Arquivo de setembro, 2007

Remembrança

Antes mesmo de encontrá-la, pareceu-me familiar. Uma velhinha inglesa, professora aposentada de literatura, de quem a Liliana já havia me falado: “Vou apresentá-la quando você for ao Genève-Plage”. Pequena, magrinha e enrugada, escondida numa imensa camiseta vermelha. A franja grisalha varria os óculos grandes de aro redondo. Dentro deles, os olhos estalavam com faíscas de uma mente ativa.

You are leaving the American sector”, entusiasmou-se a voz rouca com os dizeres da minha camiseta berlinense, e reparou imediatamente no que eu segurava. “Que é isso que você está lendo?”. Era Slackjaw, que eu tinha começado há pouco tempo. Ela não conhecia – nem eu, até pegá-lo na estante de doações da biblioteca do Pâquis. Da minha mão, passou para a dela, que logo o virou, expondo a foto no verso: Jim Knipfel, chapéu preto inseparável, cabelos compridos e camiseta heavy metal. Gostou dele na hora, “just by his looks”. Professora de literatura sempre curte o pessoal fora do esquadro.

Perguntou-me sobre o livro, recitei a quarta capa: autobiografia de um sujeito problemático, cego por causa de doença degenerativa, que realizou várias tentativas de suicídio e é meio louco. Ela me interrompeu com um sorriso: “Mas quem diz o que é loucura? E quem quer ser são quando o mundo está louco?”. Era assim, exatamente, que eu me lembrava das minhas professoras de literatura, mesmo inconformismo, mesma paixão. Tinha me esquecido de ver o mundo com essa flama; repeti, idiota, a resenha rotuladora que não valorizava o livro que estava adorando. É para isso que precisamos de professoras de literatura, para nos abrir os olhos e colocar de volta no caminho.

Depois, outra cumplicidade: ela quis saber o que eu estava lendo ultimamente. Pois os amantes da literatura estão sempre lendo, buscando um indefinível que se esconde entre as linhas. “I’m trying to catch up on my classics”, respondi, mencionando os últimos: Oliver Twist, Pride and Prejudice. O rosto dela se iluminou com mais força. Por mais que se ame os livros, algum autor, e não outro, será nosso alter ego. O dela, descobri, é Jane Austen. Celebrou a ironia da autora, capaz de transgredir o mundo onde vivia. Animou-se, prodigou conselhos. Não gosta muito de F. Scott Fitzgerald, mas entende que seja atraente, na idade certa. “E o Gênesis, você já leu?”. Acompanhando o movimento negativo de minha cabeça, continuou: “Leia os onze primeiros capítulos do livro do Gênesis. Sem isso, você não pode entender, por exemplo, a poesia de John Milton”.

Cedendo o passo novamente ao seu outro eu, perguntou-me se já tinha lido outros romances da Jane Austen. Quando eu disse que não, prometeu que os traria para mim. Ela estava juntando muitos livros, disse, desde que abandonara o cigarro sobrava dinheiro para comprá-los. Parou de fumar por causa de um câncer na garganta. Uma história de fraqueza, dor e superação, que ela conta com sinceridade assombrosa. Ciente de seus defeitos, alimentada por uma paixão, fortalecida pelo amor das letras – o que faltava para se apaixonar por ela? Que recitasse a frase de abertura de Cien años de soledad? “Só sei em inglês”, desculpou-se: “Many years later, as he faced the firing squad, Colonel Aureliano Buendía was to remember that distant afternoon when his father took him to discover ice”.

É assim que me lembro das minhas professoras de literatura, e agora percebo há quantos anos não conversava com elas, e recordo porque eram, de longe, minhas professoras favoritas: porque viviam o que ensinavam e ensinavam o que tinham vivido, porque eram seres humanos e se assumiam como tais, porque iam ao fundo das experiências, boas e más, e emergiam carregadas de sabedoria, que transmitiam com generosidade e entusiasmo. Obrigado, Elizabeth. Você estava me fazendo muita falta.

