Arquivo de agosto, 2006

…100…

Sem dúvida, era um dia especial!
Soube assim que acordou! Não pensem que foi rápido. Como se seus olhos sempre demorassem a abrir e a lucidez, definitivamente, acentasse em sua vida; ele acendeu o primeiro cigarro do dia. De alguma forma tinha aquela sensação estranha de que tudo ia dar certo.

Concentrou-se no banheiro – ele podia chegar lá. Olhou para o assento. Quebrado. Que lhe faltassem o senso de decência e a higiene, a casa era dele, afinal. Sentou ali mesmo. Não dava tempo para mais nada e ainda assim estava atrasado. Quando já não sentia mais as pernas, um presente de Deus – porque só podia ser um presente dele – mas que droga, uma pequena centopéia subia suas costas! Sempre calmo e sem o menor constrangimento, aposentou o pequeno ser. Sem-graça e ainda sentido pela sentença imposta, saiu em direção à cozinha. Um café rápido; era o que ele precisava. Pão sem presunto, só queijo; cenoura – urg! horrível, quase cenográfica – sem sal.

Correu sem roupa pela casa e foi se vestindo sem que elas amassassem até a garagem. Bicicleta. Sem tempo. Como se seus ânimos não se abalassem, pensou; e pensando veio uma centelha de luz: Ônibus.

Sentou no ponto e esperou. Sempre atrasado, sempre esperando. Na esquina foi aparecendo o cento-e-setenta-e-cinco-pê. Acenou.

Desprovido de sensatez e movido pelo atraso, subiu sem mesmo esperar que o veículo parasse. No instante que embarcou sentiu que algo lhe fugia à visão. Sensível com aquele acontecimento, olhou para o centro do ônibus e viu. A sensual vizinha estava ali, de pé; sem dar a menor bola: como sempre. A sensação de euforia ascendia em seu corpo, foi crescendo, crescendo, e tudo o que sentira pela manhã parecia certo.

O ônibus parou no semáforo. Se todos passassem a roleta ele poderia finalmente falar com ela; sem dúvida, era agora. Sacou seus centavos e finalmente falou com ela: a senhorita tem cem “merréis” pra interar a passagem?

Waldenëer Tete-DuBois – Entrevista

Repórter: Boa tarde, Waldenëer Tete-DuBois. Antes de falar sobre seu novo trabalho, gostaria de saber: seu sucesso estrondoso sucesso no passado foi desaparecendo na última década. O que aconteceu? As pessoas se desencantaram do teatro, a dramaturgia nacional não se renovou, qual ou quais foram as razões, na sua opinião?

Waldenëer Tete-DuBois: Os juros altos.

Repórter: Os juros?

Waldenëer: Sim.

Repórter: Mais nada?

Waldenëer: Não.

Repórter: Bem, e como foi a sua trajetória nesse período, esses quase 10 anos fora dos palcos?

Waldenëer: Ah, eu tive uma experiência, por assim dizer, que me iluminou e desiluminou minha consciência. Tive que voltar para minhas raízes. Meu objetivo foi ler os grandes autores, enredado pelo mesmo elã que serviu de inspiração a eles: as paisagens bucólicas e o dia-dia mesquinho da sociedade pré-burguesa. Ou seja, fui pra fazenda de papá no interior do Paraná. Depois de ler muito Sófocles, Ésquilo, Shakespeare, Brecht, Beckett, Ibsen, Stanislavski, Ionesco, Wilde… cansei e fui caminhar. E encontrei algo que me chamou a atenção. Era uma luz esverdeada, fugidia… era um vaga-lume. Ele piscava. Piscava! Não é incrível? Foi essa a minha iluminação: a luz do vaga-lume. Uma situação… catárquica!

Para um dramaturgo, ficar longe do público é como um vaga-lume que não acende. E se não acende, não ilumina. Não arranja a sua parceira no suco primordial da vida. É o que chamo de “ausência da essência”. É a essência do não-ser, ou seja, a ausência do ser. Lume nenhum. O “vaga” se perde. Essência vaga. Isso é bom? Isso é ruim? Pra mim, são as duas coisas. Está vendo?

Repórter: Compreendo… E de onde veio a inspiração para essa nova peça, “Pirilampo Pisca-Perpétuo”, em que você, além de escrever e dirigir, atua?

