Arquivo de março, 2006

No escritório

– Alô
– Oi amor!
– Alô?
– Alô, quem está falando?
– Oi. Sou eu.
– Nossa amor, você está com uma voz diferente. Onde você está?
– To no escritório, a sala faz eco.
– Ah tá.
– E aí?
– Você não sabe!
– Conta.
– Lembra aqueles nossos planos?
– Que planos?
– Como que planos Carlos Alberto? Os planos que estamos planejando. Você não fala de outra coisa há dias.
– Mas qual deles?
– O mais importante de todos ué.
– Que é?
– Oras Carlos, você não para de me encher o saco com essa história e agora fica com frescura. Se continuar com essa palhaçada eu vou cancelar a suíte e nem começamos.
– Não não! Não cancele a suíte não. Sabe o que é?
– O que?
– É que gosto de ouvir você falando sobre isso. Mesmo eu já sabendo fico louco de ouvir sua voz proferindo essas palavras, esse doce mel, essa ternura travestida de tesão.
– Você bebeu Carlos Alberto?
– Err, não, porque?
– Nem parece você, fica falando essas coisas doces aí? Na cama só fala baixaria. O que anda fazendo?
– Nada não amor.
– Hummm….sei…
– Pode falar. Deu tudo certo então?
– Deu, você não sabe. Vai ser próximo domingo. Já contratei o Bamba.
– Bamba?
– É. Aquele grandão que você tinha gostado.
– Grandão? Como?
– Então, ele não é tão alto, mas tem um dote!
– Dote?
– É Carlos Alberto, o que você tem hoje? Dote, bilolo, menino. Do jeito que você queria. O menáge dos seus sonhos. Tanto tempo para admitir seu maior desejo, e agora que ele vai ser finalmente realizado fica todo estranho.
– É.
– Que foi? Parece que nem está empolgado.
– Estou sim, muito, mas é que esperei tanto por isso. Mal posso acreditar.
– Que bom amor.
– Meu chefe chegou, posso te ligar daqui a pouco?
– Pode sim, não vai ficar falando dessas coisas com gente aí. Mas só me responde uma coisa, você vai querer só o Bamba mesmo ou vai precisar de mais um?
– Pode pedir mais um.
– Ta bom então Carlucho, beijo.
– Beijo.
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– Carlos?
– Oi.
– Sua mulher te ligou.

Duas

Eram duas na mesa, uma de frente pra outra. O jeito lânguido que a da direita apoiava o fino queixo no punho, semicerrado e flexionado, fazia pender minha apatia. Seu sorriso quente e honesto…é, honesto; daqueles que escapam sozinhos não por um motivo, por nada, sincero; esse sorriso…enchia a mesa. E só tinham duas.

A cabeça pequena, ereta, com cabelos lisos e castanho-claros balançava vez ou outra no ritmo da conversa.

O colar caía sobre o seio em matizes azulados destacando aquele busto delicado e convidativo, nem farto, nem pouco: voluptuoso. Suas costas inclinavam e se contorciam toda vez que, por graça, ela sorria. A mini-blusa branca mal cobria a região lombar. Na mesa, um copo com suco dava a dica do gosto delicado: devia ser cupuaçu.

Na esquerda, um gingar de cabeça repetia um movimento lento que concordava com quase tudo o que se dizia. Pelo menos era o que parecia. Cabelos cacheados até a altura dos ombros, nada muito moderno; um corte de cabelo clássico, contido. Olhos atentos e amendoados abriam suas pupilas para cada palavra que saía da boca alheia. Com atenção estudantil discorria teorias e fatos que nem ouso bisbilhotar. Parecia interessante. Uma mesa duplamente sensual, exalando charme, beleza e porque não, desejo.

De corpo esguio e mais delicado, ela poderia estar desfilando uma série de assuntos sobre magreza, dietas e exercícios, mas algo no olhar da outra dizia que era muito mais interessante que essas frivolidades da modernidade.

Ali, naquela mistura de fofocas com política, surgiu um pedido simples: coca com gelo e limão. Foi o pedido mais delicioso e demorado que o garçom já fez, teve, deu saída, anotou, ele nem sabia por onde começar; pobre coitado, hipnotizado pela serpente do desejo, desculpou-se três vezes antes de conseguir escrever coca.

