Arquivo de novembro, 2007

Amigo Oculto

Talvez o que mais me irrite no final do ano, além do conjunto de coisas que já torna essa época um martírio, é o tal do amigo secreto. No trabalho, na família, com os amigos do futebol, com os amigos do pôquer, com a minha avó e assim por diante.

Está certo que a felicidade das pessoas nessa época do ano me intimida a ponto de causar um leve ressentimento com a vida, mas tudo bem, antes ser apenas mais um ali, sem participação direta no processo distorcido de euforia. O problema é que no amigo secreto não dá para fazer isso. Ser desagradável num processo que já é por si só uma tortura não ajuda muito.

Eu sei que parece coisa de velho ranzinza, mas observe o seguinte, qual o ponto de se fazer um amigo secreto? Todo mundo vai ganhar um presente. Imagine se não tivesse essa bobagem e pudéssemos dar presentes para quem fosse de nossa escolha. Ter liberdade é bom as vezes. Certamente o chato, desagradável e porco do seu colega, amigo ou primo de 3º grau não ia ganhar nada, nem dos pais, que não o agüentam tanto quanto o resto do mundo.

O amigo oculto é a democratização do Natal. É a forma que o Papai Noel coletivo inconsciente que existe em cada um de nós ocidentais encontrou para presentear a todos. Dos que mais merecem aos que menos merecem.

Isso estabelece um paradoxo, pois se o postulado social “cada um tem o que merece” tem a validade comprovada de forma inquestionável pela ciência, esse indivíduo que ganhou um belo presente de amigo secreto terá que sofrer um desalento maior, um sofrimento mais agudo. Ele terá o que ele merece. Não sei por que a mania de ir contra a natureza.

Outros dirão que é legal fazer uma festa de final de ano, uma confraternização entre queridos. Pode até ser, mas que faça a festa sem amigo oculto. Assim já bastam os bêbados, os chatos e aqueles que pensam que só porque é uma festa, podem sair se esfregando, mesmo sendo casados com outras pessoas, na frente de todos os colegas de trabalho.

Não fosse o problema de distribuição irracional de presentes, temos ainda a inconveniência de agüentar durante um mês inteiro, em qualquer bar, restaurante e lanchonete aquela mesa de patetas gritando, bêbados, como se fossem adolescentes reprimidos pelos pais a vida toda. Afinal se essa festa de amigo secreto fosse tão legal, cada gênio que fizesse na sua casa, na sua empresa, na sua quadra de futebol ou nos quintos dos infernos. Ouvi dizer que eles tem um belo bufe.

Está na hora de sermos responsáveis e coerentes com as coisas, se o amigo é secreto, oculto, invisível, que fique assim. Não precisa aparecer.

Epifania d’água

Acertou a pedra na água, não para baixo,  paralelo à superfície; e imediatamente pensou na vida; os saltos que ela dá. Decepcionou-se. A pedra só ricocheteou três vezes.

Ele já tinha quarenta e cinco e não podia esquecer o dia em que se formou com louvor. Primeiro da turma, uma capacidade fantástica de resolver problemas e uma inteligência aguçada. Ele mesmo não se continha de ansiedade e esperança. Ah, aquele dia! O céu era o limite, ali ele começaria a traçar o seu futuro, começaria a arrancá-lo do tempo e dividí-lo em etapas. Ah, aquele dia!

Já empregado, e com o tempo ultrapassando qualquer prospecto ou projeção, ficou ali, apenas; olhando para a água como se estivesse sobre uma canoa e acompanhasse a suave ondulação provocada pelo lançamento anterior na superfície que silenciosamente refletia o azul do céu. Ali, bem ali, ele tinha encontrado Marina pela primeira vez. Marina foi a alegria e a tristeza, seu bucolismo e seu transtorno. Nunca amou ninguém como havia amado Marina. Seu segundo salto! Casamento, filhos, quem podia pensar nisso se sua vida modificada ao extremo não acompanhava os planos traçados. Ficava consternado. Via o céu como limite mas percebia que no horizonte, céu e terra se tocavam e não importava o quanto ele corresse o horizonte sempre corria mais.

Agora com quarenta e cinco não tinha mais tanto tempo assim para imaginar, conseguir, o que quer que fosse o terceiro salto da sua vida de pedra. Não tinha feito metade de tudo que imaginara. Não tinha se mudado, não tinha se casado, não tinha vencido. Parado; feito pedra.

A superfície espelhada da água se acalmava. O reflexo que surgia, definido e melancólico, o Eu que ele nunca havia imaginado, ele mesmo vivido, experimentado, ultrapassado. A lâmina de água parada à sua frente era como um letreiro em neon na 5ª avenida mostrando o caminho mais curto e também óbvio, obscurecido pelo ímpeto humano mas iluminado, naquele instante, pela natureza. Olhou para baixo e se viu no céu caminhando entre as nuvens que chegavam do norte. Então deu seu último salto.