Waldenëer: Eu sou muito influenciado pela rua, pelas pessoas. Se não há mais poesia na sociedade, tudo bem. Se não há mais poesia na poesia, tudo bem. Mas ainda há poesia nas pessoas. Outro dia, vi um poste, sabe daqueles postes de iluminação pequenos, de rua? Estava à noite, e cumprindo sua função de poste, acendeu. Só que o poste-coisa, feita pela mão poética da pessoa, é sujeita à intervenção não só da pessoa, mas também à intervenção poética do acaso. E o acaso intervém i-ne-xo-rá-vel-men-te. Ah, que coisa linda. Pois bem, eu dizia que o poste acendeu. E por que acendeu? Porque o sensor não detectou luz, era noite, e mandou o comando para acendê-lo. Só que a luz do poste, ao acender, iluminou o sensor. O sensor foi estimulado, que comandou o apagar da própria luz. Que por sua vez… compreende? Não é magnífico? O acaso subverteu a ordem, a função. Neste momento, disparou-se, magicamente, o pisca-perpétuo. E tudo isso se relaciona: lampyridae, o lampião pirotecnizador do acaso.

Repórter: Pode-se dizer que essa temática, a temática da peça, mostra uma mudança no seu trabalho, que sempre teve um forte cunho político? Essa peça foge da politização?

Waldenëer: Muito pelo contrário! É totalmente inserida nas questões da nossa sociedade. Veja, o tempo passa. Um. Dois. Três. Está vendo? São os segundos indo embora. O vaga-lume nega isso tudo, porque pisca. É subversivo. Um? Não. Dois? Não. Pisca, pisca, pisca. Está vendo? A estrutura da não-alienação está aí. Negar o um, piscar para ele. Negar o dois, piscar para ele também. E ainda tem o três! Está vendo? O vaga-lume, em seu piscar, é a essência, presente, pulsante, do não-conformismo.

Repórter: E o que os espectadores podem esperar desse trabalho?

Waldenëer: Vida, muita vida. O pisca é neto-trisavô do pulsar. O pulso do coração, tum-tum, tum-tum, é uma onomatopéia. O pisca-pisca do vaga-lume também é uma onomatopéia. A onomatopéia é a metáfora do som. Portanto, pisca e pulso, ressoam metalingüisticamente a vida. Nossa existência não é mais que um piscar-pulsar entre duas eternidades, o pré-vida e o pós-morte. Apita o árbitro: o pulsar começa. Apita novamente: é o fim do jogo da vida. Não há intervalo, nem segundo tempo.

Repórter: Falando em final da partida, uma última pergunta. A crítica, em geral, não está fazendo boas avaliações do “Pirilampo Pisca-Perpétuo”. Alguns dizem que a peça é praticamente um jogo de palavras de duas horas. Outros apontam a irritação causada pelo estrobo de 400 watts ligado durante toda a duração da peça. A que se deve esse tipo de crítica negativa?

Waldenëer: Aos juros altos, é claro.

Preguiça

“Se alguém me perguntasse um dia qual o assunto que eu mais tenho domínio, eu não hesitaria em dizer que é: não fazer nada. Isso mesmo, eu sou um preguiçoso assumido, saí do armário há muito tempo. O mundo evoluiu, todos os tipos de gente são bem vindos. Viva a diversidade.

Sendo uma pessoa aceita nesse ambiente, eu passei muito tempo observando, aprendendo e ensinado as mais elaboradas técnicas de não ser fazer nada com estilo. Afinal, quem não faz nada e ainda não tem estilo, é vagabundo mesmo.

A experiência ensina que apenas o preguiçoso de berço pode exercer a preguiça de forma civilizada. Por exemplo, uma pessoa portadora do “dom” senta num banco de uma praça e passa horas observando as pombas, ou ainda, acorda num domingo ensolarado e nem tira o pijama, nem faz almoço, nem janta, come o que tiver mais fácil. Uma pessoa que não tenha o “dom” e que tente fazer isso sozinha ou desacompanhada, só vai ficar irritada, injuriada, vai gritar com as outras pessoas e ainda vai ter que ir para terapia depois.

Não adianta insistir, isso para quem sabe fazer. Amadores não são permitidos:
– Deixe-me passar o domingo com você?
– Não.
– Eu não vou atrapalhar.
– Vai sim.
– Por favor.
– Totalmente fora de cogitação. Você lembra da última vez?
– Lembro, mas já ficou para trás.
– Lógico que ficou, mas eu ainda tenho pesadelo com os gritos.
– Mulherzinha.

Eu já vi de tudo quanto é tipo de preguiçoso mesmo, mas esses dias eu ouvi um testemunho que me surpreendeu. O sujeito em questão era tão preguiçoso que trocaria sua vida por não ter que fazer muito esforço:
– Eu já disse, estava muito cansado.
– E isso é desculpa?
– Não, mas se eu desse a minha mala para ele, ia ter que chamar um chaveiro, esperá-lo e só depois entrar em casa. Nem pensar.
– Você é louco.
– Sou nada. Louco é o cara que vem me assaltar numa segunda feira.
– Louco não, ladrão.
– Mas eu nem tinha nada de valor.
– E daí, você sempre deve entregar o que o ladrão te pede.
– Pode até ser, mas não deu não, a preguiça era muita.”

