Arquivo de outubro, 2007

O Dilema da Completude

Esta é uma crônica escrita com 4 anos de separação entre o início e o fim. Acho que fica mais honesto separar as duas partes. Vamos lá.

Abril de 2003

Desculpem-me os três leitores de minhas crônicas. Este não é um texto engraçado. Não é surpreendente. Não é tocante. Nada disso. É só filosofia barata. Pelo menos, é de graça. Ao contrário de uns livros de auto-ajuda que existem por aí.

Responda: quantas coisas diferentes você quer, agora? Não, não é só materialmente. Que tipo de objetivos você almeja? Quais são as coisas que quer comprar? Qual o nível de bem-estar que você procura? Você até pode categorizar tudo numa pirâmide de Maslow, fique à vontade.

Você vai encontrar mais coisas do que imaginava. Movemos nossas vidas numa busca frenética. Busca por dinheiro, busca por realização pessoal, busca por carinho, buscas buscas buscas. Tantas buscas que cada realização é minimizada pela enxurrada de ausências. Insatisfação geral.

Mas nada parece mais desolador do que a completude. Certas vezes essa busca é muito custosa, em todos os sentidos. E, depois de muito esforço, acabamos por atingir nosso objetivo. Aí vem o dilema: a “grande” busca chegou ao fim. E agora? Angústia, depressão.

Não deveria ser diferente? Porque ficamos eufóricos num primeiro momento, desolados no átimo seguinte ao de uma grande conquista? A completude é um dilema.

Outubro de 2007

Ouvi um psicólogo falando justamente sobre isso dia desses, e me lembrei desta crônica não-finalizada. O foco não era exatamente a completude, mas sim o medo da felicidade. Tem a ver. Ser feliz dá medo? Ser um pouco infeliz, todo o tempo, é mais confortável do que encarar nossos desejos?

Agora vem a filosofia barata. Eu avisei que havia, não falei? E você nem vai precisar comprar o livro.

Somos incompletos. Somos incessantes nos nossos desejos, sonhos e metas. Mas há felicidades diferentes. Dois tipos, pra simplificar: felicidades aristocráticas e felicidades democráticas. Beleza, dinheiro, fama, conquistas raras. Ou amor, auto-consciência, identidade, caráter. Uma tem só pra poucos, outro tem pra muitos. Pronto. A conclusão lógica desse arrazoado rasteiro é, obviamente, algo como o “socialismo da felicidade”. Busque as felicidades democráticas, deixe as aristocráticas pra lá.

Tá certo, ajuda. Mas não resolve nada a respeito da completude. Talvez a única solução pra completude é deixar as coisas assim mesmo, inacabadas. Certas coisas te completam por um certo tempo, certas coisas te deixam um buracão para observar. Paciência. O jeito é publicar logo sua crônica, mesmo sem terminar direito.

Senão, lá se vão mais 4 anos com isso aqui sem terminar.

Heitor, seu maior leitor.

26/09/2007 Heitor para Kris

Caro Kris,
Eu já te deixei um scrap antes, mas você ainda não me ligou, deixei meu MSN, GMail e Celular na mensagem, mês passado comentei na sua crônica duas vezes, acho que deu pau, não me dou bem com tecnologia.
Mas que seja cara, e aí como está a dieta?
Eu também to precisando perder uns quilos, como dezoito latas de leite condensado por dia.
Se eu conseguir começar o regime na segunda, adivinha qual vou fazer?
O da “vida de margarina”.
Eu soube do seu transtorno Bi-Polar também, que merda.
Minha vó tinha, até eu mandar ela calar a boca e comer o próprio sapato.
Imagino que você ouve isso todos os dias, mas eu sou seu maior leitor.
Tenho até coisas suas gravadas do Trivela, onde você era colaborador.
Na parede do meu quarto escrevi as palavras de “Heléxia” com Nutella, minha crônica favorita.
Bem, de qualquer maneira, espero que você receba isso cara. E me responda
Só pra conversar com seu maior leitor.
Ass.: Heitor.

