Arquivo de junho, 2007

Sobre a Breviedade da vida

de Sêneca – Tradução de William Li
Editora Nova FronteiraO que dizer de um livro que tem cerca de dois mil anos e ainda é editado? No mínimo, que algum motivo para isso existe. As notas que abrem a edição dão uma boa idéia do por quê. Além de uma boa apresentação do autor, essas primeiras páginas explicam o contexto em que ele desenvolveu sua atividade filosófica e escreveu a obra apresentada na sequência.

Sêneca é definido como um estóico. Ao contrário de Platão, para quem o mundo material é uma símile pobre do real, que está no mundo das idéias, os estóicos vêem a perfeição na Natureza e no plano físico; neles aparece com força a busca da integração do homem a essa harmonia universal. Essa visão leva a uma filosofia voltada principalmente para a moral, para a aplicação da filosofia na vida em busca de uma existência virtuosa. Sob essa ótica, a criação de “Sobre a Breviedade da Vida” não deixa dúvidas acerca de suas motivações.

O entrave aqui é o fato desse mesmo filósofo ter sido um dos homens mais poderosos do Império Romano em sua época. Ele foi tutor de Nero e efetivamente comandou o governo nos quase dez anos que se passaram entre a morte do imperador e a ascensão do jovem herdeiro. Isso faz uma enorme diferença na leitura da obra. Há três datas possíveis:49d.C, 55d.C. e 62d.C.. Caso a data real seja 55 d.C., temos que a concepção desse pequeno tratado pode não ser motivo de aspirações nobres e da pura especulação filosófica, mas uma forma de resolver um problema desconfortável – a necessidade de remover o sogro Paulino de um cargo necessário para uma barganha política. Saber isso não invalida o tratado, claro, mas indica um viés difícil de ser ignorado: é um texto concebido para um fim.

Tanto a sua organização como seus lugares retóricos servem a esse objetivo. Os pilares são poucos e simples, mas formados por uma complexa rede de elementos. O texto se estrutura em uma espiral. Há, efetivamente, apenas um argumento: que a vida que vale a pena ser vivida é aquela dedicada à filosofia. Digo que ele é espiral porque além de circular – ir sempre retomando os mesmos conceitos – se move “verticalmente”. Cada vez que um conceito ou exemplo é retomado, ele é ampliado ou aprofundado. A repetição sistemática e a oferta de exemplos vão, aos poucos, se reforçando mutuamente, ampliando a força do caso como um todo. Além disso, são uma estratégia interessante para sufocar as objeções do alvo: uma primeira passagem mais geral dá tempo ao leitor de evocar contra-argumentos, que nas retomadas são expostos e refutados. Com isso, o autor se coloca sempre um passo à frente do leitor-modelo. Isso é fundamental já que se trata de uma peça que quer levar a uma ação. Com esse domínio assegurado, Sêneca joga sempre com a passagem do tempo para explorar o medo da morte – mostrando-a acentuada nas existências desperdiçadas e lassa para os que vivem na filosofia.

Felizmente essa apurada engenharia argumentativa não está a serviço apenas da necessidade de plantão. Se por um lado Sêneca não perde de vista que deve levar Paulino a uma ação, por outro trata de fazê-lo por meio daquilo em que acredita. E é aí que se completa a fórmula da longevidade do texto. A idéia central está ligada à busca estóica da vida virtuosa, resumida no trecho em que diz “Deve-se aprender a viver por toda a vida, (…) a vida toda é um aprender a morrer”. A vida que é aprendizado contínuo não é breve; é breve, sim, a de quem trata o tempo com displicência, distraída do caminho da sabedoria. Aí vem uma diferenciação importante, ao citar um oráculo – “Pequena é a parte da vida que vivemos” – e emendar: “Pois todo o restante não é vida, é tempo”. Assim, ” é breve e agitada a vida dos que esquecem o passado, negligenciam o presente e receiam o futuro; quando chegam ao termo (…), os pobres coitados entendem tardiamente que estiveram muito ocupado em nada fazer”; ao passo que “(…) A vida do filósofo estende-se por muito tempo, e ele não está confinado no mesmo limite que os outros. (…) Todos os séculos servem-lhe como a um Deus.” Qualquer coisa que não seja a dedicação ao ócio, entendido como a prática filosófica, é tempo gasto, não tempo vivido – pouco importa se o tempo foi desperdiçado na inatividade “dos prazeres sensuais” ou em busca da “glória vazia”; o fato é que foi desperdiçado. O desdobramento natural dessas considerações acaba nos levando a um outro tópico bastante interessante: a falta de propósito. As vidas sem filosofia, sem um objetivo, devem ser preenchidas de qualquer maneira e por qualquer coisa, porque “todo intervalo de tempo entre duas ocupações lhes é um fardo. (…) A espera de qualquer coisa por que anseiam lhes é penosa, mas aquele instante que lhes é grato corre breve e rápido, e torna-se muito mais breve por sua própria culpa, pois passam de um prazer a outro e não podem permanecer fixos num só desejo”. São questões particularmente agudas 20 séculos depois.

