Arquivo de abril, 2007

A roça não é o bastante – Episódio Final

O domingo paulistano amanhece pesado sob efeito do mormaço. 00Zé coça o queixo pensando que acabou o creme de barbear, assim como acabaram as pistas. Sua passagem de volta está marcada só para a noite. Na falta do que fazer, nosso agente vai conhecer o Bixiga. Visita a igreja da Achiropita, passa em frente ao teatro Sérgio Cardoso, compra um provolone e segue andando a esmo pela rua Major Diogo. Macambúzio, abatido e acabrunhado, está tentando imaginar a maneira menos pior de relatar o fracasso da missão, quando se depara com rostos familiares num cartaz colado num poste.

O cartaz diz que, mais tarde naquele mesmo dia, Tonico e Tinoco vão cantar numa churrascaria do Largo do Arouche. 00Zé se enche de ânimo. Vai saborear o boi no espeto e ouvir música caipira para matar a saudade de casa. Volta para a pensão, faz a toalete refinada que lhe dá todo seu charme (sem esquecer a banha de porco no cabelo), e sai para uma noite de gastronomia e moda de viola.

Ao chegar no Espeto de Ouro, escolhe uma mesa em posição estratégica: de costas para a parede (como ensina o Manual do Agente Secreto de Jundiaí e Região, capítulo nono), próxima ao palco (como convém a um apreciador da música de raiz) e mais próxima ainda do bufê (como comanda seu apetite). O humor do espião aumenta à medida que vão circulando as carnes do rodízio: picanha, maminha, fraldinha, coração de galinha. E mussarela! Abacaxi tostado! Enfim, para cúmulo das delícias, o tecladista da casa é dispensado, o mestre de cerimônias anuncia no microfone a atração especial, e a famosa dupla entra em cena: “Fiz uma casinha branca / Lá no pé de serra / Pra nós dois morar”. Nem mesmo todo o treinamento do nosso herói é suficiente para resistir a tamanha emoção. A nostalgia interiorana o acerta em cheio, sem falar nas quatorze caipirinhas. Enquanto a água jorra dos olhos, 00Zé corre para tirar água do joelho.

Quando vai entrar no banheiro, um sujeito muito alto, magro que nem o cão, todo de preto, com sobretudo, chapéu e óculos escuros, empurra a porta basculante com força e quase o derruba. “Pô, meu, olha onde anda!” O indivíduo segue seu caminho apressado. Recompondo-se como pode, nosso agente corre em direção ao mictório. Contudo, antes de alcançar o WC, uma suspeita o retém. Onde já viu aquele sujeito? Ele tinha algo a ver com alguma coisa, mas o que? Indagação tanto mais premente que as quatorze caipirinhas procuram com urgência uma rota de saída. Nosso herói sabe que deveria se lembrar de algo importante com relação ao homem de preto, mas nesse momento sua memória falha. Seu cérebro está muito ocupado travando uma luta de morte com sua bexiga pelo comando de suas pernas. Mas a dúvida não quer calar. Para qual lado ir? Para o sanitário? Para o salão?

Não é à toa que 00Zé é um agente secreto. Sua inteligência acima de média lhe permite concluir que a melhor maneira de se lembrar quem é o sujeito é perguntar ao dito cujo. Se ainda conseguir andar em linha reta, satisfará a curiosidade a tempo de satisfazer a necessidade. Juntando suas forças, segue o homem de preto, que se dirige para o salão e se posiciona de frente para o palco. Antes que 00Zé chegue perto o suficiente para lhe dirigir a palavra, percebe que o homem vai sacar algo do bolso. A carteira? Um lenço? Um palito de dentes? Não, uma pistola! E ele a aponta para a dupla de cantores!

Nosso herói é tomado por uma aguda sensação de urgência. Precisa agir rápido antes que molhe as calças. E agora vem essa tentativa de homicídio impedir que desafogue a bexiga. Tantas possibilidades contraditórias percorrem sua mente nesse segundo. O homem de preto está longe demais. O banheiro está longe demais. Deve ficar ou deve partir? Bater ou correr, mijar ou morrer? Ir, vir ou permanecer? Gritar não adianta, fugir não adianta. Jogar o celular na cabeça do assassino adianta. O aparelho zune através do salão. O corpo vestido de preto desaba com um baque. Que alívio. Agora 00Zé pode se precipitar em direção ao banheiro.

