Arquivo de fevereiro, 2006

Exercício sem Título, Nome ou Número

A fachada podia ser vista de longe. Seus pés ainda teriam que se desviar de muitas armadilhas espalhadas pela calçada antes de alcançar o letreiro de néon. Não fazia muita diferença naquele instante porque era justamente esse desafio que absorvia sua atenção. Estava concentrado em evitar os buracos, cocôs de cachorro e pocinhas que podiam tanto ser de água (suja) como urina. Mesmo a idéia da sola de seu sapato em contato com coisas tão nojentas já causava um certo desconforto. Sabia que sua pele não ia entrar em contato com nada daquilo, mas queria evitar pisar de qualquer jeito. Então, andava olhando para o chão. Se a iluminação da rua fosse só um pouco melhor, ou se a Lua desse uma mão, quem sabe pudesse levantar a cabeça com maior frequência. Azar dele, quem manda ser refém meio patético de uma maniazinha?

Interessa que ele tenha erguido os olhos no momento certo. A senha pode ter sido um acidente familiar na calçada, por que não? Marcar o caminho através de buracos ou rastros de chorume é a mesmíssima coisa do que fazê-lo assinalando prédios e árvores. A mania de andar com o nariz esfregando no chão faz surgir referenciais que gente mais altiva sequer imagina. Agora, quem é capaz de dizer que ele não parou onde parou não por conta do proto-tique e sim porque bem ou mal estamos sempre atentos ao entorno, ainda que não demos por isso? Estamos aqui fazendo pouco desta figura à toa? Enquanto falávamos de seu método de caminhada, deu de ombros desviando das palavras jogadas à sua frente para que tropeçasse, discretamente consciente de tudo ao redor. Perfeitamente lúcido.

Parou diante do hotel, a entrada do outro lado da rua. Arrumou a postura, enfiou as mãos no bolso; mirou a porta. Tranqüilo. Nem estava prestando muita atenção – é de se duvidar que pudesse descrever os azulejos cinzas (e feios) emoldurando a porta de vidro preto lotada de cartazes promocionais, adesivos de cartão de crédito – eles aceitavam tudo, até tíquete; o destoante toldo vermelho estilo meia-joaninha-de-saia; as janelas de alumínio; lá em cima, o letreiro com um nome ´tropical english´ berrando em vermelho e azul. Seu único vínculo ao lugar estava em uma idéia, uma memória; mais exatamente, na idéia de uma memória: não existia fato para ser lembrado, a personagem não era inventada.

Encontrando a outra metade desta lembrança inventada, não resistiria. “Sempre que passo aqui lembro de você, sabia?”,”Puxa! Isso é elogio!”,”É, bom, eu sei que não é… Normalmente não faria…”,”Hã”,”Ah, essas coisas funcionam assim. Se o lugar é lindo ou um lixo, e daí? Para mim lembra e acabou. E não acho isso ruim. É, simplesmente.”, “Então tá.”, “Nem perde tempo fazendo esse tipo de jogo”. Nada de termos ríspidos ou duros. Eram claros. Queria ser objetivo e não deixar dúvidas sobre como deveria ser a interpretação. Ao mesmo tempo, não dependida dele. Alguns passos teriam sido dados, alguma observação pontual teria sido feita, algum tempo teria sido gasto, enfim, até “Só acho meio emblemático ser associada a um troço desses”,”…”,”Não?”, “Já falei. Você quer que eu comente o quê?”, “Acho que merecia mais”. A reunião está no fim, faltam umas poucas palavras, a fala capaz de calar os gestos, dar a deixa da saída, “Todos merecíamos mais”. Sem conseguir desviar dessas, permitiria ao queixo mais um mergulho e sumiria sem arrastar risos ou lágrimas. Deixemos. Que vá sem peso.

Tudo na mesma

A cidade continua a mesma, o mesmo trânsito, a mesma sujeira, a mesma teimosia em não funcionar. Em nenhum nível. As ruas mal cheirosas não trazem surpresas, nem uma calçada nova ou uma lata de lixo extra. Saio do carro, inspiro profundamente, sigo para meu edifício, ainda cinza. De terno cinza o mesmo estranho porteiro. “ Do Geílson? Justo do Geílson”. O escritório igualmente não mudou, a mesa espaçosa está lá, a simpática moça do café também. Sento na cadeira, essa mudou, parece mais desconfortável do que antes. Não era a espuma, nem o encosto reclinável.

