Arquivo de julho, 2006

Linhas tortas

– Que foi?
– Que foi o que?
– Essa cara de feliz, alguma coisa aconteceu?
– Não posso simplesmente estar feliz?
– Não.
– A minha felicidade te incomoda?
– Sim. Fala logo, o que aconteceu?
– Cara, hoje tirei a sorte grande.
– Ganhou na loteria?
– Melhor do que isso.
– Encontrou uma nota de cem reais num casaco?
– Quase. Hoje no almoço conheci uma garota.
– Boa?
– Melhor.
– Rica?
– Também. Mas o que me chamou a atenção foi sua boca.
– Como era?
– Torta.
– Jura?
– Tortinha. Tava pegando salada no buffet e de repente, logo após ter passado pelos ovos de codorna ou mussarela de búfala, não sei ao certo, enxerguei aquele sonho Aquele sorriso de lado, como se um anzol puxasse o canto dos seus lábios para a direita.
– E aí?
– Daí não resisti, nos esbarramos em frente a torta de palmito. Falamos algumas bobagens e acabei sentando com ela. Daí foi uma surpresa atrás da outra.
– O que?
– Lembra daquele meu projeto da lavanderia?
– Sim, claro, a lavanderia de um milhão de dólares.
– Exato, contei pra ela do meu sonho e acabei descobrindo que o pai dela é representante de uma das maiores marcas de lavadoras industriais dos Estados Unidos no Brasil.
– Impossível.
– Mais do que isso. Entediado em ganhar milhões em vendas, o velho está doido pra investir num negócio.
– Coincidência master.
– Não é? Ela imediatamente ligou pro pai que aceitou de bate-pronto a minha proposta.
– Incluindo as 42 TVs de plasma para o lobby?
– Sim.
– E o revestimento completo de carrara?
– Também.
– Inacreditável.
– Eu também achei, um sonho meu de anos aparece assim do nada.
– Sim, uma coisa que você falava tanto, enchia o saco que um dia conseguiria e eu nunca acreditei.
– É, eu também estava desistindo já. Mulheres de boca torta estão em extinção.
– Muito.

100

Cada um tem sua superstição. Uns tem que colocar o saleiro na mesa antes de passar para alguém, outros por sua vez tem objetos da sorte, uma camiseta que nunca foi lavada desde o último título da Portuguesa. Ainda que nenhum tenha explicação racional não entendo os números da sorte.

Zero. É o número de pessoas que conheço simpatizantes do numeral de valor inexistente. Também não é surpresa alguma afinal, zero é o número do recruta zero que, aqui entre nós, era um zero a esquerda. Outra celebridade dos desenhos que adotava o número zero era Dick Vigarista, que além de ser um canalha nunca pontuou numa corrida maluca. Zerava sempre.

Clichê é o número sete. Muitos são sete, mares, pecados capitais, nitrogênio, notas musicais e o código DDI do Cazaquistão. Dizem que psicólogos fizeram experiências em que perguntavam às pessoas para escolher um número de um a dez. A grande maioria dizia sete, daí os psicólogos diziam: “Oito, ganhei”. Não tiveram sorte.

Um número, treze. Tem treze letras, fixação do falecido Zagallo. Treze anos atrás, quando ele ainda era vivo, o mundo jornalístico adorava falar sobre a superstição do tetracampeão. A curiosidade era alguém gostar justamente do famoso número do azar. Azar de um, sorte de outros.

Veado. Responde pelo número vinte e quatro no jogo do bicho. A associação entre o querido animal veado e o homossexual do sexo masculino é enigmática. Segundo o wikipedia vem da similitude fonética com a expressão “vim de quatro”. Se é verdade eu não sei, mas a bicharada não liga. Cai de pau no coitado do veadinho jogando o vinte e quatro na sua cara. Azar o deles.

Cem outros números trazem suposta sorte aos seus adeptos, porém cem é único. Há séculos vemos o número cem ligado as coisas mais significantes da história. Benjamin Franklin teve a honra de estampar a nota mais importante do mundo. São elas que enchem as maletas dos negociadores de armas e afins, nunca ordenadas. Tenho cem por cento de certeza que nascer no ano 100 antes de cristo trouxe sorte a Júlio César. Ele conquistou o mundo, criou um império e gravou seu nome na história e morreu assassinado com uma facada nas costas. Estamos falando de sorte e não lealdade.

