Arquivo de junho, 2006

Atas do Nono Colóquio Internacional de Mamutologia Comparativa

São Paulo, 11 de março de 2005

1a sessão:
O pesquisador JICMN, atualmente em licença para realização de pesquisas mamutológicas na Europa, apresentou ao Colóquio os resultados parciais de suas últimas investigações. Para debater com ele, foi chamado o pesquisador PCMBB, renomado representante da escola de Mamutologia Cética.
Segue a transcrição.

Você conhece o MaMutante?

mas hein?

nascido de uma mutação genética, o MaMutante tem o poder de dar “fatality”
com ele sempre funciona
mas pouco já viram o Mamutante em ação
seus hábitos são esquivos
seu habitat desconhecido
nem o Discovery Channel conseguiu filmá-lo

Para mim, é lenda

sim, muitos julgam ser lendária a existência do MaMutante
todavia, o Museu de História Natural de Londres jurava conservar um espécime de MaMutante empalhado
até que uma comissão internacional verificou tratar-se de uma fraude
era, na verdade, um pássaro dodô
ou um preguiça-gigante, não lembro
ou talvez um megatério
enfim, não era um MaMutante
mas isso não quer dizer que ele não exista…

Nem tampouco que exista.

deve-se dar crédito à crendice popular quando relata a existência do MaMutante?
acho uma hipótese plausível

O que depõe contra é o fato de as histórias de MaMutantes serem sussurradas em meio a denunciadores suspiros, deixando clara a falta de solidez e o alto componente aspiracional das histórias

de fato
mas o MaMutante há de voltar
será então um dia de glória!

Zé, já falei que esse mano que te vende chá natural tá mal intencionado

não, é verdade, o MaMutante vai retornar

Vai…. e vai atuar junto com o Garoto-Trovão

e ele ensinará a todos os Mamutes como se dá um “fatality” irresistível
de sua toca no Triângulo das Bermudas, ele aguarda o momento propício
devemos manter a esperança

Larga esse chá, mano. E sai de perto da janela.

tudo bem, o MaMutante jamais prometeu que ensinaria a voar
eu só quero aprender o “fatality”

2a sessão:

O palestrante PCMBB, especialista em Iconografia Mamútica, contribui com uma abordagem interdisciplinar para a compreensão do significado mítico da lenda do MaMutante.

Segue a transcrição.

ei, Pedro, você conhece a lenda do MaMutante?

Non
conte-me, conte-me

c’est un hybride
um Mamute que sofreu mutações genéticas espontâneas e atingiu um grau mais alto na escala evolucionária
o MaMutante possui um poder especial negado a nós, reles Mamutes

qual, qual?

a capacidade de encaixar um “fatality” irresistível no momento certo!
é por isso que o MaMutante sempre se dá bem

em q contexto falamos de fatality?
“Finish her”?

isso, como você disse
é a abordagem que conquista definitivamente as pequenas
repare que nenhum Mamute à sua volta consegue fazer isso

como não?
Murilo não consegue?

[N. do E.: Referência ao lendário explorador MBM, que teria aprendido a dominar a referida técnica do “fatality” em suas viagens pelo Alto Tibete.]

ele conseguiu, mas em condições favoráveis
o MaMutante consegue sempre
mesmo se não estiver em CNTP
o que o torna uma entidade assombrosa

existe algum exemplo vivo de mamutante?

as últimas referências são longínguas

Hmmm

o populacho transmite pela via oral relatos de hordas de MaMutantes que percorriam as estepes de tundra na Finlândia
algum parentesco com os vikings, certamente
outras histórias se referem a ocorrências de MaMutantes nas florestas do Canadá
talvez tenham sido confundidos com Pé Grande, ou Paul Bunyan

MaMutante não seria o nome vulgar do cerolis mamutis?
tb conhecido como Cerol Mamute?

de fato
obrigado por acrescentar essa informação

é um típico espécime da famíla dos ceróis, aqueles q chegam cortando a linha dos outros e levam as gurias pra casa
claro q cada espécie tem seus hábitos e métodos particulares de caça

sim, sim
o comportamento dos MaMutantes costuma ser hostil aos Mamutes normais
porém, com o avanço da industrialização, a população de Mamutantes vem decrescendo
apenas se ouve relatos de espécimes isolados

já acharma ossadas de mamutantes então?