2 de 152 mensagens. MSN piscando como uma luz estroboscópica. “Como foi a viagem?”. Ctrl+C. Ctrl+V. O ar condicionado ressona, uma coisa a menos para reclamar. Está frio. Mas que é barulhento é. Os pedidos, comunicações e relatórios também estão parecidos, muda uma linha aqui, uma coluna ali. A Adriana saiu. Foi demitida? Não, está abrindo o próprio negócio, andando com as próprias pernas, buscando seus sonhos, vivendo como se… Tá, tá. Entendi.

53 de 152 mensagens. A conexão da Internet é solidária, segue lenta como se tivesse passado uma semana na praia e voltasse a velha rotina enferrujada. Enjoada, a barriga reclama. Pausa para o almoço. Sem revoluções vou para o mesmo “kilo”. O preço mudou, pra mais, o aspecto do húmus segue o prédio, já o aroma, das ruas. Um café e a conta. Preciso ir embora.

O almoço foi produtivo. 55 de 152 mensagens. A minha insatisfação acompanhou o preço do almoço. Ctrl+V. O dia corre no ritmo da conexão. Os minutos vão colando os sonhos e as realidades. “Hoje é aniversário da Detinha”. Parabéns! Aquele negócio que estavam agitando continua de pé. Sem trocadilho. Como foi de viagem? Cacei patos. Hein. É, patos, odeio aquele qué-qué. Um pouco de diversão enfim.

Foi quase. 141 de 152. Amanhã termina. Fecho as “janelas”. Abro a porta. Alguns elevadores lotados depois e consigo me convencer que 16 andares de escada não vão matar ninguém. Mas bem que podiam. “Do Geílson? Justo do Geílson”. Cinza. Cheiro. Carro. A cidade continua a mesma. É minha companheira.

Alface

“Ele estava muito animado com o almoço, apesar de ter tentado insistentemente que fosse o jantar, considerou o almoço uma meia vitória. Já estava de olho nela há muito tempo, desde que ela aparecera na recepção da agência. Morena de um metro e setenta, olhos verdes, longos cabelos lisos, e uma silhueta que deixava até a estagiária do quinto andar morrendo de inveja. Já nos seus 26 anos, ainda solteira e disponível no momento. Era perfeita.

Passou dois meses com conversas de escritório, começou a acidentalmente esbarrar com ela na copa, e diversas vezes marcava almoço com amigos só para que ela ligasse em sua mesa. Adorava ouvir:

– Marcos. Bom dia.
– Bom dia Carlinha, ficou com saudades e resolveu me ligar.
– Não, quer dizer, bem…seu amigo chegou.
– Estou descendo.

Colocou a roupa mais descolada que pareceria que ele não estava propositadamente descolado para aquela ocasião. Uma difícil combinação de calça, camisa, cinto e sapato que tomou-lhe quarenta minutos da manhã. Valeria a pena, pensou. Se o almoço for bem, aí vem um jantar. Preferia jantares, certamente um ambiente mais adequado para criar um clima e também envolver bebida alcóolica na jogada. Era paciente porém, com o tempo aprenderá que tudo que vale a pena, dá um pouco de trabalho.

Ela fez questão de escolher o restaurante e iriam com o carro dele. Ele passou a manhã fantasiando sobre o restaurante que ela o levaria. Uma surpresa, ela havia dito. Não que ele gostasse muito de surpresa, mas como era um bom glutão, não tinha medo de comida alguma, fora jiló, claro.

Passou na recepção no horário combinado, onze e quarenta e cinco. Ela era muito metódica com horário. Desceram ao estacionamento e saíram. Após cinco minutos de percurso, ela apontou:

– Estacione aqui, chegamos. Você vai adorar.

Ele não viu bem o nome do restaurante mas parecia ser um lugar muito agradável, com uma varanda grande, salão todo envidraçado. Ambiente muito agradável.

– É o melhor vegetariano de São Paulo.
– Quem?
– O restaurante.
– Er…
– Calma, a comida é uma delícia, a carne de soja é ótima.
– Er…

Sentaram, ele ainda em estado de choque, afinal a mulher perfeita o levou num restaurante vegetariano, não podia ser bom sinal. É só um regime, isso mesmo, ele pensou, não deve ser nada grave.

– Você está de regime?
– Não?
– Er…
– Sabe como é, eu não como bichinhos, só plantinhas.
– Er…
– Odeio que matem bichinhos. Não suporto.
– Er…
– Salada de alface ou agrião?”