De volta ao salão, o agente vê a freguesia aglomerada em torno do bandido desmaiado. Os mais afoitos o desmascaram, tiram o chapéu e os óculos escuros, revelando um rosto que ninguém conhece. E esse não é o único mistério da noite. Quem impediu o crime? Quem avistou o facínora? Quem o acertou na cabeça com um celular? Aproveitando a comoção geral, 00Zé vai abrindo caminho discretamente entre os curiosos para recolher o projétil improvisado e descobrir quem ele nocauteou. “Ara, é o fiscarrr de prédio do segundo episódio!”, ele exclama. Ao ouvir sua voz, um cliente volta-se para ele e o reconhece: “Foi esse, o do chapéu de palha!”. “Vixe, lascô!”, murmura o agente para si mesmo. “Discobriro qui eu num dei discarrrga.”

Enquanto isso, os donos da churrascaria haviam ligado para a polícia. Os agentes da lei chegam ao Espeto de Ouro e se encarregam de algemar o meliante e colocá-lo na viatura. As forças da ordem indagam dos presentes quem foi o responsável pela captura. A clientela encoraja 00Zé, com um empurrão, a se apresentar. “Meu nome é Zé, Zero à Esquerrrda”, balbucia o espião, percebendo aos poucos o sucesso de sua missão. Feita a troca de credenciais, a polícia paulistana agradece o agente internacionalmente desconhecido, do qual nunca tinham ouvido falar. “Aliás, sua braguilha está aberta”, avisa o capitão. Nem esse detalhe constrangedor, nem a presença das autoridades inibem o movimento espontâneo de gratidão popular. Proprietários, garçons, gulosos e gourmets, todos avançam para cumprimentar o espião. Os cantores, que lhe devem a vida, são os mais efusivos. Tonico e Tinoco oferecem a 00Zé um guardanapo autografado e prometem fazer uma música em sua homenagem. “Salve Nossa Senhora Aparecida”, entoa um, e o outro completa: “Fio, ocê chegou na hora cerrrta.” Ao lembrar-se da hora, o agente olha para o relógio e sobressalta. Está atrasado para apanhar a condução. Ele se despede com mostras da urbanidade típica da roça, dizendo “Discurrrpe quarrrqué coisa”. A multidão se abre em duas fileiras para deixá-lo passar e o aplaude enquanto ele sai da churrascaria numa carreira desatada rumo a novas aventuras. Tonico e Tinoco puxam o coro: “Toda vez que eu viajava, / pela estrada de Ourofino, / lá de longe eu avistava / a figura de um menino”. Se fosse um filme, subiria o letreiro com os créditos finais. Como não é, 00Zé ainda tem de se apressar para pegar o ônibus de volta a Piracicaba.

Do terminal rodoviário da Barra Funda, 00Zé telefona para M para contar que solucionou o caso.

– Os pulícia daqui acham qui era um sírio quílerrr.
– Que trem é esse?
– Parece qui em porrrtuguês chama assassino de cereal.
– Ainda bem que só tem essas coisa aí na cidade, qui nem grama tem. Imagine si fosse aqui no campo, o estrago que num ia fazê.
– Pois é. O estranho era que o tarrr assassino de cereal também matava pessoa. Mas pelo meno foi uma só.
– Graças a ocê, Zé, que impediu que ele matasse mais.
– Quié isso, chefe. Assim, eu fico inté enverrrgonhado. Mas sabe, na verrrdade, eu acho qui discubri ôtra coisa que os guarrrda daqui não perrrceberam.
– O que?
– O assassino de cereal que matô o Tavinho morava em cima da boate onde ele tocava. Acho qui num güentava mais aquei sacofonista desafinado. Também, o danado tava surrrdo. Devia sê um saco memo! E a churrascaria onde ele tentô matá o Tonico e Tinoco fica do lado da boate. Eita hómi pra num gostá di música!
– O que imporrrta é que agora nóis pegamo ele. Zero-Zero, sua perrrforrrmance nessa missão foi ixtrorrrdinária. Vô inforrrmá pessoarrrmente a Bete Rainha. Acho até qui ocê vai podê pedi um prêmio.
– Ma isso é danado de bom, sô!
– Nada, ocê merece, fio. Aliás, falando em prêmio, Deiz Merréis pediu procê trazê uns parrr de sapato pra ela, viu? E uma borrrsa imitando couro de jacaré, quié pr’ela causá quando forrr no bingo em Ituverava.
– Pode deixá, chefe. Óia, agora preciso ir porrrque tem gente na fila.
– Eu sei, fila de autógrafos. Aproveita a fama, rapaz!
– Nénão, é fila do oreião memo. Viu, chefinho, e já que o sinhorrr mencionô o prêmio, da próxima vez vô querê um daqueles telefoninho di carregá na mão, inguarrr que o povo daqui da cidade usa, porrrque ficá ligando da rua é muita complicação.
– Ara, criatura, e o celularrr qui eu ti mandei comprá?
– Virrrge santa, o sinhô num imagina como pesa na mala esse rotorrr pra tubo de cultivo celularrr!

