Arquivo de outubro, 2006

Da série : “Posso Entrar Na Sua Vida?” – Marcelo e Marisa

Marcelo não é um cara muito normal, mas também não chega a ser louco. Ele é do tipo de pessoa que funciona melhor à noite. Pra gente assim, não tem horário melhor do que a madrugada pra se comprar livros. Logo ao entrar na sua livraria 24 horas preferida (a única da cidade) ele se depara com uma mulher bem atraente. Não chega a ser uma Fernanda Lima, mas pelo menos é uma mulher de verdade, não uma brincadeira de mal gosto criada pelos meios de comunicação de massa para fazer os homens sofrerem. Depois de um bom tempo observando-a ele não se contem. Se aproxima lentamente dela e diz:

– Oi, tudo bom?
– Er … tudo …
– …

Marcelo nunca foi bom para fazer essas coisas. Pelo menos neste caso, ela se mostrava curiosa. Nem um pouco simpática, mas no mínimo, intrigada.

– Eu te conheço?
– Não. Mas eu queria te fazer uma pergunta …
– Uñ ? – (típica palavra de quem não quer dizer mais do que “Uñ”, se é que vocês me entendem).
– Posso entrar na sua vida?
– Hãn?! – (agora sim, uma expressão bem mais enfática).
– Po-posso entrar na sua vida?
– Como assim?

Um longo silêncio, seguido de um suspiro do nosso amigo Marcelo :

– É assim … Eu te vi logo que entrei aqui.
– Certo.
– Aí … você estava andando tranquilamente, enrolando a ponta do cabelo como quem enrola a ponta do cabelo com os dedos, bem tranqüila.
– Faz sentido …
– Magicamente, você parou … colocou a ponta do seu cabelo na boca, como quem coloca a ponta do cabelo … hmmm … na boca, e pegou um livro do P.G. Wodehouse …
– Obrigado, Jeev-
– Não, meu nome é Marcelo.
– O nome do livro era “Obrigado, Jeeves”!
– Ah sim … eu sei.

Ela pareceu não ter gostado muito da resposta:

– Grr … Bom, posso ir embora ou tem mais ?
– Você não me respondeu ainda …
– O quê ?
– Se eu posso entrar na sua vida.
– Como assim? Você chega aqui, fala que me viu andando e comendo meu próprio cabelo, como quem come o próprio cabelo (!!) e aí então faz uma pergunta absurda dessas! Qual é o ponto?!
– Bom … (longa pausa) … se essa pergunta é tão absurda assim, talvez seja melhor VOCÊ não entrar na MINHA vida. Muito prazer. Tchau!

Esta, sem dúvida, foi a frase dita por Marcelo da forma mais tranqüila por toda a conversa. Sem pressa, ele se virou, se afastou e começou a folhear as revistas de arquitetura , o que apenas fingia fazer anteriormente.

Alguns momentos depois a moça ainda intrigada, que agora disfarçava folhear revistas de Tunning, decidiu se aproximar e disse:

– Claudecir …

Ele, sem tirar os olhos sobre um artigo muito interessante sobre sofás “chaise-longs” retrucou :

– É Marcelo.
– Eu estou falando que o MEU nome é CLAUDECIR!
– HEIM?!
– Ah, parou de ler, né? Então … Marisa, meu nome é Marisa.
– Po-podia ter me pedido pra parar de ler … Estou em estado de choque, agora!
– (risos)
– Certo … vou tentar apagar a figura do transexual mais atraente que conheci nos últimos tempos e voltar a pensar em você apenas como uma mulher.
– Que bom!
– E então … Quer me falar algo, Marisa?
– Como assim ?
– Como assim o que ?
– Entrar na minha vida? O que você quis dizer com isso?
– O conceito do verbo “entrar” é relativamente compreensível, principalmente para pessoas com o QI mediano. Muitas vezes na Matemática temos dois grup-
– Opa, querido! Eu sei o que significa “entrar”.
– Viu?! Agora eu sei que você tem pelo menos o QI mediano da população. Parabéns!

