Arquivo de março, 2007

A roça não é o bastante – Episódio 4

A quinta-feira paulistana amanhece com cheiro de peixe e pastel. 00Zé atravessa uma feira livre enquanto lê a caderneta do finado Tavinho, na qual a misteriosa sigla TT aparece repetidas vezes. Além disso, Daniéli, a terceira ex-mulher do saxofonista, revelou que ele estava ficando surdo. Não leva mais do que dois mamões, uma pêra, seis bananas e vários pedaços de jaca para o astuto agente perceber que a surdez está provavelmente relacionada a outra anotação recorrente na caderneta: “consulta médico”, seguida de um endereço nas Perdizes.

Na sala de espera do consultório do otorrinolaringologista, 00Zé aguarda que a secretária acabe de fazer as unhas, falar ao telefone e pôr em dia a leitura para chamar o médico. Depois de muitas “Caras” e “Bundas”, ela anuncia ao agente que ele pode entrar na sala.

Nosso herói não perde tempo. Assim que se senta diante do médico, começa a observar discretamente tudo à sua volta, fazendo perguntas para que o outro não perceba que está sendo perscrutado.

– Dotô, o Tavinho tava ficando surrrdo memo?, indaga o espião, enquanto abre e fecha as mandíbulas do crânio posto sobre a mesa.
– O Tavinho não estava surdo, tinha heléxia.
– Sério? É uma doença?, pergunta 00Zé, enfiando o dedo na goela de uma maquete da laringe.
– Claro que não, só falei para saber se você estava prestando atenção. Tavinho estava acometido de surdez degenerativa. Tremenda aflição para um músico.
– Imagino. Deve sê duro num ouvi os aplauso.
– Fora o risco de não ouvir a buzina de um carro, e ser atropelado. Vida de músico não é fácil.
– É. O dotô parece que entende à beça do assunto.
– Claro. Sou o especialista mais procurado pelos cantores, e o mais competente, para não dizer o mais modesto. Veja só, na parede, os retratos autografados dos meus clientes: Cauby Peixoto, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Alaíde Costa, Tetê Espíndola. E outros. Todos me chamam pelo primeiro nome. Todos grandes artistas. Tirando o Nelson Ned, mas há sempre a exceção que confirma a regra.

00Zé pergunta se o médico, tão íntimo das estrelas, por acaso não conhece alguém cujas iniciais seriam TT.

– Claro, Tony Truante, o cantor. Operei as amídalas dele. Avisei que ele não devia exagerar no uísque on the rocks. A cirrose não é da minha conta, mas todas as inflamações levam a mim. Enfim, eles enchem a cara, eu encho o bolso. Ele e Tavinho eram amigos de longa data.
– O sinhorrr num sabe onde eu posso encontrá ele, porrr acaso?
– Você quer dizer, além da zona e da delegacia? Bom, talvez no lugar onde ele trabalha, na Nestor Pestana.

O médico se levanta e segreda ao ouvido do agente:

– Aliás, imagino que isto aqui possa lhe ser útil, diz ele, entregando a 00Zé um calendário do Conselho Regional de Fonoaudiologia. Tem o telefone deles aí, podem dar um jeito nesse seu sotaque. Eu ligaria.

00Zé dissimula o calendário no bolso, junto com uma borracha, dez clipes e três compressores de língua que subtraiu do consultório. Volta para pegar o celular, que esquecera na sala do médico, e toma um ônibus para retornar à pensão.

Chegando lá, telefona para M:

– Fui no consultório do médico do Tavinho, o seu Oto.
– Quem é esse?
– Seu Oto, Oto Rino. Depois tem mais uns ôtro nome qui num lembro.
– E o qui ele disse?
– Confirrrmô nossa suspeita.
– Arrá! Foi a desgraçada da ex-mulher memo?
– Não, ele confirrrmô que o Tavinho tava ficano surrrdo.
– E eu tô ficano possesso. Vô até fingi qui num ouvi.
– O sinhorrr pudia vê o seu Oto, intão, chefinho. Surrrdez é co ele memo.
– Surrrdo vai ficá ocê, dispois qui eu ti dé uns pé-d’ovido! Quatro dias na cidade e ainda num discubriu nada! Si ocê num achá o assassino, com qui cara vô aparecê pra Rainha?
– Cara de pau?

