Arquivo de abril, 2006

Questão de Direito

– Já chega Luiz Roberto.
– Hein?
– É isso mesmo. Já chega. Não agüento mais essa vida que levamos. Eu me descabelando e você aí sempre sereno. Como se o mundo fosse cor-de-rosa. Não vê todas as dificuldades por quais estamos passando?
– Calma Lucinha. Tudo vai se acertar, não é o fim do mundo.
– Nada de calma. To cansada de você me mandar ficar calma. É sempre assim, eu sempre sou a pessimista, me desculpa se eu enxergo e sofro com os problemas dessa casa. Vou acabar com essa porcaria. Já que só eu me estresso aqui, vou tirar um problema das costas de vocês.
– Vai trocar os colchões? Que bom amor.
– Ki colchão que nada Luiz Roberto, não me tira do sério. Vou é sumir, dar um fim em tudo. Luiz Roberto, eu vou me matar!
– Jura Lucinha. Mas você não pode…
– Não, não, não. Nem adianta tentar me convencer. Está decidido. Vou dar cabo na minha vida. Vou extinguir minha luz. Vou pras cucuias. Desista, nada me fará desistir.
– Não, nem vou tentar te convencer, percebo sua convicção. O problema é que você não pode mesmo. Independente de mim.
– Como assim não posso Luiz Roberto? Acha que não sou capaz? Acha que não tenho coragem? Hein? Hein? Sou uma mulher de fibra, enfrento os obstáculos de frente, não desisto fácil.
– Não é isso Lucinha. Você realmente é uma mulher extremamente corajosa, porém, desobedeceu a lei do suicídio.
– Hein?
– A lei do suicídio. Você a desobedeceu e agora não pode mais usufruir o seu direito.
– Do que você está falando Luiz Roberto? Não é aquela história de que o suicídio não é permitido por lei né?
– Não, não é não. Que história é essa?
– Ah, aquela história de que se eu tentar me matar e não conseguir, posso ser presa por tentativa de homicídio.
– Homicídio? De quem?
– De mim mesma.
– Que estranho.
– É, porque alguém assassinaria a si próprio? De qualquer maneira o que dizem é que não temos o direito de tirarmos nossa própria vida. Se fizer, tem que ser bem feito, caso haja falhas no processo farão de tudo para salvar você de você mesmo. Se você tiver a sorte de ser salvo do homicídio pode acabar indo preso.
– Mas e se você retirar queixa do crime?
– Daí eu não sei. Mas não muda de assunto Luiz Roberto, você atrapalhou toda minha concentração, como havia dito, eu vou me matar.
– Lucinha, já te disse que você não pode. Perdeu sua chance há cinco minutos atrás.
– Porque? Cinco minutos atrás? O que eu fiz?
– Você não podia ter me contado que ia se matar. Suicídios não podem ser anunciados.
– Como assim? Mas porque não? Sempre vejo na novela as pessoas ameaçando se matar. Teve até um ex-namorado meu que vivia me falando isso se eu largasse ele.
– E ele se matou?
– Não, me trocou por um alemão de 48 anos.
– Ah, aquele.
– É, mas me explica, porque não posso?
– Porque agora que você me falou, caso se mate mesmo vou me sentir culpado.
– Não precisa ter culpa não, a culpa é toda minha, eu que resolvi me matar.
– Não, não tem jeito, me causaria danos irreparáveis, assim você estaria não só acabando com a sua vida, mas também com a minha. Gastaria milhões em terapeutas, remédios antidepressivos, peregrinações no Nepal, e nada me livraria da culpa de ter deixado você morrer.
– Mas daria na mesma se eu não te avisasse.
– Nada disso. Se não me avisasse eu saberia que estava de mãos atadas. Não tinha opção, era o que Deus queria. Você, facultativamente deixaria um bilhete suicida onde explicaria suas razões e todos falaríamos: “Ah seu eu soubesse, teria impedido”. Viu? Zero de culpa.
– Ai Luiz Roberto. Não acredito que eu fiz isso.
– É, são as regras.
– To morrendo de raiva da minha boca grande. Já não bastassem todos os problemas agora mais esse.
– É triste né.
– Nem me fala.
– Vai dar tudo certo. Assiste a novela comigo.
– É.
– Mas me diz uma coisa, e se eu fizer parecer um acidente?
– Se ficar convincente, tudo bem.