Sem dúvida cem é único, representativo o suficiente para merecer atenção especial. Dez é pouco, conta-se nos dedos das mãos seus feitos, mil é muito, milhares de coisas se perdem nessa quantidade. Cem é legal, impressiona, é pra poucos sem dúvida.

Copa

Abrem-se as cortinas, começa o espetáculo. Torcida brasileira, aguenta, aguenta coração. O árbitro vai dar início à parti…

– Amor.
– Vai começar o jogo, Zilda!
– Amor.
– Peraê, pô! Tanta hora pra chamar, vai chamar agora?!
– Tá faltando tomate, Beto.
– Tá começando o jogo, Zilda.
– Amor, vai ali na vendinha do Nildo. Rapidinho, você nem vai demorar.
– Que é isso Amor, senta aqui do meu ladinho. Descança um pouco. Depois você faz o almoço. Olha lá, final da copa do mundo. Vê comigo.
– Tá, mas eu não entendo de futebol…e nem vejo a menor graça nesse…..
– Chuvisco, não, chuvisco, não! Chuvisco, agora, não! Droga, falei pro Carlinhos comprar a antena nova que essa não ia aguentar. Falei!
– …jogo, ih! Que que é esse monte de chuvisco amor?
– Estática Zilda, estática, não tá vendo? E tira esse dedo do monitor que senão eu não consig… arrumou, você arrumou Zilda.
– Mas amor eu só coloq…
– Não, não, não tira o dedo daí Zilda! Olha que sorte! Você só me dá sorte meu amor; vai Tostão, vai!
– Mas Beto, eu preciso colocar o macarrão pra cozinhar.
– Calma Zilda, calma!
– Betôô, eu preciso cozinhar! Daqui a pouco todo mundo chega e eu nem terminei o molho.
– Mas esse molho vc faz depois, tanto faz, é Copa do Mundo Amor, presta atenção, ah lá!
– Roberto Silva Mendes da Rocha, eu vou sair daqui agora e vou lá comprar a porcaria do molho que voc…
– Zilda pára, pára! Olha o que vocé fez? Põe o dedo no monitor de novo senão dá azar. Põe lá, põe…isso; agora levanta um pouco o seu braço de lá, isso: perfeito! Não se mexe tá? UH! Ah lá, quase gol!
– Ôooo Beto, você tá achando o que hein? Que eu não tenho mais o que fazer é?
– Vai Riva, lança! Lança, meu filho! Na direita, vai!
– Tô falando com você…
– Claro Amor…
– Mas é um cretino mesmo. Eu me matando pra cozinhar pra todo mundo e você aqui assistindo essa droga de jogo. Nem levantou daí pra comprar a porcaria do tomate.
– Vai Riva, lança! Lança, meu filho! Na direita, vai!
– Eu sou uma desgraçada mesmo, devo ter tacado pedra na cruz.
– Zilda não mexe agora! Olha o escanteio, olha a sorte. Zilda o pé direito Amor, levanta ele um pouco. Isso. Olha lá… Uh! Viu só? Deu sorte!
– Snif, snif, eu devia ter ouvido a minha mãe, seu …
– Chora não; Zil, o negão ainda acerta o gol. Calma que a gente vai chegar lá. Não se mexe que dá azar.
– …
– Vai, agora…droga!
– ..
– Mas é grosso mesmo, toca pro lado direito. Vai ali na direita! Isso…putz!
– .
– Vai meu filho, olha pra direita! Não a minha, a sua! Isso, olha o Pelé, vai! Gooooooooooool!

Brasileiros e brasileiras, foi uma pintura de gol! Eram jogados 18 do primeiro tempo e ela foi lá: balançou o capim no fundo do gol de Albertosi.

