tentar gostar e começou a fingir. Mas ela não parecia fingir. Acho que dessa vez não. Porém, mesmo as coisas melhorando mais e mais, não estava preparado para o que estava por vir.
– O que?
– Ela continuou no vai-vai-vai por mais alguns minutos até mudar para “Vai seu filho da puta, Vai seu filho da puta, Vai seu filho da puta”.
– Meu Deus. Mas porque?
– Eu que sei? Não entendi nada. Achei até que poderia ter chamado ela de outro nome, porém nem tive tempo de perguntar. Logo após começar a me xingar, me meteu um soco na cara.
– Na cara?
– É. Bem aqui entre a bochecha e o nariz. E a desgranhenta é forte.
– Mas e aí? Você levantou? Foi embora?
– Não, não podia.
– Porque não?
– Uma porque a cada bofetada que ela dava, a cada xingamento novo, e lhe digo que a menina é muito criativa nesse sentido, ela ficava mais excitada. Duas porque ela não deixou.
– Caramba, que aberração!
– Não é?
– É.
– Mas o negócio é que ficou nessas. Depois do 7º assalto paramos com a luta.
– SETE ASSALTOS?
– Pra você ver. No final das contas tenho que admitir que curti o negócio.
– Gostou de apanhar?
– Olha, não é que eu gostei de apanhar. Não sou masoquista, mas ver o quanto ela gostava daquilo me deixou louco. Nunca satisfiz tanto uma mulher.
– É, sete assaltos não acontecem todo dia.
– Pois é.
– Vai ter repeteco então? Com a Carlinha Tyson?
– Não, engraçadinha.
– Porque não? Você gostou tanto?
– Ela não é meu tipo.
– Porque?
– Ela joga Futebol.
– E daí?
– Sabe como essas mulheres são, muito machonas.

L´Étalage

Era Paris. Eu estava meio desorientado – sabia que deveria estar ali, mas ao mesmo tempo, as coisas não estavam transcorrendo como o esperado. Os meus pontos de referência, em particular uma Fnac convertida em revenda de carros e agora abandonada, não existiam. O céu estava nublado. Uma chuva que não se decidia a cair, se jogava aos poucos, intermitente, hesitante. Dia que se dedica a fazer hora enquanto a noite não chega. Mas as ruas não deixavam dúvidas sobre eu estar ou não em território francês. O chão das ruas era coberto de pedras, como paralelepípedos, mas irregulares, mais medievais; asfalto só em trechos das avenidas principais. Pelas ruas laterais, onde não entravam carros, nem de longe. As lojinhas tinham fachadas estreitas, toldos dos mais variados; grandes vitrines de vidro.

Se não é a França real, é uma das minhas idéias dela, a paisagem emocional que atribuo à Europa Clássica. A bem da verdade, só digo que é a França por causa dela: não há outro lugar para ela; e é Paris porque não conheço Toulouse ou Marselha ou Lille ou etc. Ela estava lá. A essa altura, eu sabia. Tinha visto meus misteriosos planos prévios irem água abaixo (sem trocadilho), mas agora tinha um novo propósito.

Não sei bem se o telefone celular tocou ou se eu fiz a chamada. Era ela. Aquele jeito lacônico; a voz vazia de um pensamento distante. “Tudo bem?”, perguntei; “Tudo”, a resposta; “Você não parece muito convicta.”, “Não, é só cansaço.” – uma pausa – “Cansaço. Só isso.”. Eu sabia que não era verdade. Ela estava com problemas em várias frentes. Sem referências. O trabalho era uma coisa que não servia para nada, simplesmente estava lá; havia um tempo que tinha se desalojado de casa e ainda perambulava em busca de um espaço para configurar como lar; a família, pequena, vivia às turras. Ainda por cima, com muito trabalho e pouco dinheiro. A tudo estava cinza – e se retraía nessa indiferença. Mal suportava a própria companhia. Se pudesse, certamente se afastaria de si mesma também. Eu sabia de tudo. Não me sentia bem-vindo para perguntar ou qualquer outra coisa, mas não tinha como refrear a curiosidade. Me interessava e perguntava por aí. O que sabia, sabia por terceiros. Coletando lascas, fragmentos, fazia o melhor para compor um mosaico que desse idéia da situação. Sem, no entanto, acreditar piamente nele.