O Museu de História Natural de Londres dizia ter uma
mas a averiguação levada a cabo por uma comissão de peritos concluiu tratar-se de um pássaro dodô
ou um preguiça-gigante, não me lembro
ou um megatério…

hahahaha
esses ingleses

enfim, erro grosseiro
não era um MaMutante

o MaMutante está para o Mamute assim como o lobo para o chiuauha?

quase
até onde a comparação permite, sim
pois certas correntes de interpretação dizem tratar-se de um único exemplar, que vagava pelo mundo
um único MaMutante

Sei…

portanto, falta-nos até o presente momento a comprovação empírica cabal da existência desse ser semi-lendário
um ícone para todos nós
existe até mesmo uma seita que aguarda o retorno do MaMutante
tais Mamutes aflitos reuniram-se numa comunidade rural em Atibaia, onde aguardam que o MaMutante ressurja
o MaMutante os ensinará a arte do fatality
nesse momento, dizem eles, todos os Mamutes serão salvos

ele vai chegar junto com o cometa halley?

cometas são provavelmente uma manifestação de que a chegada do MaMutante está próxima
alguns dizem tratar-se de uma exalação produzida pelo arroto do dito cujo

uau
mas tb, já viu qts botões tem q apertar pra dar um fatality?

é difícil decorar a seqüência, né?

é
e tem q ser no tempo certo ainda
não dá tempo de pensar

dois pra direita, B, B, A, gira em sentido anti-horário, três para cima
nisso a mina já se mandou

é

estudiosos da Universidade de Oslo ligaram recentemente a figura do MaMutante à serpente mitológica Jormungand, que envolve Midgard acho uma hipótese por demais fantasiosa

assaz
por outro lado, é bom lembrar que a figura da serpente está associada em várias culturas primitivas à tentação

pois

uma arte indubitavelmente Mamutante

certamente

a Boiúna, no Brasil, por exemplo

veja só…
é um arquétipo recorrente nas mais variadas culturas
um sinal da onipresença do MaMutante?

diz-se que, na região, mulheres raivosas resolveram combater a imagem mítica do poder de sedução MaMutante e deram origem a um folclore banal como Yara
isso surge também na cultura européia na forma das sereias

compreendo…

e, certamente de algum jeito no oriente

uma figura feminina antagônica, disputando a primazia no jogo da sedução…

evidentemente

claro, no oriente

devo retirar-me para aprender mais sobre essa instigante criatura
obrigado por elucidar mts mistérios acerca do tema

conte-me se descobrir algo interessante

por decerto

foi um prazer palestrar convosco

é com segurança q asseguro o mesmo

publicaremos os resultados desta conversa nas atas do colóquio

aguardarei sua publicação ansiosamente

um trabalho do mais alto interesse para a comunidade científica e leiga

espero ler a transcrição em jornais científicos espalhados pelo mundo

a revista Nature já manifestou seu interesse
também a nossa Superinteressante

só nos resta aguardar o pronunciamento de Estocolmo
não anseio pelo Nobel, mas não o rechaçarei

poderemos destinar o dinheiro do prêmio às pesquisas na área

ou à reconstrução de uma casa na praia na Indonésia

alguma obra caridosa do gênero

certamente
despeço-me então

vá e seja feliz

sê-lo-ei
e digo-te o mesmo

agradeço compungido

ide, que eu me fude

3a sessão:

O experiente mamutólogo RCL, um dos fundadores dessa área de estudos, faz uma breve intervenção para indicar possíveis habitats do MaMutante.