Isso

“Coisa de louco!
– Difícil de acreditar que tenha acontecido.
– Ainda mais comigo.
– Justamente. Você não merecia. Não mesmo.
– Não sei o que eu fiz pra acontecer uma coisa dessas..
– Nada cara, isso não tem nada a ver com você, é coisa do destino, castigo divino, peças que a vida prega.
– Isso tudo é bobagem.
– É, eu sei, mas pelo menos deixa a gente menos perplexo.
– Foram anos e anos de indiferença.
– Não faz o menor sentido.
– Será que foi o cabelo?
– Não, nada a ver. Apesar de estar realmente uma merda.
– Mesmo?
– Sim.
– Preciso marcar a Ritinha no sábado.
– Ela faz milagres.
– Foram as roupas então.
– Se olha no espelho cara. Ela sempre gostou de caras descolados, você é um rato de escritório, engomadinho, vive de terno, não inova. Exclua a roupa da lista de culpados.
– Será que ela releu, pensando bem ,leu, as cartas que eu escrevia para ela no colégio?
– Você fazia isso?
– Sim.
– Perdedor.
– Vai me chamar de perdedor?
– Bem, pelo menos naquela época.
– Tudo bem. Então deve ter sido isso, eu escrevia super bem, textos fofos e bonitinhos.
– E desde quando isso funciona com as mulheres?
– Nunca, mas vai saber, você mesmo disse, pode ter sido um milagre.
– Ela só ter falado com você teria sido um milagre, mas o resto, nem Deus explica mesmo.
– Quem diria, a mulher mais gostosa da escola, depois de alguns anos de formada é verdade, mas ainda muito gostosa, me convidou para sair.
– Ninguém.
– Ninguém o que?
– Diria.
– Ah. É mesmo, lógico.
– Justo agora que você começou a namorar a Carlinha.
– Nem me fale. Timing muito errado.
– Mais estranho ainda as duas serem amigas de faculdade né.
– Totalmente. Não da para entender.”

Almoço da “firma”

Que o leitor não se deixe enganar, funcionário é funcionário em qualquer lugar. Na rua, na chuva, na fazenda, onde existir um patrão, vai existir um funcionário; e onde existir um funcionário vão existir os boatos. É… os boatos! Porque sabe uma coisa que divide os funcionários dos patrões? Se você disse boatos, errou. O que divide os dois é o dinheiro, sim; o dinheiro. Quem tem de quem não tem, ou de quem quer ter, seja lá como for. Caso este que; todo, eu disse, todo funcionário tem algo a reclamar, afinal o ser humano é insaciável por natureza (aqui cabia um comentário de algum filósofo… é, algum filósofo já deve ter dito isso um dia).

Enfim: das insatisfações alheias surge sempre a vontade de conversar e falar sobre o que está acontecendo, uma necessidade de se expressar que é intrínseca aos humanos (olha outro filósofo que perdeu a citação por falha de memória do autor). Dessa necessidade surge a compactuabilidade dos envolvidos e que finalmente culminará em um: almoço da “firma”. Firma, sim, porque não importa onde você trabalhe; se você trabalha, você trabalha em uma “firma”.