Enquanto conversávamos ao telefone, avançava por ruazinhas surgidas quase que ao acaso, cara de moldadas pelo inconsciente de alguém: inclinadas e tortuosas, mesmo na largura cambiante. A essa altura já chovia. A indecisão, ali, não existia mais. As pessoas abandonavam as ruas apressadamente, refugiando-se em lojas e cafés. A água escorria pelos toldos criando um véu líquido que se estendia até explodir no chão. Quem tinha guarda-chuvas o sacou imediatamente, mas mesmo esses, com eles abertos, não se sentiam protegidos e apertavam o passo rumo ao interior dos recintos. As gotas grudando nas barras das calças, nas pernas nuas; invadindo sandálias, tênis, sapatos. Só eu seguia mais ou menos normal. A chuva não me afligia tanto – só um pouco. Pelo desconforto da roupa que começava a grudar, essas coisas. Estava surpreso com a ligação, confuso. Meus passos eram firmes apesar de não serem velozes nem parecerem ter direção certa. A chuva trazia uma claridade nauseante.

Eu andava e ia falando no aparelhinho, e ia olhando as casinhas na rua aleatoriamente traçada e que eu ia subindo – até me fixar em uma. Fachada branca com porta de um escuro bem úmido. Ao lado, uma janela – as vitrines estavam sempre lá, ao longo das ruas, maiores ou menores, opacas ou transparentes; essa, das grandes. As cortinas estavam abertas, revelando um ambiente aconchegante. O vidro começava a ficar salpicado pelos primeiros pingos. Dentro, piso de madeira envernizado, lareira (apagada), uma mesa, a escada para uma sala acarpetada abaixo do nível da rua. Paredes lisas e sem manchas. Não tinha a cara de ninguém – era um lugar aconchegante de um jeito neutro. Diante de algumas das caixas de papelão espalhadas pelo aposento, mexendo em uma mala de viagem sobre a mesa, uma mulher equilibrando o telefone entre o ombro e a cabeça. Falava desinteressada enquanto fazia e desfazia mecanicamente a bagagem. Estaquei. Me aproximei da vidraça. Além da chuva, agora era atingido pela coluna d´água que se atirava do parapeito, colando a camisa e o jeans ao corpo. Sensação incômoda: as roupas pesando, oprimindo. Assim, chegava mais perto não só para confirmar o já descoberto, mas também atrás de um pouco de seco.

Só que as gotas já tinham virado pequenos rios. A maioria vinha trazida pelo vento, caindo diretamente na janela; várias delas cruzando seus caminhos para se juntar às que vinham do chão. A mulher se virou. Ela demorou um pouco para assimilar a minha presença ali. Pôs o telefone de lado sem desgrudar os olhos de mim. Os cabelos negros soltos; melancolia ancorada nos olhos. Ficamos nos encarando por um tempo – a água correndo pelo meu rosto, o cabelo escorrido, completamente encharcado; ela, noutro turbilhão – incrédula, indecisa. Depois, certa irritação, olhar fustigante – era claro o que pensava: “você já estava vindo, estava se fazendo de desentedido.”; (“não, foi acidente, não houve premeditação. Eu realmente não tinha a intenção.” Ela não acreditaria.); na seqüência, um movimento de sobrancelhas: “Pois não deveria ter vindo. Não o quero aqui.”. Nada mais aconteceu. Não fechou as cortinas, não sumiu no interior do apartamento. Não abriu a porta.

Fiquei lá, do outro lado do vidro.

