Arquivo de agosto, 2007

Libertas Que Sera Tamen

Numa penitenciária lotada algo sempre está por acontecer. Nessa não era diferente.

O clima era tenso. De um lado os detentos, criminosos de todos os tipos, componentes de um microcosmos da humanidade. Do outro lado os guardas, brutos, armados e complexados. Inferioridade é claro.

Neste dia em particular os presos estavam agitados. Era dia de visita íntima. Ary era um dos animados, mas não exatamente por isso.

Ary era veterano, décimo-quarto ano de xilindró por um motivo que havia se perdido no tempo. 14 anos que amargos tinham um mês atrás começado a mudar. Ary voltou a sentir prazer em viver, via um horizonte, uma luz.

Gusmão olhava de soslaio, incólume. Um mês atrás soube o que aconteceria. Se preparou sem que nenhum outro guarda percebesse. Não podia despertar suspeitas, poderia colocar toda a operação a perder.

Chegado o dia, o silêncio dominou o pavilhão central. Detentos longe de suas celas, guardas relaxados. Todos. Poucos eram exceção. Ary era um desses. Silenciosamente tirou um molho de chaves da caixa de descarga, providencialmente fardado como um guarda. Na ponta dos pés se dirigiu as grossas barras de sua cela. Introduziu uma das chaves na fechadura e meticulosamente a girou até o destravamento completo. Empurrou a “porta”que fez aquele aterrorizador ruído de ferrugem. Prendeu a respiração e deu prosseguimento a seu plano.

Seguiu pelo estreito corredor, nunca olhando para os poucos “engaiolados”restantes. Pobres coitados. Desceu as escadas apoiado no corrimão do lado direito, deixando para trás as paredes sujas e cinzas.

Encontrou mais uma porta, a última a superar rumo a seu objetivo. Essa proximidade o deixava nervoso. Chacoalhava o molho que parecia ecoar por todo pavilhão.

Abriu e rapidamente invadiu a ante-sala. Parado no canto, um vulto o esperava. O frio congelou sua espinha. As chaves em sua mão esquerda soavam agora como um mensageiro dos ventos.

O vulto então disse:

– Você tem algo que me pertence.

Ary tentava se recompor.

– Vamos logo, me devolva. Disse o vulto dando um passo a frente deixando o rosto a mostra pelo feixo de luz.

Ary estalou os olhos, petrificados. Engoliu seco e finalmente falou:

-Ai Gu, você me assusta assim.

Logo Ary devolveu a chave e aproveitou o que haviam planejado. Do mesmo jeito que todos os outros presos.

É 0 @m0®

Romeu e Tati se conheceram por intermédio de amigos. Conversaram o suficiente. Só o suficiente para não se constrangerem com o silêncio. O suficiente para trocar os respectivos endereços de MSN.

Os primeiros dias foram mornos. Aos poucos iam se conhecendo. Ele gostava de música black, ela também. Ela odiava trabalhar, ele (e a torcida do flamengo) também. Ele gostava de caipirinha de morango. Ela fingia que também.

Logo, ligavam o computador correndo, procurando o ícone dos bonecos azul e verde, a primeira coisa que faziam eram se logar. Meio inconsciente. Só meio. Brincavam com as palavras, falavam de vários assuntos, relacionamentos, família, relacionamentos, amigos, relacionamentos, etc.

Pouco tempo passa e já não desligavam os computadores. A janela de Chat ficava permanentemente aberta. As fotos, mensagens pessoais, emoticons, tudo a favor da interação. Entre os dois apenas. Tati largou o apelido de batismo e se tornou Julieta.

Foi a deixa perfeita. O novo nick foi a gota d’água. Não podiam mais fingir que nada estava acontecendo. Tinham que deixar a natureza seguir seu curso. Sentiram enfim a coragem para a primeira vez. Perderam suas virgindades virtuais. Virou vício. Era o casal mais ousado de toda web.

Daí pra frente tudo foi conseqüência. Se é tão bom online, como será offline? Marcaram em um barzinho no meio do caminho. Muito frio na barriga. Como se tivessem voltado a adolescência.

Sentaram em uma mesa encostada na parede. Em cima dela apenas um grande cinzeiro prateado. Acenderam os cigarros aguardando a movimentação do outro. Não havia. O silêncio dessa vez era bastante constrangedor. Não a toa, Romeu foi ao banheiro 12 vezes em 7 minutos. Na décima-segunda no entanto, teve uma epifania. Ela percebeu em seus olhos que algo tinha mudado, sentiu que ele poderia salvar a noite que parecia estar destinada a destruir toda a mágica de Romeu e Julieta.

