Arquivo de setembro, 2006

Um Dia Qualquer

“Numa calma manhã de quinta feira, se viu despido de vontade. Sentado a sua mesa no trabalho, não queria fazer absolutamente nada, aliás, não era um dos dias mais cheios, mas sempre há trabalho, nem sempre pessoas com disposição para fazê-lo.

Começou a navegar na internet, leu algumas notícias, mandou alguns e-mails, ligou até para a sua mãe, que assustada perguntou: meu filho, está tudo bem? Sim mãe, tudo ótimo, só liguei para falar oi. Nunca ligava, não é a toa que causou demasiada preocupação.

Revisou a agenda inteira do celular, acrescentou nomes, apagou nomes, mudou números, copiou os dados para o computador e depois editou tudo de novo. Fez isso com a lista de e-mails do trabalho, com a lista pessoal e depois ainda com a velha agenda impressa que ficava escondida na pasta.

Tudo isso feito e passado apenas 1 hora, faltavam oito, contando com o almoço, que já decidira pedir e comer na sua mesa, pois a preguiça de sair de lá era muita. Comeu um sanduíche de pão francês, recheado com pasta de azeitona escura, salame e queijo provolone, para acompanhar, uma coca cola.

Antes de almoçar, leu o relatório financeiro da empresa, depois o relatório de desenvolvimento sustentável e depois leu a mesma coisa de todos os concorrentes. Não lembra de nada muito interessante, apenas de uma frase no relatório financeiro: Uma empresa do bem, feita por gente do bem, para atender pessoas do bem.

Uma frase típica, mas que pouco demonstrava a realidade, pensou. Quem escreveu isso não conhece o Mauro da contabilidade, nem o Pedro de logística, muito menos o João do comercial. Estão todos louco, isso sim. Depois descobriu que o responsável pelo relatório era o diretor de marketing. Estava tudo perdido mesmo.

No início da tarde recebeu um telefonema, era a matriz na Espanha, precisa de uns números: Quais números? Os que você tiver aí, só me passa rápido. E ele passou, tinha um relatório da semana passada na mesa…deve dar, refletiu.

Depois olhou na agenda e viu todos os compromissos que pediu para a secretária desmarcar…tudo por causa da sua preguiça. Sentiu-se culpado por um momento, mas só, depois passou e ele foi tirar o pó da estante. Estava sujo, sempre reclamava do pessoal da limpeza: bando de preguiçosos, dizia.

Gostava de cuidar dos livros, muitos havia ganho de clientes, outros de parentes, mas os que mais gostava vinham da sua sobrinha Flazinha, que adorava ler e sempre que terminava um livro novo, dava para o tio colocar no que ela mesma gostava de chamar de: “”estantesona do titio””.

Depois limpou sua mesa, sua cadeira. Pediu à secretária que mandassem trazer um aspirador, mas ela o ignorou. Aproveitou e lembrou que o ultimo e único compromisso que ele deixara na agenda era em 10 minutos. Ele foi ao banheiro, arrumou as roupas, ajeitou a gravata, escovou os dentes e voltou a sua sala.

Logo depois a secretária anunciou a visita.

– Boa tarde Sr Martins.
– Boa tarde Vera, sempre um prazer recebê-la.
– Pena que pela última vez.
– Pois é.
– Mas me conte, como foi ser presidente da Vrastraforg por 10 anos?”