Veja bem

– Boa tarde.
– Boa tarde, em que posso ajudá-lo?
– Eu estou querendo trocar de carro e queria saber se vocês têm interesse no meu Toyota Corolla.
– Claro que temos. Está aqui?
– É esse aqui estacionado.
– Hummmm. Vamos ver.
– É novinho.
– Quantos kilômetros rodados?
– Ta com 15.000 e o carro é 96.
– Xiiii.
– Que foi? Algum problema?
– É que carro mais velho com pouca kilometragem não vende bem.
– Como assim? Isso não faz sentido.
– Veja bem. Se o carro tem 10 anos de uso e apenas 15.000 km o comprador desconfia que o hodômetro foi adulterado. Daí não quer o carro.
– Ah, entendi.
– Ele é preto né, isso dificulta também.
– Como assim? Ta cheio de carro preto na rua.
– Sim, mas veja bem, no mercado de usados os carros pretos não são bem aceitos. A pintura mancha e é difícil de manter.
– Ah, entendi.
– Tem ar-condicionado?
– Tem sim, acabei de revisar e trocar o gás. Gela rapidinho.
– Xiiiii.
– Que foi agora?
– Carro com “ar” é um elefante branco.
– Por que? As pessoas adoram carros com “ar”
– Veja bem, o “ar” demanda manutenção que não é barata, além de aumentar consideravelmente o consumo. Difícil de vender carro com “ar”.
– Ah, entendi. Mas enfim, você tem interesse no meu carro?
– É, veja bem, ter interesse nós temos né.
– E quantos vocês pagam?
– Olha, com essa kilometragem baixa, preto e com “ar”, vou fazer um favor pra você porque fui com a sua cara. Dá pra pagar três mil.
– TRÊS MIL? Você está louco?
– Porque “chefe”?
– Isso é menos de um terço do valor de tabela.
– Veja bem, você tem que entender que estaríamos pegando um mico, não sei quanto tempo demoraria pra vender esse carro. Meu gerente pode me matar se descobrir que propus isso pra você.
– Mas três mil? É muito pouco. O carro vale quinze.
– Faz assim então, nem eu nem você, três mil e cinqüenta mais uma lavagem no posto do Zeca ali na frente.
-…..
– Se não quiser você quem sabe. Ninguém vai oferecer na praça negócio melhor. To te fazendo um favor.
– Pior que to precisando da grana.

– Bom dia.
– Bom dia, em que posso ajudá-lo?
– Vi o anúncio do Corolla Preto. Quanto está?
– Estamos liquidando o estoque, você leva ele por 18.900.
– Mas está muito acima da tabela esse preço.
– Veja bem, mas esse carro tem apenas 15.000 km, é preto e tem ar. Não tem negócio melhor na praça.

Palavrão

Tudo bem que a gente aprende desde pequeno que falar palavrão é feio. Acho isso uma injustiça danada, pois os adultos não nos ensinam as coisas direito. Minha mãe e meu pai sempre falaram que eu tinha a boca suja demais quando era pequeno. Na verdade, meu pai ainda fala isso pra mim. Acho apenas que deveriam nos ensinar que o palavrão é necessário, pois nada define determinadas coisas melhor do que um palavrão. E também nada nos alivia o stress com mais eficiência do que um palavrão bem colocado na hora certa. Claro que vou explicar tudo.

Tá parecendo óbvio que sou um fã incondicional de palavrões e que uso e abuso sempre desse maravilhoso artifício. Acho que todo mundo faz isso, uns com mais moderação outros com menos, mas a verdade é que quase todo mundo fala, e os que não verbalizam, com certeza pensam. Palavrões servem pra tudo.

Vejam as medidas por exemplo: Onde você mora? Se for longe da minha casa é apenas longe, mas se for muito longe, um palavrão exemplifica muito melhor do que muito longe. Poderia falar que é longe pra caralho. Viu? A distância de “um longe pra caralho” é muito maior do que “muito longe”, não concorda? Está com sono? Com muito sono? Muito muito mesmo? Então diga que está com um puta sono que todo mundo vai identificar na hora a quantidade de sono que você está sentindo. Puta sono é muito mais do que muito sono. É capaz até de te trazerem um travesseiro para que você durma imediatamente. Claro, desde que seja um puta travesseiro gostoso com plumas de gansos belgas criados na Finlândia. Nem sei se existe gansos na Bélgica, mas tudo desse pais dá um ar de coisa chique.

Existem alguns palavrões que servem tanto para coisas boas como para coisas ruins. Se eu te falar que meu fim de semana foi, digamos assim, foda, você pode pensar que foi uma porcaria como também uma coisa boa. Mas vou ainda mais longe, ele pode ter sido foda nos dois sentidos ao mesmo tempo, ou melhor, em três sentidos ao mesmo tempo. Calma, já vou exemplificar.