Da série “Quem não morre não vê Deus” : É simples!

Como diria um grande filósofo e amigo: “Tudo na vida tem 50% de chance de dar certo”. Você ganha na loteria, ou não. Você consegue beijar a Lavínia Vlasak, ou não. Você come Frut Loops com leite no café da manhã separando todos os aneizinhos rosas no canto direito do prato pra comer no final porque é mais gostoso, ou não.

Metade-metade. Não tem mistério.

Depois que você descobre que tudo se resume a um simples código binário as coisas realmente ficam mais simples.

Relacionamentos, por exemplo. Raciocinemos baseados em ciência pura : astrologia.

No zodíaco existem 12 signos. Considerando os casos mais ortodoxos onde temos 2 indivíduos envolvidos, encontraremos 144 tipos de relação (12 X 12, se você não sabe o porquê da multiplicação, acredite em mim, eu era bem bom em matemática no colégio). Sem contarmos os ascendentes, claro. Ou seja, quando você conhece alguém, das 144 relações possíveis ou você se dará bem … ou não. Ponto final.

Isso se você acreditar em astrologia. Se não acreditar, você faz parte do 50% que pararam de ler o texto meio do último parágrafo. Ou não.

Na verdade eu também não acredito muito nisso. Sou de áries e vocês sabem como são os arianos, né?!

Enfim, poderia continuar o texto com mil exemplos a fim de comprovar esta teoria, mas como ela é simples fico por aqui.

Apreciem com moderação. Ou …

P.S.: A série “Quem não morre não vê Deus …” traz crônicas criadas num momento de “branco” total, onde qualquer coisa que me passa pela cabeça é o tema da vez.

A roça não é o bastante – Episódio 6

Sábado. Então, TT não é Tony Truante, e sim a tal de Tetê, a mulher de três tetas. A ex-amante de Tavinho é dançarina da noite. 00Zé vai à procura dela num bordel da avenida São João. Na calçada, ele desvia com dificuldade dos ajudantes de proxeneta que tentam atrair os passantes incautos: “Aê, jovem, vamos ver as moças?”, “Tenho duas irmãs aqui dentro, pode tirar foto se quiser.”

Ele chega no número correspondente, onde o letreiro de neon diz “Styllu’s”. Oculto pela nuvem de fumaça espessa, ele atravessa o salão lotado de mulheres seminuas e homens vestidos pela metade até chegar a uma entrada reservada, coberta por uma cortina carmesim e guardada por uma parelha de brutamontes. “A festa junina já passou, caipira”. “HAHAHAHA!” Ignorando os dois seres obtusos, 00Zé tira de baixo de seu chapéu de palha o pacote de camisinhas sabor menta que lhe foi dado por Tony Truante, aquele cuja embalagem traz impresso o convite para ver Tetê. Os leões-de-chácara se calam subitamente e a expressão de ambos se congela num misto de incredulidade e subserviência. Cabisbaixos, abrem a cortina e destrancam a porta que estava oculta, dando passagem ao agente. Nosso herói avança por um corredor estreito, recoberto de carpete preto e papel de parede em forma de losangos brancos e pretos, iluminado à meia-luz e pontuado por fotografias eróticas em preto e branco. No final do corredor, depara-se com uma porta dourada. E entra.

