Arquivo de maio, 2006

Livros, Privadas e Dois Vermes Fumegantes

Só no bar as coisas bestas da vida tomam ares de discussão filosófica com propriedade. As mesas próximas, o chopp contínuo e a catarse coletiva legitimam qualquer tipo de embate. Este estabelecimento único presencia as maiores perdas de tempo da humanidade e ainda assim lhes dá o título de válidas.

Numa mesa fictícia composta por seis rapazes nos seus vinte e vários anos as inutilidades intelectuais se alternam, indo da literatura sanitária até um mundo de cuecas.

– Eu levo livro pro banheiro sim.
– Que desrespeito!
– Olha ele nunca reclamou. Fico sentado horas lá e olha….nunca nem quis discutir a relação.
– Você vai ver na hora que pegar alguma doença.
– Que doença?
– Algum tipo de verme sei lá, fica com esses livros abertos no banheiro pra você ver, suas páginas devem estar infestadas de bactérias nocivas.
– É verdade, bem lembrado, obrigado por me avisar, assim nunca mais vou passar meus livros na cara.

Ás vezes você pode ter a impressão de que algo de realmente importante vai brotar de determinado assunto. Colocações cheias de reflexão, argumentos sólidos, opiniões firmes. É só impressão mesmo.

– Sou contra o “juntamento”.
– Contra o “juntamento”?
– É! Essa história de morar junto. Não concordo. Ou casa ou namora. Não existe esse negócio de “eu pego minhas coisas, você pega as suas e vamos morar juntos”. Tem que haver cerimônia, benção do padre, assinatura em cartório. Sem isso não vale nada. Não leva a lugar algum. O “juntamento” é uma instituição falida.
– Você fala como se os casados no papel se dessem melhor. Tem maiores complicações legais, custos altos de festa, sendo que o efeito é o mesmo na vida prática. Não precisamos viver com o fardo de “se casar”, vivemos como sempre vivemos.
– Mas cara, quando você junta os amigos não tem festa pra aproveitar.
– Você é um egoísta mesquinho.
– E também deixa de ganhar presentes.
– …

O ápice de qualquer debate de mesa de bar é a D.R. Discussão de Relacionamentos. Por anos esse tema freqüenta as bocas dos humanos e nem ao menos uma vez chegou-se a uma conclusão definitiva.

– Olha, se acontecesse um cataclisma que dividisse o planeta em duas metades. Toda a raça masculina ficaria de um lado e a feminina do outro.
– Que coisa impossível.
– É só uma premissa para eu expor minha idéia. Assim teríamos um mundo só de homens e um só de mulheres.
– Que idéia estúpida. Um mundo só de homens. Pra que?
– É só uma suposição para a pergunta que vou fazer.
– Faz então.
– Qual mundo você acha que daria mais certo? O dos homens ou das mulheres?
– Nós teríamos vídeo-game?

Devotos

– Você acredita que o Tavinho não sabe o que significa o feriado de Corpus Christi?
– Eu também não sei.
– Como você não sabe?
– Não sabendo.
– E ainda se diz católico.
– Nunca me digo católico.
– Ah não? Se diz o quê?
– Não me digo nada. Minha religião é Deus.
– Ah, você tá nessa também? Odeio gente dessa religião.
– Que religião?
– Deus.
– Como assim? O que você está falando? Você não é católico? Como pode odiar quem acredita em Deus?
– Não odeio quem acredita em Deus, odeio gente que tem Ele como religião.
– E por que isso?
– Porque acho que é preguiça.
– Preguiça?
– É, preguiça. Pura preguiça. A pessoa não se dá nem ao trabalho de escolher uma religião. Não procura ler e conhecer os ritos, os dogmas, os cultos. Se limita a dizer que sua religião é Deus. Pura preguiça e comodismo.
– Você é louco!
– Sou nada. E te digo mais, prefiro satanistas do que seguidores do “minha religião é Deus”.
– Mas que absurdo! Baseado em que você diz isso?
– Os satanistas ao menos têm uma linha de conduta. Sacrificam animais, virgens, desenham pentagramas etc. Mas têm uma linha de conduta. Você nunca verá um satanista comendo ovo de páscoa. No máximo degolando alguns coelhos aqui e ali. Mas nada que violente seus credos.
– Você só pode estar brincando.
– Falo muito sério.
– Você precisa rever seus conceitos.
– Me faça mudar de idéia, então. Te juro que mudo de opinião se me der uma razão convincente para sua crença.
– É simples. Não acredito nas instituições criadas pelo homem para doutrinar os mais fracos. A história nos mostra que o ser humano sempre se aproveitou da fé para manipular os que a tinham, e assim, matando e controlando, obtiveram poder para transformar o mundo numa grande corporação que oprime os fracos e enriquece os detentores do sagrado.
– Blah. Bobagem.
– Mas….não vê que…ahhh…não tenho mais o que dizer pra você. Não vou perder meu tempo.
– Viu? Preguiça.