Tem que ter respeito

– Então, vocês foram lá?
– Graças a Deus, não agüentava mais ficar na Internet fechando pop-up de site pornô.
– Se não tivesse largado a Dóris.
– Ah não dava mais.
– Você já reparou que toda vez é a mesma coisa? Sempre o mesmo papo.
– Ok, ok. O que vai fazer agora? Cobrar minha lição de casa Papai?
– Não tenho filho desse tamanho não.
– Então posso falar do puteiro agora?
– Fala, fala. Como foi? Bom?
– Bom? Fantástico. Como sempre aliás. Aquele lugar seria o paraíso se não fosse um inferninho.
– Bom assim é?
– De “prima”.
– E quem foi da galera?
– Fui eu, o Pereira, o Toshiro e o Adolfo.
– Caramba, até o Pereira vocês arrastaram pra lá?
– É, ele tava de frescura mas demos um jeito, diz ele que foi por causa do sushi. Antes não tivesse ido.
– Porque não? O que rolou?
– Bem, foi o seguinte. Chegamos lá e o Adolfo, já sabe né, subiu logo pro quarto com a primeira loira cavala que passou na frente. O resto de nós ficou no camarote reconhecendo o terreno. Minha gordinha chegou e sentou no meu colo.
– Ainda não te entendo com essas gordinhas.
– O que não entende?
– Você vai pro puteiro pra ficar namorando? Ainda mais uma gordinha?
– Quer coisa melhor? Sentar, beijar na boca, falar sobre a vida. Daí, depois de algum xaveco em que ela me convence que está fazendo aquilo tudo por amor, nós subimos. Tiro a roupa dela e sinto um gostinho de realidade. Ok, confesso que algumas vezes ao tirar a roupa delas percebo que peguei pesado. Mas, faz parte do jogo.
– Cada um com sua loucura. Mas me conta, o rolo do Pereira.
– Ah é. Então, depois que minha gordinha chegou, o Toshiro e o Pereira foram se arrumar. Aí é que fedeu. O Pereira encasquetou que ia subir com a namoradinha do Toshiro.
– Hein?
– É, o Toshiro sempre que vai lá sobre com a mesma menina. É a namoradinha dele. O Pereira inventou que queria subir justo com ela.
– Um minuto, a gente tava falando de puta, não?
– Ainda estamos.
– Então porque você ta se referindo a menina como namoradinha? E pior, se incomodando que o outro queria dar uma chapiscada nela.
– Isso é errado. Amigo não pode comer a namoradinha do outro.
– Ela é uma puta cara, o mundo come a “namoradinha” do Toshiro.
– Mas não são amigos dele. Namorada é namorada.
– A namorada do Toshiro é a Toshira. Só ela. Ela sim deve ser respeitada. Pelo menos pela gente, já que ele não respeita.
– Você acha que ele não respeita ela?
– Porra, o cara tem uma namoradinha num puteiro.
– Aha, agora você concorda que é namoradinha.
– Sei lá, que seja. O que quero dizer é que se trai não respeita.
– Ah, para de bobagem. Desde quando comer puta é trair?
– E não é?
– Não.
– Mas e se eu quisesse subir com a sua gordinha? Seria traição?
– Lógico. Das piores inclusive. Tenho sentimentos ora.

Pragmatismo

“Um tiro na testa?
– Não sei bem se na testa seria o mais adequado em termos de matar o sujeito, mas esteticamente é ótimo.
– Como assim?
– Fica um buraco no meio da cara, sangra pouco e melhor, faz uma bela imagem para os programas policiais da TV.
– Não acho que vão aprovar uma coisa dessas.
– Não vão mesmo, é por isso que vamos fazer sem querer.
– Agora endoidou de vez.
– Se a gente conseguir matar dois, em uma semana, pronto, resolvido.
– Nem arma a gente tem.
– Mas nós não vamos fazer o serviço sujo não, vamos arrumar um bode.
– Bode?
– Expiatório.
– Ah.
– Precisa explicar tudo para você.
– Eu não sou do interior, sou um cara urbano, para mim o nome disso é trouxa.
– Tanto faz, mas já tenho o perfil ideal do candidato.
– Justiceiro.
– Não.
– Policial?
– Não.
– Então o que.
– Uma velhinha.
– Uma velhinha?
– Pensa bem, de todos esse tipo de gente, uma velhinha é a única com a vantagem da surpresa.
– Pensando por esse lado…
– Então perfeito, esse é o plano. Contratamos a velhinha, avisamos a TVs e pronto. Imagino até as manchetes: “”Surto causado em velhinhas desencadeia guerra civil no transito de São Paulo””
– E depois?
– Depois nada, o medo e o pânico vão tomar conta da cidade.
– Essa é a sua proposta para acabar com os congestionamentos, então?
– Lógico, precisamos de pragmatismo nesses tempos modernos. Esse negócio de lei, gente multando, etc, isso não resolve mais. É preciso usar o medo!
– Certamente. Vamos pedir mais cerveja. Essa proposta ainda pode ser melhorada.
– Certamente, oh garçom!”