Da Roça com Amor

É madrugada no pesqueiro Maeda, um dos mais famosos pesque-pague do interior. Um ganso avança sobre a água com a graça que lhe é própria. De súbito, destaca-se da superfície barrenta do lago, eleva-se às alturas sem bater as asas, e o espectador percebe que se trata de um disfarce. Por debaixo do ganso, está o internacionalmente desconhecido agente Zero-Zero-Zé, a desserviço de sua majestade, dona Bete, rainha da festa do caqui de Itatiba. 00Zé desamarra as patas da ave atadas com barbante sob seu queixo, e o animal alça vôo lançando os grasnados peculiares de sua espécie. Num mesmo movimento, nosso herói leva a mão ao pescoço e vai abrindo o zíper de sua roupa de mergulho, revelando por baixo dela seu corpo nu. Afinal, o velho truque do fraque por baixo da roupa de mergulho está ultrapassado, e o bom espião sempre inova.

Nesse momento, a única proteção de 00Zé contra a indecência é uma sunga de crochê tricotada por sua devotada secretária Deiz Merréis. Mas o desserviço de sua majestade exige sacrifícios, que o bom agente não hesita em fazer. Sem pensar trinta e cinco vezes, começa a desatar a sunga, inteiramente trançada num único fio de cobre, que ele desenrola com mãos habilidosas de matuto acostumado a enrolar cigarros de palha. Finalmente, insere uma extremidade do fio no artefato explosivo previamente instalado nas dependências do pesqueiro por um espião infiltrado do MI 6. Afasta-se segurando as partes (da bomba) e, a uma distância segura (três décimos de légua, segundo o Manual do Agente Secreto de Jundiaí e Região), aciona o detonador, provocando uma autêntica explosão de Itu.

Soa o alarme. Patrulheiros de pedalinho se lançam ao lago. “MI lasquei!”, exclama 00Zé, fiel à sigla do desserviço secreto de espionagem. É hora de decisões rápidas, para não comprometer o sucesso da operação. Nosso espião dá mostras do sangue frio que o caracteriza, até porque ficar pelado para fora de casa no meio da madrugada não esquenta muito. Depois de rodar em círculos com as mãos na cabeça, tropeçar nuns cinco barcos de pesca e proferir blasfêmias em dialeto local (“Diacho!”, “Disgrama!”), nosso agente pula uma cerca de madeira e toma o caminho da roça. Missão cumprida. Sobe o letreiro inicial do filme, toca a canção emblemática interpretada por Inezita Barroso com emoção ímpar e sotaque irretocável: “Da roça com amorrr”.

Após mais esse feito, 00Zé retorna ao quartel-general do MI 6 em Pirassununga, cidade onde os bandidos são detidos pela cana (de açúcar). Deiz Merréis o recebe com o afeto de sempre e pergunta quais foram suas impressões da última missão. “Eu mesmo num posso vê, mas tenho a impressão qui vai arrrdê, purque mi ralei todo o traseiro naquela cerrrca marrrdita!”. Ambos caem na gargalhada com mais essa tirada sutil, característica da dolce vita interiorana. Como o traseiro de Deiz Merréis não está ardendo, 00Zé aplica-lhe um beliscão igualmente sutil antes de entrar na sala de seu chefe M, também conhecido como “Meu patrão”.

“Tarrrde, chefe!”, lança o agente. “Tarrrde memo, num guentava mais ispera ocê, 00Zé, já me atrasei pro carrrteado na delegacia. Carece nem di sentá quieu vô ixpricá tudo na carrera e picá a mula”. Fazendo valer o poder de síntese que o distingue, M revela o plano insidioso que chegou aos ouvidos dos informantes do MI 6: uma organização criminosa desconhecida pretende instalar redes em todo poste, todo mourão, toda árvore da região, para causar um surto de preguiça nos habitantes e paralisar a economia rural. As perspectivas são sombrias. Toda a roça poderia ser condenada a uma soneca sem fim. 00Zé capta a gravidade da situação com sua perspicácia incomum: “Dureza, chefe, si os hómi botá rede im poste num vai tê sombra”. Ao que M retruca: “Craro que não, seu jumento! O pobrema é qui, si nóis num consegui acordá pra comê, a sesta num vai tê graça ninhuma!”.