Fumaça

“Ele começara a fumar charutos quando ainda na intempérie da juventude. Aprendera com seu pai, advogado muito respeitado em Ituverava, que se aposentou em Ribeirão Preto. Queria uma pouco mais de agito, ele costumava dizer. Aprendera também com o pai, a arte de ter paciência, até porque não se pode fumar um charuto com pressa, ainda mais cubano, de capa escura, seu favorito. Teve a sorte de viver em um ambiente no qual o tabaco era respeitado, longe de qualquer demagogia pseudo-sanitária.

Criara hábitos próprios, rotinas metódicas, em tudo, principalmente no que dizia respeito aos charutos e as bebidas. Eram suas atividades favoritas, independentemente do momento ou da época. Não tem hora certa para isso. Os amigos o conheciam pelos ditos e não ditos:

– Nunca peça um charuto, espere que eu ofereça. Se eu não oferecer, bem, faça por merecer da próxima vez.
– Não misture nenhuma bebida, nem dissolva em gelo. Agüente como um homem. Seja um homem. Pare com essa frescura.

Ninguém nunca soube o que fazia uma pessoa ser merecedora de um charuto ou não, mas as vezes ele guardava charutos bem velhos e estragados para se divertir as custas dos incautos:

– O amigo tem um desses para mim?
– Desse não, tenho um melhor, faça a gentileza.
– Muito obrigado, o cheiro está ótimo.

Não há nada mais divertido do que ver um incauto tentando entender por que diabos ele não consegue fumar um charuto que parecia tão bom na mão de outrem.

A primeira vez que eu o vi abrir uma caixa de charutos e distribuí-los foi no pré-casamento da filha, que ele fez questão de chamar apenas os amigos e familiares mais íntimos para comer uma boa comida, tomar uma boa bebida e degustar um bom charuto.

– Amanhã teremos tudo que é bom. Hoje só aceito o melhor.

Aprendera com o mesmo pai que o bom serve para muitos, mas o excelente apenas para poucos. Não precisamos de excelentes governantes, apenas bons bastam, dizia o velho no fim da vida. Ele dizia outras coisas também. Mas nada que valha repetir aqui.

Eu lembro bem da última vez que o vi, terminamos de fumar nosso charuto de domingo, ele estava satisfeito com o resultado do jogo, me serviu mais uma dose de conhaque. Falava pelos cotovelos sobre o apartamento da filha, a viagem de lua de mel e o quanto aguardava para ter netos.

Deixou o charuto encostado no cinzeiro e a fumaça foi minguando aos poucos. Junto com ela, ele aos poucos também. Fará muita falta.”

Louco é quem me diz

O Louco é uma coisa doida. Acha que sempre está certo, não vê que é louco? Só ele tem verdadeira convicção, afinal é irredutível, irrepreensível e incontrolável. È burro quem discorda, nem adianta me mandarem mensagens de reclamação, isso é fato e ninguém está na posição de me corrigir nesse momento, e quem tentar só pode estar louco.

Muito mais louvável do que o são o biruta é. É fácil falar o que as pessoas dizem, aceitar o que mandam ou desconsiderar o fato que Eles sempre estão nos vigiando, prontos para num mero deslize nos tirar o que temos de mais valioso. Nossos bagos é claro. O Louco desafia, discorda, quebra paradigmas, se é que os tem. Isso sim é coisa de homem. Pra falar a verdade só o Louco é homem de verdade. Os outros são porcos. Isso, porcos.

Oinc, oinc. É o que dizem os sãos, mas será verdade? Porque a fonética é variável de acordo com o idioma. Os Loucos são muito mais racionais. Falam em sua própria língua, não tentam fazer o que não sabem. Isso é loucura. Fala o que sabe e entende o que dizem. Se você vir um Louco e um porco conversando sabe que os dois estão se entendendo, interagem, muito melhor do que os Sãos, que porcos são.