Quanto mais demorava, mais interessante ficava. Um misto de tranqulidade e luxúria cercava a mesa que, dali do canto, parecia flutuar. A situação ficava incontrolavelmente deliciosa para o público que só faltava parar na calçada para amarrar o cadarço do chinelo. Na direita, ela estendia a palma da mão por sobre os cabelos cacheados da esquerda que retribuia com lascividade o gesto tocando o rosto delicado e afinado.

Olho nos olhos, o perfume de uma já pertencia à outra, cada coração em volta palpitava acelerado esperando o momento que a distância entre elas fosse extinguida de forma corajosa em um beijo que libertaria uma população inteira de sofredores efêmeros, ansiosos e até angustiados. Era assim que tinha que ser.

Quem sabe em um outro texto!

Festa Louca

Ia ser uma daquelas festas loucas. Mulheres beijando mulheres, bebidas servidas em baldes, bonecos infláveis de gorilas. Ou seja , tudo que uma festa louca deve ter. Gastão acordou atrasado, deu aquela cochilada depois que chegou do trabalho, coisa rápida, das 19:00 até ás 02:00 da manhã. Se ele corresse ainda pegava as zebras. Isso se o cronograma da festa fosse igual ao ano passado. A festa era num lugar desconhecido, como havia de ser, então pegou o carro e saiu voado, ligaria da rua para alguém lhe dar as instruções.

Quando chegou perto da onde imaginava que era a festa, uma rua cheia de galpões, ligou.

– Alô, Paulão?
– Faaaaaaaaala Gastonildo. Cadê você cara, vi você entrando no banheiro faz a maior cara e desapareceu. Peraí perai… Galera, galera, achei o Gastão.
– Que é isso Paulão. Nem cheguei na festa ainda.
– Como não? Acabei de ver você entrando lá, tava com o gorila.
– Não era eu Paulão.
– Putz então melhor continuar procurando. Galera, galera, não achei não, continuem procurando.
– Paulão, Paulão, me escuta. Como é que chega aí?
– Putz, então, pêra um pouquinho. Linaaaa!!! Vou te passar pra Lina cara, ela sabe explicar melhor.
– Mas Paulão pêra…
– Alô.
– Alô, errr…Lina?
– Não, sou a Ange, Lina é minha irmã. Mas no que posso te ajudar?
– Bem, tenho que falar com a Lina mesmo.
– Porque? Não pode ser comigo? Eu não sirvo? Acha que não sou boa o suficiente?
-Não, não é isso, é que…
– É isso sim. Já estou cansada dessa história, desde pequena é a mesma coisa. Tudo é pra ela, todos querem ela, ficou até com o pedaço do nome melhor. Quando éramos pequenas, eu não percebia, ainda que achasse estranho só ela ter capacete para andar de bicicleta. Mas agora já saquei, e não vou admitir mais essa palhaçada. Vou agora atrás dessa piranha, quebrar um vaso na cabeça dela, aproveitar que ela não está de capacete.
– Não, não, o que você vai fazer?
– Não te importa, mas caso se interesse saindo daqui vou para o México. Tchau. Alguém pega essa porcaria desse telefone, cadê minha irmã?
– Err, alô, alô?
– Alô!
– Quem tá falando?
– É o Julião. Quem é você?
– Oi Julião. Eu sou o Gastão. Tô tentando descobrir como chega aí.
– Onde você está?
– To numa rua cheia de galpões, tem uma fabrica laranja na minha esquerda.
– Ah, já sei onde você está. Faz o seguinte, segue até o final dessa rua. Ta vendo o final?
– Tô, tô.
– Me avisa quando chegar.
– Cheguei.
– Legal, agora pega essa avenida a direita e…Peraí, peraí, po galera, tira essa zebra daqui, ta carimbando todo lugar por onde passa.
– Alô, alô? Pega a direita e faz o que?
– Alô. Então, desculpa, é que as zebras comeram space cake e acho que fez mal, estão sujando a festa inteira. Ainda bem que já estão indo embora.
– As zebras já estão indo?
– Estão.
– Droga. Bem, virei a direita, e agora?
– Então, pega a primeira a direita, segunda a esquerda, faz o contorno na pracinha, daí você vai ver um posto.
– Direita, esquerda, pracinha, posto. Ta legal, to vendo.
– Agora você para no posto, entra na loja de conveniência, compra umas 4 caixas de cerveja e volta até a fábrica laranja que você passou, a festa é lá. Galera, já mandei buscar a cerveja.

