Arquivo de dezembro, 2007

Natal em Pedregulho

Ninguém sabe, nem eu sabia até recentemente, mas minha família de verdade não é de Ituverava, e sim de Pedregulho. Esse ano passaremos o Natal com a família de lá, não com a de cá. É um pouco confuso eu sei, mudar de família de uma hora para a outra, mas tudo bem, família é tudo a mesma coisa, tudo igual, só muda de endereço, não é?

No entanto, endereços diferentes a parte, o martírio é o mesmo. Não bastasse ter dado Feliz Natal por trinta anos para pessoas que nem da minha família são, agora vou ter que dar Feliz Natal para pessoas que não conheço. Não sei o que é pior.

Nesse clima de alegria, expectativa, e novidades, tive uma idéia genial. Seqüestrar o cachorro da avó nova, é lógico, o famoso Orestes, na véspera do Natal. Isso daria uma nova conotação para a ocasião. Mudaria o foco das atenções.

Num primeiro momento isso seria o assunto para a noite toda, ninguém ia falar outra coisa. Ao invés de Feliz Natal, as pessoas a meia noite diriam:

– Espero que o Orestes seja encontrado. Espero mesmo.

Já é uma melhora significativa. Com o passar das horas, todo mundo chegaria à conclusão de que Pedregulho é uma cidade muito pacata. Que a culpa por esse crime hediondo só poderia ser dos recém chegados. Enviados do capeta, eles dirão. A turma dos panos quentes dirá que não é nada disso, que somos apenas pés frios, mas pessoas honestas e limpinhas.

Nós em resposta diremos que foi tudo armado. Que não éramos bem vindos desde o início. Ameaçaremos voltar para a família antiga, mesmo não sendo sangue do nosso sangue. Diremos que eles sim eram boas pessoas, que não nos acusavam, pelo menos não durante o Natal ou aniversários em geral.

Em menos de quarenta e oito horas o Natal nos moldes tradicionais estaria arruinado. O que era para ser um novo encontro familiar teria se tornado uma guerra de nervos. Haveria tios bêbados e tias nervosas por todos os lados. Minha avó ainda ia achar tudo bonitinho, mas no fundo sentirá vontade de não ver nenhum de nós até o Reveillon.

Desejo que pode se resolver com facilidade, é só mandar uma carta pedindo resgate do cachorro no dia trinta e um bem no meio da tarde. Na carta o valor do resgate deve ser o mesmo que aquele seu tio mala pediu emprestado para todo mundo logo que chegou de viagem. Ao invés de desejar Feliz Ano Novo vovó gritará olhando para o céu:

– Por quê? Por que ele fez isso? Maldito seja. Eu quero o Orestes de volta!

Quer namorar comigo?