Marisa fez aquela cara que aparentemente diz “bobinho!” mas que na verdade significa “você tá pensando que eu sou idiota, seu energúmeno!”, e depois perguntou:

– Sério! O que você queria quando me fez a pergunta?
– Por que vocês mulheres acham que as coisas significam mais do que realmente significam? “Que horas são?” não significa “Achei seu relógio interessante, mas essa aparência retrô da alça de vinil pode mostrar que inconscientemente sua infância foi marcada por um trauma de rejeição, personificado aqui, com uma das características mais marcantes do culpado pela sua rejeição, seu pai, reconhecido pela pontualidade.” : “Que horas são?” É apenas uma pergunta que tenta esclarecer a hora certa!

Sem se exaltar, mas no limite da provocação, em um tom em que se ambos estivessem na quinta-série a turminha gritaria “YEAAAAAAHHH!!!”, Marcelo respondeu, e continuou:

– Enfim, quis dizer exatamente o que te perguntei.
– Tá! Mas … Você não poderia ter me dito … Er …
– “Você vem sempre aqui?”
– Não … essa é muito batida, você não falaria isso …
– “Ei, Pequena. Posso te pagar um drink?”
– Ótima frase. Pena que 50 anos atrasada. Acho que não … sei lá! Você não poderia ter vindo com qualquer xavequinho minimamente aceitável?
– E o que esse xavequinho significaria “na misteriosa língua das mulheres”?
– “Oi, posso entrar em você?”

Só para esclarecer, amigo, quem disse essa frase foi ela. O papo está meio longo sempre é bom ajudá-lo com essas intervenções. Ele respondeu, um pouco desconcertado de início:

– C-Certo! Não que isso seja uma grande mentir-
– Ei, seu safado! – disse Marisa, dando aquele tapinha no ombro de Marcelo, daqueles que querem dizer “Preciso te recriminar perante a sociedade, mas você mandou bem nessa. Keep moving!”

– O fato é que antes de entrar em você – ao dizer isso, ele rapidamente protegeu o ombro – eu quero saber se você vale a pena. Ou seja : antes do ato físico, o mínimo de afinidade intelectual.
– Não seja cínico! Se eu te atacasse aqui e te puxasse pra transar no banheiro você iria sem pestanejar …
– Olha … num vou mentir pra senhor- outro tapa daqueles no ombro do nosso protagonista – mas, como você realmente me pareceu interessante, talvez algo além dessa divertida forma de entretenimento sexual pode ser experimentado.
– E tudo isso pelo jeito que eu coloquei o cabelo entre os lábios como qu-
– Quem coloca os cabelos entre os lábios! Isso!
– Só por isso?!
– Precisa mais do que isso?!
– Vocês homens são completamente loucos!
Marcelo fingindo uma conversa: – “Que horas são?” “Meia-noite e meia!”. Desculpa, nada de louco nessa conversa.
– O que fazemos então … ?
– Olha, o banheiro está aqui do lado … Andei reconsiderando minhas opiniões e como não quero parecer intransigente, acho, já que é sua vontade, que podemos trans-

Outro tapa, seguido de : – BESTA!

– São seus olhos …
– Vamos lá então … Como eu faço pra deixar você entrar na minha vida?
– Pode começar me dando seu telefone.
– Ok! O número é … – (para preservar a privacidade de nossa querida personagem, não transcreverei aqui o número, mas garanto, é fácil de se decorar).
– Muito bem! Está anotado. Tenho que ir agora, mas te ligo amanhã.
– Então tá.
– Ah, caso você não saiba: quando eu te ligar, você atende, ok? É assim que funciona.

Mais um tapa. Ele continua :

– Olha, acabaram de liberar o banheiro, tem certeza qu-
Desta vez ela só ameaçou o tapa. Marcelo, muito sério, fazia a pose em “T” do golpe final em Karate Kid.
– Vai embora logo, e vê se liga mesmo!
– Sim senhora!

E assim, começou a história do relacionamento entre os personagens desta crônica. Se deu certo ou não, nem eu sei ainda. Só posso dizer que mesmo sem que ambos soubessem, Marcelo já tinha entrado na vida de Marisa. E ninguém pode falar que ele não pediu.

É isso! (Tarja Preta MIX)

É isso. Decidi! Vou adotar uma criança africana. Que tal alguém da tribo dos Utus? Melhor : Watusi!

Os Watusi sempre foram conhecidos pela sua estatura e conseqüente facilidade para trocar as lâmpadas das cabanas onde vivem.