Maternidade

– Ai.
– Oi.
– Ai, Ai.
– Que foi amor?
– Nada.
– Nada? O que aconteceu? Ta com dor?
– Não. É que a Tatiana não pára de se mexer.
– E daí?
– Como assim e daí? E daí que eu não consigo dormir com esses chutes.
– Ela está chutando?
– Ta.
– Deixa eu sentir então. Adoro sentir os chutes dela, puxou o pai, vai ser boleira.
– Que boleira que nem o pai nada, ta doido, filha minha tem que ser bailarina, bem linda que nem a mãe.
– Ah não força vai.
– Que?
– Você fez uns dois meses no balé no máximo.
– É que meus pezinhos são frágeis, senão você ia ver…Ai!
– Que foi?
– O que você acha. Mais chutes.
– Tenta dormir.
– Humpf.
– Zzzz.
– Ai.
– Zzzz.
– AI.
– Zzzz…err…QUE FOI? QUE FOI? Aconteceu alguma coisa? Furou a bolsa?
– Não.
– Então não minha assusta assim. Não vou conseguir dormir desse jeito.
– Humpf.
– Queria ver se fosse você que tivesse seu sono interrompido toda hora.
– Mas…você…Humpf.
– Dorme aí vai.
– Humpf, humpf.
– Zzzz.
– Ai.
_ Zzzz.
– AI! AI! AI!
– Ai meu Deus, que foi? Ta tudo bem? O forno tá ligado?
– Que forno que coisa nenhuma.
– Então porque está acordada?
– Essa desgraçada não me deixa em paz.
– Que desgraçada?
– A safada da tua filha.
– Não fala assim do nosso neném.
– Nosso neném uma ova. AAAAAAIIIIII.
– Mais chutes?
– Essa pirralha acha que eu sou palhaça. Já chega.
– Como assim já chega?
– Vou tirar ela de mim agora.
– Mas amor, você ainda está de sete meses.
– E DAÍ?
– E daí que ela não está pronta ainda.
– RRRRR.
– Relaxa o cacete.
– Nossa amor…
– Deixa eu ficar chutando sua barriga a noite inteira depois me pede calma.
– Calma amor, vou fazer um chazinho pra te acalmar e dormir.
– Humpf.
– É um processo normal, todas mães passam por isso, no futuro vai até sentir saudades dessa época, ela vai nascer, crescer, amadurecer e daí vai poder dormir sossegada.
– …
– Passa rápido, você vai ver.

Tô de olho na sua bunda!

Existem certas coisas inexplicáveis. O homem já construiu cidades, pontes, navios e aviões; o homem pode correr, navegar e voar mesmo não nascendo com algumas dessas habilidades. O homem já foi ao espaço e à Lua. Contudo, o que continua absolutamente aquém de explicações é como, por Deus, os papéis higiênicos são enrolados do lado errado? É: do lado errado!

Por exemplo: você vai furar a parede do seu banheiro para colocar o porta-rolo de papel higiênico (do mais simples): você fura a parede de que lado da bacia? Não importa … você já furou a parede, instalou o porta-rolo de papel higiênico – e eis aqui a pergunta que obtém 99,8% de respostas afirmativas (quase a mesma porcentagem de semelhança entre os genes do ser humano e do macaco, ainda que este não saiba usar uma furadeira) – e vai colocar o próprio papel higiênico onde é seu lugar de direito: você coloca o papel desenrolando por cima do rolo ou por baixo do rolo? Se você respondeu por baixo, você é 0,2% da população, portanto minoria, portanto não vamos trabalhar com a sua resposta.

Mas se você respondeu que coloca o papel higiênico desenrolando por cima, meu amigo, você acaba de entender o porquê da inexplicabilidade do desenrolar do papel. Porque o inexplicável não é você colocar assim, saindo por cima. Isso a maioria das pessoas faz por questão de higiene (ainda que controversa a explicação de que fazendo assim o papel não encosta na parede), mas sobretudo pela lógica. Veja que se o papel sair por cima sua mão desocupada (a que não puxou o papel) pode levemente correr por de trás da tripa de folhas e segurar medianamente para que a sua outra mão (esta sim, que puxou o papel inicialmente) volte sobre as folhas de papel (seguradas anteriormente pela mão desocupada) fazendo uma dobradura que evita qualquer acidente higiênico.

Se de fato concordamos com esse processo, concordamos que não estamos usando a parte mais macia do papel higiênico, correto? Faça o teste em casa, na firma; vai lá: eu espero.

Qualquer papel higiênico contém mini-relevos estampados chamados: calandras. Sim, calandras. As calandras são de grande utilidade para o processo de industrialização dos rolos de papéis; e para o consumidor tem efeito demostrativo de maciez e de delicadeza. Mas o que adianta tudo isso se na hora de usar o produto, depois das puxadas e dobradas citadas, os relevos ficam para o lado de fora da dobra, sim, diretamente expostos às suas partes íntimas, ali; cara-a-cara (talvez não seja esta a expressão mais correta)?