80GB

“Eu me lembro do convite como se fosse hoje. Algo despretensioso, despojado de formalidades, mas ao mesmo tempo aparentemente causava uma certa ansiedade nas pessoas. Vai saber. Esse pessoal moderno é muito estranho. Como na época eu queria ser moderno e estava na moda o “”pensar fora da caixa””, aceitei o convite de muito bom grado e fui para o evento com meus dois GB de espaço livre, afinal, poderia me interessar por algo:

– Opa, você veio?
– Lógico, seria uma desfeita.
– Nem lembro de ter te convidado.
– Quer que eu vá embora?
– Não, fica aí, você pode até ser divertir.
– Carlão, Zésão, Claudião, beleza?
– Aeeeeeee!

Quando eu cheguei, já estava todo mundo muito animado, tinham comido quatro pizzas com uns 10 litros de refrigerante. De certa forma, estavam todos bêbados. Pensei, acho que não vou conseguir acompanhar esse pessoal.

– O que você trouxe?
– Nada.
– Imaginei.
– Vim como observador.
– Ah, vai se divertir.
– O que vocês já fizeram?
– Bem, estamos copiando o HD do Zesão no player do Claudião. Enquanto isso o Carlão ficou organizando o computador dele.

A essa altura eu já estava morrendo de sono, mas fui firme, continuei até o fim. Por mais que a situação demandasse uma fuga de emergência.

– Carlão, já copiou tudo?
– Calma, faltam os 20 GB de jazz.
– Já foram os 10 GB de MPB?
– Sim.
– Flash dance?
– Sim.
– Anúncios de macarrão?
– Sim.
– Rumba?
– Não
– Vida Selvagem
– Não. Odeio bichos.
– E os filmes iranianos da década de 50?
– Nem a pau. Preciso deixar espaço para os vídeos japoneses.
– Ah, os clássicos!”

Melhor do que nunca

Fazia 5 meses desde o fim. Meio sem explicação ele encerrou o namoro de quatro anos e meio que segundo todos, “ia dar em casamento”. Ela bem que tentou salvar a relação, porém quando percebeu, não havia o que salvar. Ele já estava em outra. Ou melhor, outras. Mais ou menos segura do que sentia ela tocou em frente enfim, o nick do seu MSN já dizia:

– Karen – Virei a página… – All by myself – Celine Dion

As amigas queriam ajudar e os encontros a cegas começaram a pipocar. Uma tinha um primo gatíssimo, formado na GV, bem de vida, mãos fortes. Mas não comia sushi. Outra queria de todo jeito fazê-los se encontrar, seu amigo de infância era uma graça, cara de bebê, fazia faculdade de jornalismo, super-culto. Mas odiava Dance Music. Já a irmã entrou na briga, querendo dar seu pitaco argumentava racionalmente:

– Eeeeeeeuuuuuu tenho o cara perfeito pra você!

Ele era advogado, franciscano, sócio de um dos maiores escritórios do Brasil, lindo e engravatado. Mas de Áries.

– De Áries não dá né maninha, você sabe como odeio gente de Áries. Impossível dar certo.

Logo, ela percebeu que ligar para o ex durante a madrugada para saber se tinha algum filme bom no cinema não colava muito, então teve que arrumar uma ocupação de verdade. Comprou um cachorro e deu o nome do falecido. Assim passava todos os dias e noites. Abraçando o Flávio, beijando o Flávio e quando estava de mau humor, xingando o Flávio.

– Sua mãe é uma cadela Flávio!

Um dia Flávio ficou mal. Ficava atrás dela o tempo todo, choramingando pelos cantos, o oposto de seu homônimo em versão humana. Então Karen levou Flávio ao veterinário.
O Pet Shop era do lado da casa dela, a fachada não era tão bonita, já o veterinário. Um metro e oitenta, cabelo bem preto, milimetricamente bagunçado, olhos castanho-escuro, cheiro de banho. Do tipo dela, beleza ordinária. Conversava leve. De Capricórnio.

