Arquivo de março, 2008

Minha casa, seu apto.

– … que eu fico vendo esse povo aí, apertado. Um em cima do outro feito caixa de sapato. Tudo empilhado.

– Que nada, isso é só um pequeno detalhe perto da comodidade e segurança.

– Que segurança que nada. Você acha que só de estar morando nesses pombais você está seguro? Que ninguém assalta apartamento?

– É, porquê? Não?

– Claro que não! A segurança do seu prédio é proporcional ao grau de instrução do seu porteiro.

– Put…que o par…

– É negão, se o seu porteiro é uma porta, se me permite o trocadilho, você já era; digo, seu apartamento.

– Put… merd… nunca tinha pensado nisso.

– É que eu sou gênio, então eu penso nessas coisas sabe…

– Mas mesmo assim, um sujeito que tém uma casinha, está sujeito – se você também me permite – a qualquer; e digo qualquer tipo de assaltante, é só ter uma casa sem ninguém durante um período do dia e pimba!

– Pimba!

– É, eu não sabia outra palavra… me deixa. O que acontece é que em prédios com porteiros, ainda que medíocres, você sempre tem “alguém” em casa para intervir e até mesmo pegar correspondências, ó só!

– Caixa de correio também pega correspondência.

– Mas não dá bom dia, boa noite…

– Não duvide!

– Qual é a questão então?

– Eu prefiro casa, liberdade de ir e vir. Eu gosto de poder abrir a porta e já estar no meu quintal, jardim, garagem, pegar o carro e passear ou mesmo a pé. Poder pular e gritar quando o meu time ganha o campeonato sem que alguém me interfone por causa do barulho. Eu gosto depoder receber meus amigos, dar uma festinha e terminar a hora que eu quiser sem ter nenhuma vizinha com filho pequeno no apartamento do lado que me ligue por causa da bagunça às 3 horas da matina.

– Ah, tá. Eu já, não; prefiro morar empilhadinho – tem mais calor humano – e sem quintal. Não tenho tempo pra cuidar de planta, mal sobra tempo pra mim! Aprecio o bom futebol mas por razões desconhecidas meu time é o Madureira. Receber amigos eu adoro, mas só para jantar; tenho 37 anos e vamos concordar que festinha não é bem o que eu costumo fazer, além do que, não posso beber nada alcóolico por causa do fígado.

– E se a vizinha com a criança ligar pra reclamar, o que você faz?

– Meu apartamento é um por andar…

Quase Lembranças

– Alguns dias após o nascimento prematuro (1979):
“Olha só … A pulseirinha com meu nome parou de crescer! Não sei bem o que isso significa, mas pela reação daquele moço de branco e daquele casal que vive me olhando pelo vidro, deve ser coisa boa!”

– 1º ano (1980):
“Engraçado … depois que eu voltei daquele lugar cheio de gente de branco, meus pais e meu irmão estão pulando e gritando que nem uns loucos na minha frente. Eu tou com sono. Queria dormir.
Esse curativo na cabeça também incomoda um pouco.
(Pausa)
Hahahaha! Que engraçado é o meu irmão! Assim não dá pra querer dormir! Hahahaha.”

– 2º ano (1981):
“Olha a mamãe sentada na frente daquela máquina que faz “plec, plec, plec, plec”! Mas meu irmão deve estar triste. Ele está do lado dela. Tão sério de cabeça baixa, olhando praquele monte de folha branca. Eu nunca vejo ele quieto assim.”

– 3º ano (1982):
“Tem coisa mais divertida do que encher esse saleirinho vermelho de água e jogar tudo fora de novo? Xi … ele caiu longe, acho que eu consigo peg – Glub! Glub! Glub!
Esquisito ficar sentado aqui embaixo com esse monte de água em cima de mim. Não dá pra respirar.
Oba! Alguém veio me buscar!
Por que tá todo mundo com cara de assustado? Vão me colocar sentado naquela carroça que deve estar muito quente e vai queimar meu bumbum! Quanta gente gritando! Será que eu fiz alguma coisa errada?! Buáááá!”