Ele olhou no fundo dos olhos de Julieta e com muita calma e cuidado se preparou para explicar. Respirou fundo, lembrou de todos os insucessos da adolescência, das infrutíferas investidas e alguns tapas na cara. Soube que não conseguiria, as palavras não iriam sair. Só havia uma solução. Sacou o celular e disparou seus torpedos. A agilidade no teclado impediu o início do constragimento.

Foram embora para suas casas, de olho na telinha dos smartphones, com maior certeza de seu amor.

2ª Edição do FEBEAPRÊ

Pois é …

Antes do que eu imaginava fui obrigado a convocar uma nova edição, meio às pressas, do nosso inimaginável FEBEAPRÊ!

Dessa vez, antes de um almoço no Itamaraty oferecido ao Presidente de Benin (mas heim?!), o Excelentíssimo Senhor Cocoroca Maior da República, afirmou sobre a crise aérea :

“Acho que está resolvida em parte”. É esse tipo de certeza que nos deixa tranqüilo para voar.

Sobre a autonomia de decisões do novo ministro, nosso líder foi assertivo :

“E ao ministro Jobim foi dada carta branca para fazer as mudanças que precisar fazer na estrutura aérea brasileira.”

Se bem que :

“Na hora que tiver que mudar [a Anac], o ministro Jobim me procura e propõe as mudanças. Nós temos problemas legais que tem de ser resolvidos. E nós temos de ver”. Não vamos ser cri-cri, né, gente?! De repente, só não explicaram o conceito de “carta branca” pro Presidente. Absolutamente aceitável! Não vamos ficar pegando no pé do coitado que é feio.

Pra fechar a curta mas não menos incrível edição de hoje, o Presidente Fenônemo encerrou com mais uma de suas frases mágicas :

“O ministro Jobim está fazendo o que deve ser feito. Ou seja, reestruturar tudo que tiver que ser reestruturado.”

Palavra do Presidente!

Solteiro convicto

Nunca me senti inclinado ao casamento. Encontrar uma companheira, sim. Fazer promessas de frente para o padre e de costas para um monte de barrigas famintas, não. Muito menos enfrentar a interminável peregrinação para escolher igreja, salão, bufê, bolo, roupa, flores, convites, fotógrafo, cinegrafista e tudo mais que faço questão de esquecer. Sem falar no risco de ofender uma tia-avó, o chefe da minha mulher ou o porteiro do prédio da minha prima ao excluí-los da lista de convidados – ou de padrinhos.

No momento em que tudo está indo às mil maravilhas, por que um casal estragaria tudo organizando o casamento? Se vocês realmente não querem mais se separar, peguem esse dinheiro que iam jogar fora, comprem duas passagens de avião, ofereçam-se uma lua-de-mel inesquecível e mandem um postal para a família e os amigos.

O único motivo que me levaria a cumprir as formalidades do Subtítulo I do Título I do Livro IV da Parte Especial do Código Civil seria a obtenção de vantagens patrimoniais ou de proteção jurídica para as crianças (se houver, o que é outra história).

Hoje presenciei uma cena que reforçou minhas convicções.

O que faz o noivo numa loja de noivas? Não, ele não escolhe uma, pois já tem. Aliás, a loja não vende noivas, mas vestidos para elas (nada como uma metonímia para render uma piadinha infame). O coitado do noivo se senta na beirada da poltrona, cruza as mãos e as comprime entre os joelhos. Se for ousado, apóia-as na borda da mesa. E veste uma expressão facial da mais intensa agonia, enquanto tenta fingir que não está ligando para tudo aquilo. Afinal, não pega bem ele sentir as fazendas entre os dedos e debater com a vendedora se o tafetá é mais macio que o organdi. Nem avaliar o caimento da saia dupla sobre os quadris da eleita do seu coração, nem opinar sobre o comprimento da cauda. E, sob hipótese alguma, ele sentenciará se flores de laranjeira combinam com o véu de tule de seda. Simplesmente, na cabeça dele, não pega bem.

Portanto, a ele só resta sofrer enquanto sua doce metade folheia os álbuns com entusiasmo. A cada foto, quando ela pergunta o que ele acha, ele responde apenas: “bom”. Quando ele pensa que ela finalmente se decidiu, concorda dizendo: “esse é bom mesmo”. Obviamente, não adianta e ela continua. O apocalipse acontece quando ela resolve compor um modelo que não está no catálogo, e ele se desespera: “Não pode ser um que já está pronto?”. Moças, não insistam. Nessa hora, seria mais útil o parecer de um babuíno.