A roça não é o bastante – Episódio 3

Quarta-feira de horizonte verde em São Paulo. Mais um dia de inversão térmica. 00Zé começa sua investigação pela terceira ex-mulher de Tavinho, Daniéli, que teve um comportamento suspeito no funeral. Afinal, conforme ensina o Manual do Agente Secreto de Jundiaí e Região (circulação interna do MI 6, assinaturas para oficiais das forças armadas, membros do governo e escoteiros) em seu art. 28, o culpado é sempre o mordomo (parágrafo 1), se não for ele é a ex-mulher (parágrafo 2). E quanto mais ex, mais suspeita.

00Zé consegue o telefone de Daniéli junto à PF (Patrulha da Fofoca). Ele justifica sua ligação dando alguma desculpa furada (o Manual fornece várias no Anexo IV) e marca um encontro para o fim da tarde. Como tem algumas horas livres, decide incrementar sua cultura visitando o Museu do Ipiranga, não sem antes parar num PF (prato feito) para reabastecer a pança. Após um virado à paulista e um novo périplo pelo metrô, chega ao Parque da Independência.

– Que mal lhe perrrgunte, cadê as marrrgens plácidas?

Lamentando que o riacho nacional tenha sido canalizado, nosso agente contenta-se em admirar a beleza do laguinho. Caminha pelas alamedas do jardim, escolhe um gramado macio sob uma árvore frondosa e tira uma régia soneca, da qual só é retirado pelo brado retumbante de seu estômago.

– De novo? Viajar dá uma fome…

Mais uma refeição leve (nove x-tudo) e nosso herói se põe a caminho. Daniéli mora numa cobertura em Moema. O elevador panorâmico é uma emocionante descoberta para 00Zé. Ele se encolhe junto à parede para não ver o chão que se afasta, enquanto os andares aumentam no contador. Ao chegar no décimo-sétimo, rasteja para fora da cabine com a destreza de um caramujo. Com suas últimas forças, aperta a campainha. Uma loirinha magrela abre a porta, não encontra o visitante diante de si, e enxerga um ser trêmulo ajoelhado no capacho.

– Nossa! Cê tá bem?
– A senhora não tem verrrtige de morar num lugarrr desses?
– Sempre gostei de cobertura, você não?
– Até agora, eu só conhecia coberrrtura de sorrrvete. Mas ela num mi dava dorrr di barriga tão rápido.
– Cê deve ser o cara que pediu pra me ver, né?
– Divinhô! A senhora também é agente secreta?
– Não, reconheci pelo sotaque. Quer entrar?

O som dos passos de 00Zé é absorvido por um tapete branco suave e felpudo. Suas botinas nunca tinham deixado marcas de lama tão bonitas. Na sala, um terraço todo de vidro dá vista para a cidade. Sem se fazer rogar, Daniéli começa a contar sua história.

– Aquelas tribufus têm é inveja de mim, só porque eu sou vinte anos mais nova. Queriam gorar o meu casamento com o Tavinho. Até ameaçaram mostrar pro juiz minha carteira de identidade verdadeira, onde eu era menor. Mas não adiantou nada. Quem acabou com nosso casamento fui eu mesma, não gosto de gente se metendo nesses assuntos. É que o Tavinho me prometeu muita coisa, tá ligado? Aquela história de ser mulher de artista, freqüentar sala VIP, uísque de graça e o escambau. Tudo bem que ele andava num Escort velho caindo aos pedaços, mas ele dizia que era pra não chamar a atenção, fugir da imprensa, despistar ladrão, eticétera. Demorou um pouquinho para eu perceber que ele era só aquilo que parecia mesmo, pé-rapado, e ainda por cima não usava desodorante. Também, eu era tão novinha, até comecei a gostar dele… Mas não era tonta, não. Não ia ficar perdendo os melhores anos da minha vida junto de um fracassado que não me dava nada do que me prometeu. Preferi sair por cima, com a minha dignidade. Chega uma hora em que a gente tem que aprender a ser independente, sabe? Fiz as malas, falei um monte de verdades para ele e fui embora.

As últimas palavras da jovem são engolidas por soluços de choro. Nosso agente, dando mostras da gentileza impecável que o distingue, saca do bolso o lenço com o qual costuma limpar as botas e o oferece para enxugar as lágrimas de Daniéli.