Rogo aos produtores, fabricantes e desenvolvedores de papel higiênico que olhem para o próprio rabo antes de ficar copiando velhas soluções ou que pelo menos expliquem, então, porque o bendito papel é enrolado ao contrário? Enquanto isso eu fico aqui, atento, de olho na bunda alheia.

Dançando com o Diabo

“Acordou numa chuvosa quinta feira. Eram cinco horas da manhã. Horário cumprido diariamente, uma rotina sagrada. Levantou-se da cama e foi ao banheiro. Escovou os dentes com calma, limpando cada um dos ossos que usa para mastigar. Olhou no espelho, viu aquela cara amassada de quem havia dormido apenas 4 horas. Se abaixou e ouviu:

– Ei você!

Assustado olhou para trás e viu que não tinha ninguém no quarto: devo estar louco, pensou.

– Aqui, não aí.

Olhou para frente de novo e lá estava sua imagem no espelho.

– Pronto, agora podemos conversar.

Olhou bem para a sua cara no espelho e viu que realmente não parecia o seu reflexo, era outra pessoa.

– Acho que estou sonhando, então vou ignorar você.
– Isso mesmo, insista no erro.
– Não me fale que esse é um desses sonhos que eu falo com a minha consciência e ficamos julgando meu comportamento e a minha vida.
– Não de maneira nenhuma.
– Que bom.
– Eu não sou sua consciência.
– Ótimo.
– Eu sou o filho do capeta.
– …
– Isso mesmo, o herdeiro do inferno, o príncipe do fogo, o Sr. das trevas…
– Já deu para entender, então eu morri, é isso, seu pai está ocupado e você veio me recepcionar?
– Nada disso, você está vivinho e saudável. É que meu pai cuida da parte operacional lá em baixo e eu cuido da parte comercial aqui em cima, por isso estou aqui.
– Veio me prospectar?
– Sim. Você é um ótimo candidato a ir para inferno.
– Eu sei. Escuto isso o dia todo.
– Pois é, a maldição funciona mesmo.
– E como funciona isso?
– É bem simples. Não faça nada.
– Nada.
– Isso, seu comportamento já é um exemplo.
– Exemplo?
– De pecado.
– Ah, tem isso né.
– Lógico, são os critérios do nosso primo.
– Deus?
– Jesus Cristo, Deus é nosso tio. Você também não sabe nada hein.
– Nunca fui dessas coisas.
– Nós sabemos.
– Mas e se eu não quiser ir para o inferno?
– Não dá mais.
– Porque?
– Lembra da Ritinha?
– Vixe.
– Lembra do seu ex-chefe?
– Nossa.
– E do seu vizinho de rua em Ituverava?
– Está bem, já entendi, vou para o inferno, droga.
– Adeus

Acordou, eram dez horas da manhã.”

Em busca da felicidade

– Você não sabe cara.
– O que?
– Eu e a Betina.
– Que tem?
– Vamos nos separar.
– Jura?
– Juro.
– Nunca ia pensar nisso.
– É, nós também, mas aconteceu. Tentamos evitar, recorrer a terapia, etc. Nada funcionou. Achamos melhor cada um seguir seu caminho.
– Mas não tem volta mesmo?
– Não. Já demos entradas nos papéis.
– Tem certeza?
– Não. To na dúvida, mas como esses processos demoram já dei entrada para agilizar caso se oficialize.
– Sério?
– Claro que não. Tenho certeza que quero me separar, senão não tinha entrado com o processo.
– Mas porque chegaram a esse ponto? Você fez merda né!
– Que merda nada. Você sabe muito bem que nunca traí a Betina.
– É verdade, sempre achei que você ia acabar se dando mal. Foi isso né. Pegou ela na cama com outro. Que zica. Nem deu tempo do cara sair fora. Você deve ter chegando antes de viagem né, sempre chega, quer fazer surpresa. Essas coisas de agradar as pessoas dão errado. Viu o que aconteceu com você?
– Para, para, para. Não peguei a Betina com ninguém. Não fale bobagem.
– Então porque?
– Porque o que?
– Por qual motivo estão se separando?
– Porque não estou feliz.
– E?
– E o que?
– Tem que ter mais alguma coisa.
– Como assim? Só isso. Não estou mais feliz vivendo desse jeito.
– Mas isso não é motivo.
– Como não?
– Isso é normal. Um monte de pessoas não é feliz no casamento e nem por isso pedem o divórcio.
– Eu não sou um monte de pessoas.
– Você é louco.
– Eu sou louco? To me separando porque não estou mais feliz e você me chama de louco. Normal é quem fica casado e infeliz?
– Claro. Quando você casa já sabe que vai ser assim.
– Assim?
– É, infeliz.
– Eu não, pretendia ser feliz quando me casei. Buscava a alegria plena.
– Foi por isso que deu errado.
– Porque?
– Expectativas erradas. Se queria felicidade buscou no lugar errado.
– E onde deveria buscar?
– Onde? TV a cabo é lógico.