Segue a transcrição.

o poder do MaMutante é saber encaixar um “fatality”

sim … mas Mamute que é Mamute não sabe bem fazer isso

pois é… mas o MaMutante sofreu uma mutação que deu a ele esse poder
ele é um híbrido
sua existência é lendária
há somente relatos esparsos de viajantes que dizem ter avistado MaMutantes no passado
porém, hoje em dia, a espécie parece estar extinta
snif…

sorry…

triste, de fato

pois é

o Museu de História Natural de Londres dizia ter guardado um espécime de MaMutante empalhado
mas era boato

hahahahahaha

era um pássaro dodô, na verdade

HAHAHAHAHHAA

ou um pregiça-gigante, não lembro bem

nem eu

portanto, o aspecto do MaMutante é uma informação perdida para todo o sempre

mas… nem tudo está perdido

não?

não! parece que existe uma comunidade no extremo leste do Chile… que vive em função da transmutação genética dos Mamutes, para tentar reviver essa grande lenda

com a ajuda das novas biotecnologias, o sonho de reviver o MaMutante poderá se tornar realidade
logo poderemos visitar “Mamurassic Park”

as condições climáticas do Leste Chileno, em conjunção com os Raios Solaris Beta que só incidem em ângulo reto, durante o equinócio de anos bissextos… enfim… tudo isso e mais um pouco é a nossa esperança

Fim das Atas

Então…

Faz tempo que não escrevo. Mais ainda que não publico. A mão está enferrujada, o cérebro meio bobo – ou o contrário. Até por isso, peço um pouco de paciência, especialmente de mim mesmo. Não é questão de branco. Se tem uma coisa que não está difícil é arrumar tema.

Problema de olho e umbigo, mesmo. Ando auto-centrado demais. Só quero saber de mim, das minhas coisas, dos meus assuntos; não estou conseguindo olhar para fora e ver aquelas coisas curiosas, engraçadas, pitorescas, revoltantes. Corrigindo: até enxergo, mas não é uma coisa que me compele. Registro, faço um post-it mental e deixo ali para retomar qualquer hora. Li uma coluna no No Mínimo relatando a incursão do autor em uma academia – mais do mesmo, o “intelectual” entrando no terreno dos “brucutus acéfalos”. Seria interessante dar uma desancada no cara, dar um contorno diferente para a mesma história. Li vários livros – alguns bem bons – , assisti a vários filmes – a maioria bem bons; tenho lido jornal e navegado em diferentes idiomas e pautas; conversei sobre modelos de representação de emissão de partículas em explosões solares; fui ao U2, ao Roberto Fonseca e ao Medeski, Martin & Wood, a espetáculos de dança, a peças do Autran; vivo espremendo relatórios e pesquisas; viajo nas minhas hipóteses para a pós; registrei, pelas ruas, um mendigo resgatando uma garrafa de água mineral na Benedito Calixto e um menino tirando um cochilo meio de cócoras embaixo de uma marquise; tem a profusão de verde, amarelo e azul em dia de jogo; tem as sandices da quadrilha do Lula – a do tradicional “arraiá” no torto, naturalmente. E vi a última do Antonio Prata no Guia do Estadão, sobre as figurinhas da Copa. Texto delicioso, que vontade de ter escrito aquele! Só que não teria feito, não estou com essa leveza no olhar. Não vejo por que sentar e escrever a respeito; o assunto não me chama, não vibra. Ia sair uma coisa burocrática qualquer. Isso tudo não sou eu e eu só quero saber de mim, caramba.

Agora, o que tenho sobre mim? Virei minha vida de pernas para o ar nos últimos meses. Todos os grandes referenciais mudaram: na vida profissional, na nova vida acadêmica, na doméstica, etc. Tem as transformações que não são visíveis a olho nu. No meio desse bolo todo surgem também umas formas novas de expressão. Estou descobrindo meu retrato na ocupação dos espaços, em móveis e quadros, e ando gostando de brincar de ver as afirmações silenciosas que as roupas fazem. De testar e ver que estiquei alguns limites e reforcei certas fundações. De poder ser tão inédito às vezes e tão reprise em outras. Cada uma dessas, uma viagem lá para dentro, mas nada muito lírico ou profundo, não: daquelas que a gente volta carregando mais coisas do que levou, paga um excesso de bagagem e tudo certo.