Munido dessas preciosas informações, nosso herói parte agora em busca dos equipamentos necessários para a realização de mais uma missão arriscada. Como de praxe, ele os encontra no laboratório do velho projetista Q, cujo codinome provém da indagação proferida pelo destemido agente a cada vez que toma conhecimento de suas invenções. “Que trem é esse?”, exclama 00Zé ao receber de Q uma tesoura de unha, “Pra corrrtá as corrrda das rede?”. “Nada, procê corrrtá essas unha cheia di terra qui tá feia qui dá dó!”.

Nosso agente não despreza o conselho de Q. Faz sua toalete, ingere uma feijoada majestática, digere durante umas cinco horas e parte salvar a roça. No entanto, as dificuldades são maiores do que ele imaginava. Mal vê a primeira rede e já se deita. Os temores de M se confirmam. Se nem mesmo o maior espião do interior resistiu ao ardil inimigo, nenhum habitante da região conseguirá se levantar, nunca mais!

00Zé está quase cochilando quando seu traseiro (ainda ardido) atinge o solo com violência. Ele levanta a aba do seu chapéu de palha e percebe que está sentado no chão. Sente no cangote um bafo familiar. Vira-se e depara-se com um focinho úmido, igualmente familiar. Por trás do focinho, identifica a pelagem malhada de sua vaca de estimação, que o seguiu do episódio anterior até aqui. A Mimosa! Ela havia comido as cordas da rede e libertado nosso herói de um torpor invencível. Ao se levantar para afagar o pescoço da vaca, ele repara que todas as redes no caminho foram deglutidas. Todos os postes, mourões e árvores estão livres da terrível ameaça. As mandíbulas da Mimosa, das quais pendem ainda alguns fiapos, executam o característico movimento lateral de ruminação, enquanto ela olha para nosso agente com seus olhos ternos de bovino.

Resolvido o problema, nosso herói tem pressa em fazer um retorno triunfal montado no lombo da Mimosa. Aproveitando a viagem, faz um desvio pela rodovia Castello Branco para comprar três goiabadas cascão, um queijo fresco e seis potes de doce de leite no rancho da vó Stella. A operação lhe rende elogios merecidos do seu chefe M: “Ainda bem, nóis já tava careceno di sobremesa aqui no QG!”.

Em agradecimento à Mimosa, várias estátuas coloridas de vacas foram erguidas nas grandes cidades ao redor do mundo. “Por que botaro o nome nelas di Cow Parade, chefe?”, pergunta 00Zé a M. “Óbevio, se fosse Andande elas ia tudo sair do lugarrr!”. Justa homenagem que nos faz lembrar que tudo acaba por causa de uma vaca.

Hábitos que nunca devemos ter, coisas que não podemos morrer sem fazer

Cutucar o nariz.
Beber até cair.
Fumar.
Fumar cigarro.
Tirar racha em via pública.
Andar a mais de 200km/h em estrada.
Andar de carro sem cinto e descalço.
Espiar o celular da(o) namorada(o).
Comer só besteira por um dia inteiro.
Não fazer nada um dia inteiro, além de comer.
Ficar mais de 6 horas preso a um jogo de computador/videogame.
Gastar dinheiro irresponsavelmente numa viagem.
Bater em alguém.
Conhecer a fundo uma garota de programa.
Dar risada da desgraça dos outros.
Beber uma lata de leite condensado.
Beber uma bandeja inteira de yakult de uma vez só.
Tomar um banho de 2 horas.
Sair com uma mulher casada.
Beber manga com leite antes de dormir.
Tomar sol ao meio-dia.
Falar mal pelas costas.
Falar na língua do “P”.
Deixar a louça pra lavar em tempo indefinido.
Comer miojo com salsicha.
Pintar o cabelo de uma cor estranha.
Usar tênis sem meia.
Jogar papel higiênico molhado no teto do banheiro alheio.
Dançar funk.
Se vestir com as roupas do sexo oposto.
Roubar chiclete na padaria.
Roubar colete salva-vidas do avião.
Inflá-lo em seu amigo.
Explodi-lo em seu amigo.
Dar um cigarro para um sapo.
Matar o trabalho.
Dar um trote.
Colar uma folha com os dizeres “Chute-me” num desconhecido.
Sair sem pagar a conta.
Olhar pela fechadura.
Beber refrigerante de dois litros no gargalo.
Cavalgar uma avestruz.
Ir ao um show de heavy-metal. Na pista.
Fazer sexo a três.
Fazer sexo em dez.
Gozar e dormir.
Usar um banheiro químico.
Ir ao shopping dia 23 de dezembro.
Ir ao shopping “25 de março”.
Comer o sanduíche de mortadela no mercadão, de pernil do estadão e soltar um arrotão.
Estourar encanamento com bomba de mil.
Ter uma camisa florida.
Usá-la em local não apropriado.
Ir sem ser convidado.
Sair sem se despedir.

