Arquivo de novembro, 2006

Umidade

É que o dia estava diferente mesmo. No abrir dos portões, no andar do carro, tudo estava diferente. Minto, os sons não eram mais os mesmos. Os pedestres conversando, os ônibus passando, não havia o ensurdecedor barulho do cotidiano. Como em um take de cinema, as ruas estavam mais calmas e vazias. O som estridente e incessante dava lugar ao grave e baixo ruído das coisas. Como se estivéssemos vivendo em um planeta, em uma cidade, acústicos por assim dizer. Tudo parte de uma grande gravação. Tudo obra Dele: o Diretor.

Talvez fosse a umidade . Sim, a umidade do ar; ela devia estar baixa. É verdade, a umidade baixa altera a propagação do som e por isso é que estava tudo diferente. Lembrei das aulas de Física, a professora Rosana … Porque a bem da verdade a gente está aqui respirando moléculas, átomos. E átomos têm massa, tem peso, o que nos faz lembrar (ok: me faz lembrar) que respiramos algo sólido. Sim, todos nós respiramos algo sólido, só não é denso demais e por isso o conseguimos fazer; respirar.

Adoro respirar, ainda mais nesse dia, manhã de inverno. Adoro manhãs de inverno!

Estava tudo perfeito para a ocasião. O sol que apareceu tímido, sem esquentar o suficiente. O ar lá, parado, esperando a gente trombar com ele … uma pintura cinestésica.

Talvez tenha sido a umidade. As pessoas andavam mais leves, pareciam livres das preocupações do dia anterior, pareciam vivas. Como em um sonho ou em um passe de mágica, tudo estava mudado; foram apenas algumas horas entre o deitar e o despertar mas pareciam anos, talvez décadas, ou até mesmo o próprio sonho do qual aquelas pessoas eram apenas imaginação.

A estranheza do bom é que atormentava. A dúvida, a incerteza do que causara aquilo mantinha a curiosidade alerta. Não tinha explicação. Talvez a umidade, na verdade a falta dela. O certo é que de um lado estavam entrando os concertistas, todos alinhados como manda a boa etiqueta das sinfônicas. Todos de um preto alinhado, sóbrios; homens e mulheres impecáveis.

Resolveu chamar pelo nome, gritava … sem efeito. Andando, olhando, acenando e gritando ele foi chegando até trombar com uma senhora que, abaixada, procurava sua cadeira. Óculos para um lado, bengala para o outro e quando, enfim, recuperaram-se; houve uma rouquidão muito grande de ambos os lados. As vozes não saiam e os olhos apertados, forçados, lacrimejavam de emoção. Um velho amor, uma velha paixão; velhos enfim.

Não se sabe como aquilo aconteceu mas tem gente que, ainda hoje, jura que foi a umidade.

A Vida é uma Novela

“Fim de tarde em São Paulo, chuva torrencial, mais de cento e cinqüenta quilômetros de congestionamento. Marcio e Larissa viam televisão em seu recém mobiliado apartamento. Casados há 2 meses, experimentavam a tão fantástica vida a dois, compartilhando seus momentos de alegria juntos ao assistir a novela das seis: Minha Grande Paixão do renomado autor Cláudio Pacheco.

– Meu amor, essa Maria Clementina é muito má.
– Quem meu docinho?
– A Maria Clementina. Se você parasse de ler essa revista maldita de carros um minuto, não precisava fazer essas perguntas idiotas.
– Calma docinho, eu me distraí, realmente ela é muito má mesmo, onde já se viu dar para o filho bastardo para irritar o ex-marido que está pegando a filha dela. Um absurdo.
– Cínico.
– Não meu docinho, é sério.
– A gente tinha um acordo, você lembra?
– Lógico que lembro, estou cumprindo a minha parte.
– O combinado era que veríamos todas as novelas juntos, e que você prestaria atenção e levaria a sério para termos assunto.
– Mas meu amor, eu estou assistindo, mesmo enquanto eu leio eu consigo prestar atenção nos diálogos.
– Eu não agüento tanta mentira, vou chorar.
– Meu docinho, não seja dramática..
– É a única coisa que temos em comum e você não respeita.
– Mas eu odeio novela, você sabe.
– Então porque fez o acordo comigo.
– Sexo gratuito pelo resto da vida.
– ….
– Mentira meu docinho, eu fiz porque eu te amo e porque era muito importante, mas convenhamos, é mala assistir três novelas, ler todas as revistas de fofoca e ficar comentando depois com as suas amigas.
– Mala é ter um marido mentiroso. Aposto que já tem uma amante.
– Que é isso? Ficou louca?
– E aposto que é uma loira.
– Você deve estar usando drogas.
– E ontem quando você me disse que tinha reunião até tarde, você não ficou no trabalho. Levou essa vagabunda para o motel. Confesse.
– Estou perplexo demais para falar.
– Pois é isso mesmo, quem cala conscente. Minha mãe tinha razão, esse casamento foi um erro.
– Docinho, você está indo longe demais.
– Vou fazer minhas malas.
– Docinho me escute, eu confesso.
– Ahá. Pego no flagra.
– Eu não tenho amante, eu toda vez que atraso, vou para o bar do Zé ver os jogos do campeonato, esse negócio de novela está me matando.
– A traição é pior do que eu pude imaginar. Adeus puto.
– Calma Docinho, volte, eu te amo.
– Cala-te homem, mantenha a dignidade.
– Não se vá.
– Adeus.
– Volte para ver a novela das oito pelo menos.”