– Amor viu só esse gol? Falei que o negão ia fazer a jogada? Amor? Zildinha …

Centésima Vez

“No trabalho.
– Já falei pela centésima vez que eu não quero esse relatório assim, quando você vai me escutar?
– Eu escuto sim, mas odeio rosa, não quero nenhuma coluna rosa.
– Eu sou o chefe eu mando, pode colocar a B, C e M em rosa e pronto. O resto deixa roxo e pronto.
– Tem certeza? Você nem é gay.
– Mas eu gosto de rosa, sou o chefe e mando em você, novamente, pela centésima vez.

Em casa
– Menino, já te falei pela centésima vez. Só pode brincar de pokemon no quintal, dentro de casa não pode.
– Mas eu quero, quero, quero.
– Calado!
– Não!
– Shiu!
– Não!
– Vou te bater!
– Duvido!
– TABEF!!!!
– Búa, a mamãe me bateu. Papai a mamãe é má!
– Querida, pela centésima vez, espere pelo menos uns 10 minutos antes de bater no menino.

Com a namorada
– Pela centésima vez, se você falar com aquela vaca de novo…
– Mas ela não é vaca.
– É sim, é outra mulher e não sou eu nem a sua mãe, portanto vaca.
– E a sua mãe.
– Que tem?
– Bem ela…
– Nem começa, que eu já estou irritada. Você acha que ela te ligou mesmo para pedir um conselho de amigo.
– Lógico que sim, nós….
– Ela quer dar para você.
– Eu conheço a minha espécie.
– Quer dizer que quando você liga para alguém você quer dar para essa pessoa?
– Não mude de assunto. Não quero ter que te pedir pela centésima vez para não atendê-la mais.
– Mas você já pediu.

No final das contas
– Pela centésima vez, obrigado. “

Aqui com meus botões

Acordou assim, sem saber porquê, com uma nova compulsão. A partir do momento que abriu os olhos tinha que apertar todos os botões que visse pela frente, uma vez apenas.

Silenciou o despertador no primeiro toque, mas já o ligou na seqüência; na AM, último volume. O barulho era insuportável então pulou logo da cama e foi tomar banho. No caminho pro chuveiro acendeu todas as luzes, aquela urgência em apertar os interruptores parecia a maior de suas necessidades físicas no momento, pior que coceira no ouvido. Conseguiu chegar ao Box, mas antes de entrar teve que ligar o barbeador, o secador de cabelo e até a escova de dente elétrica. Tomou um banho de gato, rápido e frio; afinal, não tem rede elétrica que agüente tanta coisa ligada. Trocou-se e evitou passar por mais cômodos, viu que a medida era necessária após passar pelo home theather, nunca viu tantos ON e PLAY na vida, não queria nem imaginar o que faria na cozinha.

Teria usado as escadas se morasse num andar baixo. Após acionar o alarme e abrir a porta do elevador no meio dos andares, apertou todos os andares, aos trancos desceu do vigésimo-terceiro andar até o terceiro subsolo e aproveitou para conhecer todos os halls de seu edifício.

Engraçado foi ao entrar no carro: lembrou que adorou o modelo pela quantidade de botões no painel. Saiu com todas as luzes e faróis acesos, espirrava sem parar, o ar condicionado no máximo talvez tivesse influência nisso. Ou as janelas completamente abertas. Correu para o escritório. Chamou o elevador para descer e para subir, ainda que quisesse ir para trigésimo-segundo andar. Quando abriu as portas deu graças a Deus, estava vazio. Sabia que seria uma longa jornada. Logo na primeira parada o cubículo lota e não houve um que não estranhou todos os andares marcados, olharam feio para ele que diz “Essas crianças…”. Não convenceu, mas se safou de um linchamento.

Entra no escritório e cruza as salas; os poucos computadores avistados tiveram o alfabeto inteiro digitado, ainda que não fosse possível ver por muito tempo pois tanto o monitor quanto a cpu foram desligados. A impressão era de black-out, os interruptores cruzavam a frente dele e nenhum ficava de pé. Chegou na sua sala, entrou e bateu a porta atrás de suas costas logo após apagar a luz.

Ligou o computador e antes mesmo de aparecer qualquer coisa na tela já o resetou, fez uma ligação para algum americano sem querer, ouviu “hello, hello” por alguns minutos e sentiu que a conta telefônica do escritório não seria das mais baixas. Assim que digitou mais uma vez o alfabeto, viu que tinha um e-mail o convocando para a sala de operações. Era hoje o dia.