O famigerado almoço em questão é nada mais nada menos que o celeiro dos boatos: se existe algo pra ser dito, fatalmente será dito em um almoço. Você dono de empresa, micro-empresário, patrão em geral, que me lê neste segundo pode dar seu testemunho se for, agora, a hora do almoço. Faça assim: ponha sua mão esquerda sobre a orelha do mesmo lado e sinta se não há um certo ardor neste pequeno órgão auditivo? São nos almoços, aqueles que você menos se importa, aqueles do dia-a-dia que as coisas acontecem, que pessoas ficam grávidas porque fulana falou de ciclana que soube de beltrana que a Teresinha engravidou, mas não falou pra ninguém porque tem medo de ser mandada embora; que os salários são reivindicados, que as injustiçadas promoções são choradas, que a falta de reconhecimento e desmotivação são comparadas, que as verdades são ditas. Não me espantaria saber, a esta altura da minha vida, que a Revolução Francesa nasceu de um almoço sans-cullote, ou que Antonio Conselheiro, cansado de comer cabra ensopada, resolveu falar sobre a República na hora da prece que antecede a refeição aqui referida.

É no almoço da “firma” que se conhece quem tem calça curta ou comprida, quem é republicano ou quem é ‘monarquista’ (sabemos que não era exatamente esta a postura canudense, por assim chamar), quem ‘tá junto’ de quem ‘tá contra’. Muito se fala, muito se ouve e acima de tudo, muito se compartilha. Uma terapia de grupo casual onde o que importa é falar mal e se tiver alguém infiltrado, seus dias estarão contados porque “se você não é um de nós; você é um deles”! Quer saber como melhorar a sua empresa? desculpe, quer saber como melhorar a sua firma? Pergunte-me como! Almoçe com seus funcionários. Não, não… se você for junto nada será dito, pois não será um almoço da firma, afinal. Mas você sempre pode ir à um happy hour da firma. Quem sabe em um outro texto!

Golden-UAI

Uma figura misteriosa corre pelas vias subterrâneas do MI 6, o famoso desserviço secreto de espionagem, rumo à sala de conferências. Abre as portas com estrondo, atraindo a atenção dos figurões reunidos em volta de uma lousa escolar, na qual M, que atende igualmente por “Meu patrão”, acaba de traçar complicados gráficos. O agente 00Zé – sim, é ele mesmo – está atrasado, e procura evitar os olhares severos demonstrando interesse pela reunião: “Isso aí é nosso plano de ação, chefe?”, pergunta, apontando para a lousa com o palito que segura entre os dentes. “Nénão, é a tabela da série B do Brasileirão, nóis tamo fazendo um bolão pra apostá si o XV de Piracicaba vai sê rebaixado”. As altas autoridades lançam suas apostas e M incumbe 00Zé de ir até a casa lotérica mais próxima fazer os jogos na Loteria Federal. Na saída, M chama seu espião predileto de lado: “No caminho da lotérica, vê si ocê discobre arrrgo sobre um tar de Golden-UAI”. “Golden-UAI? Que trem é esse?”. “Pois é, ele qui vai te dá a resposta”.

Assim, nosso herói vai procurar o velho projetista Q, inicial de “Que trem é esse?”. Ele o informa que Golden-UAI é uma arma secreta estrangeira, trazida do Estado de Minas disfarçada num treminhão de soja, e que consiste num lampião a laser com poder destrutivo inimaginável. Os mineiros pretendem apontá-la sobre a Avenida Paulista utilizando-a como ameaça para exigir a anexação do Estado de São Paulo e a proibição de todas as piadas sobre mineiros. “Afe”, exclama nosso agente, “agora parece qui os minêro num qué mais comê quieto, não!”. “Pois é”, adverte Q, “si eles usa o Golden-UAI ni nóis, vai sobrá só os sapatinho! Mai num si prôcupa não, qui eu já pensei numa solução”. Abrindo seu sorriso desdentado, Q entrega a 00Zé um invólucro contendo dois diminutos cilindros de borracha. O sagaz espião compreende logo: “A borracha é pra cortá a transmissão elétrica do baguio, cerrrto, Q?”. “Nada, isso aí é um protetô d’orêia procê num ficá surdo ca ixprosão!”.