Fui vago de propósito no último parágrafo. Poderia conversar abertamente, mas não. Até estou a fim de falar. Só não quero ter que dizer.

“en passant”

Nascido e criado ali. Nunca dera ouvidos àquela gente que vivia dizendo para se mudar. Não. Ali era o seu lugar. Como dois e dois são quatro, ele sentava sempre no mesmo lugar. Não na mesma mesa porque os donos mudavam, a decoração mudava e não seria ele o chato de pedir para ser aquela mesma mesa de pinus, vagabunda, na qual sentou-se da primeira vez. Já não devia mais existir; afinal, abria e fechava bar e ele ali, sempre ali: incondicional. Não era por nada, não; ele só gostava de estar ali; no seu lugar.

Os mais novos demoravam a se acostumar com as idiosincrasias do velho – antes nem tão velho assim, afinal frequentava o bar desde sempre. Dizia que era por causa dos donos, queria conhecer gente nova, com ímpeto.

Já devia, ele mesmo, saber como levar aquele bar, aqueles bares…….. mas se divertia em ver o circo em ação; no palco era só risos, discretos, internos, mentais. Antecipava as inovações pueris num jogo de adivinhações que não tinha fim. Sentava ali de frente pra rua em um lugar que nem era o melhor; mas era dali que ele via o “seu” lugar, a “sua” gente, os carros, os moleques que sempre passavam jogando bola. Iam para a Tosca (quadra de futebol society na rua de mesmo nome).

Na mesa, sempre uma cigarrilha debruçada sobre a cavidade própria do cinzeiro. Sobre o porta-copos havia um conhaque. A filha insistia em dizer que aquilo acabaria por matar ele e toda a familia depois, de desgosto.

A pontualidade não era seu forte, às vezes chegava cedo; às vezes chegava tarde, mas sempre chegava – para certa alegria dos donos que viam nele um símbolo da boemia, no mínimo da persistência e faziam questão de agradar o freguês, mesmo que alguns não conhececem o real significado da palavra.

Em meio a toda a agitação que podia envolvê-lo fisicamente, a resposta era simples, com gestos lentos advindos de uma outra época. Era uma bolha temporal que regia suas ações não importando a velocidade das coisas que o faziam se mexer, responder, interagir. Seus goles eram curtas-metragens degustativos e cada tragada era uma cena cinematográfica. Sua tolerância era inabalável. Ficava ali, sentado horas e horas bebendo e fumando; até o último gole, até a última cinza batida……………… Que dia triste foi este!

Estréia

– Que horas são?
– 14:57
– Ainda?
– É.
– Esse tempo não passa!
– Porquê a pressa?
– Preciso pegar a Ana ainda antes de encontrar com a galera.
– Vão assistir juntos?
– Não vou deixar ela na aula de Mandarim e depois vou pro jogo.
– Hein?
– É lógico que vamos assistir juntos. Vamos todos na casa do Tibério. Ele tem uma plasma de 42, comprou três barris de chopp e possui uma irmã que é de outro mundo.
– De que adianta? Você vai estar casado!
– Não adiantaria nada nem se tivesse solteiro. Ela é só pra olhar mesmo.
– Ah sim, paisagem.
– Isso.
– E falando em namorada. Como foi ontem? O que você fez?
– Como foi o que?
– O dia do namorados ué. Você não comemorou? Tinha falado tanto do seu primeiro dia dos namorados casado.
– Ah sim. Comemorei sim.
– O que fez?
– Fiz um jantar pra Ana. Um risoto que ela adora, um vinhozinho, rosas. Aquelas coisas sabe?
– Sei sim. Pô, deve ter ficado bacana. E a trilha sonora?
– Que trilha sonora?
– A música. Não colocou uma musiquinha de pano de fundo? Um jazz relaxante, um lounge climinha?
– Não, a TV tava ligada.
– Hein, mas como assim?
– É, tava sem música, tava vendo TV.
– Mas cara, puta jantar romântico, super astral, tudo perfeito e você assistindo TV?
– Ah, qual o problema?
– Qual o problema? Você acha que ela gostou disso, ver o namorado assistindo TV no momento em que ela deveria a coisa mais importante? Ela não reclamou?
– Não que eu tenha percebido.
– Não dá pra acreditar numa coisa dessas. Ela deve ter ficado puta.
– Será?
– Porra!
– Mas acho que ela estava assistindo também.
– O que estava passando?
– o VT de Itália e Gana.
– Futebol ainda? Cara você mandou muito mal.
– Será? Nem pensei que ela poderia não gostar. Afinal, a Itália é potencial adversário do Brasil na próxima fase.
– Você é louco cara.
– Bem, se ela ficou puta já deve ter esquecido. Hoje comemoramos e fica tudo bem. Ela não conhece o Tibério, e nem gosta muito da irmã dele, mas, nesses momentos qualquer lugar é lugar.
– É, mas só vai comemorar se o Brasil ganhar né.
– Nada, a comemoração é garantida, hoje é aniversário dela.