Digamos que eu tenha ido para a Costa do Sauipe na Bahia em companhia de uma morena deliciosa. Por ela ser deliciosa você já imagina que foi foda, certo? Nesse caso, literalmente. Posso dizer também que o hotel era lindo e que o tempo estava foda, nesse caso, um sol maravilhoso. E por fim, posso te contar que a conta foi foda. Isso significa que foi caro demais e que será foda pagar a fatura do cartão de crédito. Viu só? Uma semana e três fodas diferentes.

Outra coisa que a gente faz o tempo todo é comer porcaria, sem dar conta de que isso acontece pelo menos uma vez por semana, caso você seja daqueles que se alimenta fora de casa com freqüência. O restaurante é bonito, mas a comida é uma merda. Ou seja, comemos cocô.

Livros, crônicas, revistas e outros tipos de leitura também têm seus sinônimos em forma de palavrões que podem ser positivos ou negativos. O novo livro do Marcelo Mello é uma bosta. Ou ainda, o livro é um tesão. Não sei quem transa com livros para acharem um simples calhamaço de papéis um tesão, mas enfim… tem louco pra tudo nesse mundo. Agora chega, cansei de escrever essa porra.

Cachorros, mulheres e homens

– Cara…eu tava pensando…
– Jura? Cuidado…
– Sério! E tava vendo uma reportagem dos cachorros…falava que eles se parecem muito com os donos, saca?
– Sei, sei…tipo o cachorro que é Buldog e o dono tem umas bochechonas e tal…
– É; mais ou menos isso. Aí eu fiquei puta intrigado e desenvolvi uma teoria.
– Cara! Você tá avançado nesse troço de pensar, hein?
– … é uma teoria sobre as mulheres.
– Mas não era sobre cachorros?
– É, mais ou menos. Por exemplo: todo cachorro tem dono, certo?
– É, tem uns vira-latas soltos na rua e…
– Você tem mulher?
– Tenho, mas e daí?
– E daí? Você não entendeu?
– Quase…
– Pô, assim não dá. Tô contando duas novidades e você nem pra acompanhar?
– Duas?
– É. Uma: eu tô pensando. Duas: eu tenho uma teoria.
– Tá certo, conta ela então pra ver se eu entendo!
– Seguinte; a teoria é praticamente aquela dos cachorros só que com as mulheres.
– Cara, isso vai pegar mal. A mulherada não vai gostar de ser comparada a…
– Você não tá entendendo. Presta atenção.
– Tá, fala.
– Todo cachorro tem um dono, ou melhor; todo cachorro que tem um dono, parece com ele segundo a reportagem.
– Sim, e daí?
– E daí que todo cara como eu ou você, que tem uma mulher; também se parece com ela.
– Cara, sinto muito mas eu sou homem e não tenho os peitos que a Márcia tem.
– Nã! Todo cara como nós acaba se parecendo não fisicamente, sua besta! Mas o jeito de ser e de agir.
– Tá dizendo que eu sou chato!
– Não, não é nada disso…quer dizer…
– Pô Claudião, vai se catá!
– Chato no jeito bom da coisa, Carlô.
– Que jeito bom? Meu! Isso não tá certo não, cara! E a nossa amizade!
– Vê só Carlão; o Dininho. Como é que ele é? Chapado, beberrão, de longe é o mais bêbado de nós. E a Marisa? Vai falar que nunca viu ela deixar as meninas bêbadas e continuar com a gente, alí, enchendo o caneco!?
– Hum, verdade; o Dininho nem bebia muito na época da faculdade.
– Viu só?
– É, mas isso não quer dizer nada…
– O Vado? O cara faz MBA, curso de especialização em WorldTrendEntrepeneurshipmentForever e ainda dá consultoria pra ONG sei-lá-o-que.
– Verdade!
– A Mariana faz o quê?
– Pô, a Mari quase perdeu o bebê porque estressava de tanto trampar e tal!
– Tá vendo?
– Hum…
– O Biro é a mesma coisa. Todo descolado, cabelo blackpower, tatoo no braço inteiro…
– E a Verinha com aquele cabelo todo estranho, meio moicano; com uns piercings no peito e…
– Epa! No peito? Cara, como você…
– Calma, calma, foi ela quem me disse, nem sei de nada não.
– Pô fod…; e o Rodriguinho com aquele jeitinho engomadinho, todo executivo.
– Executivo “Master”
– Master?
– É…tipo: muito executivo.
– Ah, tá! A Fernandinha nem precisa falar, né?
– Patricinha!
– Patricinha!
– É verdade Claudião, nunca tinha reparado, cara!
– Pô, tô falando! Eu tava pensando, cara!
– Esse negócio de um parecer com o outro e tal…
– E o Rubão, hein?
– Pô, o Rubão…
– Esse é gostoso!
– Esse é gostoso!