Quando ela faz

“Estou falando sério.
– Não dá para levar isso a sério, na boa.
– Cara, é muito desagradável.
– É nada, larga de ser mocinha, como se você nunca tivesse feito isso.
– Eu fiz, mas tudo bem.
– Como assim?
– É a ordem natural das coisas, quando a gente faz, tudo bem.
– Você está puto porque não esperava isso, deixa de lado.
– Nem a pau, isso não é coisa que se faça. Garçom, por favor, mais uma cerveja, estou precisando.
– Agora vai beber por causa disso?
– Cara, você não entendeu ainda, né? A coisa é grave, de repente, tudo ficou silencioso e aí veio…
– O que veio meu Deus?
– “”Ronc””.
– “”Ronc””?
– “”Ronc””.
– Ela dormiu e roncou?
– Exato. Imagine com seus próprios olhos.
– Com a minha própria imaginação, você quer dizer?
– Isso, isso, tanto faz. Se coloque no meu lugar.
– Vou tentar. Conheço a moça na loja de chá do bairro, conversamos sobre os perfumes de chás indianos, certo?
– Não zoa, chá é coisa séria.
– Certo, trocamos telefones e eu a convido para jantar num lugar que custa mais de cem reais por pessoa.
– Perfeito.
– Depois do excelente jantar, com um bom vinho, estou meio falido, mas feliz. Ela está muito feliz, aparentemente não tinha esse tratamento a muito tempo.
– Muito bom.
– Levo-a para sua casa, subo a seu convite, nos beijamos loucamente por toda a sala.
– Poupe os detalhes por favor.
– Ela me leva para o quarto, tira minha roupa e monta em cima de mim.
– Isso.
– Duas horas depois…
– Quinze minutos.
– Quinze minutos?
– Quinze, no máximo.
– Quinze minutos depois gozamos e quando eu vou dar um abraço gostoso nela, “”ronc””. É isso?
– Exatamente, com apenas uma correção.
– Só ela foi feliz.
– Ela, em quinze minutos?
– Isso.
– E você?
– Quer mesmo saber?
– Não, obrigado.
– Te disse que era sério.”

Uma Mensagem de Otimismo

Analisando meus objetivos, sonhos e trajetória para 2006, concluí que se tudo der certo as coisas vão piorar. Ainda que pareça uma visão levemente pessimista do panorama de minha vida não é. Aliás, não só sobre a minha vida. É universal, quando as coisas dão certo, pioram, e nos animamos.

O Brasil. Não vai pra frente não é verdade? E se fosse? Se tudo desse certo. A taxa de juros caísse, a moeda estabilizasse, fizessem a reforma agrária, tributária, pavimentaria (afinal não agüento mais tantos buracos). Tudo sem dúvida alguma pioraria. O investimento externo diminuiria, nossa mão de obra não seria mais barata e os incentivos fiscais não seriam mais atraentes. Investiríamos na indústria e capital nacionais. A corrupção teria fim com a eficiente renovação de nossos representantes, para as maçãs podres, um eficaz sistema de inteligência. A pirataria seria banida, o contrabando exterminado. Ou seja, o fusca voltaria a ser fabricado, aquele cd que você queria tanto ouvir só original e se for parado por excesso de velocidade assine o talão ou vá pra delegacia por tentativa de suborno.