– O pior de tudo, ela continua, com a fala entrecortada por choro convulsivo, é que ele nem me ouviu!
– Marrrvadeza… Tem hómi que é insensível memo.
– Nada, ele tava é surdo.
– Lascô! Mas ele não era músico?
– Aí é que tá a desgraça. Peguei ele na fase decadente. Sorte teve a Soraia, da época em que ele acompanhava o Sérgio Mendes, ou a Marlete, que o conheceu quando ele gravava pra Atlantic. Quando eu encontrei o Tavinho, ele não conseguia mais tocar uma música até o final. Era o produtor dele, o Carvalhosa, que editava todos os takes no Pro Tools, costurando vinte segundos ali, dez aqui, mais cinco lá… Em troca, obrigava o Tavinho a jogar pôquer com ele, e sempre ganhava.
– Credo, além de surrrdo, jogava mal?
– Que nada, o Tavinho era um ás do baralho. Deixava o Carvalhosa ganhar porque precisava cobrir os contratos com ele. E ainda morreu devendo.

Toca “I will survive”. É o celular dela. Daniéli olha o número e atende. Graças a sua audição apurada (e ao fato de Daniéli ter esquecido o telefone no viva voz), nosso agente ouve, do outro lado da linha, uma voz de poucos amigos e muitos decibéis.

– Daniéli? Que voz de choro é essa?
– Nada não, amor, tava cortando cebola.
– Que cebola? Você não sabe cozinhar!
– Foi modo de dizer.
– A Berivalda não está fazendo o jantar?
– Tá sim.
– Vou fechar uns negócios aqui na produtora e já chego em casa. Você vai ter que me explicar direito essa história.

Ela desliga com um sorriso triste, e pergunta a 00Zé:

– Não quer ficar para jantar? O Carvalhosa ia gostar de conhecer você.
– Carece não, dona, é que de repente mi deu uma vontade danada di não comê…
– Pena. Eu fiquei tão aliviada de poder desabafar com você… Não queria que você me achasse uma ingrata. Posso tentar ajudar? Eu achei isso aqui nas coisas dele depois que ele morreu.

Ela entrega ao espião uma caderneta onde estão inscritas várias despesas seguidas da sigla TT. “Pode ser mais alguém para quem ele estava devendo”, sugere Daniéli. 00Zé agradece com seu conhecido cavalheirismo caboclo (um sonoro tapa nas costas) e toma o caminho da roça, perdão, da cidade, descendo, desta vez, pela escada.

– M? Ocê num vai acreditá, chefinho: o Tavinho tava ficano surrrdo e devia dinheiro pruma pá di gente, inclusive um tarrr de TT.
– Ara… E agora, o qui ocê vai fazê?
– Agora vô di novo no banheiro, que aquela coberrrtura mi deu um enjôo danado…