Vi esse desastre perto de casa, numa lojinha furreca que também vende abajures e tira fotocópia. Imaginem se fosse na Rebouças ou no Bom Retiro, o infeliz teria que ser carregado para fora de maca.

Eu jamais passei por nada disso, mas pode ser que, um dia, pague minha boca e vocês venham todos esfregar essa crônica na minha cara – ou me obrigar a lê-la durante a cerimônia, registrada em DVD. Pode ser. Por enquanto as probabilidades me favorecem. Porém, se não for mais o caso, posso garantir uma coisa: não vou ficar quieto na loja de noivas, nem em nenhum outro lugar. Eu vou dizer, sim, o que penso do corpete acetinado. Se é para ser ridículo, tem que participar!

P.S.: Murilo, pode mandar meu misto-quente pelo correio.

Réquiem para o transporte alternativo

Só mesmo os coreanos poderiam inventar um instrumento de tortura que se move

Já entendi porque quem produziu e disseminou pelo mundo as vans, peruas, topics, towners e outras latas de sardinha utilizadas no transporte alternativo foram os coreanos: você já viu um coreano típico? São pequenos, magrinhos, com gestos contidos. Em suma, cabem sem esforço em qualquer lugar. Sorte a deles.

Eu, que não sou assim tão alto para o padrão do brasileiro (pouco mais de 1,80m) nem estou tão fora de forma, sinto um desconforto indescritível quando sou obrigado, por qualquer circunstância, a viajar em uma delas. Só mesmo o desespero de um atraso iminente me leva a cometer essa loucura. E, é claro, o arrependimento bate logo depois, quando a sessão de tortura começa.

Hoje, perdi o ônibus por dois ou três minutos. Moro a 60 Km do meu trabalho e, geralmente, viajo nos ônibus que fazem a rota Rio-Cabo Frio. Como perdi aquele horário, estava fadado a esperar 45 minutos e, obviamente, chegar atrasado. Foi quando passou aquela van, convidativa, rápida, com o canto da sereia: “sua salvação é aqui”.

O único lugar vago ficava na última fileira, aquela que deve ter sido projetada especialmente para transportar crianças. As pernas de um adulto, sem sombra de dúvida, não cabem lá. Viajei feito um canivete suíço, com todas as “ferramentas” dobradas. Por 45 minutos! O cidadão à minha direita tentava se equilibrar sobre o espaço para o pneu. O da esquerda, coitado, agonizava, espremido.
Entendam, não sou contra o transporte alternativo – longe disso – até porque ele tirou as empresas de ônibus de sua tranqüilidade. Os empresários sempre fizeram questão de maltratar o usuário, lotando os ônibus na hora do rush e diminuindo a oferta de veículos nos outros horários. No entanto, é preciso aplicar um mínimo de bom senso – quem sabe até a própria Declaração dos Direitos Humanos – ao transporte nas vans.

Agora, à noite, voltando para casa no confortável ônibus de viagem, com ar condicionado, arrumei espaço para escrever no meu indefectível bloquinho, ouvir um bom rock meu discman e ainda fazer um lanchinho. Se o celular tocar, vou poder atender com a maior facilidade, sem acotovelar ninguém. Melhor ainda: paguei mais barato e com vale transporte (o motorista da van de hoje não quis aceitar …) Não tem comparação!

Tudo bem, eu sei que inventaram os tais “microônibus”, que poderiam se chamar “microondas”. Para mim, eles também são vans.

Só para fechar o assunto, num verdadeiro réquiem ao transporte alternativo, vou contar um episódio que seria trágico, se não fosse cômico, acontecido comigo no final do ano passado. Eu estava atrasado (isso acontece uma ou duas vezes no mês) e cometi a loucura: acenei para uma van que passava. Entrei, me espremendo, e antes que eu pudesse sentar, o motorista arrancou, cantando os pneus.

Desequilibrado, fui jogado para trás e acertei, literalmente, a bunda na cara de uma simpática senhora que, para o nosso azar, estava de óculos. Os meus oitenta e poucos quilos, graças à inércia, devem ter parecido uns duzentos no nariz da senhora, que (edipianamente) até lembrava a minha mãe. Quando recuperei a compostura, percebi que tinha desmontado os óculos e provocado um hematoma no nariz da passageira …

Para piorar, tentei puxar conversa e me desculpar pelo acontecido. Ela começou a contar que a vida dela estava uma porcaria e que aquele acidente só fazia aumentar a sensação de que tudo estava dando errado. Acabei me sentindo um agente do mal na Terra … Para me redimir, pedi para examinar os óculos e passei meia hora tentando consertá-lo – e, por algum milagre, consegui. Fiquei meses sem viajar de van.