Sem palavras diante de tamanha consideração pela sua pessoa, nosso herói parte como um raio, tendo levado apenas quatro horas para engraxar e polir suas botinas de pelica. Astuto como ele só, não leva mais do que a tarde inteira para deduzir que o treminhão no qual está escondida a arma letal está provavelmente estacionado à beira da estrada.

Quando chega ao primeiro posto de gasolina na rodovia Anhangüera, já é de noite, breu de lua nova. Aproximando-se da traseira de um dos caminhões estacionados, 00Zé risca um fósforo para iluminar o caminho e estudar o terreno antes de proceder à atividade de espionagem, que domina com maestria. Depois de queimar os dedos em três fósforos sucessivos, apanha o lampião dependurado no veículo. “O dono num vai si imporrrtá di colaborá co MI 6, né?”.

Então ele lê, na borda do artefato, a inscrição: “GOLDEN-UAI. Manipular con precaución. Hecho en Paraguay”. A chama se torna cada vez mais oscilante à medida em que nosso agente começa a tremer feito vara verde. O mostrador indica 015 segundos. Enquanto 00Zé se pergunta o que fazer, os números vão decrescendo. 014 segundos. Ele tira o vidro do lampião. 013 segundos. Percorre com o olhar todos os fios coloridos. 012 segundos. Fica nervoso com o tique-taque do relógio. 011 segundos. Começa a suar em bicas. 010 segundos. Assopra a chama do lampião. 009 segundos. Cospe na chama do lampião. 008 segundos. Vira-se de costas, agacha-se, põe os protetores de ouvido e prepara-se para o pior. 007 segundos. Um assovio. E, inexplicavelmente, a bomba pára.

Nosso herói se reergue lentamente, conferindo se cada parte do seu corpo está no lugar certo. Tirando o fedor de mijo, tudo perfeito. Sem aguardar esclarecimentos, 00Zé recolhe a arma desativada e retorna em direção à central em velocidade máxima, parando apenas sete vezes no caminho para cochilar debaixo de uma mangueira ou encher o bucho no Frango Assado. Ao chegar, lamenta-se com Deiz Merréis:

– I agora, cumé quieu vô ixpricá?
– Mas ixpricá o que, hómi?
– Ai, num tem como ti dizê, Deiz Merréis, ocê qui é moça di famia qui eu respeito tanto. As palavra mi farrrta.
– Isso eu sei, tonto, é a emoção di mi vê! Mais pode pedi qui eu sei qui vô respondê “sim”!
– Num é procê não, é pro M.
– Pro “Meu pai”?
– Não, o M “Meu patrão”, memo.
– Credo, ocê vai pedi ele também em casório?
– Não, sua xucra, ixpricá como acabô a missão. Ocê num tem como mi arranjá um dicionário, não?

Ela atende seu pedido e o observa desapontada enquanto ele folheia as páginas do pai dos burros (o que nos leva a concluir que todos no MI 6 são filhos ou do Aurélio ou do Houaiss). Deiz Merréis fica puxando cada trança com uma mão, como se fossem penduricalhos de cortina, e murmura desenxabida: “Ocê tem cerrrteza qui num qué pedi mais nada pra mim, não?”. Acabrunhado, nosso agente deixa a secretária sem resposta (mas não sem um beliscão na bunda), e entra na sala do chefe.

Fazendo valer ao máximo a auto-confiança que o notabiliza, ele se senta na borda da cadeira de balanço, olhando para o chão ao mesmo tempo em que rói as unhas e torce os pés. Depois de quinze minutos nessa posição altiva, atrai a atenção do clarividente M, que compreende rapidamente o que está acontecendo:

– Veio aqui di novo pra usá o meu mictório, 00Zé?
– Nada, patrão, tô é mi torrrceno di nerrrvoso, memo!
– Nerrrvoso di que, hómi?
– A bomba, patrão!