Antes Só …

– Pô, cara! Consegui avisar todo mundo que precisava. Muito obrigado! Nem sei como te agradecer!
– Nem se preocupa!
– Claro que me preocupo! Eu preciso te agradecer de algum jeito.
– Magina.
– Não, é sério!
– Não, não …
– Cara! Eu nunca acreditei muito nessa história de coincidência ou destino, mas poxa … Você trabalha aqui perto, né?
– Hmm … é, mais ou menos. Eu fui transferido pra cá, há mais ou menos 1 mês.
– Olha aí! Tou falando. Tá completando 4 semanas que bateram no meu carro naquela rua ali atrás. Aquela rua que não tem ninguém nunca! O seguro tinha vencido naquela semana, aparece um louco na contra-mão e me acerta a traseira.
– Pois é. Eu lembr….
– Pois então! Começou aí! Você que me emprestou o celular pra ligar pro guincho, não?
– Sim, sim …
– Eu saí do carro tão bravo que meu celular voou no chão e escorregou pra dentro do bueiro. Ô dia!
– …
– Era teu primeiro dia de trabalho e você estava passando por ali, né?
– Vamos dizer que sim …
– Puxa … Muita sorte mesmo. Se você não tivesse passado ali naquela hora e me emprestado o celular eu não sei como eu faria. Não ia deixar meu carro atravessado e aberto no meio da rua aquela hora da noite!
– Perigoso mesmo.
– Mais uma vez obrigado!
– Não há de que …
– Aí … hehe … puxa vida, viu ? Só rindo …
– He-he …
– Na semana seguinte, eu ainda sem celular – essas operadoras enrolam a gente, viu?! Me prometeram pro dia seguinte, mas alegavam que meu CEP não estava certo e que por isso não conseguem me entregar o aparelho novo com “desconto” – mas então, na semana seguinte, eu conheci uma garota, amiga de uma amiga.
– Olha, não preciso saber da sua vida pesso-
– Não não, eu faço questão! Você vai entender onde eu quero chegar! Eu conheci a moça, ficamos nos ligando por um tempo e finalmente consegui levá-la pra jantar. Naquele japa, aqui do lado.
– Sei …
– Então … Jantar ótimo, ela linda, simpática, a conversa indo de vento em popa! No final da noite vou no banheiro e no caminho peço pra fecharem a conta pra pagar sem que ela perceba.
– Muito bem, um homem à moda antiga.
– Opa! Qual não é a minha surpresa?
– Qual?
– As maquininhas dos cartões todas “fora do ar”! E eu, que nunca ando com cheque, fiquei por meia hora tentando convencer o gerente a pendurar a conta, que no dia seguinte eu passava lá e acertava tudo. Eu não ia fazer a moça pagar a conta sozinha, né? Tudo dando errado e quem me aparece?
– Er … eu ?
– Exato! Se você não está lá “coincidentemente” pra confirmar que eu trabalho no prédio em frente, que estou todo dia lá, e que ia pagar tudo bonitinho, minha noite estava arruinada.
– Sorte mesmo …
– Opa! E aí, feliz da vida por ter contornado a situação, eu volto pra mesa, a moça deve ter achado que eu estava com dor de barriga … hehehe
– Ai, ai, viu? (meio sem graça).
– Convido ela pra ver um DVD em casa. E ela topa!
– Opa! (imitando o colega).
– Mas antes avisa: Eu queria te dizer, que acabei de sair de uma relação muito traumática, e tudo que você faz de bom pra mim, me lembra meu “ex-“.
– Eu quase me atirei no meio da rua pra ser atropelado.
– Putz …
– E mais : Então, eu aceito seu convite, porque você me faz muito bem … mas a partir do momento que eu perceber que você me deseja como mulher, você personifica o trauma que vem me atormentando há 4 anos …
– Puxa … Você não pensou em dar uma machadada na cabeça dela?
– Sim, claro! Mas eu estava sem machado.
– Pena …
– Bom … mesmo assim, tenho que agradecer de novo, porque até você aparecer, todos os indícios eram que a noite seria perfeita. E naquela hora, de novo, você me salvou!
– Nã-nã …
– É sim!
– Aí … olha só que coisa! Tamos aqui de novo hoje!
– Pois é …
– Eu, ainda sem carro, peguei uma carona com meu chefe até a esquina porque estava atrasado pra uma reunião super importante. Aí, presta atenção, heim?
– Opa!
– Eu desço do carro e venho pra cá. Carregando o notebook da empresa, com toda a apresentação e trabalho das últimas – adivinha?! – 4 semanas! Chegam dois elementos, me abordam, levam minha maleta, minha apresentação, minha carteira – que agora estava cheia de folhas de cheque -, meu caderno e agenda com toda minha biografia, meu relógio, meu celular que chegou ONTEM em casa, enfim, meu emprego, minha vida, tudo que eu tenho!
– Que horror!
– Sim, sim! E os seguranças do prédio não me deixam nem subir pra avisar os clientes porque eu não tenho documentos pra apresentar na recepção!
– Vixe Maria…
– Quem me aparece do outro lado, olha só, do OUTRO lado da cidade pra salvar minha pele, de novo!
– He-he … Não fala assim.
– Como não!? Você apareceu justo na hora do assalto e pôde me emprestar, de novo, o celular pra que eu avise todo mundo e, com muita sorte, não seja despedido por justa causa!
– Exagero!
– E pior, num é nem do lado do nosso trabalho. O que será que você fez você ter um compromisso justamente aqui, nesse horário ?!!
– Difícil explicar mesmo …
– Amigo … com todo respeito! Eu sou espada, heim?! Mas me passa seu cartão, eu faço questão de, quando eu tiver cartão de crédito de novo, te pagar um almoço.
– Olha não precisa …
– É o mínimo!
– Mas então … na verdade …
– Ok, não quer dar cartão, sem problemas, seu nome e telefone pelo menos, eu anoto … Deixa eu ver, onde … Tem papel aí?
– Claro. Pode pegar.
– Num vou nem falar obrigado de novo … Vou ter que te pagar um almoço no Figueira! Então, pode falar, qual seu nome?
– É …
– Vai, vai, fala!
– Murphy …

A roça não é o bastante – Episódio 2

A terça-feira mal começou em São Paulo e o terminal rodoviário da Barra Funda está lotado. Cruzando a multidão com garbo e chapéu de palha, surge o internacionalmente desconhecido agente 00Zé, a desserviço de sua majestade Bete Rainha, que o mandou descobrir quem assassinou o renomado saxofonista Tavinho.