Dia de Chuva

“No ponto de ônibus da praça central, exatamente as quinze horas, numa quarta feira chuvosa:

– Que chuva hein?
– É
– Muito desagradável, molha toda a roupa, a pasta, os óculos.
– É
– Eu realmente preferia não sair de casa em dias assim, da vontade de ficar dormindo, vendo TV.
– É
– Minha já dizia, filho em dias nublados nunca saia sem o guarda chuva, devia ter escutado.
– É
– Bem, meu ônibus só passa daqui a meia hora temos bastante tempo para conversar.
– É.

A mesma conversa, dessa vez com participação especial minha.

– Que chuva hein?
– Ta de sacanagem? Eu não tinha reparado, jura?
– Lógico que juro, olha aí ó.
– Muito obrigado por me avisar hein, muito grato.
– De nada, é muito desagradável né? A roupa fica molhada, a pasta e os óculos também.
– Agora você está de sacanagem. A chuva molha? Não acredito.
– Para com isso, não dava vontade de ficar em casa, dormir até tarde e ver TV?
– Dá sim. Todo dia. Faça sol, faça chuva, faça vento.
– Boa. E mamãe já me dizia para nunca sair sem guarda chuva em dia nublado.
– E você não ouve sua mãe?
– Não muito.
– Por isso está ensopado no ponto de ônibus, pobre e sozinho.
– Sozinho não, meu ônibus passa em meia hora, temos muito tempo para conversar.
– Que pena, eu só parei para amarrar o sapato, eu ando até a minha casa.”

O que te importa?