O Silva em : “Assistência Técnica”

A televisão de casa nunca mostrou grande afeição pela minha pessoa. Desde que a comprei, digo, peguei emprestada na casa do primo Vitinho, parece uma criança no seu primeiro dia de escola. Toda vez que eu tento assistir algo, ela bate o pé e chora.

Desta vez, levei 40 minutos para começar a assistir uma partida da Seleção. Meus argumentos sempre são atordoantes. No final eu sempre venço.

Para um tele-espectador mais desavisado de nada adiantaria ter a “TV Senado” como única opção. Mas sou sagaz. Tenho 1,79 m. Consigo facilmente deduzir o placar do jogo vendo a movimentação no plenário.

Futebol não é futebol sem uma boa cervejinha, então fui até a cozinha para ver se ainda guardava alguma latinha, usada que fosse, para fazer o clima de Copa enquanto assistia a assembléia, digo, o jogo. Nessa trajetória me lembrei que havia emprestado a TV do meu querido primo há menos de um ano. Se ela ainda estivesse na garantia, eu ganharia força nas minhas ameaças para as próximas negociações.

Liguei então para o Vitinho, querendo perguntar sobre a data de compra do temperamental aparelho, embora duvidasse que meu querido primo recordaria do empréstimo. É um homem com um coração enorme, as pessoas acabam sempre abusando dele.

– Ô Vitinho, tudo bem com você, queridão?

– Alô … quem fala?

– Que vergonha você não reconhecer a voz do seu primo mais querid-

– Desgraçado! Silva é você! Cadê a minha TV?!

– Não precisa vir com indireta, Vitinho. Deixa eu tentar adivinhar o que você está querendo: Você quer saber como vai a nossa TV, não é isso?!

– NOSSA!? Como assim, NOSSA?! Eu não quero saber como ela vai, não! Eu quero ela de volta! Seu safad-

– Vitinho, lembra que eu trouxe ela pra casa pra testar a voltagem. Expliquei muito bem pra tia Eulália, sua mãe, que era melhor testá-la em uma casa que tivesse a corrente 110v.

– Seu vigarista duma figa! Eu moro no centro da maior cidade do pais ! Como minha casa vai ter outra voltagem!?

Vitinho continuava o mesmo fanfarrão de sempre.

– Com todas essas samambaias, Vitinho? Você não sabe que no campo a voltagem é 220v?

Eu sempre cuidei muito bem das coisas da minha família.

– Campo ? Se eu moro no campo, então você será o próximo Nobel de Ciência, seu energúmeno ! O que você quer dessa vez ?
Caso eu fosse um homem sensível, algumas vezes poderia me magoar com as brincadeiras do Vitinho a meu respeito. Mas sou um Silva. E os “Silva” são fortes. Uma família pequena precisa dessa força para sobreviver.

– Na verdade eu só liguei pra saber se você está bem. Se Tia Eulália tomou os remédios dela, e se eventualmente, a TV ainda está na garantia …

-Silva, é o seguinte! VAI PRA PUTA QUE O PARIU!

-Olha, Vitinho. Eu tou meio ocupado, não posso ir pra lá agora.