Multi-Polar

– Que dia maravilhoso!
– Opa, alguém está animado do nada.
– E porque não estaria? Um dia desses, nesse lugar.
– Eu estou no mesmo mundo que você?
– Está graças a Deus. Cara, é muito bom te ter como amigo.
– Cara, estamos no meio do Centro de São Paulo, o dia está chuvoso e você quase pisou num mendigo há 2 minutos. Quase chorou inclusive.
– Nada disso. Eu não vejo assim. Estamos no meio de onde foi construída a história dessa cidade. Você tem a noção desse privilégio?
– Não sei, pergunta pro mendigo que você quase usou de tapete ali atrás.
– Você só vê a parte ruim. Pense, nenhum de nós temos a liberdade que ele tem. Não sabemos o que é sair sem ter pra onde voltar, sem saber onde vamos dormir.
– Sim mas sabemos onde vamos cagar ao menos.
– Você é um pessimista. Para, vamos entrar nessa loja.
– Qual?
– Essa aqui.
– Curandeiros do sertão? Pra que?
– Ah sei lá. Vamos nos deixar surpreender. Dar chance para que o destino nos leve a lugares onde nunca fomos.
– Temos motivos para nunca ter ido a certos lugares. Esse daí por exemplo parece muito com uma casa de macumba.
– Ah, para de ser chato. Vamos entrar.
– Ok.
– Olha só quantas coisas fantásticas.
– Quais? Só estou vendo uma.
– Qual?
– A saída.
– Estraga prazer.
– E aí já viu tudo? Podemos ir embora e fugir do destino?
– Como assim. Eu vou levar.
– Vai levar o que?
– Um de cada.
– Hein?
– Um de cada. Gostei de todas essas imagens de santos. Acho que são santos.
– Só se for do inferno.
– Peraí. Vou pagar.
– Você não está falando sério.
– Como assim? Não entendo como você não se interessou por nada. É tudo tão interessante. Tão colorido. Cheio de vida.
– Você está de sacanagem. Paga logo e vamos.
– Ok, você me ajuda com as sacolas?
– Todas essas são suas?
– Sim.
– Quantas sacolas tem aqui?
– 22.
– Mas, mas…tá, tá, vamos logo embora.
– Vamos pra onde agora?
– Embora. Antes que você resolva entrar numa loja de bolas de boliche.
– Tem por aqui?
– Não cara, não tem. Vamos logo.
– Que foi cara?
– Nada.
– Sério, você está estranho.
– Deve ser porque estou carregando 11 scolas cheias de imagens de gremlins.
– Não é isso. Você est’puto comigo. Droga é sempre assim, sempre estrago tudo.
– Que é isso, não precisa de tanto drama, na hora que deixar essas tralhas no carro tudo melhora.
– Acabei com seu dia né? Eu sou mestre nisso. Nada que eu faço dá certo. Me desculpa cara, não devia ter vindo.
– O que você está falando cara? Você quem me convidou pra vir aqui.
– É mas não devia. Te chamr para esse lugar sujo e deprê. No que estava pensando. Isso tudo tem que chegar ao fim.
– Você está pirando.
– É sério. Você é meu amigo de verdade.
– Claro que sou.
– Então vai me ajudar. Leve essas sacolas pra mim em entregue para minha mãe, fala que foi a última coisa que comprei, que deixo pra ela.
– Que que você está falando. Não vou levar essas estátuas de guaxinim sozinho não.
– Por favor cara. Eu te peço. É meu último pedido.
– Como último pedido?
– Chegou minha hora. É aqui mesmo. Vou me atirar do viaduto do chá.
– Pára de bobagem cara. Não exagera. Se você se arrependeu de comprar os gafanhotos voltamos lá pra devolver. As coisas não são tão difíceis assim.
– Olha.
– O que?
– Como é lindo o Theatro Municipal.
– Hein?
– Vamos entrar pra ver um concerto?

O Diabo e o Ninja na Terra do Gado.

– Cara, você tá demorando para vender esse caro. Enquanto não vender eu não vendo. Assim tá me fodendo a vida

– A minha também eu posso dizer…ainda assim, menos que a sua é claro

– Foco na minha vida. E o Japonês? Aquele que ficou muito interessado?

– Sumiu como um ninja

– Odeio ninjas.

– Eu também. Eles somem

– E podem te acertar de longe com uma Zarabatana.

– E estrelas pontiagudas

– Muito doloridas.

– Sim, afiadíssimas. Sem falar naquelas sapatilhas de tartaruga

– Melhor não ter vendido para ele não. Podia ter te fatiado em 2 pedaços.

– Verdade. Tive sorte

– Escapou vivo e sem um arranhão.

– Deus é bom

– Para os justos e honestos

– Não para os ninjas

– Nunca, assassinos sanguinários sempre vão para o inferno

– Eles e os pernilongos…que não são assassinos, mas sanguinários

– Morcegos vampiros e sangue sugas também. Bom saber, o inferno é cheio de ninjas, mosquitos, morcegos e vermes. Igual Ituverava.

– Logo…

– Ituverava é o Inferno.

– O que faz da sua vó…

.- ..Lúcifer.

– Afinal ela manda em Ituverava

– Desde o início dos tempos.

– E você é o neto do diabo

– Aê.

(crônica escrita a 4 mãos por Kris e Murilo)

Tempos Modernos

– Eu já tinha notado.

– Tinha nada, você nunca a viu na vida.

– Você ta louco? Saí com vocês no sábado.

– Não. Não ela. Não to falando da Rafa.

– Ué! Mas vocês terminaram? Nem tava sabendo. O que aconteceu?

– Nada. Estamos ótimos.

– Então o que você ta falando?

– Que to namorando pô.

– Eu sei. Há 2 anos.

– Não. Sim.

– Hein?

– Não to falando dela.

– Mas de quem afinal?

– Da Karina.

– Karina?

– É, minha namorada.

– Mas você disse que não terminou.

– E não terminei.

– Então o que? Está namorando com duas?

– Isso.

– Mas como assim? Não pode.

– Quem disse?

– O mundo.

– Não vi em lugar nenhum.

– Ah, larga de ser palhaço.

– É sério pô. Você precisa conhecer ela. Que mulher. Não é tão bonita quanto a Rafa, mas que bunda.

– Você perdeu a cabeça cara? Não pode fazer isso. Tem que acabar com ela amanhã.

– Amanhã não dá. Já combinei de levá-la pra conhecer meus pais.

– Como assim? Eles sabem dela?

– Você não está me escutando? Acabei de falar que vou apresentar amanhã.

– E o que você acha que eles vão falar?

– Não sei. Acho que ela vai se dar bem com minha mãe, as duas adoram compras. Já com meu pai não sei. Ela é palmeirense roxa.

– Você não acha que eles vão ficar um pouco incomodados?

– Nada. Ela é super discreta. Sabe se portar.

– Mas cara, e a Rafa?

– Ela é mais espaçosa mas nada demais também.

– Não to falando disso. To perguntando o que ela vai achar desse seu namoro.

– Ela nem falou muita coisa.

– Como assim? Ela sabe?

– Sabe sim. Foi a primeira pessoa a quem contei. Questão de respeito né.

– E ela ficou numa boa?

– Ficou.

– Não disse nada?

– Nada. Só que também vai arrumar um namorado.

– Jura?

– Juro. Tá interessado?