Do alto de sua experiência, M percebe que a situação é grave e exige uma resposta ponderada:

– Afagá muié casada dá nisso, 00Zé, agora vô tê qui descê chumbo em mais um corrrno!
– Não, patrão, dessa veiz foi a bomba di verrrdade!
– Vixe! Foi a muié do prefeito?
– Não, aquela di Minas.
– Tá quereno arranjá intriga internacional pra nóis, 00Zé? Nóis num ti paga viage procê ir forrrnicá nos ôtro Estado!
– Patrão, mi ôve pelamordedeus, foi a bomba di verrrdade, Golden-UAI, qui veio di Minas, qui ia ixprudi co nóis tudo, e eu disarrrmei.

M abre um sorriso de satisfação, levanta-se e chacoalha a mão direita de 00Zé com veemência: “Esse é o meu minino! Num sabe ixpricá as coisa direito, mais trabaia quié uma belezura! Pur isso quieu falo qui ocê é meu agente preferido, 00Zé!”. Encabulado, nosso espião tenta segurar suas calças com a mão esquerda, para evitar que elas caiam enquanto M sacode sua mão direita. “Mas, patrão, quem disarrmô mesmo a bomba foi o flato”.

Ao sair da sala do chefe, 00Zé coloca o dicionário na mesa de Deiz Merréis, olha para ela triunfante e exclama:

– O qui seria de mim sem ocê, minha forrrmosura! O seu dicionário sarrrvô a minha vida!
– Ai, Zé, qui assim ocê mi deixa toda enverrrgonhada! Quiqui foi quieu fiz?
– O M acabô di mi promovê, meu bijuzinho! Disse qui eu sô o agente preferido dele, qui resorrrvi um pobrema pra lá di cabeludo, qui mostrei muita iniciativa i competência montano minha própria equipe, i qui daqui pra frente posso chamá o agente F sempre qui quisé!

Novos Desafios

“Tem certeza que é isso mesmo?
– Lógico que tenho, acabei de sair da reunião.
– Para mim, isso é inédito.
– Imagina. Tem isso em todo lugar.
– Eu não sei não. Acho muito suspeito.
– Você é desconfiado.
– Será? E se for uma forma de te encostar?
– Me encostar? Ficou louco?
– Eu já vi isso. Um primo do irmão da Jú me disse que eles fazem isso lá o tempo todo.
– Lá onde?
– Lá.
– Lá não é lugar nenhum.
– Lá é lá!
– Você é paranóico. Esse seu emprego é bizarro.
– É nada. É digno!
– Contar lactobacilos é digno?
– Lógico, trabalho super especializado. E tenho que cuidar da saúde deles.
– Achei que eles é que cuidavam da sua.
– Há há há. Estou rolando de rir.
– Calma. Não precisa ficar bravo. Vamos comemorar meu novo cargo e a longa vida dos lactobacilos vivos.
– Eles vivem só um mês.
– Que coisa triste.
– É para isso que eles servem, nascer e depois morrer.
– É até poético
– Mas ainda acho que esse seu cargo novo é fria.
– Não da para mudar de assunto.
– Não. Você é meu amigo, preciso estar certo que você tomou a decisão correta.
– Você também é amigo dos lactobacilos e eles morrem um mês depois.
– É o destino.
– Pois é, meu destino é o sucesso, a fortuna, o céu, o mundo.
– Acabou.
– Sim.
– Podia ter falado mais baixo
– Eu sei.
– Tem gente em volta
– Me desculpe.
– Na faculdade teve um cara que falou que tinha uma empresa que tinha um funcionário que talvez fizesse isso aí que você vai fazer.
– Até parece. Estou pensando no cartão. Não sei se ponho “inteligência de marketing” ou “marketing intelligence”. O que fica mais chique?
– Tanto faz, eu acho que isso não existe.
– Fala sério
– É sério. Inteligência em Marketing. Nunca tinha visto antes.”