Li uma vez que uma tribo rival chegou a cerrar as canelas dos Watusi que apreenderam numa batalha. Ao contrário do que afirmava o cientista local ao realizar testes preliminares com lagartixas, não cresceram pés novos nos coitados. Dizem que foi horrível.

Se a Britney Spears vai adotar uma criança só porque achou legal a Madonna ter feito isso, vai ter que brigar comigo!

Essa popstarzinha de meia-tigela não sabe com que tipo de pessoa está lidando quando o assunto é adoção de crianças africanas. Nunca perdi uma briga dessas!

Ando um pouco triste. Meu cavalo ainda está manco, tive que fechar o meu Saloon apesar de toda a caubóizada considerá-lo o mais legal do Oeste (com direito a drinks premiados e tudo). Continuo apenas com o lado esquerdo do meu rosto. Pelo menos sou canhoto, o que ajuda na espera.

Quem sabe um africanozinho de 2,15 correndo pelo meu quarto não me ajude a recuperar a alegria? É isso! Já consigo me ver passeando no parque com meu querido africanozinho. Sim, sim, é isso! Talvez aí eu consiga convencer àquela pequena que vive se esquivando de mim de que eu sou um cara antenado nas modinhas batutas da moçada, e então finalmente, ela tope dividir um drink tipo aperitivo comigo.

Será que o Watusi gostará de dormir dentro do meu armário junto com o Autorama e o velho Maximus? Na real, a questão não é saber se ele vai gostar, só preciso mesmo é ver se ele cabe! O que está na moda está na moda e deve ser feito até o momento que não esteja mais. Quando isso acontecer, já terão inventando algum tipo de asilo para africanos adotados devolvidos para a fábrica. De qualquer forma, ele já terá ficado grandinho e não terá a mesma graça.

É isso! Não vivem dizendo que as mulheres adoram animais de estimação!? Eu e meu Watusi vamos fazer muito sucesso!

Boa! Já que o Mundo nem sempre é legal conosco, vamos estragar a vida de quem a gente puder. Ahhhhhh !!!! Vamos reeleger o Lula! Ahhhh!! É isso! Vamos louvar o Michael Jackson que ao invés de ser preso e colocado numa jaula para exposição no Ceasar’s Palace, cria tranquilamente um monte de psicopatinhas com um súbito pânico altura e principalmente, janelas de hotel. Ahhhhhh !!!!

Vamos lá! Por que não? É isso aí! Ahhhhhh !!!! Vamos estourar umas bombinhas atômicas por aí! Ahhhhhhhh!! Que beleza! Ahhhhhh !!!! É isso aí! AHHHHH!!!!

Offline

– Você falou com o Titi?
– Não, to away desde manhã resolvendo umas coisas por aqui.
– Ah ta.
– Porque?
– Sei lá, to preocupado.
– Que foi, aconteceu alguma coisa?
– Nada.
– Então o que?
– Ah estranho. Mandei um e-mail pra ele agora a pouco e não tive resposta.
– Deve estar ocupado. Viu o status dele?
– Então, veja você mesmo.
– Peraí.
– To perando.
– …
– Viu?
– Caramba. Ele ta offline.
– Falei.
– Meu, será que aconteceu alguma coisa?
– Não sei. Só pode né.
– É. Mas o que? Será que ele está bem?
– Não sei. Até mandei um sms, faz uns vinte minutos e nem notificação de recebimento veio.
– Peraí, vou ligar pro Antônio.
– OK.
– ….
– ….
– Cara.
– Que foi?
– O Antonio falou que desde ontem a noite ele está offline.
– Caramba.
– Vou ligar pra polícia.
– Melhor né, será que aviso os pais dele?
– Melhor não. Até descobrirmos ao certo o que está acontecendo.
– Verdade.
– To ligando.
– OK.

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– Central de Polícia!
– Bom dia, eu preciso comunicar um desaparecimento.
– Pois não. Nick completo por favor.

Como conseguir mulheres

A primeira luta para conseguir mulheres é chamar atenção. Se aprende desde pequeno. Ou você é olhado, observado, admirado ou é mais ou menos ignorado. Tem gente que tem o dom, a genética, o estilo ou qualquer combinação dessas coisas naturalmente, sem esforço. O que é uma sacanagem e prova matematicamente a injustiça intrínseca deste mundo. Só que isso não tem a menor graça.