– Que coincidência, eu também sou de Capricórnio, nós somos “tudo” não acha?

Era o destino que os tinha juntado. Méritos para o Flávio, que a propósito estava muito bem já. Trocaram telefones, olhares, toque de mão. Na volta pra casa ela nem pensava no Flávio, o coitado aliás, quase foi atropelado por um ônibus virando a esquina.

O pobre cão não agüentava mais tomar vacina, escovava os dentes uma vez por dia e tomava banho duas em certas ocasiões. Tudo para ver o capricorniano da vida de Karen. Todos apoiaram-na. Afinal ela tinha dito a verdade. Virou a página.

Para sacramentar seu estado de espírito ela entrou na Internet. Desbloqueou Flávio, escreveu belas verdades, estava muito feliz, era uma pessoa muito melhor, aprendeu muito com o que ele fez para ela. O perdoava afinal. Estava melhor do que nunca. Fechou a janela e nem deu tempo para ele responder. Seu nick já dizia tudo.

– Karen – Mais feliz do que nunca… – All by myself – Celine Dion

Rapidinha…

– Jô.
– Fala Deco.
– A gente precisa conversar.
– Tá, deixa só acabar esse bloco e a gente conversa.
– Jô… é sério.
– Eu sei – olha lá a Ritinha vai acabar com a madrasta da Cleide… olha lá.
– Você entende que eu quero conversar e você não quer a devida importância, né?
– Sei, sei, até parece que do dia pra noite ficou sentimental. Essa é a minha função – olha lá o tapa que ela deu! – quem fica emotivo nesse casal aqui sou eu! Pára com isso, Deco. Depois eu te deixo em paz pra você assistir o “raio” do jogo.
– Mas que fique registrado que eu tentei.
– Tá Deco, não atrapalha – ah lá o Jorge Vagner com a Betty! essa não presta mesmo…
– Jô… se a gente não conversar, como vai ser mais pra frente? Dá só um minutinho…
– Deco, no próximo bloco, pô! Óh o barulho, não dá pra ouvir nada.
– Jô… o gato subiu no telhado.
– Ah, que nada! eu dei motivo? você deu motivo? – mas que cafajeste esse Marcos Paulo – A gente tá super bem, não inventa Deco.
– Jô, eu tô tentando te falar faz um tempinho…
– Calma, calma – ah lá… que sem vergonha “essazinha”!
– Jô…
– Pô Deco, pára de falar. Eu fico falando quando você está assistindo jogo? Não! então pronto. Poxa, já falei que quando terminar esse bloco a gente conversa, sabe… fica aí falando sem parar, não dá nem pra ouvir direito… e esse monte de sirene aí fora, pô. Manda esses caras apitarem pra lá…

Os bombeiros não puderam fazer nada, já era tarde para o pobre gatinho.

Clube

“Eu odeio a piscina do clube. Bem eu odeio o clube. Queria saber quem foi o gênio que inventou o clube. Alías, se ele fosse mesmo um gênio, teria inventado o crédito popular para construção da piscina própria, da academia própria e, por que não, até da quadra poliesportiva própria. Ao invés disso, o sujeito vai lá, compra um terreno grande, constrói uma sede, uma piscina, uma quadra, um campo de futebol e pronto. Depois ele pega e vende títulos para cinco mil famílias que, satisfeitas, vangloriam-se:

– Querida, você não sabe da última.
– Conta.
– Finalmente, compramos o título do Campo Mourão International Tennis and Soccer Club.
– Que luxo, você é tão chique, amiga.
– Já estamos nos preparando para o casamento da Ritinha. Queremos fazer um festão.
– Ela é tão linda. E, falando nela, ela já aprendeu a falar?

Ou ainda fazem inveja aos amigos:

– Você vai na festa de carnaval do clube?
– Acho que não. Duzentos reais é muito caro.
– Você não é sócio.
– Não.
– Pena.