28/09/2007 Heitor para Kris

Caro Kris,
Você ainda não me ligou ou escreveu, Espero que você o faça.
Não estou puto, só acho filhadaputice você não responder aos leitores.
Se você não queria falar comigo na saída da balada cronistas, você não precisava. Mas poderia ter dado um autografo para Chachi.
Essa é minha cadelinha cara, ela tem apenas 14 dias
Ela esperou por 10 horas na calçada e você nem deu oi.
Isso é foda cara, Ela é sua fã.
Ela quer ser como você, acho que gosta mais de você até do que eu.
Não estou tão puto, mas é que odeio mentiras.
Você lembra que escreveu no site que pra quem te escrevesse você responderia.
Você percebe, eu sou meio que nem você.
Eu também não pegava ninguém quando era menor.
Ficava no quarto “na fossa” escutando Napalm Death e tomando Veja multiuso.
Me identifico com o que você diz nas suas crônicas, então quando tenho um dia de merda eu sento leio. Me ajuda quando estou deprê ou com as mãos sujas de casquinha de siri. Eu até tenho uma tatoo na bunda escrito ‘Kris”.
Minha vó tem ciúme porque falo de você o dia inteiro.
Mas ela não te conhece como eu conheço cara, ninguém conhece.
Você tem que me ligar. Eu sempre serei o maior leitor que você nunca vai perder.
Atenciosamente, Heitor.
PS: Nós devíamos nos encontrar também

30/09/2007 Heitor para Kris

Caro Senhor Eu-Sou-Bom-Demais-Para-Ligar-Ou-Escrever-Para-Meus-Leitores,
Esse será o último arquivo que vou te mandar.
Já fazem 4 dias e nada de você – Eu não mereço?
Eu sei que você recebeu meus últimos dois scraps;
Prestei bem atenção na hora de apertar enviar.
Então esse é a gravação que estou te enviando, espero que você ouça.
Eu tô no meu trator agora, passando por cima das vacas aqui do pasto.
Ei cara, eu bebi um galão de solvente, acha que posso dirigir?
Lembra daquela música dos Saltimbancos, que a Lucinha Lins cantava pras criancinhas vestida de gata e depois acabou posando pra Playboy?
É mais ou menos isso, eu poderia posar pra Playboy, mas agora é tarde.
E tudo que eu queria era um mísero scrap de resposta.
Espero que você saiba que apaguei todas suas crônicas do meu computador.
Eu te amo cara, nós poderíamos ter estado juntos, pense nisso.
Você estragou agora, espero que você não durma e sonhe com isso.
E quando sonhar, espero que molhe a cama e tenha polução noturna.
CALA BOCA SUA BEZERRA, TO TENTANDO FALAR!
Ei cara, essa é minha vó gritando da escavadeira.
To levando ela pra dar um passeio.
Bem, tenho que ir, to quase no açude.
Merda, esqueci, como vou te mandar essa porra?

03/10/2007 Kris para Heitor

Caro Heitor,

Queria ter te escrito antes, mas estava fazendo o Caminho de Santiago.
Você disse que sua vó era Bi-Polar. Como que está isso cara?
Fico muito orgulhoso de você fazer essa “dieta”.
E aqui está um ossinho pra sua cadelinha.
Eu enrolei numa camiseta dos Cronistas.
Que pena que não te vi na saída da balada. Devia estar distraído.
Não ache que fiz isso de propósito. Nem contra a Chachi.
Agora que merda é essa de ficarmos juntos?
Esse tipo de coisa me faz não querer te encontrar. Tenho namorada pó.
Acho que você precisa da sua vó, ou pelo menos de um psiquiatra.
Espero que você leia essa carta a tempo. Antes que você faça bobagem.
Fico feliz de te inspirar, mas Heitor, tente entender, que te quero como leitor.
Só espero que você não pire de vez.
Vi num blog esses dias que tinha um cara num trator, tinha tomado solvente,
Sua vó estava na frente, e eles tinham entrado num tanque de esterco, e na cabine eles acharam um gravador com uma mensagem, e não falaram pra quem era
Agora to pensando, seu nome era….era Você.
Merrrda.

* Inspirado na canção “Stan”de Eminem