– Enfim, colocados todos os pingos nos “is”, todos os “tios” nos “nãos” e todos os tremas nos “conseqüentementes”, o que te importa?
– Boca torta!
– Quando você vai parar de usar piadinhas do “Chaves” cara?
– Chaves era muito bom. Muito melhor que essas coisas que as crianças assistem hoje em dia.
– Eles usavam mesas de isopor.
– Esse é o charme.
– Tá, que seja. Me responda, só que dessa vez sem a fantástica intervenção “chaviana”. O que te importa?
– Como assim o que me importa?
– Na vida cara. O que te importa. O que você mais preza?
– Olha, no momento prezo muito por mais um chopp. O garçom deve ter ido caçar o lúpulo. Ainda que eu não saiba o que isso seja e muito menos se este faz parte do chopp.
– Sério cara, to me abrindo aqui, quero saber o que é importante pra você.
– Muitas coisas.
– O que por exemplo?
– Arrumar uma namorada, tocar banjo, conversar com os amigos.
– Sim, sim. Mas fora isso, tava pensando em coisas materiais, coisas que você possa ter.
– Coisas que eu possua?
– Isso.
– Bem, acredito então que são importantes, meu carro, minha TV de plasma que pago até o ano que vem, meu liquidificador industrial. Tudo na verdade. Não gasto com supérfluos, tudo que tenho é importante.
– Tudo mesmo?
– Tudo.
– Até aquele piano de cauda que mal cabe na sua sala?
– Sim.
– Aquele que você nunca apertou nem uma tecla?
– Não fala assim. Você não entende, aquele piano é um velho sonho. Só comprei em homenagem a minha vó que sempre quis ter um.
– Não fala bobagem, sua vó nunca quis um piano.
– Claro que quis. Fala sobre isso desde que sou pequeno, só eu sei como foram duros aqueles dias. Você nem conhece minha vó pra falar o que ela quer ou não quer.
– Realmente não conheço sua avó, mas tenho certeza que um piano ela nunca desejou.
– E porque supõe isso?
– Uma, porque ela não é desse tipo, não tem sonhos, é ranzinza e o que gosta mesmo é de falar mal dos outros. Duas porque se ela quisesse teria comprado um, já que foi comprado com a mesada que ela dá pra você. E três, ELA É SURDA!
– Não fala assim, deficiente auditiva.
– Que seja. Por que então ela se interessaria num piano? Ela não dá a mínima para aquele trambolho.
– Ela gostaria de me ouvir tocando.
– Você nunca tocou aquele piano.
– Mas eu poderia tocar.
– Mesmo que tocasse, seria horrível você mal consegue apertar uma campainha direito. Castigaria os ouvidos da coitada.
– Ah meu, que saco, dane-se, a velha é surda.
– Ta, ta. Voltando ao assunto. Deixa eu reformular a pergunta pra facilitar pra você. Se pudesse levar da sua casa apenas uma mala, o que colocaria dentro?
– Que mala?
– Uma mala qualquer, genérica.
– Tenho que saber o tipo de mala. É grande ou pequena? Tem bolsos laterais? Rodinhas? Se tiver rodinhas dá pra levar coisas mais pesadas, ainda que uma hora ou outra você acabe capotando a coitada numa emenda da calçada.
– Uma mala cara. Normal. Quadrada, de zíper. Samsonite, sei lá. Tá tão difícil de entender?
– Ahhh tá. Porque não falou antes?
– O que?
– Que era uma Samsonite. Agora entendi, você está falando de uma mala mesmo. Dessas genéricas.
– Mas…eu….droga. Isso, uma mala dessas. O que você levaria?
– Pra quanto tempo de viagem? O lugar é quente ou frio? Neva? Se nevar, levo minha bota de neve, comprei aquela vez que fui pra Bariloche, nunca mais usei.
– Tanto faz cara. Não to falando de uma viagem. Faz assim, imagina que sua casa está pegando fogo, você tem muito pouco tempo pra sair, tem que escolher o que vai salvar do seu apartamento, só pode levar coisas dentro de uma mala.
– Mas porque só numa mala?
– Porque sim. Porque sim cara. Porque essa é a pergunta. Só quero saber isso, o que levaria na mala? O que é mais importante pra você? Que tem mais significado? O que faria mais falta na sua vida se ficasse pra trás? O que salvaria das chamas colocando na sua mala.
– Bem, pensando agora, com calma. Acho que o piano.

Leitura

– …
– Mas….. e como é que você faz?
– Eu deixo rolar.
– Putz cara, eu tenho esse problema e tal, não consigo. Na hora “H” não dá.
– Mas na hora”H” você precisa ler?
– É, cara, parece que flui mais fácil.
– Mas qualquer coisa?
– É…….na verdade o que tiver à mão; nem sempre dá tempo de se preparar, sabe como é…
– Cara…….juro que não entendo. Não é pior, não desconcentra?
– Muito pelo contrário…
– Eu fico……. eu fico imaginando você lá, tudo rolando como a naturaza manda e de repente você saca uma revista…
– Como já falei nem sempre dá tempo; na verdade, quase nunca dá.
– E o que você lê então?
– O que tiver ali do lado, sei lá.
– Tipo…
– Cara, eu sei que é estranho mas…
– Tipo…
– Pô, puta situação…
– Tipo…
– Eu leio……. eu leio……. eu leio o verso das embalagens, creme de barbear, fio dental, sabonete líquido, o que “tiver” mais perto.
– Tá brincando!
– É, eu leio, meio que decoro algumas coisas e tal.
– Mentira!
– Lauril Éter Sulfato de Sódio: eu sei onde tem; esses dias fui até procurar saber para que serve, afinal como você vai confiar em uma coisa que tá na sua pasta de dente, na loção pós-barba e no suco de laranja em caixinha?
– Você guarda o suco de caixinha junto com a sua pasta de dente e a loção pós-barba?
– Não, foi só uma comparação.
– Eu nunca mais tomo suco em caixinha, cara!
– Calma, toda manipulação destas coisas tem um responsável.
– Quem?
– Sei lá, um químico…
– Que químico?
– Não sei, nunca li até essa parte. Eu sempre termino antes.
– Você sabe onde tem Lauril Éter Sulfato de Sódio mas não sabe quem é o químico responsável?
– Não. Não lembro.
– Faz força que sai.
– Cara, não lembro. Minha memória é uma bosta!
– E se for um químico de merda?
– É verdade……. e se for um químico de merda………será que ele lava a mão direitinho?