-Você quebrou minha TV?! É isso!? Puta que o pariu … Parente se fosse bom não era obrigação! Ô Karma maldito!

Às vezes o Vitinho (garoto mimado pela mãe, sabe?) se exalta com bobagens e acaba perdendo a razão. Os outros familiares não tinham nada a ver com essa história. Fico muito triste ao ver ele falando mal de entes queridos.

-Seguinte … eu vou desligar agora, porque o jogo está acabando e eu gostaria muito de descobrir o placar.

-Jogo?! Está tendo jogo agora?

-É sim, da Seleção. Você não tem TV em casa?

-Ah PRIMO, seu FILHO-DA-P-

Achei melhor desligar. Não tolero que ofendam meus parentes, nem de brincadeira!

Mesmo que a TV continue temperamental, achei melhor voltar para o meu jogo e deixar o Vitinho fora dessa história. Ele nunca soube lidar com aparelhos eletrônicos.

Nota do Autor: O Silva é um personagem que surgiu “involuntariamente” em uma crônica chamada “Sala de Espera” e assim que tiver mais histórias interessantes deve passar por aqui.

Os micos não contados do carnaval

A nossa Escola, naquela sexta, seria a última a entrar na avenida do samba. Diante disso, resolvemos passar na concentração, apanhar as fantasias e ir direto ao hotel; após um cochilo, rumar ao desfile.

Lá pelas onze da noite, estávamos a catar nossas fantasias e tivemos uma surpresa: ela não cabia no carro porque o seu costeiro (parte da fantasia colocada sobre os ombros) era formado por ferros pontudos de aproximadamente um metro de comprimento. De imediato, mudamos os planos e fomos para nosso programado cochilo.
Trimmmmmm…

O relógio despertou quase três da matina e eu ainda estava sem fantasia.

Os colegas da escola partiriam às três e meia da concentração em direção ao sambódromo… Liguei no quarto ao lado, para minha amiga de desfile e ouvi:

– Vamos desistir, ainda há tempo???

Depois de tamanha superação, não poderia morrer na praia.

– Desistir? Tá louca? Agora vamos de qualquer jeito….

Ao chegar na concentração, vimos que os ônibus estavam com seus motores ligados. Todos os sambistas praticamente enlatados com suas fantasias e nós, calmamente, a procurar os nossos benditos costeiros…

Bem, é hora de falar detalhadamente dos tais costeiros.

A minha fantasia era de “pescador encantado” e o costeiro, como eu disse acima, era formado de vários pedaços de ferro que formavam algo parecido com um leque. Na ponta desses ferros era enganchada uma fina corda de náilon, recheada de bolinhas, não tão pequenas, de isopor. Aos lados dos ombros caíam as bolas e dava-se a impressão de uma rede… Aí morava o perigo porque realmente formava uma rede e o peixe, no entanto, era eu.

Ao formar a ala, fui percebendo que a minha “rede” estava apta a enroscar em todas as redes do caminho. Poderia pescar, se quisesse…

A cada passo pelas ruas que davam ao sambódromo eu ia me especializando em me enroscar e aquela situação ia me dando calafrios. Há, ainda, um detalhe importante: era impossível me desvencilhar sozinho quando enredava algum colega de profissão, ou seja, outro pescador. Era necessária a presença da “mãe d’água” (mulheres da nossa ala) para fazer o papel da “desatadora dos nós”.

Rojões ao céu e o grito de guerra a ecoar quando ouvi a sirene ensurdecedora de uma ambulância. Imediatamente me desconcentrei e, obviamente, pesquei meu vizinho.

A ala toda se abrindo para ambulância passar e de repente percebi que todos os pescadores e mães d’águas miravam para a minha direção. Eu espantado e enroscado não sabia o que fazer…

– Pô, Cara, não tá vendo a ambulância?

Eu estava, nada mais, nada menos, que em frente ao portão de saída, enroscado ao meu colega. Meio desajeitado, dei um sinal para que desse um passinho pra frente e, como num passo sincronizado de balé, fomos os dois pra direita e a ambulância seguiu no seu desespero rotineiro.

