Arquivo de dezembro, 2006

Natal

Conheceram-se num seminário que a empresa organizou em Búzios.
– O que você está achando?
– De só ver a praia pela janela?

Casaram-se logo em seguida. Primeiro, cada um voltou para sua cidade para buscar as malas. Daí tiveram que decidir onde morar.
– Se a gente ficar em Campinas, vai ser mais fácil para papai e mamãe nos visitarem.
– Por isso mesmo. O que você tem contra morar no Acre?

Depois de alguns meses, chegou o primeiro final de ano que passariam juntos.
– Querida, já que você está só procurando emprego e cuidando da casa, pode comprar todos os presentes?
– Vou te dar apenas uma chance para dizer que isso foi uma brincadeira de mau gosto.

E lá estava ela na loja com uma lista que batia no joelho.
– Isto não é uma família. É um bairro.

Todos os nomes divididos por categoria – “tias”, “tios”, “primas”, etc. – com a respectiva idade. Pelo menos tinha que reconhecer que ele era organizado. Para não dizer generoso. O problema era carregar a tralha toda.
– Por que ele acha que todos os cunhados querem um jogo de pneus?

É nessas horas difíceis que um casal aprende a fortalecer a relação.
– Querida, para te ajudar, fiz uma nova versão da lista com as cores preferidas das irmãs da minha avó Lurdinha.

E nenhuma dificuldade resiste a tamanha união.
– Onde nós vamos guardar tantos presentes?
– Eu falei que você tem sapatos demais. Depois reclama que o guarda-roupas tá cheio.

Depois de semanas de esforços, chegou finalmente o dia de visitar a família.
– Querida, o cara do frete falou que não tem mais espaço na Kombi.
– Não quero saber! Não vou ficar cinco dias sem meu secador!

A viagem foi cansativa, mas compensada pelo conforto de chegar ao lar e ser recebida no seio da família, reunida para a ceia.
– Como assim, não tem lugar pra ela na mesa?
– Também, você casa e nem avisa.

Todos partilhavam do espírito de fraternidade e compreensão…
– Faz tempo que a mulher do Jonas tá chorando no banheiro, né?
– A feinha? Deve estar grávida.

…da alegria das refeições em comum…
– Ih, todo mundo trouxe farofa?
– Cadê aquele folheto da pizzaria?

…do calor humano…
– O ventilador quebrou? De novo?

…do sentimento de gratidão.
– Já tive uma blusa igual a essa. Dei prum pobre.
– Pelo menos dá pra reaproveitar o papel de embrulho.

Era Natal! No ar, ficava aquela mensagem de renovação e otimismo.
– Não desanima, querida. No ano que vem vai ser mais fácil.
– Vai mesmo. Te mando um cartão de Búzios.

A Beata de Ituverava

É de conhecimento público que Ituverava é uma cidade cujos cidadãos são inquestionáveis devotos. Tanto do catolicismo como de outras religiões, como o Budismo, o Candomblé e até alguma tradições indígenas. Mas houve um tempo que a cidade não era assim. Era tomada pela corrupção, pela violência, pelo medo e pela Blasfêmia. Mas tudo isso acabou depois da passagem dela. Ela chegou no dia 24 de maio de 1976.

Ninguém sabia o seu nome ao certo. Uns diziam Maria, outros diziam Josefina, outros até diziam que era Daniela. A história de sua chegada também é confusa, alguns dizem que ela veio de carro, outros dizem que ela chegou no ônibus das 10, e até fantasiavam que ela simplesmente apareceu do nada, se materializou naquele fim de mundo como num filme desses de Hollywood.

Ela andava pelas ruas da cidade nas terças feiras. O dia todo pregando a palavra do Senhor, tentando iluminar aqueles que há tanto tempo estavam mergulhados nas trevas. Conversava com bêbados, prostitutas, cafetões, traficantes, ladrões, estupradores e todo tipo de gente que circulava nas ruas da cidade.

Sua voz era muito calma, quase hipnótica, e ao longo dos meses que se passaram, os resultados da sua peregrinação já podiam ser percebidos por todos. A violência e o crime haviam diminuído, o comércio de drogas virou coisa de banca da esquina e até o Coronel Agripino parou de atirar em pessoas feias que passavam perto do portão da casa dele. Ele costumava dizer:

– Eu vou melhorar a aparência das pessoas dessa cidade mesmo que seja a bala.

Em menos de um ano a misteriosa mulher, que ficou conhecida como a Beata de Ituverava já era uma celebridade na cidade. Jantava com o prefeito, o vice-prefeito, os vereadores, os promotores, os juízes, as personalidades e até com o dono do armazém local.