Porém, antes de pegar o assassino, nosso herói tem de pegar o metrô. Uma tarefa que não deve intimidar um espião experiente, que jamais tinha estado na cidade até este momento. Para sua surpresa, os paulistanos se mostram muito solícitos. Sem mesmo lhe dirigirem a palavra, o arrastam num fluxo humano compacto em direção à saída. Agarrado ao seu chapéu de palha, o agente secreto se deixa levar pela multidão até a beira da escada rolante, onde ele estanca, provocando a queda em dominó de nove office-boys e quinze sacoleiras. Os degraus da escada deslizam com velocidade. Como todo bom espião, 00Zé desconhece a palavra “medo”. Na falta dela, decide que “desespero” é um ótimo substituto. Porém, antes mesmo que ele consiga gritar por socorro, a turba sempre atenciosa o arrasta consigo escada abaixo. Nem lhe deixam tempo para se assustar com a porta do metrô, que abre e fecha rápido, e logo ele e seus quinhentos mil novos amigos celebram sua cumplicidade silenciosa comprimidos no espaço exíguo do vagão.

Sufocado por tal demonstração de calor humano, o agente fica aliviado que seu trajeto seja curto. Verifica os bolsos para certificar-se de que ninguém roubou sua carteira e para achar o endereço de sua base de operações. A indicação lacônica diz apenas para descer na próxima estação e procurar pela sigla do desserviço secreto de espionagem. “MI ferrei”, exclama 00Zé ao chegar na avenida General Olímpio da Silveira. “MI dei mal” lança ele, ao se deparar com uma pensão debaixo do Elevado Costa e Silva, vulgo Minhocão. “MI lasquei”, lamenta, ao rodar a maçaneta engordurada. “MI estrepei”, ao ver a cama pulguenta. “MI encrenquei”, as baratas no banheiro. “MI danei”, a goteira. MI 6, o lugar é esse mesmo.

Sua perspicácia fora do comum lhe sugere que não vale a pena perguntar se a pensão tem ofurô. Na falta de comodidades hoteleiras, ele sai para passear. De novo, conta com a ajuda da população acolhedora para empurrá-lo para baixo da escada rolante e para dentro do metrô. Após emergir do subsolo e pedir informação a um camelô, vai até a rua Santa Ifigênia comprar um celular. Uma vez cumprido o dever, decide fazer um reconhecimento de terreno antes de começar a investigação. Sem pensar dezoito vezes, esse bandeirante às avessas parte desbravar o maior pólo cultural do Brasil, a maior megalópole da América do Sul, o maior centro financeiro da América Latina, o maior labirinto do mundo para um turista desavisado.

Lusco-fusco. Depois de muito perambular, 00Zé chega na Avenida Paulista. Fica impressionado com a altura dos prédios envidraçados que refletem os raios do sol que se põe e as luzes dos postes que se acendem. Conforme seu queixo vai caindo para baixo, ele vai erguendo a cabeça para cima, e começa a contar os andares.

– Com licença, o senhor está a par do regulamento?
– A parrr, não. Tô sozinho memo.

É um transeunte vestido de modo peculiar que o aborda. Diz ser fiscal municipal de edifícios e o manda pagar por cada andar que contou. Relutante, nosso herói pondera por alguns segundos sob qual rubrica justificará esse gasto junto ao MI 6. Decide, finalmente, que a verba para a missão cobre casos imprevistos de regulamentação imobiliária metropolitana, e que, afinal, é melhor se conformar às normas locais para ganhar a confiança da população. Segue seu caminho com a consciência leve e a carteira ainda mais leve.

Mais tarde, 00Zé liga para M, que reclama da despesa e pede uma descrição do indivíduo.

– Ocê deve tê sido enganado. Como era esse tarrr de fiscarrr?
– Um tipo esquisito, chefe, muito alto, magro qui nem o cão, todo de preto, com sobretudo, chapéu e óculos escuros. Isso purrrque era di noite.
– Tá na cara que é o assassino! Ocê num reparô não, pelas rôpa? Assassino sempre usa sobretudo, chapéu e óculos escuros à noite!
– Mas como qui eu ia sabê, se aqui todo mundo se veste estranho? Tem uns até com uns ferro atravessado na cara, coisa feia que só. Até agora, a única pessoa que eu tinha visto com anel nas narina era a Mimosa.
– Ocê vai tê qui se adaptá rápido, 00Zé. A cidade grande é uma selva de pedra.
– Taí, falô bonito.
– Gostô? Vi numa novela.
– Mas chefe, não se procupa não, que eu já tô intendeno bem como funciona as coisa porrr aqui. Na verrrdade, fui eu que enganei o fiscarrr. Paguei oito andarrr, mas já tinha contado pra lá de quinze!

Empreendimento do ano!