A grande graça está naquelas pessoas que, sem graça natural, tentam subverter o sistema e arrebanhar uma colher-de-chá de admiração. Capricham nas roupas, na pose, na simpatia, nas idéias extravagantes, no olhar 43 (se não souber o que é isso, pergunte pro Paulo Ricardo; se não souber quem é o Paulo Ricardo, parabéns).

Dentre as diversas técnicas, uma das melhores é o cão. Um cachorrinho faz milagres pra quem não tem o abdômen bem definido. Funciona assim: arranje um cachorro. Pode ser macho ou fêmea, não importa. Não precisa ser um cachorro muito metido a besta também. Quase qualquer um serve, desde que tenha alguma coisa “interessável”. Pode ser dos bravos, pra passar uma imagem de bad-boy. Ou dos grandões e brincalhões, para mostrar como você é cool. Ou até mesmo dos pequenos e bem-cuidados, sinal de que o dono sabe o que faz. A visão de um cachorrinho embaça qualquer racionalidade: a mulher não vai lembrar que o cachorro pode estraçalhar uma jugular, babar e destruir a casa inteira ou latir esganiçadamente a noite toda. Um cachorro é um cachorro é um cachorro.

O que importa é tirar o cão de casa. Sair pra passear em todas as oportunidades possíveis. Na padaria, na casa lotérica, nas baladas e, principalmente, nos parques e praças. Pronto. Meninas gostam de cachorros, fazem festa, querem saber a raça. Das toneladas de atenção que seu melhor amigo vai receber, vai sobrar uma ou duas colheres-de-chá para você. Ex-ce-len-te. Lembre-se: seja visto ao lado do cachorro em todos os momentos possíveis. Se você conseguir controlá-lo, ainda melhor.

Se você não gostar de cachorros, está quase tudo perdido. Sua última chance é sair por aí numa Ferrari. Boa sorte.

Reencontro

“Depois de 10 anos de formados, a turma de 1996 da escola mineira de engenharia elétrica se reencontra no clube de campo de Ipatinga.

– Oi, tudo bem? Como está?
– Tudo bem, obrigado.

– Opa Carlão, tudo em cima?
– Beleza gata, e você?
– Tranqüila.

– Oi tudo bem?
– Porque você está falando comigo?
– Bem, eu sou educada.
– E inadequado.
– Não entendo, só estou te cumprimentando.
– Não devia. Eu te cumprimentei? Não, então, custava ser recíproco?
– Mas que é isso Dudu, não custa é ser educado.
– Ser educado é ser apropriado, e no caso me ignorar seria como tal.
– Não posso te ignorar, você está aqui, todo bonitão.
– Bonitão é a sua avó, nunca te dei essas liberdades.
– Deu sim.
– Já foi esse tempo.
– E daí, não podemos relembrar?
– Quer mesmo relembrar?
– Lógico, bons tempos aqueles.
– Que a gente namorava né? Muito legal.
– Até lembro da gente sentado no banquinho perto daquela arvore…que arvore era aquela.
– Um jequitibá.
– Você sempre soube os nomes das arvores.
– Mas era você que gostava de um…
– Olha o respeito.
– Que respeito? Você me traiu com 4 caras da nossa sala, nem um, nem dois, nem três. Quatro!
– Olha já faz tempo.
– Meu apelido na faculdade era “”chi””, do português chifre.
– Quanto rancor..
– Quanto chifre seria mais correto.
– Que pena que você ainda guarda tantos sentimentos ruins, eu pensei em…
– Nem pensar. Eu não caio mais nessa.
– Eu te odeio.
– Isso mesmo.
– Você me magoa desse jeito
– Sim, eu magôo e piso.
– Credo, que agressivo. Acho que cansei de falar com você.
– Graças ao bom Deus.
– Até nunca mais.
– Amém.”