Tetê está sentada de costas para a porta, penteando seus cabelos longos, negros e lisos diante do espelho, vestida com um peignoir de seda prateado, decorado com motivos chineses. Ao ouvir entrar o visitante, ela pergunta quem é, sem se virar. “Meu nome é Zé, Zero à Esquerrrda. Eu vim…”. Ela faz girar a poltrona, fica de frente para ele e se levanta com vagar. O peignoir desliza discretamente sobre seus ombros. 00Zé esquece o que ia dizer.

Olha para ela uma primeira vez, uma segunda vez.

– Vixe! Cadê a terceira?
– A terceira o que, fofo?, lança a dançarina, inclinando a cabeça de lado com um olhar lânguido.
– É que… eu achei que a senhora… o nome da senhora diz que…
– Ah, bobinho, isso é nome artístico. Do jeito que tá a concorrência, a gente tem que oferecer cada vez mais para atrair os clientes.
– Clientes de que…?

Nosso agente engasga quando compreende, com sua proverbial sagacidade, a verdadeira profissão de Tetê.

– A senhora é mulherrr da vida?
– Morta é que eu não tô, né, meu bem?
– Ara, sô, que foi isso mesmo que eu vim fazê aqui e tinha esquecido!
– Fazer o que, me matar?, ela provoca, aproximando-se lentamente dele.
– Não, ia perguntar pra senhora se a senhora tinha…
– Se eu tinha o que, benzinho?, sussurra Tetê, enquanto puxa 00Zé pelo colarinho e encosta os seios no peito dele.
– Se a senhora sabia…
– Eu sei muitas coisas, querido, ela retruca, esmagando os seios enormes contra ele.
– Mas eu esqueci por causa das… do tamanho das…
– Das o que?, ela indaga sem esperar confirmação, já abrindo o decote e pondo os seios à mostra.
– É que, até agora, as maiores que eu já tinha visto eram as da Mimosa.
– Que nome carinhoso! Você sempre dá apelidos assim para as suas amantes?
– Não, Mimosa é uma vaca.
– Que pena, vocês brigaram?
– Não, ela…
– É uma vaca, é? E eu, sou o que? Uma vadia? Uma vagabunda?

Agarrando-o com fúria, ela tira o palito da boca de 00Zé com sua própria boca, cospe-o de lado, e enterra o rosto do agente entre seus seios imensos, soltando um gemido de êxtase.

Nesse momento, o narrador pára para tomar um café e, quando volta, Tetê e nosso espião estão imersos num ninho de almofadas cor-de-rosa em forma de coração.

– Ai, meu lindão, assim você me mata mesmo…
– Aliás, a senhora num matô o Tavinho, porrr acaso?
– Bem que ele merecia, do jeito que era ruim de cama. Mas eu não tive nada a ver com essa história horrorosa. Minha relação com ele era estritamente profissional. Ele me prometeu que me arranjaria um lugar de dançarina num espetáculo que o produtor dele ia organizar, no Palace, sabe, lugar distinto, bem melhor que este pulgueiro. Em troca, eu dava um pouco de atenção para ele. Era o único lugar onde ele podia escapar daquelas megeras das ex-mulheres dele, bando de invejosas… Mas aí, sabe como é, o sujeito chega todo bonzinho, conquista uma moça inocente assim como eu, se aproveita da minha ingenuidade… Ficou me enrolando e, do espetáculo, nada. Até que eu me cansei, botei ele pra fora, mandei nunca mais voltar aqui. Agora realmente não volta mais…

00Zé não consegue identificar se a última frase continha tristeza ou alívio. Tetê se despede dele com um beijo nos lábios e um abraço demorado. “Não esquece seu celular, querido”.

Depois de sair da Styllu’s, nosso herói caminha sob a luz amarelada dos postes da avenida São João, dobra à esquerda na avenida Ipiranga e liga para M.

– Chefinho, descobri o segredo do tal de TT. Não era hómi, era muié, e ela fala que tem três, mas na verdade só tem duas.
– Duas o que, Zé?
– Tetas, chefe. Mas valem por quatro!