Dizem que são Sãos aqueles que são providos de equilíbrio e sensatez. Não são Sãos então aqueles que dizem que são. São verdadeiramente Sãos então aqueles que conversam com um cão com a sensação de que eles querem-lhe cheirar a mão. Vão dizer não a convenção dos falsos Sãos. Sabem enfim quem roubou pão na casa do João.

Meio São é aquele que de acordo com a situação escolhe como será a ação. Não é louco ao ponto de explicar a um bebê como ele foi concebido mas pede pro cachorro ir buscar o jornal quando está com preguiça. O meio Louco costuma progredir com o tempo. Vira Louco, ás vezes até de pedra, que é muito mais evoluído e raro do que um Louco normal. Difícil de se encontrar hoje em dia um Louco de pedra, de origem eu digo. Não esses falsos Loucos que tem que usar algum tipo de substancias para evoluir. Não evoluem. São Sãos e sempre o serão.

Loucos enfim, só são, quando são Sãos. E são Sãos aqueles que são Loucos o suficiente pra saber que a sanidade não reside no ser. A noção de loucura pertence sempre ao Louco que acusa o São. São Loucos então aqueles que acham que não são. Isso é verdade, e você é doido se não acreditar.

Algo Mais?

Mile Davis, Julian Cannonball, Hank Jones, Sam Jones e Art Blakey dão o tom da crônica. O disco é “Somethin’Else”. Novo. Primeira vez no iTunes.

Pra quem não sabe, o nome disso é Jazz. Com licença.

Paro um pouco de escrever. Preciso agitar o gelo do meu copo. O tilintar dos cubos no vidro me lembram o “scotch” das partidas de pôquer do meu velho. No meu caso: refrigerante. Eu sei, eu sei … não se fazem mais escritores como antigamente.

Volto meus olhos para a tela. “Autumn Leaves” já é uma bela lembrança. “Love for Sale” é o que rege meu digitar agora.

Olho para um lado, uma porta. Olho pro outro, uma janela. Pra cima, o teto. Pra baixo, adivinhem, o chão. Ufa!

Minha cabeça coça. O frio me fez usar boina. Não tenho mais cabelo. Descobri que sou alérgico a lã. Só na cabeça, é claro.

Um garoto de 12 anos olhou pra mim e disse : “Solteiro, né?”. Assaz perspicaz o garoto, pensei. “Como sabe?”. “Não falas de mulher, foto nenhuma no Orkut”.

Moleque atrevido.

É por opção. Droga!

Delas.

O gelo está quase acabando. O refrigerante também. Preciso de algo mais forte.

Escovo os dentes e bebo água.

Quase um copo inteiro. Desce queimando. Sou forte. Me sinto melhor, agora.

“Somethin’Else” é o tema da vez. Hank Jones me acompanha nas teclas. Ele me supera, eu sei. Mas, garanto que meu português é bem melhor.

Dois copos vazios na mesa. Nada alcoólico. Eu sei, eu sei. Cadê o glamour?

Tem um pouquinho ainda no pote azul dentro do armário do banheiro. Ali debaixo da pia, sabe? Isso. Melhor usar em uma hora mais adequada.

“One for Daddy-O”. Miles Davis esfrega minha insignificância no Mundo com seus solos. Maldição.

Art Blakey me acalma com suas baquetas. Minto! Pelo som, deve estar usando aquelas, como chama mesmo, acho que é “vassourinha”.

Cannonball entra na conversa com seu sax. Meio bêbado, meio sedutor. “Dancing in the Dark”, meus caros, tinha que ser “Dancing in the Dark”.

Me mandam um link com fotos da Sharapova. Sim, sim. O Mundo ainda tem chance.

“Alison’s Uncle” pra acabar com a conversa. Sam Jones, como todo baixista que se preze, não diz nada. Tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum.

Um solo … preciso apenas de um solo para acabar.

Miles, Cannonball, Blake, alguém me ajuda?

Ninguém … todos solam junto. Inferno. Queria só UM solo.

Bem que dizem que Jazz é para poucos.

Mais um copo. Água de novo. Cowboy. Hoje eu me acabo.

Blake! Um solo, afinal … Agora com baquetas!

Obrigado, amigo.

E agora pra vocês:

O final.