Suou frio por todos os trinta e tantos andares até chegar ao térreo, teve tempo para pensar no que deveria fazer, quatro minutos clarearam sua mente para conseguir resolver aquilo, apagou a luz do corredor, não podia entrar na sala de operações daquele jeito, a conseqüência mais branda seria a perda de seu emprego, acionou o alarme de incêndio.

Agora parecia estar controlado: entrou na sala de operações e nem mesmo apagou a luz, era um dimmer, viu um telefone na frente e ligou para o americano de novo, “hey stop calling me, asshole” ou algo do tipo, se aproximou do chefe com calma, não queria fazer movimentos bruscos, a senhora da limpeza havia esquecido o aspirador no caminho, não teve dúvidas ao ligá-lo, não tinha controle de nada, logo visualizou o painel de lançamento. E a contagem regressiva nem havia começado.

Um lugar melhor

Não tem jeito, uma hora ou outras elas nos confrontarão. São muitas, afinal. Existe um milhão de situações desagradáveis que somos obrigados a viver. Uma entrevista de emprego com vontade de ir ao banheiro, sair pra jantar com uma mulher e esquecer a carteira ou ter esquecido de checar o estepe numa viagem pra Bahia. Mas nada pior que um velório. Eu prefiro morrer a ir num velório. Não bastasse a tristeza de um ente querido, conhecido ou parente falecido, ainda temos que lidar com os delicados pormenores da situação.

Notícia ruim chega depressa, logo, um velório nunca vem em boa hora. Sempre te pega de calças curtas. Sejam as dos shorts do pijama ou da sunga de banho. As chances de o telefone tocar com as más notícias num fim-de-semana que você tirou pra dormir ou num feriado prolongado que viajou são imensas. Nunca soube de um velório que tivesse se passado numa segunda-feira, mais precisamente no dia de reunião de desempenho de vendas. Ninguém bate as botas quando você não bateu as metas.

Independentemente da data, o velório é compromisso obrigatório, inevitável. Ninguém pode fugir da morte. As boas maneiras dizem que condolências devem ser dadas e a homenagem prestada. Uma camisa florida pode não ser bem vista em tal ocasião, então se coloca uma roupa mais discreta, de preferência mais escura, mas não totalmente escura senão pode ficar com aquela cara de enterro. Toma-se rumo segundo informações passadas por alguém que você não tem idéia de quem seja. Já nas imediações, peregrina por três cemitérios diferentes achando que são o mesmo, tendo sorte encontra o certo. Falta achar uma vaga. Impossível. Por incrível que pareça, mesmo com intermináveis muros brancos ladeados por nenhuma guia rebaixada, não há espaço vago. Sem enxergar uma viva alma para perguntar por estacionamentos você acaba achando o pólo de comércio fúnebre. O pólo de comércio fúnebre é composto por três ou quatro estabelecimentos que vivem do movimento dos velórios. Tais pólos são também conhecidos como zonas mistas, únicos locais de um velório onde você pode fazer piadas, comentar sobre o futebol e discutir a novela. Geralmente, o pólo de comércio fúnebre é composto por três tipos de estabelecimento: uma lanchonete, uma floricultura e um estacionamento. Era esse último que você estava procurando, tem uma placa na frente com os dizeres “Vai ao velório??? Estacione aqui!”.

Até então, sem traumas. Porém agora é a hora da verdade, agora é matar ou morrer. O que dizer ao chegar? “Olá, tudo bem?” Melhor não, a pergunta seria um pouco fora de contexto, você já sabe que nada está bem. Além do quê, acho incontrolável a imitação do Paulo Henrique Amorim quando pronuncio essa frase. Que tal “Boa Noite?”. Boa? Onde? Pra quem? Por um acaso o morto levantou? O melhor mesmo é se limitar a um insosso e incompleto “Oi”. Nem alegre, nem triste.