– Ahn?
– Quer namorar comigo?
– Pra quê?
– Como assim pra quê?
– Não. Quero dizer. Qual a razão disso agora? Estamos tão bem?
– Estamos?
– Estamos. Não estamos? Achei que estávamos.
– Quem disse?
– Nós. Ontem inclusive. Comentamos que nossa relação era ótima assim. Esporádica, sem rótulos.
– Sim, mas hoje não acho isso.
– Mudou de idéia assim?
– Sou mulher.
– Verdade.
– Mas você quer ou não quer?
– Veja bem.
– Xiiii…
– Não. Sério. Como você me faz uma pergunta dessas. Assim do nada. Ainda mais pela internet.
– É o que estou sentindo. Mas pelo que parece você acha que não sou mulher pra namorar.
– Não é isso. É que sei lá. Estamos tão bem, mudar pra que?
– Não vamos mudar nada.
– Então ficamos assim.
– Não. Não é isso. Muda mas não muda.
– O que muda?
– Queria poder te ter sempre ao meu lado, ter segurança, falar pro mundo que você é meu.
– Sou seu?
– Isso.
– Mas, bem, quando estou com você sou seu.
– E quando não está?
– Quando não estou penso sempre em você.
– Olha, numa boa, se não quer fala logo que não e pronto. Estou pronto para meu “fora” virtual.
– Não é assim querida. Não quero te dar um fora. Adoro ficar com você. Você é diferente, é única. Só não acho que devemos assumir rótulos agora. Pra que se sabemos que nos damos tão bem?
– É verdade.
– Não é?
– É.
– Que bom que você entendeu.
– Mas deixa eu te perguntar uma coisa.
– Fala.
– Tem outra mulher na jogada né?
– Ah querida, não fala assim. Não tem ninguém.
– Eu desconfiava que tinha, mas não queria acreditar.
– Ta doida? Não tem ninguém.
– Então o que é?
– O que que é?
– Você não quer namorar comigo, algum motivo tem.
– Mas…acabei de te explicar.
– Não acredito.
– Eu to falando.
– Sou ruim de cama?
– De jeito nenhum.
– Faço errado né? Eu sei que tem posições que não consigo mas você tem que entender que minha elasticidade não é boa.
– Não é nada disso.
– E sobre aquilo que aconteceu nesse final de semana, eu juro que não foi o que pareceu. Li na internet que acontece direto.
– Eu sei querida. Acontece mesmo. Eu não ligo.
– Então o que?
– O que?
– Vai namorar comigo?
– Amorzinho, já te disse. Não é nada com você, só não acho que agora seja o melhor momento para namorarmos.
– E quando vai ser?
– Não sei. Vai saber. As coisas podem mudar.
– Humpf.
– Não fica assim.
– Ta bom.
– Que bom.
– …
– …
– Já sei qual é o seu problema?
– Meu problema?
– É. Seu problema.
– Ok, qual o problema que eu nem sabia que tinha.
– Você tem problema com compromisso.
– Hein?
– É, falta peito para assumir um compromisso.
– Ta bom então. É isso.

Assim se encerrou o papo, afinal, como explicar que era ela quem não tinha peito. Não tinha peito, não tinha bunda, não tinha perna….

Carimbos

Uma das coisas mais interessantes de ter tido um negócio é descobrir como funcionam alguns dos mais comentados órgãos públicos. Um dos que eu tenho visitado de forma mais constante me chamou a atenção na última visita. O TRT, Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, aquele mesmo do famoso Juiz Lalau. Uma obra faraônica, que mostra o poder e a imponência da justiça brasileira.  

Nessa visita, depois de esperar por mais de 4 horas por uma audiência com Vossa Excelência, é assim que chamamos os juízes e juizas, acompanhei meu caríssimo advogado para dar entrada numa guia. Legal, eu ia acompanhar alguém que ia dar entrada numa guia, uma coisa importante, relevante, digna de um freqüentador de tamanho templo de justiça. 

Para nos dirigir ao local desejado para tal ato jurídico, descemos pelas rampas do prédio, que tem um declive leve, tornando a caminhada muito agradável. Recomendo. Os elevadores não cheiram muito bem.  

Ao chegar lá, me deparo com o seguinte sinal: “Protocolo”. Bacana. Já tinha ouvido falar que esse tal de protocolo era importante. Pegamos uma fila não muito grande, chegamos a um dos guichês, no total eram uns 30, e tudo ficou escuro, não literalmente, mas o que eu presenciei tirou por completa a percepção de magnitude do local. Depois de tanta expectativa, tudo que aconteceu foi um carimbo. Isso mesmo. Um carimbo. Ainda por cima usam uma máquina. Nem tem aquele barulho característico de uma carimbada. Nada tradicional. 

O TRT tem um departamento de carimbos. Olha que legal. Devem ter umas 50 pessoas trabalhando lá. Será que tem carreira de carimbador. Imagino como deve ser:– Olá seja bem vindo Alfredinho.

– Muito obrigado.
– Seu cargo será carimbador junior. Seu chefe é o Ronaldo, ele já é um supervisor de carimbos e o Diretor da área é o Almeida, supremo gerente de carimbos e afins.– Mas o que eu tenho que fazer?
– Pega aqui esse papel.
– Assim?
– Isso. Põe na máquina.
– Assim?
– Isso.
– Agora aperta o botão.
– Oh.
– Viu só. Acho que você tem futuro. Logo será um carimbador pleno. 

Saí com a impressão de que tinha alguma coisa errada, e perguntei para o caro advogado: 

– Isso aí tudo é necessário?
– Sem isso não tem Tribunal. 