Ao mesmo tempo que a Beata agradava aos altos círculos da sociedade, suas ações representavam um grande prejuízo ao crime organizado da cidade e eles estavam decididos a impedir a santa de terminar sua cruzada. O plano era muito simples, contrataram uma prostituta, colocaram-lhe uma bata de freira e no dia da festa internacional do peão de boiadeiro de Ituverava, enquanto a freira original dormia seu sono divino a sua sósia fez questão de mostrar para todos que havia entrado com um homem na tenda da Comarca da Igreja. O homem em questão era o Josenildo, bêbado tradicional da cidade, uma das maiores lutas da pobre beata.

No dia seguinte a notícia se espalhou rapidamente, todos comentavam, inclusive o Josenildo gritava na praça central da cidade:

– A Freira é minha namorada, isso mesmo, minha namorada, a freira, namorada, “soluço”.

Uma multidão foi até o convento e começou a gritar pela Santa Beata, pedindo explicações, chorando, rezando pela pobre alma daquela mulher corrompida. De repente a janela do segundo andar se abre e a Freira vem até a janela. Ela já havia sido informada do que estava acontecendo, era uma mulher muito precavida. Preparou um discurso que até hoje é lembrado saudosamente por aquele povão todo. Ele começou assim:

– Meu hímen é a minha vida. A Deus ele pertence. E quem possa duvidar disso, que vá para inferno.

Vida Própria

Carlinha morava em Pirapora da Serra, cidade satélite da grande Ituverava. Isso nos idos dos anos 80, hoje a coisa já outra, mas não vem ao caso. Ela nasceu no dia 24 de janeiro de 1967. O trabalho de parto foi rápido, do início das contrações ao nascimento em si passaram-se apenas 3 horas.

– É uma criança perfeitamente normal e saudável, anunciava o Dr. Roberto, único médico da cidade, dermatologista de formação.

Pois Carlinha foi a criança mais normal e saudável que já havia nascido por aquelas bandas, que não eram muito povoadas, mas isso também não vem ao caso. Brincava na rua com os garotos e garotas da sua idade, no contexto inocente das cidades de interior. De uma brincadeira para outra, sempre gostava de sentar ao lado da mangueira, arvore frutífera muito comum na região.

Entre uma sentada e outra, um garoto que sempre a olhara com um olhar diferente lhe fazia companhia na frondosa sombra que o enorme vegetal projetava ao lado da chácara do Sr. Tibério. O nome do garoto era Chiquinho. Carlinha tinha certeza que eles se casariam um dia, bem debaixo daquela árvore, na primavera, para evitar que mangas maduras caírem nas cabeças da pessoas, coisa que não vem ao caso.

Pois o tempo passa, o tempo voa e a Carlinha que tudo tinha para se dar bem, trombou com um problema. Um problema de peito. Na puberdade ela foi diagnosticada com uma doença rara, na verdade, até onde o Dr. Roberto sabia, era o único caso já visto no mundo. A turma dela costumava dizer que os peitos dela tinham vida própria.

O que Carlinha tinha era impossível de ser disfarçado. Toda vez que ela via um homem que a deixava exaltada, digamos, além de ficar com os mamilos endurecidos, seus seios aumentavam de tamanho, e muito. O matemático da cidade calculava algo em torno de 20%. Os exagerados falavam em 30%. A má notícia era que todo mundo sabia e comentava, mas a boa notícia é que isso só acontecia quando ela via o Chiquinho e os galãs da TV.

Os pombinhos então se casaram, construíram uma casa em Ituverava para viver o sonho de morar na cidade grande e tiveram 3 lindos filhos, todos comedores de remela, mas isso não vem ao caso. Anos se passaram, como os seios da Carlinha nunca mais reagiram a ninguém e perto do Chiquinho eles sempre entravam no estado alterado, esse detalhe fisiológico ficou esquecido por muito tempo.

Até uma festa da alta sociedade Ituveravense. Em 25 de maio de 2000. Carlinha e Chiquinho, que circulavam bem por esses meandros, afinal tinham empregos importantes na prefeitura, coisa que realmente não vem ao caso. Mas voltando a história, nessa festa os dois foram apresentados a um casal recém chegado da capital, Ribeirão Preto. Godofredo e Gertrudes eram muito finos e elegantes e pretendiam abrir uma loja de produtos agrícolas na cidade.

Assim que Carlinha educadamente apertou a mão de Godofredo, seus seios inflaram mais um pouco. Sorte dela que seu marido estava distraído e não reparou, mas se fala até hoje que assim que viraram as costas, Gertrudes sussurrou para o marido.

– Eu não sei que silicone é esse que a caipira está usando, mas eu quero um igual.