Biscoito

Um biscoito é um pneu que você pode comer. Sim, eles são quase a mesma coisa! São redondos. E se for Negresco, aí então, diria que são idênticos. Caso tenha dúvidas faça o seguinte: ponha um pedaço de biscoito Negresco na boca e mastigue 32 vezes. Engula. Agora, com uma faca bem afiada, descasque um pedaço de pneu e ponha na boca. Repita a experiência anterior e sinta a similaridade de textura e sabor. Sinta o doce do pneu como se estivesse cantando biscoitos no asfalto. Veja que a proximidade de formato engana mais do que parece, se você estiver distraído será incapaz de distinguir um do outro. Outro dia eu mesmo peguei um pneu e abri ao meio só pra lamber o recheio. Meio vazio, confesso.

Bom mesmo são as qualidades funcionais que aplicadas a um ou a outro são bastante eficazes, como a comprovada, por mim, outro dia na via expressa da Marginal do Rio Pinheiros. Aflito por não ter conferido se o estepe estava devidamente calibrado e recheado, perdi a cabeça me culpando por ter esquecido do – agora maldito – estepe, quando percebi que havia um pequeno pacote de biscoito no porta-luvas. Foi como se eu tivesse uma segunda chance, uma verdadeira redenção. Troquei o pneu e rodei com o biscoito até a borracharia comendo um pedaço do furado entojo. Sim, porque apesar da similaridade entre eles um pneu só pode ser consertado na borracharia. Imagina que loucura se as pessoas começarem a levar biscoitos para lá, para trocar o recheio?

Se você reparar bem vai perceber que uma atitude bastante prudente seria levar um biscoito sobressalente para as horas que você sente seu estômago furado de fome, assim você não precisaria correr para casa arriscando a morder o pneu e ficar parado na rua. Se bem que, você sempre pode comer um pouco do pneu até o seguro chegar com ajuda e um lanche. Um biscoito, talvez.

Pelos velhos tempos

Tempo houve em que podiam ser chamados de “chapas”. Talvez no mesmo tempo em que tal denominação era ainda usada. A despeito da atual amargor da relação, é inegável o vínculo de uma proximidade passada. Cada um seguiu seu caminho: um, tortuoso e recompensador; outro, curto e nada misericordioso. Um pra cima, outro pra baixo. Mas num desvio de rota o de baixo apareceu lá em cima com um pedido. Pelos velhos tempos.

– Olá.
– Olá, que surpresa sua visita.
– Nunca achei que me receberia.
– Sabes que não sou de guardar rancor.
– Não mais.
– Todos evoluem.
– Até Tu?
– Se pertenço a todos.
– Creio eu que sim.
– Mas diga-me, qual motivo da visita.
– Venho para pedir um favor.
– Os faço com grande prazer àqueles que a mim escutam.
– Não sou dos melhores em absorver ordens.
– Sei bem disto. Mas não ordeno, aconselho.
– Se assim diz.
– Mas diga-me o favor. Quero saber.
– Como se não o já soubesse…
– Sei, por certo, por isso o deixei entrar, mas o favor nunca há de ser pedido antes de sair de sua boca, até então é apenas suposição na qualidade de certeza.
– Tal coisa não existe. Se é suposição não é certo e se é certo não é suposição.
– Deve saber que tenho minhas idiossincrasias.
– Sei bem.
– Mas diga.
– Quero voltar para o Céu.
– E por que isso?
– Me permite?
– Independente de te receber de volta, quero antes saber suas razões.
– Quero voltar porque fracassei.
– Não concordo.
– Com minha volta ou razão?
– Com seu fracasso. Você é reconhecido por todos, tem um trabalho estável e está em crescimento.
– Mas minha taxa de fidelidade é muito baixa. Por minha culpa mesmo, afinal não ofereço nada àqueles que me seguem.
– Eu também não.
– Oferece, sim.
– Nada que sozinhos não possam ter.
– Talvez. Mas o fato é que só vêm a mim os renegados por ti. Não sou escolha.
– Reclamas de boca cheia. Já tentou a mercadologia?
– Fujo dela como fujo da cruz. Uma vez recorri a tal estratégia, mas não me dei bem. A distribuição foi mal feita, o produto não tem diferenciais fortes e o preço é alto. Só tu sabes como lidar com essa gente. Já analisei bem a situação, sou um fracasso.
– Te entendo. Não posso te aceitar de volta, Lúcifer. Ainda que tenhamos uma história e seja eu a compaixão em pessoa, não tenho como.
– Mas por que? Pelo seu amor me aceita.
– Não será possível. Estamos num programa de downsizing.