Mamute Ferido

Era uma festa de criança em um buffet infantil moderno e caro. Além dos tradicionais “gira-gira”, escorregador e “trepa-trepa”, o playground tinha um barco viking, mini-montanha-russa, e, acreditem, um mono-rail (uma espécie de trem suspenso, pendurado por uma estrutura metálica que costuma transportar passageiros felizes em lugares como a DisneyWorld)!

Rui era um executivo não muito convencional. Grande e truculento, seu terno sempre parecia gritar desesperadamente para ser trocado por um número maior. Ele era conhecido por todos como “Mamute”, nome dado aos elefantes pré-históricos com corpo revestido de pêlos e dotados de presas longas e curvadas. Ou seja: Rui.

Ele foi convidado para a festa por ser tio do aniversariante: Raoni. Um simpático garoto de 07 anos. Ele adorava o Tio “Mamute”.

Tudo ia bem na festa. Crianças corriam atropelando garçons, avós e paredes, quebrando algumas partes dos seus pequenos corpos que se regeneravam após 3 ou 4 gritos. Enfim, tudo como o esperado.

Um pouco antes da hora do bolo o grande Rui caminhava tranquilamente com 8 crianças penduradas em seu corpo até que, com uma parada brusca, derrubou violentamente 5 pequenos e nocauteou 2 que corriam no estilo “briga de galo” e tiveram que ser deslocados rapidamente para a enfermaria após se chocaram contra a batata da perna pré-histórica daquele agradável mamífero.

Ele acabava de avistar, linda, reluzente, barulhenta e, principalmente, vazia , uma máquina de fliperama com seu jogo preferido : Super Street of Dragon Fighting Kombat Hero Gaiden Mortal : Championship Edition 2.

Desde o fim de sua glacial adolescência, Rui nunca mais havia colocado seus olhos sobre aquela que foi a razão de sua existência por 4 anos de sua vida.

A música da tela de abertura, daquele (hoje) paleozóico fliperama, provocou um melancólico lacrimejar no grande Mamute.

Emocionado, Rui se aproximou da máquina. E então, foi surpreendido ao ver a máquina mais famosa e disputada de todos os tempos, sozinha, abandonada, decadente e o que é muito pior, utilizada apenas como uma mesinha com pratos e copos sujos forrando seus controles.

Rui era absolutamente inofensivo e pacífico, até o último momento, desde que seus instintos mais primais não fossem maculados. Um Mamute com o coração ferido pode gerar todo pânico que inspira num primeiro momento.

E um resto de bolo sobre os botões “soco-forte e soco-médio” do Super Street of Dragon Fighting Kombat Hero Gaiden Mortal : Championship Edition 2 dilaceravam o coração deste pobre elefante pré-histórico como nada mais poderia.

Com a voracidade que um animal selvagem protege sua família, Rui atacou a máquina, jogando longe dali todos os copos, bolos e docinhos. Isto feito, sem mais ouvir, ver, ou sentir algo, apertou “Start” e começou a jogar freneticamente, como que tentando restaurar daquela máquina toda dignidade que ela merecia.

Aos poucos, ele via “Kyu” seu personagem favorito respondendo cada um de seus perfeitos comandos, sobre os melecados botões recém-salvos.

Duas horas e meia depois, os botões não grudavam mais, “Kyu” já era o campeão do universo por 12 vezes, e Mamute começava então a jornada para “zerar” o jogo com cada um dos 26 personagens restantes.

Constrangido, Raoni, não sabia mais o que fazer para ver seu tio querido, livre daquela cólera inexplicável.

Depois de alguns minutos observando espantado a habilidade do grande animal truculento ao controlar “Zangi-Shin”, o personagem mais forte, porém mais difícil de ser comandado naquele velho e ultrapassado jogo o garoto, agora 1 ano mais velho (já havia soprado a velinha, sem seu tio por perto), disse docemente:

– Tio, o buffet já fechou e todo mundo tá indo embora vam…

Sem esperar seu amado sobrinho terminar a frase, o encoleirado Mamute teve que mostrar que mesmo um ente querido não poderia impedi-lo do que tinha que fazer :

– Diga para eles, qualquer um que seja, que pra me tirar daqui, só entrando como “Player 2” e ganhando de mim no pau.

Assim, Raoni, a família e todos funcionários, acabaram abandonando o local, deixando aquele Mamute sozinho, no escuro, executando a tarefa que talvez um dia o fizesse voltar a ser o dócil e amável “Tio Mamute” de sempre. Era o que todos esperavam …