Ninho de amor

Eles estão abraçados, corpos nus, quentes, um lençol branco serve de laço para a junção de dois em um. Ela com o lado esquerdo da face deitada no ombro esquerdo dele, olhando para uma grande parede cor de sangue, iluminada por alguns spots de luz amarela. Ele segurando o pescoço dela , uma larga janela de vidro, esquadria marrom escuro combinando com o tronco da árvores do parque. Quietos, ouvem apenas o som de “Comptine D’un Autre ete : L’ap”. Os acordes do piano.

Ela suspira denunciando o assassinato ao silêncio que vai cometer.

– Sabe o que eu adoro?

Ele faz cara de desgosto, como se tivessem derrubado seu castelo de cartas.

– O que gatinha?

– Adoro ficar assim juntinho. Abraçada, a respiração fica até difícil de tanto que te aperto. Assim sinto que você nunca vai sair de perto de mim. Não é?

Ele com o olhar perdido na esquadria escura da janela pensa. “Porque não troquei por algo mais claro?”

– É verdade gatinha.

Ela vira os olhos para cima, morde seu lábio inferior com os dentes branquinhos.

– Fico pensando no nosso casamento. Quero casar num jardim bem grande viu amor. Assim vou poder chegar maravilhosa, toda de branco, num landau branco, as madrinhas alinhadas vão formar um arco-íris no altar, não fica parecendo um casamento gay né amor.

Estranho ter deixado a esquadria escura aparente, ele lembra muito bem de falar pro arquiteto que queria tudo branco, cores só nos detalhes.

– Não amor, não fica não.

Ela o aperta mais forte, ainda que tenha sentido uma de suas vértebras estalar.

– Que bom, porque eu adoro madrinhas coloridas. Todas as doze. Uma de cada cor. Acho que vou dar o amarelo pra Matilde que vive sorrindo como um daqueles “solzinhos” que desenhamos na pré-escola. O rosa vou dar para a Tetê que é uma bonequinha, mas corta meus braços se não guardar essa cor pra ela. A Lúcia fica com o verde, ninguém gosta do verde então dou pra ela que se contenta com qualquer coisa. O roxo pensei em dar para a Van, acho que ela tem cara de roxo. Talvez por tanto apanhar do João. Ai credo. Você acha que pega mal amor?

Tem que dar um jeito nisso, “será que dá pra falar com o gesseiro hoje?”, tem que fazer uma moldura pra isso, depois de tanto tempo arrumando a casa descobrir uma falha dessas. O que as pessoas vão pensar dele, um cara que faz tudo no apartamento mas deixa as esquadrias escuras. Coisas ruins com certeza. Pode até deixar de ser convidado para os eventos da turma.

– Pega mal sim amor.

Apertando mais um pouco, ela sente que deslocou o ombro dele, mas continua.

– É, depois penso nisso. O que importa é que vai ser lindo? Nós dois, super apaixonados, desfrutando da realização de nosso maior desejo. Não consigo parar de pensar nisso sabe. É a coisa mais importante da minha vida, nada mais tem importância. Você não concorda amor? No que está pensando?

É, assim que sair daqui vai pegar a agenda, isso não pode passar dessa semana.

– Em nós amor. Em nós.