Sou absolutamente contra os ônibus lotados, em que as pessoas se espremem e esfregam para tentar se locomover, mas tenho horror absoluto às câmaras de torturas móveis que passam por aí. Nos dois casos, é como usar um sapato três números menor: doloroso e degradante!

1ª Edição do FEBEAPRÊ

Nosso país sempre foi notável na arte de criar “cocorocas”, apelido carinhoso dado por Stanislaw Ponte Preta “para todos aqueles que se esforçaram para engrandecer o frondoso absurdo da realidade brasileira”.

Por meses venho observando o maior cocoroca do novo século e noto, a cada discurso presidencial, que somos atingidos por uma enxurrada, uma inundação, um dilúvio de besteiras.

Ao entrar em contato com o magnífico FEBEAPÁ (Festival de Besteira que Assola o País, também criado por Stanislaw no auge da ditadura) percebi que, ao menos no quesito cretinices, estamos em uma época que rivaliza de forma (in)competente com os anos de chumbo.

Mais do que organizar as Olimpíadas ou uma Copa do Mundo, é fato de que sem o menor esforço da iniciativa pública ou privada, já temos todas as condições de sediar um novo FEBEAPÁ. Frases como “relaxa e goza” ou o apagão aéreo é um “sinal de progresso” são as provas do ressurgimento, mesmo que informal, deste Festival (tenho, aliás, uma grande suspeita que nunca acabou).

Não me sinto capaz de ser o novo curador de um Festival de tal porte, porém pelo simples fato de que ninguém o faz, decidi ao menos sugerir algo menor, um adendo chamado : FEBEAPRÊ – Festival de Besteira que Assola a Presidência.

O FEBEAPRÊ não discutiria atitudes e ações políticas. Apenas destacaria os dizeres, os lapsos de genialidade aflorados todo instante que nosso líder maior decide revelar sua mais excelentíssima e sincera opinião.

Não é nem justo que o nosso Presidente da República, um “Fenômeno” neste quesito (perdoem-me o termo: besteira) não tenha uma compilação das suas geniais criações.

A gota d’água para que eu pensasse em sugerir a criação deste novo Festival foi o discurso improvisado da cerimônia de posse do Ministro da Defesa, Nelson Jobim. Numa época tão assustadora da nossa história, foram muitos os momentos dignos de participação no FEBEAPRÊ (difícil, aliás, escolher os que não foram!). Não resisti e decidi destacá-los.

Bem-vindos, portanto, ao Festival de Besteira que Assola a Presidência :

o governo trabalha sempre com a hipótese e com a convicção de que é preciso encontrar uma solução definitiva para esse problema e para qualquer problema existente”. Genial nosso governo!

se eu pudesse pedir a Deus, eu pediria que esse fosse o último acidente de avião que acontece no Planeta. Não será. Deus queira que não seja no Brasil…” Preciso comentar algo?

haverá aqueles que irão dizer que o companheiro Waldir está saindo por causa da crise área, por causa da tragédia do avião da TAM. Esse fato, na verdade, permitiu que você tomasse uma decisão de pedir o afastamento.” Isso aí, Presidente! “Sair” e “se afastar” são expressões absolutamente opostas! Bem observado mesmo.

de repente, eu vejo que o advogado, o ministro, o deputado estava sem fazer nada, atrapalhando a esposa, que pedia para ele sair de casa um pouco. Eu falei: bom, eu acho que está na hora do Waldir, que tem um pouco mais de idade do que ele descansar e do Nelson Jobim voltar a ativa, porque um cidadão com o tamanho e com a força dele não pode ficar aposentado.” Realmente, as famílias das vítimas e todo país clama por um pouco de bom humor e descontração do Presidente justamente na explicação de algo tão desimportante como a escolha de um Ministro da Defesa. Agora sim estamos convencidos que vai dar certo!

Precisamos “aproveitar esses momentos para tirar lições e fazer as coisas que precisam ser feitas.” Precisamos mesmo! Muito!!

É preciso que a gente tenha o Ministério da Defesa com força suficiente para fazer as mudanças que precisam ser feitas, desde discutir a modernização, reequipar, até a reestruturação das Forças Armadas Brasileiras, até colocar pessoas para tomar conta de tudo aquilo que é pertinente às nossas Forças Armadas.” É isso! Como não pensaram nisso antes?!?! Quem tomava conta do país antes do acidente, Presidente? Avisa o cara!