Parece que o homem nunca se sentiu tão oprimido pelo tempo como da segunda metade do século XX em diante. Nem é preciso dizer que a vida é curta; isso todo mundo já nasce e cresce sabendo. “Carpe diem” é a ordem, a vida a ser seguida. Melhor dez anos a cem do que cem anos a dez. Morreremos logo, a qualquer momento, lembra? Não há tempo a perder. A moderação é um luxo caro; a contemplação, um peso insustentável. E como fazer para viver no máximo o tempo todo? Ora, mergulhando numa sobrecarga sensorial, se perdendo na embriaguez sinestésica de estímulos múltiplos e simultâneos. Consumimos a ilusão do movimento; coisas como TV, raves, botox, lipo, psicotrópicos, blockbusters, revival não dos anos 80 mas da infância dessa década, celebridades instantâneas, sexo, reality shows, videogames, iPods TiVO e egocasting, etc, etc, etc. E apesar de tudo, a vida parece cada vez mais breve; as pessoas se dizem cada vez mais sozinhas; DDA culturalmente induzido, tarja preta, serotonina, depressão e termos análogos não só engrossam mas encabeçam o vocabulário de muita gente.

Costumo brincar que, quando você não sabe o que dizer sobre algo, deve recorrer ao pós-moderno – onde tudo é “super relativo, sabe?” – “e complexo”, não me deixa esquecer uma amiga. É engraçado, mas talvez seja uma ilação que cabe aqui. No fundo, “Sobre a Breviedade da Vida” fala sobre a importância de se ter um código moral como um fio condutor para a vida – seja ele coletivo ou individual, estanque ou capaz de evoluir a partir da experiência. Dois mil anos depois, o leitor que se dispuser a encarar as pouco mais de trinta páginas desse tratado pode não encontrar relevância no apelo a Paulino, mas se estiver atento, achará uma pergunta magistralmente elaborada e, com um pouco de sorte, a que mais faltava ser feita.

Recomendado para: pensar, mas com moderação.

Vida Florida

Essa é a história de Maricotinha, uma rapariga toda cheia de sardas, que usava saia rodada e maria-chiquinha no cabelo. Nascida em Ituverava e moradora atual de Juruspindanhama ela adora plantar e colher flores. Quando nova, seu pai, o coronel Marco Antunes, sim senhor, lhe deu um pequeno sítio, do tamanho de umas dez chácaras e trinta vezes menor do que a fazenda da família. Um bom pedaço de terra, diríamos.

Maricotinha visitava o sítio todos os dias, sentava no gramado ao lado da cerca onde ficava a vaca Malhada e tomava seu leitinho com chocolate em pó preparado pela Genoveva, a governanta, como o coronel se referia a ela.

Numa data que marcou sua vida, vinte e três de junho de 1995, quando tinha 5 anos, Maricotinha viu algumas margaridas amarelas ao largo do córrego do sítio e instantaneamente as adotou como filhas. Largara as bonecas e outros brinquedos do dia-a-dia e passou a estudar tudo sobre margaridas, para assim cuidar melhor das sua prole.

Com o passar dos anos, ela desenvolveu uma série de habilidades e conhecimentos para ter o que o coronel se referia como o “Floral mais bonito do mundo sô!”. Ele tinha razão, eram quase cem mil metros quadrados, ou de dez chácaras ou trinta avos de uma fazenda.

Maricotinha não vendia nem arrancava suas flores. Elas tem que ir pela vontade de Deus, costumava repetir o tempo todo. Nem mesmo após alguns arranca-rabos com seu pai ela arredou o pé.

– Minha filha, você precisa fazer uns tentos com essa propriedade.
– Não, eu não mato as minhas frôs!
– É flores, que se fala!
– É dinheiro que se fala!
– Mas filha, não podemos desperdiçar terra assim!
– Podemos sim e além do mais não é desperdício, é meu hobit!
– O que?
– Hobit! Coisa de gente fina, não de matuto.
– Ainda te dou uns tapa.
– Pois saiba que num mulher não se bate nem como frô. Entendeu?

O Coronel gostava muito da filha, então deixou que o tal de “hobit” que ele não entendia muito bem o que era continuar sem gerar um maldito tento.

Maricotinha começou a inscrever suas margaridas em concurso de flor. Até que depois de um ano foi chamada para o grande. “Festival Floral de Ituverava”. Ela não se continha de alegria:

– Ai, de novo a cidade grande! Que saudades. E saltitava no meio das flores, cuidadosamente, para não pisar em nenhuma, lógico.

Os preparativos foram feitos com todo cuidado, eram vasos e mais vasos para transportar de forma segura e ergométrica, como ela mesmo falava: “Planta minha não morre e nem fica com tendinite”. Depois de dez minutos de viagem pela estradinha de terra, chegaram a capital do condado do distrito.

Descarregou tudo e foi ver os outros participantes, enquanto o Emenegildo e a Genoveva cuidavam de toda arrumação da barraca do Sítio Belas Margaridas. Passou pela barraca da chácara Santo Antônio que criava begônias, pela barraca da chácara Maria Cecília que criava rosas e de repente se deparou com um barraca desconhecida, da fazenda Von Dir Kaptz, que plantava tulipas.

Ela já havia visto tulipas antes, várias vezes em fotos de livros e revistas, mas nunca ao vivo. Perguntou ao Von Dir Kaptz mais próximo:

– Como elas sobrevivem nesse calorão?
– Ah, são uma espécie hibrida, eu mesmo criei, gostaria de comprar umas sementes?
– Lógico.
– Quanto
– Tudo!

Pediu licença e ligou para o Coronel:

– Papai, tudo bom?
– Papai, faz mais de ano que você não me chama assim.
– Pois é.
– Você quer alguma coisa né?
– É papai.
– O que?
– Manda o Irtilio passar o trator no sítio, que eu cansei dessa coisa de margaridas.
– Quem bom minha filha, vai criar gado finalmente?
– Não papai, vou plantar tulipas hibridas.
– Para vender?
– Lógico que não papai, você sabe que eu morro de dó de matar as minhas frôs.