A coreografia montada sobre o samba-enredo determinava que em certo momento todos dessem um giro de trezentos e sessenta graus. Pois é, vocês já podem imaginar o que aconteceu na hora do giro na ala dos pescadores… Isso mesmo, foi bolinha de isopor pra todo lado.

Que sufoco!

Além de tudo, eu estava numa das extremidades da ala e não parava de ser chamada a minha atenção por uma das dirigentes da ala.

– Você enroscou porque não prestou a atenção e está muito perto do seu companheiro!

– Não saia da ponta, não pode haver buracos na ala!

– Cante o samba, vamos!!!

Em meio a tanto estresse eu sambei, cantei, enrosquei, pesquei e me diverti.

O único problema é que a escola não ganhou o título porque perdeu 0,25 pontos na harmonia. A pergunta que não quer calar:

– Será que a minha pescaria contribuiu para a perda?

E lá se vão mais 100 anos

E lá se vão mais 100 anos do ditado popular: Cada um tem aquilo que merece! No mínimo uns cem anos, afinal não se sabe quando o ditado foi inventado nem o quanto de população precisava conhecê-lo pra ser ele popular. Você consegue acreditar que depois de todos os escândalos com o frango das merendas escolares, com os fuscas dados aos campeões de 70, depois de toda a rebordosa sobre o desvio de dinheiro público – no caso, o seu – para paraísos fiscais como os das ilhas Jersey, depois do Túnel Ayrton Senna e Jacú-Pêssego, depois de institucionalizar a bandalheira com o “Rouba mas Faz”; depois de tudo isso e mesmo com 8 processos em andamento na justiça, o Sr. Paulo Maluf ainda é o candidato mais votado segundo a simulação de intenção de voto?

Você acredita na programação da Tv brasileira que oferece “Vale a pena ver de novo”, “Vídeo Show”, “Big Brother”, que mostra incompetência aos domingos exibindo Fausto Silva ou Gugu e suas mil e quinhentas “vídeo cassetadas” repetidas, que repetidas vezes repete as mesmas repetições de matérias, documentários e notícias? E nas pessoas “cultas” (que tenham o mínimo de discernimento já vale) que criticam a Tv e sua programação, sua qualidade e segunda-feira, logo pela manhã, estão discutindo quem vai ganhar a “Dança dos Artistas” ou a matéria do “Fantástico” – que se for o caso de ler, podemos ler a revista VEJA que ficam elas por elas?

Dá pra acreditar em quem fuma cigarro, incomoda os outros com a fumaça e depois reclama do sujeito que jogou papel fora do cesto de lixo? Que falta de cidadania! Ninguém acredita naquele bando de motorista amontoado uns quase por cima dos outros, buzinando e reclamando, ligando e se desculpando pelo atraso do dia, mas todo mundo avança o sinal vermelho, faz conversão proibida e fecha o cruzamento falando ao celular.

Meia-entrada com carterinha falsa todo mundo compra (e com isso os cinemas e casas de show já embutem no preço final o prejuízo das meia-entradas), toma-se muito Yakult enquanto faz compras e nunca, nunca, paga no caixa e; depois de tudo que já aconteceu nessa curta vida democrática, Fernando Collor está quase senador por Alagoas, Lula quase presidente outra vez – mas fala baixo que ele não sabe de nada; nunca! -, a taxa do lixo continua onerando o bolso de quem mal pode pagá-la, assim como a provisoriedade da taxa sobre as movimentações financeiras oneram a permanente falta de finança, o que constitue em um paradoxo que tem relação zero com os recursos para a saúde.

E tudo isso por que? Porque o mal do Brasil é o brasileiro. E lá se vão mais 100 anos …

Uma Grande Saudade

Sempre acreditei em Deus. Respeitando e sempre tentando entender um pouco das religiões que pude me aproximar, nunca me convenci ou fui tocado por alguma delas. Tenho minha própria fé. Meus pecados capitais, meus 10 mandamentos, nada formatado, mas tudo sempre bem lembrando antes de dormir, em um papo bem aberto com o meu Deus iniciado com um Pai-Nosso. Não por catolicismo, mas por uma tentativa de recuperar um pouco do conforto de quando meus pais vinham na beira da minha cama me botar pra dormir. Um ritual muito mais familiar do que religioso, num momento em que eu era a pessoa mais segura e confortada que existia.