A Vida é uma Merda

“Sim, a vida é mesmo uma merda. Não importa se você é rico, pobre, alto, magro, gordo, feio, bonito, famoso, forte, fraco, tímido, divorciado, casado, com filhos, com netos, bêbado, sóbrio ou ainda burro e ignorante. A vida é uma merda. Como eu sei disso? É bem óbvio. Basta observar as pessoas por aí. Existem dois tipos de pessoas. As que sabem que a vida é uma merda, como eu e aquelas que por algum motivo cretino tirado de não sei aonde, acham que a vida deve ser boa, ou melhor, que é boa. Eu explico.

Na vida de todo mundo, sempre vão acontecer mais coisas ruins do que coisas boas, seja por azar, seja por inapetência, seja por vingança ou até por uma questão de expectativas.

Basta olhar os animais nos documentários da TV, vocês já viram o inferno que eles passam para comer e fazer sexo? As vezes eles passam uma semana inteira no “rock and roll” para comer uma droga de um rato (no caso das corujas, coitadas). E os gafanhotos que finalmente quando conseguem copular a primeira vez viram comida de suas concubinas.

Nós não somos muito diferentes. Nós fazemos de tudo para comer, beber e fazer sexo. São as três coisas boas da vida e não chegam a tomar nem dez por cento do nosso tempo. É um fato matemático. Não tem discussão.

Algumas pessoas vão dizer que eu estou louco, e que trabalhar é ótimo, dormir é ótimo, conversar é ótimo e até cuidar dos filhos é ótimo. Mentira, mentira, mentira. Ou então essa pessoa já não come, não bebe e não faz sexo direito há muito tempo.

As pessoas que acham que a vida é boa, estão sempre deprimidas, chorando, lamentando que tudo vai mal para elas e bem para os outros. Elas não percebem que estamos todos sujeitos as mesmas punições diárias, as mesmas frustrações. É uma questão de como encarar as coisas.

As pessoas que sabem que a vida é uma merda estão sempre, ou quase sempre felizes. Eles assumiram o status quo e pronto: minha vida é uma merda, toda vez que acontecer alguma coisa boa eu vou agradecer e aproveitar ao máximo, toda vez que acontecer uma coisa ruim, bem, é a vida. Não é conformismo não; você pode impedir coisas ruins de acontecerem, mas outras virão.

Futebol é uma caixinha de surpresas; o que vai acontecer conosco não. Vamos ser traídos, roubados, enganados, humilhados, ofendidos e largados. Não tem jeito. O bacana é não deixar que nada disso tenha efeito negativo sobre nós e pronto, celebrar as alegrias… novamente, comida, bebida e sexo.

A vida é realmente uma merda, eu adoro, e você?”

Os Sete Pecados Capitais

– Que saco de trânsito, que adianta ir aproveitar a praia no feriado se temos que enfrentar isso na volta? Nem papo temos mais.
– Sobre o que você quer falar?
– Sei lá. Tô com muita fome pra pensar.
– Fome? Antes de sair você se entupiu de churrasco, pão, queijo. Isso é Gula, isso sim.
– Pode ser que seja Gula; talvez. Devo admitir que é meu pecado capital favorito.
– A pança não deixa você negar.
– As mulheres não reclamam.
– Sei…
– E você? Tem um favorito?
– Acredito que a Luxúria.
– Meio gay ter a luxúria como o pecado favorito não?
– As mulheres não reclamam.
– Sei…
– Mas quais os outros pecados capitais mesmo?
– Gula, Luxúria, Ira… Qual mais?
– Raiva?
– Raiva e ira não são a mesma coisa?
– Talvez. Mas pra mim não. Tem ocasiões em que não podem ser usados como sinônimos.
– Por exemplo?
– Tipo, se você falar, “cara, aquela balada foi iraaaaada”. Raiva não serve nessa frase.
– Cara, acho que a igreja não era ligada em gírias assim na época da definição dos Pecados Capitais.
– Talvez.
– Então temos Gula, Ira e Luxúria. Que mais?
– Não lembro cara.
– De nenhum mais? Tenho certeza que cometemos todos eles na última hora.
– Ah cara, não sei. Tô com preguiça de pensar.
– ISSO!
– Isso o que? Tá com preguiça também? Vamos parar com esse papo chato?
– Não, Preguiça é mais um dos pecados.
– É verdade né, nossa, como não lembrei desse. Tão presente em minha vida.
– Ok, agora só faltam três. Ajuda aí pô.
– Não lembro cara. Gula, Ira, Luxúria, Preguiça…
– E…
– Hummmmm…JÁ SEI.
– Fala, fala.
– Gula, Ira, Luxúria, Preguiça e Raiva.
– Você falou Ira duas vezes.
– Não falei não. Olha: Gula, Ira, Luxúria, Preguiça e Rai… Ah, droga.
– Não vou conseguir dormir hoje se não completar todos.
– É verdade, se nem eu lembro vai ser difícil você lembrar.
– Porquê?
– Porque se tem alguém aqui culto o suficiente pra lembrar, sou eu.