Viva os carimbos!

Da série “Blogando” : Sobre computadores, reformas e texturas

Trabalho de verdade há 9 anos. Neste tempo, só tive uma grande ferramenta de trabalho: o computador (além do meu cérebro, que veio de fábrica então não conta).
Se contarmos os anos de faculdade onde eu já “computava” bem, tenho uma grande intimidade com essa ferramenta.

Entenderam ? Legal. Agora vou parar este raciocínio, uma hora ele volta. Prometo.

Estou em processo de mudança de casa, desde Agosto. Visita o apartamento, pensa como vai ficar, planeja decoração, faz contas, bate-perna, dá preguiça, faz compras, melhor tomar vergonha e mudar logo, enfim, tudo aquilo que mesmo quem nunca fez, pode imaginar como funciona.
No último mês entrei na fase onde você encara definitivamente o fato de que vai mudar. O ponto sem volta.
Como não estou mudando no módulo “rico”, cuidei pessoalmente de praticamente todo o acabamento que tornou um apartamento antigo, na minha nova casa.
Por 2 semanas, fui pintor, eletricista, instalador, técnico eletrônico, faxineiro e decorador.
A cada mudança radical que eu provocava na casa (Ex.: arrancar uma cortina velha e os varões que a sustentavam na parede. Acreditem, isso é radical para um amador como eu), eu percebia que algo em mim mudava também. E não estou fazendo uma metáfora emocional do Homem que se integra com o todo, blá-blá-blá …
O que eu quero dizer, é que 2 semanas de intensivo trabalho braçal alteraram meu corpo. Depois da primeira semana, minhas mãos ficaram ásperas e calejadas (Sabe mão de pedreiro? Então…). Na segunda semana, eu conseguia trabalhar por mais tempo e rendendo muito mais do que no começo. E o fato de perceber que o trabalho surtia um efeito concreto (agradável!) e real na casa, me fazia trabalhar mais. “Finalmente tou fazendo algo que serve pra alguma coisa!”

Ok, acho que chegou a hora de juntar tudo  :

Lembro que num dos meu picos workaholics de trabalho-faculdade-carro-computador-microondas-controle-remoto-e-por-aí-vai, tive um choque no carro, num congestionamento, ao encostar minha mão em uma planta do canteiro central da 23 de Maio. Eu arranquei uma folha e o cheiro que senti, foi o mesmo cheiro de “planta”, quando eu brincava no térreo do meu prédio, com meus amigos de infância.
Quando você é pequeno, você vive tocando texturas diferentes, sentindo cheiros esquisitos, caindo, se machucando e saindo do normal.
Quando você “adultece” as texturas vão sumindo, os cheiros vão se tornando previsíveis, tudo entra “nos eixos” e seu corpo não precisa mais se adaptar à nada.
Naquele momento percebi que faziam meses, talvez anos, que eu não me deparava com algo fora do script.
Nestas duas semanas pré-mudança, por um motivo bem adulto me coloquei à prova como fazia quando criança. Me machuquei, cortei, calejei, cansei meus músculos e senti cheiros horríveis.
No meu trabalho como “gente grande”, já produzi algumas coisas que me orgulham muito, bem mais complexas, que envolviam muito mais dinheiro e pessoas. Porém, olhando e curtindo a sala que “reformei sozinho”, sinto uma sensação de realização que talvez nunca tenha sentido. Isso porque praticamente tudo que está aqui, do jeito que está, é culpa minha.
Quer dizer então, que vou abandonar minha vida urbana, vender tudo e ir morar numa comunidade de permacultura no meio Goiás?
De jeito nenhum. Adoro tecnologia, adoro conforto, e de forma geral, acho que minha vida vai bem (ainda mais com a casa nova!). Em breve, volto a trabalhar, apenas usando meu computador, minhas mãos voltam a ser macias e tudo vai retornar ao normal.
Mas … escrever essa crônica, é uma tentativa de não esquecer de me colocar à prova de vez em quando, mesmo que machuque um pouco, mesmo que deixe marcas.
Se passar muito tempo sem que isso aconteça, é sinal de que esse tempo está sendo perdido.