Cinco Horas

Caiu no chão, com o nariz virado para a porta. Sangrava muito e estava com problemas para respirar. Não tinha mais forças, gastara tudo no confronto, até que o derradeiro golpe foi dado. Tentou balbuciar algumas palavras, mas não conseguia. A dor era sufocante e qualquer tentativa de mover o rosto causava-lhe ainda mais dor. Vomitou. Seguidas vezes. Doía a garganta, a boca, perdera alguns dentes. Ainda não conseguia respirar.

Ouviu passos vindo do corredor, tentou gritar por socorro. Conseguiu expelir apenas alguns grunhidos, bem baixos. Sentiu um pano lhe limpado a boca. Um pouco de alívio que logo seria interronpido por algo que não estava esperando. Agarrada foi colocada numa cadeira, e durante o desagradável trajeto, percebeu que boa parte dos seus ossos haviam sido quebrados. Ele riu:

– Como é se sentir assim?
– Hum, hum
– Impotente.
– Hummm
– Abandonada?
– Hum.
– Sem palavras nem ações.
– Hum, Hum, Hum.
– Ninguém consegue te ouvir né? Uma pena.

Chorou, mas não era um choro comum, era mais parecido com um porco sendo morto, algo perturbador, numa escala de volume que o vizinho, o velho Sr. Raguto, não conseguiria ouvir. Ele continuava a rir, aproveitando seu momento, curtindo cada segundo daquilo.

– Eu vou te explicar o que eu fiz.
– Hum, hum.
– Assim você poderá levar essa história com você para o inferno.
– Hummmmm
– Eu abri a porta com a cópia da chave que eu fiz, da chave que você me deu no nosso aniversário de 1 mês. Você veio até a entrada ver o que aconteceu e dei-lhe um soco na cara. Apenas para constar, foi muito bom. Enquanto você estava desmaiada, peguei a mareta que trouxe da obra aqui do lado e quebrei boa parte dos seus ossos, alias é por isso que você vai morrer, hemorragia interna seguida de falência múltipla de órgãos. Só depois vi que você estava acordada e que não havia sentido dor com os meus golpes. A má notícia é que bem, foi menos sofrido, a boa, porém é que você está tetraplégica, perdeu todo e qualquer movimento do pescoço para baixo.

Parou de chorar e começou a pensar que estava num sonho, e que tudo isso acabar logo.

– Agora sua vadia, eu vou deixá-la para morrer. Te vejo no inferno.

Ela o viu saindo e esperou acordar. Esperou por 5 horas e morreu.

A roça não é o bastante – Episódio 5

Sexta-feira, dia de descuido, deboche e diversão. Contudo, o lazer de uns é o trabalho de outros. 00Zé percorre um dos bairros quentes de São Paulo, mas não à caça de excitações fugazes. Ele procura o cantor Tony Truante, que se apresenta numa boate da rua Nestor Pestana.

O agente internacionalmente desconhecido entra na padaria Estrela d’Alva para perguntar o caminho. Detrás do balcão, o Manoel ajeita o lápis atrás da orelha e lhe responde:

– Ora poich, sabes a rua Frei Caneca? Então, não é lá. Entras na paralela, a rua Augusta. Vais em frente até chegar ao cruzamento com a rua Caio Prado, onde há uma estação de serviço. Não é lá. Desces mais um bocadinho, e verás um cabaré com uma torre falsa a imitar um relógio, que se chama Big Ben. Poich, não é lá. Aí, atravessas o viaduto e dobras à esquerda.
– E não é lá?, completa o astuto espião, acompanhando o raciocínio do padeiro.
– Não, então chegaste, cáspita!

Seguindo as indicações, 00Zé caminha enquanto mastiga um sonho, uma paçoca e uma rapadura, até que encontra a rua e a boate. A porta está entreaberta, um funcionário está lavando a calçada, lá dentro outro está desempilhando cadeiras. Sofás pretos e lustres dourados refletem nas paredes cobertas de espelhos. Tony Truante está ensaiando no palco, junto ao pianista, enquanto técnicos ajustam as luzes. Ao avistar o chapéu de palha, reconhece o tira que ligou para ele. Decreta quinze minutos de intervalo e vai falar com 00Zé num canto do bar.