Depois de muito ver o que ninguém enxergava eu decidi que vou mostrar essa afronta à dignidade, à todos (claroque vou tentar ganhar algum nessa). Não me acusem os falsos moralistas plantonistas. A vida é pra valer. Não tem replay nem tira-teima. Decidi, convicto, que vou abrir um negócio só meu (talvez com um ou outro sócio). Vou sair dessa medíocre vida e caminhar rumo ao fim do túnel que corre por entre a classe média(ocre) brasileira.

Estou cansado de encontrar pessoas que desperdiçam suas vidas em veleidades serviçais, pessoas que ficam atadas a tarefas enfadonhas e se perdem no vai-e-vém dos anos, nas baias e cafezinhos. Nem que seja por intolerância, que não tolero mesmo, às reclamações contumazes sobre a incessante incompetência alheia, geralmente superior (hierarquicamente falando). É preciso… e movido pela necessidade, cedo à tentação de ser o pioneiro. Vou abrir a Escola de Potenciais Dispensados a EPD. Um lugar nobre, imponente, mas sem frescura já que a vida é dura.

A questão é abrir uma empresa, um local, onde as pessoas possam exercer o máximo do próprio potencial (lembrando que o máximo aqui significa: tudo aquilo que a própria pessoa esteja disposta a empenhar).

Se você é infeliz na sua empresa…desculpe o eufemismo: todo aquele, infeliz na empresa, cansado de ser “pixado”, sobrepujado, inferiorizado indevidamente, humilhado intelectualmente por burrice de outrem, constrangido pelo desinteresse no desenvolvimento alheio e até mesmo o próprio, conivente com a situação pífia das metas alcançadas, indignado com falta de reconhecimento, indignado com a falta de conhecimento, avesso às imposições cretinas e mandatórias, insatisfeito com o andamento de qualquer projeto ou situação, você é o “ nosso cara”.

Não, não é um recrutamento panfletário, muito menos pueril. Quero, aqui, deixar aberta as portas da Escola de Pontenciais Dispensados para todo e qualquer indivíduo que assim achar e quiser contribuir para o real desenvolvimento da humanidade.

Descobrimos o fogo, a propriedade, o poder, a força; voamos, fomos á Lua, criamos nossos filhos, armazenamos milhares, bilhares de informações em coisas cada vez menores, ultrapassamos a barreira do som, criamos Kilotons de energia em uma única explosão, curamos doenças, clonamos seres vivos, extingüimos seres vivos e só estamos onde estamos, hoje, porque nós não aproveitamos este potencial que se dilui nas massas, que se perde nas discussões, que desaparece na conformidade que acaba junto com cada desistência arrancada de cada potencial, de cada pessoa, que, por fim; sucumbe à integridade do sistema e se torna mais um pino no tabuleiro do desenvolvimento.

Aqui, meus caros, vocês verão e serão vistos, será um “laboratório do exercer”; existirão tarefas mil e assim será o número de pessoas a trabalhar nelas; cada tijolo por assentar terá o pedreiro que o sabe fazer, cada prédio a subir terá o engenheiro que o fará (com a ajuda dos pedreiros, claro). Se você for um administrador, administrar você vai; não vai ficar entre baias reclamando das notas que tem que preencher, das planilhas que estão erradas: você vai administrar. Se você for um diretor de cinema, aqui você vai fazer cinema e não vídeo institucional da fábrica de calçados Courobil e o mais importante: aqui, se você disser que tem que ser “A”, não vai ser ninguém que vai dizer “B” ou “C”. “A” será.

Aproveitaremos todos aqueles que mostrarem verdadeiro interesse e potencial. Decisões simples e objetivas feitas por gente que entende do que está falando. Arquitetos falando de arquitetura, padeiros falando de brioches, médicos de cirurgias e assim infinitamente até o fim dos tempos. Ah! vagas limitadas, afinal, o Paraíso não é pra qualquer um!

A roça não é o bastante – Episódio 1

Segunda-feira em Piracicaba. O agente Zero-Zero-Zé está tirando férias merecidas em sua residência de campo – por sinal, a única que ele tem. Uma hora e meia depois de abrir os olhos, ele finalmente acorda quando escuta o locutor da rádio Difusora ler o seguinte epitáfio:

“Otávio Assis Moura deixou ontem o mundo da arte. Não voltará, porque morreu. Tavinho, como era conhecido, foi vítima de complicações decorrentes de embolia, diabetes, câncer de pulmão, cirrose e dois tiros na testa. Para os amantes da música instrumental brasileira, o lendário saxofonista foi o maior de todos. Seu colega de noite e de profissão Zeca do Trombone havia dito dele: ‘Tem o que todo mundo faz. Tem o que ninguém faz. E tem o que o Tavinho faz’. Venerado no meio, também era apreciado à direita e à esquerda. O produtor de discos Carvalhosa, da tradicional casa Odeon, declarou que sentirá sua falta: ‘Nunca mais vou ganhar de alguém no pôquer com tanta facilidade’. Foi um enterro de caixão lacrado para aquele que tocava de olhos fechados – um mortal que será lembrado pelos sucessos que eternizou. Enquanto a banda tocava ‘Fim de noite’, muitas pessoas acompanharam os derradeiros compassos de Tavinho na Terra. A primeira ex-mulher, Soraia, e a segunda, Marlete, permaneceram caladas e impassíveis durante toda a cerimônia e se recusaram a dar entrevistas. A terceira, Daniéli, chegou na hora em que o caixão ia começar a ser baixado. Estava em prantos, vestida com roupas claras como quem vai à feira, e jogou na cova um buquê já murcho há muito tempo, deixando o local tão rápido quanto entrou. Um golpe de teatro final para concluir a trajetória de um homem que viveu e morreu no palco. Agora, é só uma pausa com fermata.”

Abalado com a notícia, 00Zé se lembra de que precisa regar sua samambaia. Vai para a varanda, espreguiça-se e contempla os pés de goiaba. Pega a mangueira e começa a encher o regador. Nisso, toca o telefone. “Alô”, faz o espião. “Blblblblblbl”, faz a mangueira na sua orelha. “Trimmm!”, insiste a campainha. Ele bota então a mangueira de lado, enxuga-se com a camisa do pijama e retorna à sala para procurar o telefone.

– 00Zé, aqui é M.
– Emengarrrdo?
– Não, coió, M de “Meu patrão”.
– E quem quié o seu patrão, chefe?
– Não, seu tonto, o seu “meu”, não o meu “meu”. Eu qui sô o patrão docê. Ouviu a notícia no rádio? Vai tê missão procê.
– Mai chefe, eu nem sô famoso, i além do que nem morri. Quem deve merecê uma baita duma missa é o tarrr de Tavinho.
– “Missão” de missão, não “missão” de missa, hómi. Nóis vamo te mandá pra Sum Paulo.
– Pra vê o enterro do sanfonista?
– Sacofonista, criatura. Fala cerrrto, sinão ocê fica pareceno matuto. Intão, acontece que a Bete Rainha era fã do Tavinho, e ocê vai tê qui discubri quem qui matô o defunto.
– Co todo respeito porrr voismecê, Meu patrão, mai num era mió tê discuberrrto isso antes do dito cujo virá presunto? Agora já foi pras cucuia.
– Num questiona, 00Zé, é orrrde superiorrr. Vem logo pra cá pegá as passage.
– Passage de quê? Eu num vô ca Mimosa não?
– Craro qui não, fidedeus, onde qui ocê ia estacioná ela lá em Sum Paulo?
– Mai chefinho, o meu primo, que tem o sogro dele que já foi pras banda de lá, disse que na cidade tem vaga até pra demente.
– Demente é ocê, criatura! Tem vaga pra deficente. Pra deficente, não pra ruminante! I onde cê acha qui ela ia consegui pastá? Na carrrçada?
– É qui sem ela vô me senti sozinho pra daná. Nunca fui pra capitarrr.
– Purisso memo. Ninguém lá te conhece. É ocê o agente perfeito pra investigá o caso.
– Mai, chefinho, eu num sabia que o MI 6 também tinha que trabaiá na cidade. A roça não é o bastante?
– Eita, e ocê num sabe que Sum Paulo faz parte da Grande Itu? É quase a mema coisa que no interiorrr, só tem uns prédio a mais. Agora chega de enrolação e vem pro QG imediatamente!

Para 00Zé, imediatamente é imediatamente. Assim, depois de desligar o telefone, pentear os cabelos, fazer a barba, cortar as unhas, lustrar as botinas, provar uma caninha, saborear uma galinha assada, palitar os dentes e tirar um cochilo de cinco horas, nosso herói chega a Pirassununga no final do dia, montado no dorso da sua companheira de aventuras, a vaca Mimosa.

– Deiz Merréis, meu docinho, cadê o M?
– Cabô di sair pra sinuca. Pediu pra entregá isso aqui procê.

Deiz Merréis, a secretária de M, entrega ao nosso agente um envelope contendo os bilhetes para a viagem. 00Zé despede-se dela com o costumeiro beliscão na bunda (trejeito que fez sua fama de galanteador), e depois procura um lugar onde a Mimosa poderá aguardar seu retorno em segurança, aninhada num monte de capim.

