Arquivo de julho, 2007

Da série “Calma, eu posso explicar tudo!” : Estalo

Algumas situações são perfeitas pra se pensar na vida e ter idéias. Ao contrário do que muita gente pensa, “fazer nada” não ajuda muito. Nesta condição, rapidamente você se distrai e começa a pensar em coisa que não interessa ou o que é bem pior, se pega cutucando uma cutícula, contando quantas azulejos tem a parede da cozinha, enfim, logo você perde o foco.

Para mim, o ideal é buscar ações simples e absolutamente mecânicas que anestesiem o lado “Ei! Fala comigo!” do cérebro. Dirigir, lavar a louça, caminhar ou tomar banho, são alguns exemplos disso. É num desses momentos que normalmente temos os “estalos” que podem ajudar muito na resolução de grandes dilemas ou, como na passagem que vou contar a seguir, podem te colocar em situações absolutamente surreais.

Sempre que preciso “pensar na vida” eu pego meu carro e saio pra dirigir pela madrugada. Se for dia de semana, melhor. Pouquíssimos carros na rua, sem hora pra se chegar em lugar nenhum.

Na última vez que fiz isso, estava circulando pelo meu bairro, bem devagar, olhando pra Lua (sim, acreditem, em São Paulo tem Lua!), em segunda marcha, sem acelerar, deixando apenas a marcha-lenta do carro levá-lo, mais ou menos na velocidade que ficam os carros de segurança privada.

Tive então meu primeiro “estalo genial”! Abri a porta fiquei olhando o asfalto passando devagarzinho. A gente não percebe que apesar de estarmos parados dentro do carro, estamos andando. Meio idiota isso, mas divertido. Seinfeld disse uma vez : “O mais legal de um carro é que quando estamos nele, estamos parados, mas estamos andando … e estamos pra fora, mas estamos dentro de um lugar. 4 coisas de uma só vez!”

Muito bem, eram três e meia da madrugada, eu cruzando um quarteirão a 20 Km/h, com a porta aberta, olhando o chão, vendo as faixas brancas aparecerem e sumirem vagarosamente. Aí vem o “segundo estalo” – “Bom … se eu sair do carro agora, ele continua andando e eu posso correr atrás dele e entrar de novo …” – a razão tenta aparecer – “Não … não … que bobagem!” -, só tenta – “Bobagem nada! Ia ser bem engraçado…”

Já passei da idade de respeitar muito a razão em prol de uma experiência antropológica desse tipo. Rapidamente, antes que eu mudasse de idéia, tirei o cinto de segurança, abri mais a porta, me assegurei que mesmo que ela batesse, poderia ser aberta por fora, olhei pra frente e pelo espelho conferindo pela última vez que o carro estava bem no meio da rua e que nenhum outro carro andava por perto, e então pulei.

Ao tocar meu pé no asfalto comprovei de maneira concreta a frase dita pelo comediante americano. De um estado absolutamente inerte, tive que dar uma corridinha meio desequilibrada pra não cair de cara no chão.

Quando me “estabeleci” fora do carro, continuei caminhando e olhei pra frente. Lá ia meu bom e velho companheiro de quatro rodas pela rua, devagarzinho, em seu primeiro “vôo-solo”. Ouvi o barulho do atrito do pneu com o chão se misturando ao som do motor e do rádio. Não costumamos ouvir isso de dentro do carro.

Comecei a rir, corri, segurei a porta, olhei para o interior do carro. Pensei em qual pé colocaria pra dentro primeiro, mas achei melhor não pré-definir nada porque quando pensamos muito neste tipo de ação, caímos. No meio dessas resoluções todas, pulei pra dentro.

Perfeito! Tudo perfeito! Fechei a porta, segurei o volante e tive então um ataque de riso – “Genial! GENIAL!” – eu dizia enquanto ria.

Me animei (aí que mora o perigo), pensei novamente “ E se eu corresse pra ver o carro de frente?” ri muito, novamente – “E mais! Se fizesse isso cruzando uma rua!!” mais gargalhadas!

No quarteirão seguinte, não me agüentei. Repeti o procedimento de saída, bati a porta do carro por fora e saí correndo como um louco, no meio da rua, em frente ao carro, rindo.