Segundo nosso líder, o novo ministro deve “assumir com todas as forças para fazer todas as mudanças que precisar fazer, onde precisar fazer” – e mais – “Por isso eu disse que a crise pode nos dar condições de fazer as coisas que precisam ser feitas, e se fizéssemos antes, possivelmente teríamos questionamentos em 500 lugares deste País”. Tem um personagem dos filmes do Shrek que fala exatamente assim, e é por um único motivo : que o seu nariz não cresça. É impressionante (e assustadora) a semelhança. No filme fica bem engraçado.

O dado concreto é que nós precisamos aproveitar este momento para fazer, definitivamente, o que tem que ser feito no Brasil.” É isso aí!

Muito obrigado pela presença e até a próxima edição.

O que se há de fazer

Parou e sentiu aquela dor no peito. Angina, já disse uma do lado (que teve o padrasto morto em tiro-de-guerra). A começar pelo peito acho que pode ser mesmo algum troço no coração – melhor ver isso aí rapidinho! Outra: se a dor é no peito só pode ser coração; o quê fica no peito? Coração, pô. Tá na cara!

Do outro lado da avenida já havia um punhado de gente tentando atravessar pra ver o que aquele trio estava a discutir. Não, olha lá, deve ser dengue – falou o negrinho chegando assustado com a branquidão do assolado. Mas dengue dá no peito? Sei lá, olha como ele tá branco. Minha tia teve isso de ficar branca e depois ó? Capaz que seja aquela doença que a gente fica branca, solta a pele e tudo, igual o Maicon Jéquison (sic)! é ruim, hein! o Maicol Jaquissu (sic) tem é muito dinheiro – exclamou o porteiro do prédio do lado pela grade do jardim – isso deve de ser doença de pobre, olha só o estado dele?

Outra pontada no peito e a mão evidenciou o que parecia não ter como evitar. Chegou correndo um senhor que achou que era fila pra pegar a aposentadoria. Decepcionado praguejou: deve ser coisa de gente que trabalha demais, estresse, essas coisas de moleque que quer ficar rico da noite pro dia. A mulher que passeava com o seu pulguento favorito perguntou, ele é rico? Falei que era a doença do Maicon Jéquison (sic), ah lá, ele é rico.

Calma, deve ser gases, eu já tive isso! Gases? No peito? Claro, você nunca arrotou? Não fala bobagem, eu trabalho aqui no açougue há vinte anos e nunca vi ninguém assim antes; o coitado tá agonizando, ó lá? Vixe! Na minha família nunca vi disso aí não, deve ser mesmo coisa de rico que nem ele falou. Alguém já chamou o resgate? Não, mas desse jeito que ele tá nem precisa, não passa da primeira curva. Coitado. Ei! Manoel! Chama o resgate! É, quando tem que ser, tem que ser né? Imagina você passando na rua e tem um troço assim… de não conseguir nem pedir ajuda, Deus me livre! Pois é, até chegar o carro do resgate… já foi. Mas ele não é rico, deve ter um plano médico? Iiii, se depender de convênio também… Qual o seu? Unihelp, e o seu? Classes Carmelitas, mas já estou tentando mudar, teve uma vez que eles não quiseram fazer um exame de urgência porque não tinha uma via carimbada, pode? Eles não entendem o que quer dizer urgência. Fiz o maior escândalo! É, menina, esses caras só querem o nosso dinheiro, e pior que quanto mais velha você fica pior é? Cada vez menos condição de pagar e cada vez mais caro. O que foi que aconteceu – descendo do ônibus? Dengue hemorrágica – respondeu o negrinho – minha tia teve isso sabia?

Seus olhos clamavam por socorro, seu corpo imaginava um lugar seguro e confortável para passar o resto da vida. Que mané dengue o que, você acha que na cidade existe aqueles mosquitos? Aqui só tem é pernilongo. Mas doença do pernilongo não é a malária? Eita, se for malária não tem cura, viu? Eu vi no Fantástico. Deixa de bobagem O que não tem cura é AIDS. Todos se afastaram. AIDS? Mas vc não falou que ele tava com a doença do Maicon Jéquison (sic)? Não, eu falei que ele tava com dengue, igual a minha tia, essa senhora é que falou que era doença de rico, que não sei mais o que. Falei nada eu disse que era Angina. Infelizmente já era tarde pro mudinho.