Vai-se até o imponderável:

– Eu adoro ir ao clube.
– Mesmo?
– Piscina, gente bonita, comida boa.
– Cara, que clube é esse?
– O Country.
– Mas eu achei que eles haviam desativado a piscina desde 2004.
– Sim, é bem verdade.
– E que eu saiba lá só tem títulos de família.
– É, tem razão.
– E a lanchonete dos caras não tem nem queijo quente.
– Clube é uma merda mesmo, desperdício de dinheiro.

E no extremo:

– Cara, eu sou sócio desse clube há mais de vinte anos.
– Que coisa, hein?
– E nunca nem fui lá ver como é.
– Deve ser um recorde.
– Acho que não. Orecorde é do Carlão.
– Por que?
– Ele é sócio há vinte e dois anos
– Por pouco.
– O clube é em Ituverava.
– Ah!
– O cara é o mestre.”

“Ooh, this ti – me…”

Já era hora, o rádio relógio começou a assoviar o riff de Patience dos Guns and Roses. Lentamente ele abriu os olhos, encolhido no lado direito da cama. O resto era dela. Começou a levantar enroscado nos panos brancos. Lençóis, fronhas, colcha. Sentou no limite do colchão, cotovelos sobre o final das coxas, palmas das mãos acolhendo o rosto amassado. Nem olhou para trás, sabia que ela não estava lá, sentiu o cheiro de café com leite vindo da cozinha, ao que parecia. Arrancou-se da cama, abriu a janela, instantaneamente se banhou de sol. Ela adora o sol. Começou a recolher as roupas do chão, só as dele. Sorriu quando viu o retrato sobre a mesinha redonda no canto do quarto perto da cortina. Os três porta-retratos de tamanhos e formatos diferentes iluminados pelo dia mostravam os registros de três viagens diferentes. A primeira, a mais antiga, mostra o casal num apartamento de praia, ele agarrado a ela, os braços entrelaçados na cintura, a boca beijando o pescoço no lado esquerdo, sem camisa, sem vergonha. Ela, cor de maçã, com um chapeuzinho de surfista azul e amarelo, ficam feios em qualquer pessoa, nela perfeito. Ela tem o braço em volta do pescoço dele e o outro esticado segura a câmera.
O segundo retrato é do ano passado, mostra o oposto, uma foto mal composta, os dois estão nos dois quintos inferiores do retrato que, orientado na vertical os prende numa grande nuvem cinza e os sustenta com muita neve. Muita pouca pele a mostra. Juntos pelos braços, ele do lado direito e ela do esquerdo. Atrás, a torre. No terceiro, ela está sozinha. Os dois grandes olhos acinzentados tomam conta do frame, apenas seis meses atrás. Ele acaba se encontrando também, no fundo dos olhos, no meio de sua íris londrina.

O alarme não para de tocar. “Just a litlle patience…yeeeaahh”. Dá as costas para o dia, atravessa o quarto amarelado, pisa nas sombras formadas no chão com leveza, como se não quisesse tirar nada do lugar. Escova os dentes, a dele azul, a outra rosa. Assim com as toalhas penduradas atrás da porta. Enxuga o rosto e segue seu faro. O cheiro de café não passa, está impregnado no seu cabelo, na sua calça. Cruzando o corredor, pisa duro na passadeira desalinhada que ganhou de alguém. As paredes cheias de quadros tortos provenientes de sua fase artística. A sala nem se nota, apenas um amontoado de objetos indefinidos. O que essa mulher tem na cabeça. Não vê a bagunça que fez?

“ Yeah, yeah, well i need you”. Percebe a cozinha quando o chão gela seus pés. O gelo sobe até o pescoço passando pelo estômago e coração. O cômodo está vazio, a louça dorme na pia, ignorando o escândalo dos passarinhos, a mesa, coberta por uma toalha azul e laranja, sustenta um saco de pão vazio e migalhas espalhadas por toda a extensão. No canto da pia um nicho intocado, bem de frente pra janela. Abre a geladeira cheia, tudo vencido, só o pó de café não pereceu. A porta da cozinha fica logo ao lado, ele abre e em seu tapete está uma garrafa de leite. De vidro, daquelas antigas. Ao trazer para dentro o braço descuidado esbarra no canto da mesa. A garrafa cai. Junto, ele.

