Arquivo de janeiro, 2007

Customs

Seu sonho era conhecer a América, quando teve oportunidade não desperdicou. Mesmo não dominando o idoma, sabia que como bom brasileiro daria um jeito. Ele se virava.

Quando chegou a imigracão entregou o passaporte ao funcionário e começou o interrogatório (traduzido aqui para melhor entendimento)

– Esta nos Estados Unidos com qual objetivo?
– Ahn?
– Negócios ou Turismo?
– Ahn?
– Veio trabalhar?
– Yes.
– Com que você trabalha?
– Ahn?
– Com que você trabalha? Você tem um visto de turismo, tem certeza que veio a trabalho?
– Ahn?
– Você fala inglês?
– Yes.
– Então me responda. O que veio fazer aqui?
– Mickey.
– Ok, então veio conhecer a Disney. Quantos dias pretende ficar?
– Yes.
– Não senhor, o senhor não me entendeu, quantos dias vai ficar por aqui. Quando vai voltar para o Brasil?
– No.
– COMO ASSIM NÃO?
– Yes?
– Quando meu senhor? Quando?
– Ahn?
– Olha, vou colocar para você uma permanência de 20 dias que é o padrão.
– No.
– Precisa de mais dias?
– No.
– Então vou colocar para 20 dias.
– No.
– O senhor acha que estou aqui pra brincadeira?
– No
– Então o quê?
– Mickey.
– Já chega, não estou aqui para isso. Vou chamar os guardas se você não parar de brincar. Vai continuar brincando?
– Yes.
– Você quem pediu, agora terá que se entender com as autoridades americanas, e espero que com elas ao menos demonstre um pouco mais de respeito pelo nosso país.
– Ahn?

Os oficiais chegaram e o deportaram. Ainda no avião, voltando para o Brasil pôde de soslaio enxergar o castelo da Cinderella.

Eu quero

As brigas que viram richas que viram guerras. Quem tem a razão, quem não a tem. Máquinas humanóides que somos e estamos. O que realmente importa na desgraça planetária? Quem fez o quê primeiro, quem fez por último. Quem quebrou o acordo, quem tem mais. Quem tem menos, fique com menos. Divida isso, tome aquilo. Dinheiro. Ouro. Alma. Quanto vale?

Um pedaço de papel que as pessoas acreditam valer alguma coisa. O dinheiro. Ele é isso: papel. Tem papel que vale mais, tem papel que vale menos e há aqueles que nada valem. Quem disse que aquele papel vale alguma coisa? Qual foi a pessoa que parou e disse: isso vale cem reais/dólares/libras/escudos/ienes? Porque você acredita que vale realmente o que dizem? Tanta evolução pra nada. Aliás quem disse que houve evolução? Talvez Darwin… Orgulhosos de nossa civilidade, não passamos, mesmo, de índios – sem menosprezo apenas atropologia da escrita – que trocam ouro por espelhos e escovas. Trocamos nosso tempo, por exaustão; nossa intelectualidade pelo reconhecimento: “Parabéns! você merece uns papéis. Corre lá pra aquele sujeito e diz que eles valem alguma coisa, quem sabe ele acredita em ti. Diz pra ele que estes aqui valem ‘um tanto’ de ouro.”

Ouro. O quanto este vil metal já não fez pela sociedade, pelos civis, cidadãos. Papéis que valem ouro e ouro que vale o quê? Quem diz quanto vale uma pedra quando acha? Vale mais porque tem menos? O quanto não devem valer as pessoas idôneas então? Quanta coisa a gente já suportou ver, fazer, ouvir por causa de uns papéis, por causa de uma pedra, um metal. Quantas lutas já foram finalizadas e quantas outras estão pra começar? Almas perdidas… quantos papéis eu precisaria para trocar por uma alma? Devem ser poucos afinal há milhões, bilhões delas por aí. Será que alma perdida vale mais? Quem achar é dele? Posso vender a minha? Já vendi dólar, já vendi ouro, quero vender almas agora.