– O Tavinho andava vacilando, tava malzaço. Mas não merecia um fim escroto desses. Quando morreu, tava tocando numa casa noturna do Largo do Arouche, fim da linha, ele que já tinha lotado o Tom Brasil, feito temporada no Rio, se apresentado em Montreux e tudo mais. Como sempre, tava de olhos fechados, era a onda dele, entrega total, não precisava nem queria ver nada. A música era o refúgio dele, saca? Também, com aquelas bruxas pegando no pé dele pra pagar pensão, e aquele produtor espremendo ele pra pagar as dívidas de jogo, tudo contrato leonino, topava tudo que era trampo e não sobrava nada pra ele, isso vai corroendo o cara. Até arranjou uma amante para agüentar a barra, mas nem isso mais adiantava. Ele tava se acabando aos poucos, o desgraçado só fez dar o empurrão final.
– Ele caiu do palco?
– Não, tava lá solando, viajando, a banda só na cola dele, quando entrou o condenado, pela porta da frente, sem se incomodar. Naquela escuridão, naquele fumacê, ninguém viu o otário, todo de preto, parecia urubu. Muito menos o Tavinho, olho fechadão, só no groove. Problema é que ele também não ouviu quando a galera gritou feito doida, vendo o animal sacar a arma e apontar pra ele. Músico surdo é foda. Ele nem soube se os gritos da platéia eram de pânico ou se estavam mais é curtindo o som dele. Cara, fazia tanto tempo que ele não levava uma ovação dessas. Deve ter mais é morrido feliz. Deve ter pensado que eram os dias de glória de novo, que estava mandando bem pacas, que aquele era o solo da virada. Caprichou e tocou o melhor solo da vida dele. Pena que o único que ouviu até o fim foi o boçal que apagou ele.
– Sério?, indaga nosso agente, comovido.
– Claro que não, capiau, o Tavinho tava surdo, tocando tudo errado. Só falei assim porque fica mais bonito. O sujeito entrou, atirou nele e deu no pé. Tinha tanto sangue no chão que os donos da casa acharam mais fácil tingir o resto do carpete de vermelho do que mandar limpar a mancha.
– Vige, que coisa horrível!
– Sinistro, né? Nem Vapo-Clean adiantou.
– E ocê num sabe quem foi?
– Ah, se eu soubesse, se eu soubesse… Olha, eu juro que, se eu soubesse, eu… eu…
– Ocê o quê?
– Prefiro nem saber, porque se eu soubesse, nem sei o que eu faria.
– Então não foi ocê não, né?
– Tá me estranhando, seu jeca? O Tavinho era meu chapa, começamos a carreira juntos, nós e o César Mariano, o Hermeto, a turma toda. Era da família. Por falar nisso, tem uns cinco reconhecimentos de paternidade me esperando em casa. Se você me dá licença, preciso trabalhar pra alimentar a galera.

Já de saída, 00Zé lembra-se que Tony mencionou a amante de Tavinho.

– Ah, você quer ver a Tetê?, pergunta o cantor, com um sorriso ao mesmo tempo maroto e incrédulo. Melhor você ir armado, ele adverte.
– Arrrmado?
– É, nunca se sabe quando pode precisar. HAHAHA!

Soltando a célebre risada tonitruante que lhe deu o nome artístico, o cantor faz estalar na palma da mão de 00Zé um pacote de camisinhas sabor menta, e retorna ao seu ensaio. Nosso espião vê na embalagem um desenho sensual e os seguintes dizeres: “Tetê, a mulher de três tetas, espera você”, acompanhados de um endereço.

Ainda com os olhos arregalados depois dessa descoberta biológica inusitada, 00Zé liga para M e relata o encontro com o cantor.

– Então, Zero-Zero? Já descobriu alguma coisa?
– Já, o sinhorrr num vai acreditá, chefe. Existe uma mulher que tem três… três…
– Três o que, hómi?
– Três… vezes mais chance de ser culpada do que o cantor!
– Ah, é? Não foi ele, então?
– Não, quando eu perrrguntei, ele disse “Tá me estranhando, seu jeca?”.
– Ainda bem que ele confundiu ocê co nosso ôtro agente, Jeca Tatu. Tá preserrrvando a sua identidade. Bom trabalho, Zero-Zero.