Um outro exemplo, imagine sua vida. Tudo deu certo. Você arranjou o emprego dos sonhos, conseguiu dar entrada no apartamento, casou e finalmente comprou o playstation 2 que tanto queria. O emprego dos seus sonhos que tanto te trará satisfação pessoal por trabalhar em algo que realmente tem vontade é o mesmo que traz grande responsabilidade, carga horária e ações de emergência a serem tomadas na semana do natal pro ano novo. A casa própria, um sonho realizado, o conforto, a segurança, as mensais, semestrais e entrega de chaves. O piso, os móveis e aquela geladeira que acessa Internet. Ainda bem que arranjou um emprego novo. E uma esposa para rachar as contas. O casamento só traz alegria, dividir coma pessoa que mais se ama todos os momentos da vida. Acordar junto todo dia, jantar junto todo dia, conversar muito todo dia. Todo dia. TODO DIA. É bom que naquela geladeira que ela tanto quis tenha cerveja. O playstation é inútil, agora não tem mais jogo pirata e o jogo original é caro demais.

Acho que consegui defender minha visão de que realmente quando tudo dá certo, as coisas pioram. Mas uma questão persiste. Porque nos animamos com isso? Porquê sorrimos para a desgraça? Porquê levantamos com o pé direito mesmo que esse esteja engessado? Porquê sofremos dessa síndrome de hiena? Não sei. Não se pode dizer, somos humanos, somos estranhos assim. Talvez a auto-realização, a superação, os novos horizontes. Talvez não. O que importa é que gostamos, brigamos para fazer as pazes, quebramos para consertar, caímos para nos levantar. Tudo piora e achamos isso o máximo. Assim, em 2006, desejemos que tudo dê certo para todos, assim teremos certeza que dias piores virão.

Ano novo

“Praia então?
– Nem a pau, toda aquela areia, gente fazendo xixi na água. Não vou não.
– Você me prometeu a passagem de ano na praia, não é justo.
– Na praia não, numa cidade de praia. Eu que não saio de casa para me misturar com essa gente.
– Que gente, larga de ser fresco.
– Não largo não. Sou fresco.
– Com tanto homem no mundo, fui cair justo por você.
– Sou fresco mas sou bonito, fazer o quê. E nada de praia. Não podemos passar na casa do Carlos?
– Ficou louco, não vou passar a data mais importante do ano com seus amigos esnobes.
– Eles não são esnobes
– São sim, só por que estudaram em um prédio de mais de 100 anos, por onde passou Oswald de Andrade, se acham o máximo.
– Oswald de Andrade não estudou lá.
– Tudo bem, alguém da turma dele estudou. Não vou, não vou e não vou.
– Qual a sugestão então?
– Praia, na casa da Ritinha.
– Há, há, há e ha.
– Que foi?
– Melhor ficar num hotel.
– Ela convidou lindo. Não faça essa desfeita.
– Eu fico no hotel, você fica lá, não tem desfeita. Que tal?
– Qual o problema com a casa da Ritinha?
– Qual deles?
– São tantos assim?
– Tem a casa em si, tem tia, tem as suas amigas, tem a falta de limpeza, tem o macarrão com salsicha e para ficar perfeito tem a piscina de cachorro.
– Piscina de cachorro?
– Sim, aquela piscina onde os cachorros podem nadar e eu não.
– Porque não?
– Você toma banho com o seu cachorro?
– Não.
– Você come no chão com o seu cachorro?
– Não.
– Você se trata de dor de garganta no veterinário?
– Não.
– Então porque você faz tanta questão que eu entre na piscina dele? É dele, eu não entro. É falta de respeito com ele e falta de amor próprio comigo.
– Você está impossível. Não vou discutir mais.
– Concordo.
– Você é um canalha mesmo.
– Mas….
– Minha mãe bem que avisou.
– Escuta….
– Olha, acho melhor eu ir embora.
– Mas você disse….
– Vai se tratar e depois me liga.
– Mas eu…
– Ah, e você é um fresco, metido, com medo de cachorro e cheio de amigos esnobes.
– Já vai tarde.”