– Que trem é esse?, exclama Q, o velho projetista, cuja inicial significa exatamente “Que trem é esse?”.
– Trem não, é a Mimosa, corrige 00Zé. O M disse qui ela num pode ir comigo pra capitarrr, então vô deixá ela abrigada aqui. Tem arrrgum pobrema, Q?
– Que isso não se torrrne um hábito, Zero-Zero. Dispois vem aqueles alucinado do Dábo-Dábo-Éfi falá qui nóis marrrtrata os animarrr de laboratório. Desta vez passa, até purrrque eu num vô tá aqui não, vô pra Carrrdas Novas.
– Que trem é esse?
– Trem não, férias. Vô aproveitá pra curá minhas junta nos tanque de água quente.
– E os meus apareio?
– Sabe cuméquié, vespra de férias, acabô qui num deu tempo de prepará nada. Mas o M disse qui era pra dizê procê qui ele mandô comprá um celularrr assim qui chegá na cidade, qui é procê carregá o baguio cocê pra todo lado, e ligá pro QG todo dia na mesma hora e fazê o relatório da missão. Agorrra, si ocê mi dá licença, tenho um ônibus pra pegá.

Ele não é o único. Naquela noite, um ônibus azul e prata da Viação Cometa carrega no seu bojo um outro astro, o internacionalmente desconhecido 00Zé, luminar da espionagem interiorana, partindo pela primeira vez em direção à capital.

Festa Pagã

Feriado é bom e todo mundo gosta. O Brasil, não tenho certeza, mas pode ser o país com o maior número de feriados e mesmo assim parece insuficiente. Dentre tantos feriados e dias comemorativos acho que o Carnaval é o feriado que satisfaz (entenda como quiser).

O que não se entende sobre o Carnaval é quem decide quando vai ser? Até hoje nunca entendeu-se direito porque alguns são no começo e outros no meio de Fevereiro; tem até no final, já começando Março. Talvez pelo mês que, sempre, mostra-se atípico visto que não tem o mesmo número de dias que os outros; e quando tenta é taxado de bissexto. Pobre coitado…sozinho no meio dos outros; porque tem feriado à vista – você sabe na hora e já resolve ali na lata – é aquele feriado mais clássico que você vê o dia marcado, por exemplo dia 25, e sabe que dia da semana vai cair e pronto, quinta-feira. “Vamoimendá”?

Tem também aquele feriado pré-datado que você sabe que vai ter, só não sabe direito o dia que vai cair, exemplo: segundo domingo de maio (custa definir um dia?). “Vamoimendá”? Acho que não, droga, é domingo!

E tem aquele feriado a prazo que contando a partir da entrada mais 30 e/ou 60 dias depois você pode comemorar – como a Páscoa por exemplo que é comemorada 40 dias após o Carnaval. Mas e o Carnaval, qual deles é?

Pesquisas recentes mostram que pode ser o contrário, afinal é o Carnaval que é comemorado 40 dias antes da Páscoa e que por isso ele também se encaixa na categoria dos feriados “em-que-merda-de-dia-cai”. Como o Carnaval depende da Páscoa ele passa a não ter data fixa já que a nossa Páscoa (a católica, afinal somos um país católico) não pode coincidir com a judaica (que é fixa).

Vou explicar, então, a dúvida que paira sobre nossas cabeças: “Que dia é o Carnaval?” Bom, é só você, apartir do equinócio da primavera (21 de Março), verificar a lua nova que antecede o equinócio e contar a “lunação do cômputo”, que é o espaço de tempo entre duas luas novas (pra quem não sabe isso dá em torno de aproximadamente 29 dias, 12 horas, 40 minutos e 02 segundos, mais ou menos). Aí, então, você terá o Carnaval? Não. Aí você verfica qual será o primeiro domingo depois da lua cheia – mais ou menos o 14º dia de lua nova se considerarmos que estamos no cômputo – e aí sim você vai ter a data exata; da Páscoa. Feito isso é só você contar os 40 dias que já sabemos – ou talvez a única coisa que sabemos da Páscoa, além dos chocolates e coelhos – até o Carnaval.

É bem normal, no Brasil, as pessoas não saberem como se decide ou marcam os dias do Carnaval, afinal é preciso saber o que é um equinócio, cômputo, fases da lua, contar e se você ficou de exame em geografia, português, história ou matemática você vai querer saber mesmo é se “Vamoimendá”?