Cheguei na esquina, vi que não vinha carros de nenhum dos lados, corri mais um pouco e sentei no meio-fio, iniciando outro ataque de riso, olhando o meu carro, sozinho, com seus faróis acesos, quase em câmera lenta, firme e decidido atravessar a rua, mesmo que sem seu motorista.

Quando ele chegou ao meio do cruzamento, parei de rir um pouco e fiquei me divertindo com aquela cena absolutamente non-sense. Me distraí, o carro passou por mim e quando levantei para começar a andar atrás dele, ouvi -“Piiiiiiuuuuuuuuuu”.

– Ah, não! – pensei.

Um carro de policia surgiu do nada, entrando na rua que meu carro estava, e deu um sinal para o teórico motorista do Celta Preto parar o carro.

Eu fiquei momentaneamente congelado. Meu carro seguia confiante, sem dar a mínima pra polícia. Já estavam no meio da quadra. “Piiiiiuuuuuuuu” – mais uma sirene. E dessa vez eles ligaram um holofote pra tentar ver o condutor.

Sem pensar, saí correndo. Por sorte, meu carro estava bem regulado e alinhado. Rapidamente alcancei a caravana, passei pelos policiais que me olharam um pouco ressabiados. Não resisti, balancei a cabeça e acenei com a mão:

– Boa noite! – sem respostas deles.

Continuei correndo. Pensei em passar pelo carro e entrar numa rua qualquer e desistir do resgate, mas lembrei da cena do Forrest Gump, quando ele pula de um de seus barcos para cumprimentar seu velho amigo, Tenente Dan. Pra quem não viu o filme, o barco se espatifa num cais. Não queria um final próximo para meu querido carrinho mesmo sabendo que não havia um cais por perto.

Abri então a porta do carro, o holofote da polícia veio diretamente para o meu rosto, olhei para a viatura, acenei um “oi” tímido e atrapalhado e me joguei para dentro carro.

Obviamente, os policiais aceleraram e ligaram a sirene. Eu coloquei meu cinto, dei seta e encostei.

Fiquei esperando dentro do veículo, nervoso, mas tentando me conter .

Os dois guardas vieram em minha direção empunhando seus revólveres. Liguei a luz de cortesia pra mostrar que eu não estava fazendo nenhum movimento suspeito. Quando o policial se aproximou, não resisti e novamente disse :

– Boa noite, senhor.

Não sem razão, ele estranhou mais ainda minha aparente calma e tentou responder:

– É … Boa noite … – rapidamente ele recuperou a compostura e disse alto – Mão na cabeça e pode ir saindo do carro.
– Ok. Posso desligá-lo ?
– Heim?
– Senhor, eu sei que parece esquisito, mas meu carro está com um problema no câmbio e não posso desengatá-lo, se eu soltar meu pé da embreagem, ele anda.

O guarda ficou me olhando com aquela cara de “ele acha que eu sou idiota, mas vou ver até onde isso vai”:
– Ok.

Desliguei o carro, e lentamente saí.
– Documentos e pode virar de costas com as mãos no teto do carro.

Até pensei em começar a explicar o inexplicável, mas apenas fiz o que ele me mandou. Rapidamente ele pegou minha carteira e fez um sinal para que seu parceiro me revistasse. Viram que eu não apresentava nenhum objeto suspeito e me pediram então para ficar de frente pra eles.

Eu, sem a menor idéia do que esperar, virei e abaixei a cabeça.

Vi que o nome do policial que analisava meus documentos era “Ten. Almeida”, mais clichê impossível. Eles já não empunhavam suas armas mais. Bom sinal. Ele devolveu meus documentos e apenas disse :

– Tá bêbado, Alemão?
– Nem um pouco, senhor.

Ele sinalizou positivamente com a cabeça. Depois de um breve silêncio. Perguntou :
– E essa baboseira do problema do câmbio. Mentira, né?
– Sim senhor.
– Sei …

Algo no olhar do tal “Almeida” me passava tranqüilidade. Não sei porquê, achei melhor não mentir mais.
– E existe alguma explicação decente pro que aconteceu ali ? – disse ele apontando para a esquina.