Mulher Desesperada

E a mulher lutou muito para obter direitos iguais, os mesmos salários, as mesmas oportunidades, as mesmas possibilidades de trair, etc. E ela chegou lá. É claro que ainda tem que trocar as fraldas de cocô, fazer o almoço de domingo, mandar a empregada gostosa embora e ir às reuniões pedagógicas na escola do filho ao meio dia quando tem milhões de coisas pra fazer! Mas a mulher está muito bem! Muito segura de si, muito orgulhosa! Feliz!

Na boate, lá pelas tantas horas e tantas cervejas…

– Oi.
– …
– Tudo bem?
– …
– Qual o seu nome?
– Mariana.
– …
– …
– Você vem sempre por aqui?
– …
– Você estuda, trabalha?
– Eu faço faculdade.
– Ah… De quê?
– De Administração.
– Eu faço medicina.
– Ah…
– Você veio sozinha?
– Não. Vim com amigas.
– Entendo… E tem namorado?
– Por que?
– É que…
– Ah?
– …
– Pode falar. Não fique tímido.
– …
– Não tenho namorado. Estou disponível, aberta a novos relacionamentos e pronta para outra…
– Claro. Eu só queria saber…
– Não que eu ache que os homens não prestam. É que meus últimos rolos e ex-namorados foram bem sacanas comigo e…
– Olha, eu…
– Eu sei que você vai dizer que é diferente, que nem todos os homens são iguais, mas vai ter que sambar muito pra me provar isso,viu, e…
– Deixa eu falar…
– Não. Peraí! Eu sei que nem todos são iguais, mas quer saber? Parece até que existe uma irmandade ou fraternidade oculta na crosta terrestre e que todos vocês, homens e ratos, vão pra aprender como maltratar e magoar as mulheres. Um dia eu entro lá disfarçada e pego todos no flagra!
– Mariana?
– Sabe o que é pior? É que vocês não podem ver um rabo de saia e já ficam doidos. Por que vocês não conseguem ser fiéis? Vocês entendem o que é amor?
– …
– Sabe, é por isso que não acredito em casamentos! Depois que casam, vocês, ratos, só querem que a mulher fique atrás do fogão enquanto vocês saem pra pegar as menininhas que tem idade para serem sua filha! E mais… Chegam em casa com a cara lavada e ainda querem sexo!
– Eu… Bem…
– Sexo! Vocês só pensam nisso. Só pensam em conversar com uma mulher quando querem fazer sexo! Custe o que custar. E aí, quando eu ficar gorda e velha você vai procurar sexo na rua, não é?
– Ah… Bem… Eu… Eh…
– Ta vendo? É isso mesmo. Ficou até sem fala! Viu só? Homem é foda!
– Desculpe, Mariana. Eu só queria te conhecer… Tchau.
– …

– Viu aquele carinha ali, Roberta?
– Sim. Ele tava te cantando?
– Hã! Cantando! Ele queria transar comigo! E aí foi só eu começar a conhecê-lo melhor pra saber que é um crápula! São todos iguais!
– É…