O telefonema

_Bom dia. Você ligou para a VERDA Telefonia Celular. A melhor em todo o território brasileiro. Se você já é um de nossos clientes, digite 1. Se você…
_1!
_Digite o número de seu celular começando pelo DDD, seguido de estrela.
_(15) 9129XXX3*
_Por favor, aguarde. Estamos transferindo a sua ligação para um de nossos atendentes.
(“…se eu não te amasse tanto assim…”)
_Não é possível, o que esses caras fazem? Tricô? ATENDE, C*!
(“…talvez eu visse flores… deeeeeeeeentro de mim…”)
_VERDA Telefonia Celular, 5% de desconto em chamadas internacionais, Juliana falando, bom dia, em que posso ajudar?
_Alô, bom dia, é o seguinte: já tô esperando vocês me atenderem a mais de meia hora; eu tô com pressa, preciso trabalhar! Chegou uma conta enorme para eu pagar, sendo que não fiz essas ligações. Tem até chamada para a África, não conheço ninguém lá!
_Qual o seu nome, senhor?
_João.
_Por gentileza, Seu João, poderia estar falando o número do seu telefone?
_Mas eu já digitei ele quando a gravação pediu!
_Mas preciso dessa informação, senhor.
_Mas para quê então vocês pedem para discar o número do celular no início da ligação?
(silêncio)
_Senhor João, poderia estar passando o número do seu telefone?
_Meu Deus do céu, você é surda? Por que não responde `as minhas perguntas?
_O senhor que não respondeu ainda, por favor, me fale o número do seu telefone,
_Arrrr… (15) 9129XXX3.
_O celular do senhor é pré ou pós pago?
_Minha filha, se eu falei que tenho que pagar conta, o que…
_Senhor, aqui consta que o senhor não pagou a última conta.
_Mas meu São Cristóvão, a senhora não ouviu o que eu falei? A conta veio errada, eu não vou pagar!
_Então não posso estar te ajudando, senhor.
_Escuta aqui mocinha…
_Juliana.
_Escuta aqui, Juliana, você é paga para quê?
_Para atendê-los bem, senhor.
_Tô vendo que você pode ser demitida por justa causa então.
_Aguarde 1 minuto, senhor, vou transferir a ligação para o setor de pós pago.
_Mas moça, por que você me fez esperar todo esse temp…
(“Oh! Don’t yo gooo… Stay with me one more daaay…”)
_Almeida, setor de pós pago, com quem falo?
–Almeida, pelamordedeus, eu já expliquei prá mocinha toda a história, não me diga que vou ter que repetir tudo?
_Com quem falo?
_João.
_João do que?
_Ai… João Senegal.
_Qual o número da sua linha?
_DE NOVO?
_Por favor, qual o número do seu telefone?
_(15) 9129XXX3.
_Aqui consta que o senhor não pagou a última conta.
_EU SEI DISSO! POR ISSO ESTOU LIGANDO!
_Então não deveria ser a gente ligando apar o senhor? Afinal, o senhor nos deve uma bolada!
_Realmente, a única coisa que estou pensando é em te dar uma bolada…
_O senhor está com problemas financeiros? Podemos parcelar esse pagamento…
_NÃO! A conta veio errada, eu não conheço ninguém na África! Por isso não vou pagar!
_Mas o senhor não se chama João Senegal?
__Sim, e o que tem isso?
_Senegal não fica na África?
–AAAAAAAAAA!!!
_Por favor, soletre Senegal para que eu localize no mapa.
_Grfjoiad….. S de sapo.
_De saco?
_Não, de sapo, com P de pato.
_Como?
_What ever!
Senhor, por gentileza, utilize nossa lingual nativa, brasileira, não Africana.
_Como se soletra VERDa, hein? Com M de Merd…
_Como, senhor?
_Olha só, eu já tô de saco cheio. Vou pedir pela última vez: Meu nome é João Senegal, com S de sapo, sou brasileiro, não conheço nenhum africano e recebi uma conta errada. Por favor, corrijam o erro e mandem a conta certa para que eu possa pagá-la.
_O senhor possui qual plano?
_O de 250 minutos.
_Ah, sim. Por favor, aguarde um minuto na linha, estarei transferindo sua ligação para o departamento responsável.
_NÃÃÃÃÃÃOOOOO!!
(“…se chorei ou se sorri… o importante é que emoções eeeeeu viviiiii…”)