Posso dizer que vi o filme da minha vida passando na minha frente. Pensei em milhões de desculpas, mas respirei fundo, então e respondi:
– Não …

Ele me olhava como se quisesse ainda saber algo. Respirei fundo de novo e comecei a falar, lentamente:
– A única coisa que posso dizer ao senhor … é : sabe aqueles momentos da vida em que você é sua pior companhia?

Ele fez cara de “explique melhor”. Eu obedeci.
– Aqueles momentos em que a gente tem certeza que não deveria fazer algo, mas mesmo sem um bom motivo vai lá e faz?

Ele me observou, olhou para seu parceiro, voltou seus olhos para mim, levantou sua mão esquerda e com o dedão apertou a aliança :
– Tá vendo esse anel?
– Sim senhor.
– Eu já fiz isso aí 2 vezes. – pausa – E ontem, descobri da pior forma possível, que pela 3ª vez, lá tava eu fazendo algo que sempre soube que não devia.
– Bom … pelo menos, no início o senhor parecia ter um bom motivo, não?
– Mas 3 vezes?! Será que um homem não é burro o suficiente pra errar por 2 vezes? O cara vai lá e erra a 3ª!
– É … complicado.
– Complicado não, amigo. O nome disso é burrice!
– Não, em momento algum eu qui-
– Eu tou falando de mim, pode ficar tranqüilo! Aliás … faz o seguinte, pega seu carro, liga ele, vai embora e só me promete que nunca mais você vai fazer uma estupidez dessas!
– Prometo, sim senhor.
– E quer saber, pega essa aliança!
– Heim?!
– É! Já que eu sou uma mula, pelo menos vou deixar isso com você, como um lembrete pra ver se finalmente alguém aprende a largar a mão de ser estúpido!
– Mas senhor ?

Neste momento o segundo guarda, até então mudo, tentou falar. Agora eu podia vê-lo melhor, era bem mais jovem. O Tenente o fuzilou com seu olhar, mas ainda sim o jovem prosseguiu:
– Ele saiu do próprio veic-
– Que que você tá falando, ô menino? – interrompeu o mais velho.
– Não … nada, senhor! Mas é que o que esse rapaz fez é um absur-
– Estupidez! Ele fez uma estupidez grande, não foi? – olhando pra mim.

Eu confirmei acenando com a cabeça. Ele continuou :
– O que você quer que eu coloque na ficha dele. O meliante está sendo detido porque é um estúpido!? É isso?
– Não, nã-
– Porque se for por isso, você vai ter que me algemar junto. E se ele é réu primário, eu já sou reincidente, e pelo grau da minha estupidez, eles vão ser obrigados aprovar a pena de morte só pra mim!!

Sem combinar, eu e o jovem guarda falamos juntos :
– Calma, senhor …
– Calma o cacete! É isso. Pronto! Eu sou um grande estúpido, você é outro estúpido, e meu parceiro que quer fazer tudo como manda a cartilha da escola militar acabou de provar que a estupidez não passa longe dele também!

Silêncio. Depois de alguns segundos ele estendeu a mão com a sua aliança.
– Pega!
Eu permaneci imóvel. Ele gritou:
– Eu tou mandando! Ou você prefere ir pra DP contar sua historinha pro delegado, que não está enfrentando nenhum tipo de problema pessoal?
– É … não, não. Ok, eu pego.
– Muito bem. E você! – disse para o outro – Esquece tudo que viu aqui! Eu sei que te colocaram comigo pra você aprender os procedimentos corretos da ronda noturna, mas definitivamente eu não tou numa fase boa pra isso. OKÁ?!
– S-s-sim, senhor. – respondeu, mais assustado do que eu, o jovem guarda.
– Entendidos então!

Eu segurava a aliança numa mão, os documentos na outra, atônito. Eles voltaram para a viatura, ligaram o carro, e ao passar ao meu lado, o ainda enfurecido Ten. Almeida gritou :
– Vai pra casa, Alemão! Hoje você deu sorte!

Eu fui, meio bobo e com a certeza de que tinha passado por um dos momentos mais absurdos e improváveis de toda minha vida.

Chegando lá, até pensei em tomar um banho pra esfriar cabeça. Mas, corri pra cozinha e comecei a contar os azulejos. Bem mais seguro! Vai que eu tenho outro “estalo” no banho …