– Valeu.
– Por quê?
– Me lembrei de mais um.
– Qual?
– Soberba.
– Humpf.
– Já sei. Pra acabar com nosso sofrimento, porque você não liga pra sua vó? Ela é super católica e avós são boas nisso.
– Eu não.
– Porque não?
– Agente está em roaming cara, sabe quanto custa uma ligação dessas em roaming?
– BOA.
– Hein?
– Valeu de novo.
– O que eu fiz dessa vez?
– Mais um pecado pra lista. Avareza.
– Humpf.
– Vai, liga pra véia, se você descobrir mais um pecado desse jeito, não tem perdão nem com muito pai-nosso.
– Ok. Humpf.
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– E aí? Ela sabia?
– Lógico que sabia, é minha vó pô. Beata de carteirinha. Tinha na ponta da língua.
– E quais são?
– Gula, Ira, Luxúria, Preguiça, Soberba, Avareza e Raiva.

Estatuto Particular da Boa Boemia

Aprendi a ser boêmio com meu pai. Ex-Boêmio, amante ativo da boa boemia (segundo Houaiss “boêmia” e “boemia”, estão certos, optei pelo segundo por uma questão de pronúncia), que me fez entender seus fundamentos e princípios mais primitivos.
Quem me conhece um pouco sabe que qualquer hora da noite é uma boa hora pra me chamar pra uma conversa de bar. Sempre que posso, ou seja, quase todo dia, procuro exercer, essa que acredito ser minha verdadeira vocação.

O papo de uma mesa boêmia nunca tem função ou um objetivo claro. Nunca é totalmente concordado e nunca absolutamente negado. Sempre existem espaços pra novos comentários, desde que não sejam definitivos. O verdadeiro papo boêmio pode ser aparentemente banal e repetitivo (aos olhos de um amador).

Qualquer um que entenda muito de um assunto a ponto de esgotá-lo deve ser evitado numa boa mesa, assim como aquele que não se interessa por um assunto que não domina. Tudo interessa a todos sempre, mas nada chega a ser resolvido.

A boemia levada a sério pouco se lembra da boemia imaginada por aí. O combustível principal e verdadeiro de um boêmio de verdade é uma boa conversa. Este é o único requisito para que 8 horas passem como se fossem 5 minutos e ainda pareçam muito pouco.

Uma bebida alcoólica pode ajudar esse papo a funcionar melhor, mas, não se engane, para ser um bom boêmio você tem duas opções : 1 – beber responsavelmente, 2 – não beber. Explico:

Pessoas que não sabem beber, que passam da conta, que ficam bêbadas, de fato, não conversam. Elas falam (sozinhas), gritam, choram, balbuciam, abraçam, expelem fluídos, produzem ruídos, enfim, estragam sua própria noite fazendo qualquer coisa que esteja bem longe de um bom papo.

Um boêmio convicto tem que estar preparado pra enfrentar tantas noites quantas tais for convocado. Mesmo que sejam na seqüência, mesmo que sejam no dia de trabalho.

Diferencio um boêmio de uma fraude qualquer ao escutar uma frase como “hoje eu vou curtir muito a noite”. Essa frase me soa tão absurda como “agora vou curtir essa respirada”. Quem sai “pra curtir a noite”, não pode trabalhar no dia seguinte, vai ficar com ressaca, dor de cabeça, peso na consciência e etc.

Toda noite é digna de uma “curtição” e portanto, pode ser curtida. Triste é aquele que espera a sexta-feira pra isso.

Para se aproveitar a noite como um profissional da boemia basta apenas que escureça, e daí por diante, amigo, a vida fica bem mais fácil. Concorda ?

Não.

Ótimo! Então puxe a cadeira, pede um “qualquer coisa” e seja bem-vindo. Temos muito o que conversar e a noite está apenas começando.