Nunca cheguei a conclusão nenhuma sobre a morte e sobre o que acontece depois dela. Prefiro achar que o Inferno e o Paraíso são aqui mesmo e faço o que acho que tenho que fazer para conquistar a melhor opção no fim.

Não sei se estou certo.

Morei 14 anos da minha vida em um prédio onde tive meus primeiros amigos. A turma do Vila Borghesi.

Turma digna de seriado, com todos os personagens prontos. Crescendo juntos, brincando, jogando, brigando e aprendendo a ser homem. Juntos.

Sabia que não conseguiria cultivar a amizade de todos para sempre, e embora mantenha amigos daqueles tempos, estava certo que aquela turma seria um pouco diferente do que eu queria ser “quando ficasse grande” e minhas escolhas foram me distanciando da rotina deles.

Porém, acredito que a amizade é a maior de todas as conquistas, e mesmo distante, nunca perdi o contato.

Há um bom tempo sabia que um “do prédio” estava doente.

O mais forte, o mais estudioso e o mais esforçado de nós.

Sempre esbarrei na lembrança dessa doença ao pensar na minha teoria sobre o Paraíso na Terra.

Qualquer um de nós não merecia passar pelo que passou nosso amigo. Mas ele, justo ele … não consigo entender.

Ou ainda vou encontrar conforto em alguma crença que não sei qual é ou o ceticismo vai me fazer achar que nem o tal do Paraíso na Terra existe. É tudo uma questão de probabilidade mesmo. A Vida surgiu por acaso, tudo acontece por acaso, não tem certo e errado. E o que falam por aí é invenção para não enlouquecer esse Mundo de acasos. Que está meio louco, diga-se de passagem.

A única coisa que me conforta, é que nosso amigo, antes de ir, como bom filho que sempre foi, durante a última melhora repentina, pediu seu ao pai para deixá-lo ir embora. Depois de uma levar uma bronca esperou até o dia que o pai finalmente o deixasse. E foi em paz. Dormindo.

Acabou amigo. Fica tranqüilo que agora tudo acabou.

Fica aqui apenas uma grande saudade.

Recheio

“Num bar, na esquina, no centro. Vazio:

– Não acredito que você falou isso.
– Qual o problema, é um elogio como qualquer outro.
– Elogio? Para uma mulher? Quem é você?
– Sou eu pô, sempre fui assim.
– Burro?
– Não.
– Idiota?
– Também não.
– Patético.
– Ah cara, nem é para tanto.
– Lógico que não, o sonho de toda namorada é ser chamada de “”recheada””. Não vejo como não poderiam gostar.
– Pois é, não vejo também.
– Porque você não chamou de gostosa?
– Batido.
– De gata.
– Muito pudico.
– Você está impossível hoje. Fica ligado que essa mina nunca mais vai querer saber de você.

Num salão de beleza, no meio da quadra, no bairro. Lotado:

– Recheada? Que diabos ele quis dizer com isso?
– E eu que vou saber.
– Como você reagiu?
– Como uma dama, fiz uma cara bem feia, dei-lhe as costas e fui embora, mas me arrependi.
– Porque?
– Aposto que ele ficou olhando meu traseiro recheado.
– Ah, para com isso.
– Agora eu mal consigo olhar para mim no espelho.
– Deixa disso Carlinha, você sempre foi voluptuosa.
– Isso sim, mas nunca fui recheada. Estou me sentindo uma bolacha, um frango, uma gorda.
– Ah, nem é para tanto, as vezes os homens querem dizer uma coisa e acabam falando uma bobagem dessas.
– Será?
– Lógico, aposto que ele queria dizer que você era gostosa, uma gata.
– E porque não disse?
– As vezes ele tentou ser mais safado e diferente.
– Hahaha, até parece.

Em outro lugar, meio que por ali, nas bandas de lá. Nem assim, nem assado:

– Você soube a última da Carlinha e do Rafa?
– Sim, “”recheada””, hehehe.
– Coitado do idiota.
– Coitada da gordinha.
– Um brinde.”