Coleção

– Espera um segundo que eu vou lá pegar.
– Pegar o quê?
– Ora, pegar minha coleção de selos.
– Você não está falando sério?
– Estou.
– Não acredito.
– Sim, eu te convidei pra vir a minha casa ver a coleção de selos.
– Mas hoje é noite de sexta-feira.
– E daí, os selos, geralmente, não saem pra lugar nenhum.
– Olha, deixa eu te explicar: nós dois, sozinhos em seu apartamento, adultos, descomprometidos.
– Justamente, por isso. Não há ninguém pra nos atrapalhar. Você ficaria maravilhada.
– Quero me maravilhar de outra forma.
– Como assim?
– Você não está sentindo que há algo entre nós.
– Claro. Tem essa mesa de canto, esse abajur …
– Não é isso! Você não percebe que estou fascinada?
– Mas só ficou desse jeito depois que eu te falei do meu selo persa, de mil novecentos e quinze, espertinha.
– Não, não.
– Olha, eu fui bem sincero : vai fazer alguma coisa hoje? Que tal vir aqui, ver minha coleção de selos?
– Você sabe que eu não sou uma mulher atirada.
– Pudera, estamos no décimo quinto andar.
– Mas eu coloquei minha roupa mais instigante.
– Hummm, sinceramente, não tenho vocação pra trabalhar com moda.
– Nem eu tenho vocação pra trabalhar nos Correios.
– Agora você está me ofendendo.
– Eu também estou me sentindo ofendida. Sempre te achei um sujeito bonito, inteligente e charmoso. Até seu jeito meio excêntrico me interessava.
– Onde você quer chegar?
– Quer mesmo saber? Que tal em um botão ou dois?
– Ahhhh. Você não vale nada mesmo. Agora entendi. Como eu fui bobo. Então, vamos lá pro meu quarto?
– Ótimo, já não era sem tempo.
– Mas vem cá, você quer começar vendo a minha coleção de botões de times da Europa ou do Brasil?

Sábado a Tarde

“Chovia torrencialmente em São Paulo. Já imaginava o trânsito e os problemas decorrentes disso. Ainda bem que ficou em casa, pensou. Sua esposa era pelo menos dez vezes mais animada que ele.Na verdade, qualquer pessoa era mais animada que ele. A amplitude entre os dois era mais notada devido à extensa convivência. Os amigos precavidos alertavam, se você soltá-la muito, um dia ela não volta para casa. No alto de seu saber, ele respondia:

– Pode ir embora que eu arranjo outra.Vai demorar uns dias, mas eu consigo.

Falava da boca para fora.Sua vida social se resumia a TV, ao computador e ao seu cachorro de pelúcia. Adorava o “”maldito bicho empoeirado”” como dizia a empregada, e ele retrucava:

– Porque aqui quem deveria limpar as coisas, nem sabe como fazer isso, mesmo sendo paga para tal!

Depois isso vinha sempre a tradicional discussão de salário e após, exaurido, ia para o computador. Depois que largou o trabalho, criou uma rotina própria interessante. De manhã cuidava da saúde, comia um belo café da manhã, andava pelo parque, passava na academia, ia ao médico, nutricionista, fisioterapeuta, terapeuta e tudo mais.

De tarde ele se ocupava em ganhar dinheiro para pagar tudo isso que ele fazia de manhã. Está certo que a Lurdinha era uma advogada bem sucedida, mas sustentar marmanjo já é demais.Por isso ele passava duas horas comprando e vendendo ações na bolsa de valores e depois mais duas horas jogando pôquer. Era um fenômeno. Sempre saia ganhando.

Nenhuma dessas atividades, entretanto, lhe trazia amigos, conhecidos ou qualquer tipo de gente. Só traziam um pouco de paz e dinheiro para viver aquela vidinha porcaria. Ele sabia que era uma porcaria. Mas não tomava nenhuma atitude para mudar as coisas.

Foi nesse sábado chuvoso que tudo mudou. Quando voltou do cinema, Lurdinha veio com a bomba.

– Estou grávida. Acabei de sair do exame. Vamos comemorar?
– Por que esta grávida?
– Porque fizemos amor gostoso?!
– Ok, mas e os espermatozóides?
– Que tem eles?
– Eu não tenho nenhum, esqueceu?
– Bem…
– E você não foi ao cinema?
– Não…

Pegou o cachorro de pelúcia, o laptop e foi para um hotel. Era hora de mudar de vida, começar tudo de novo, arranjar outra mulher, correr pelo mundo, conhecer pessoas, se arriscar…mas parou e pensou: É sábado e está chovendo… Preciso ir no McDonalds.”