Macho gourmet

O mundo contemporâneo impõe exigências descomunais, sobretudo para o homem que quer seduzir. Em todas as esferas da vida social, ele precisa demonstrar proficiência fora do comum para chamar sobre si a atenção de sua doce metade. Nem mesmo na cozinha ele escapa.

Saem-se melhor aqueles favorecidos pela fortuna, em todos os sentidos do termo. Ou porque tiveram a sorte de serem agraciados com uma aparência que suscita suspiros das pretendentes – “aaaaaaaai, que gatinho!…” – ou porque dispõem de dinheiro suficiente para levá-las para jantar nos restaurantes mais caros e badalados (o que não significa que sirvam a melhor comida, mas nessas ocasiões ninguém repara muito no conteúdo do prato, já que outros sentidos estão sendo muito mais estimulados do que o paladar).

Entretanto, nem mesmo tais benesses salvam a pele do homem de hoje. O modelo que a sociedade apresenta e que muitas mulheres procuram não é apenas o sujeito garboso ou o detentor de um cartão de crédito matador. O macho atual tem que ser tudo isso e mais. Tem de provar que, para além do verniz de um jovem profissional urbano bem-aparentado e bem-sucedido, esconde-se um amante da vida simples, desapegado dos bens materiais e da sociedade de consumo, que não liga em gastar horas de seu precioso tempo botando a mão na massa (no caso, para uma quiche de aspargos), mesmo sabendo que isso vai arruinar seu esmalte (transparente) e que ele poderia pagar quinze pessoas para fazer todo o serviço melhor e mais rápido.

“Carpe diem” com “do-it-yourself”, Horácio mais a seção de importados do Pão-de-Açúcar, é isso que elas querem. Ai de nós. O que fazer?

Você pode cumprir a tarefa em grande estilo: comprar um loft com cozinha aberta, comprar os ingredientes mais sofisticados (significa “caros”), mandar entregar em casa (fica mais caro ainda), comprar panelas tipo wok ou qualquer outra que tenha aquela cor fosca charmosérrima (e custe igualmente caro), comprar livros de receitas (de preferência em francês ou inglês, são mais caros) e convidar a pequena para saborear um vinho (caro) enquanto ela te observa queimar os dedos no fogão elétrico.

Ou você pode escolher a opção “low profile”. Assusta menos, sai muito mais barato e pode ser tão eficiente quanto. É o caminho tomado por um legítimo Macho Moderno, que sabe que todas essas frescuras nada acrescentam ao savoir faire da espécie. Trata-se de preparar um prato que você saiba fazer, e para o qual necessite apenas dos apetrechos que já tem em casa e dos ingredientes que costuma adquirir. Estou falando da pizza fria.

Como no caso de qualquer outro bom jantar, a preparação começa com antecedência. Você precisa selecionar com apuro os ingredientes. Sendo um macho refinado, você já terá provado o repasto em solitário, antes de oferecê-lo à amada (ou candidata a). Sendo igualmente bem informado, terá à mão um sólido repertório de folhetos de pizzaria no qual poderá escolher o fornecedor de uma redonda de qualidade.

Tendo essa parte do plano em mente, faça contato com a beldade e apresente o convite. Se ela recusar, pare de ler esta porcaria e vá fazer algo mais útil. Se ela aceitar, anote o dia do encontro e faça a encomenda da iguaria um dia antes, pois todos sabem que a pizza fria oferece o melhor do seu sabor no dia seguinte.

Assegure-se de ter pedido uma pizza grande (oito pedaços), já que uma parte dos ingredientes costuma se perder no preparo. Ao receber o produto, consuma duas ou três fatias enquanto está quente. Afinal, o bom chef sempre prova seus pratos enquanto os prepara, e você precisa se alimentar para conseguir apreciar as emoções do grande dia. Reserve o restante. Deixe em repouso até o próximo dia pela manhã, de preferência num local apropriado, como o sofá da sala ou o chão do quarto. Então guarde na geladeira até o momento de glória. Sirva no papelão da embalagem – romanticamente projetada para refeições em casal, já que se divide em duas metades. Acompanha refrigerante sem gás, ligeiramente morno, que você terá deixado para fora da geladeira no dia anterior.

Com um jantar desses, sua noite será inesquecível!