Após uma série de “Ois” e metade das pessoas terem achado que você é um neozelandês que só sabe dizer isso, só falta achar uma pessoa, o falecido. Nem sempre a identificação é clara e a invasão de velórios alheios se torna necessária. Se for míope tem que prestar muita atenção, ás vezes acha que o sofrimento da partida o envelheceu seu rosto em muitos anos, porém na verdade está velando morto alheio. Para evitar tal indelicadeza pode pedir informações. Estratégia arriscada. Uma vez pedi informações a uma senhora e acabei ouvindo 4 horas de lamúrias da família Penedo, tinha perdido a Tia-Avó Gina, foi tão cedo, apenas 104 anos, me chamaram até para a missa de sétimo dia, mas me fiz de morto.

Após ouvir muitas vezes que o pobre coitado vai para um lugar melhor você escuta o anúncio que vão prosseguir com o enterro. O jazigo, obviamente, fica a dois quilômetros do local onde está, fazendo com que você demore quarenta minutos para chegar. Ainda assim parece que os coveiros não tiveram tempo de terminar. Fazem uns últimos ajustes na cova, checam a profundidade, normas de segurança, talvez. Passada uma vida inteira desde aquela ligação com as notícias, finalmente é chegado o destino final de todos. O lugar melhor, embaixo da terra, por mais que soe absurdo já que me sinto mal até no metrô. Depois que o caixão desce cada um sai para um lado, sem lembrar que todos têm que voltar para o mesmo lugar. Todos devem ter parado no estacionamento.

Hora da despedida, um a um vamos nos cumprimentando. Já no fim, ao encontrar aquela pessoa que há tempos não vemos, daquelas queridas que por um acaso não encontramos mais, damos um abraço forte e dizemos: “Bom te ver viu, precisamos repetir isso mais vezes”.

Ser brasileiro é coisa de cinema

E se eu fizesse. Será que você saberia? E se eu fizesse tudo o que eu pensasse, agora, com você. E se eu ti desse um soco na cara só pra ver como o seu batom ficaria; misturado com o sangue dos meus dedos.

Tem gente que não entende, diz que é violência gratuita. Uns tentam fazer academia, aerobox, body pump, box-sei-lá-o-que. Que merda é essa? Não há nada como um soco bem dado. Mal sabe aquele que nunca socou; dói. Machuca. Se você não firmar a mão você se machuca mais. Cerra o punho, firma o pulso e dá. Mas tem que ter mais força na hora em que alcança o alvo e não na hora que começa o movimento. Esse é um dos erros mais primários.

Muitos outros tentam acabar com isso indo aos jogos dos seus times. Tolos. Nesses lugares não se briga. Só se apanha. Surra bem dada é surra cara-a-cara, mano-a-mano. Nada dessas brigas em danceterias, bares ou jogos de futebol. Isso não é briga. Muito menos briga como a nossa; tem briga, até, que a gente nem se encosta.
Eu estou, aqui, falando de um soco bem dado, sem defesa. Plástico. E se você gostasse, o que seria? Sodomia. Pede que eu bato. Pede, vagabunda, pede!

E se você me perdoasse pela incapacidade de te dar esse prazer, perdoasse as vezes que eu não soube te entender. E se eu pudesse fazer tudo aquilo que eu pensasse e quisesse; ir à quermesse, talvez. Comer algodão-doce e maçã-do-amor. Te deixar com dor sem falar do seu vestido novo. Rasgá-lo inteiro, pedaço por pedaço desse pano imundo que seu corpo preenche, ponto-a-ponto de cima abaixo. Porquê? Hã, porquê? Porque eu estou com tesão e você sabe; é isso que eu faço. Fico com tesão. Mas é só com você e esse seu rostinho lindo. O que eu faço é pra te ensinar, ensinar que só eu posso te salvar. Só eu sei o que você precisa. E se eu dissesse tudo o que quisesse?
Eu diria a toda hora, pra qualquer bêbado ou bancário que me parasse na rua, pra qualquer sujeito vestido de laranja ou de sapato bicolor; eu diria a qualquer militar ou civil, qualquer boneco de posto ou homem placa – vendo ouro, vendo ouro -, qualquer sacristão ou michê.

Se eu pudesse dizer tudo o que eu quisesse, eu diria, aqui e agora. Eu te amo.