– 4º ano (1983):
“Que legal! A gente saiu pra jantar e quando voltamos a nossa casa era outra. Tudo novinho!”

– 5º ano (1984):
“Engraçado … a gente mal mudou pra esse apartamento estamos indo pra outro mais legal ainda! Pena que eu perdi minha bolinha vermelha dentro daquele caminhãozão que levou nossas coisas pra casa nova.”

– 6º ano (1985):
“Corre, corre! A gente está acabando o castelinho antes do outro grupo!
Ei! O que você veio fazer aqui?! Pára! Não pode chutar a areia do nosso castelinho!?! Ah é?!
Eu vou chutar o seu castelinho também! Toma! Pronto!
Ah Tia! Castigo!? Ele chutou o meu primeiro! Não é justo!”

– 7º ano (1986):
“Não sei o que eu odeio mais nesse colégio : A quantidade de lição de casa, ter que usar sapato ou ter que cantar o hino todo dia!”
“O pai do meu amigo tem um braço que nem de robô! Ele até dirige com ele. Maior legal!”

– 8º ano (1987):
“Agora sim um colégio legal! Tem até esse cara que deixa eu ficar o intervalo todo jogando o joguinho de nave do relógio dele. Ele é mó legal. Acho que eu vou chamar ele pra passar o final de semana em casa pra gente brincar mais ainda!”

– 9º ano :(1988)
“Droga … a tia Regina disse que eu só não sou o aluno perfeito por causa da minha letra. Por causa disso só eu que ainda não posso usar caneta!”
“Que engraçado esse gordinho de mochila amarela, vermelha e azul. Ele também tem a letra horrível!”

– 10º ano (1989):
“Ah, não! Não acredito!! Não acredito que desclassificaram o Senna! Que raiva!!”

– 11º ano (1990):
“Meeeu! Meu irmão é louco! Olha a quantidade de figurinhas que ele me deu de presente! Agora eu completo o álbum! Cadê o cara o que tem o Caniggia? Eu troco ele por toda seleção da Itália! Chama ele!”

“Ah … e antes que eu me esqueça : Se ferroooou, Prost!!”

– 12º ano (1991):
“Na boa, meu! Super Mônaco GP é o melhor jogo do mundo!”

– 13º ano (1992):
“Xande, posso fazer uma pergunta? Irmão também fica no altar?”

“Ow … fala aê … esse negócio de se arrumar pra ir numa danceteria às 2 da tarde não faz o menor sentido. Vocês tem certeza que não preferem ficar lá atrás jogando bola?”

– 14º ano (1993):
“GOL!!!! GOOOOOOOLLLL !!!! AHHHHHHHHHHHHHH!!! (Cara, nunca achei que fosse ver meu pai gritando tanto assim num gol! Que tesão!) Eô, eô, Evair é um terroooor!”

“Pô … mó legal ver toda a galera “moral” do colégio vindo nas festas da gente aqui no prédio. Deu até briga na última, baixou polícia. Animal!”

– 15º ano (1994):
“Putz! Mudei pra esse colégio de louco, não acredito que eu fui cair numa classe só com 5 caras, todos desconhecidos entre si. As minas não dão a menor bola pra gente e ainda por cima o Senna morreu. Esse ano vai ser foda.”

“Já sei!! Olha só! Se eu vender todos meus brinquedos e minha bike, acho que consigo pagar aquele curso de pilotagem de kart. Aí é só andar bem e alguém me descobrir!”

– 16º ano (1995):
“Pô … animal! Eu sou o único do prédio que pode dar “rolê” de carro com Fábio! E ele nem tem carta …
Mas nem isso facilita as coisas nesse lance de “ficar”. Tudo era mais fácil na época do videogame…”

– 17º ano (1996):
“MAAANO! Você não acredita! Meu pai deixou a gente dar um rolê com o carro dele. Vamo aê! Vamo no Rocket’s?”

“Beleza. Com essa nota acho que passo sem problemas. Mas puta vacilo … bem que eu podia ter gabaritado física e matemática!”

– 18º ano (1997):
“Carro novo, 2 faculdades, namoro. Puta vida boa, mas eu quero mais. Maaais!”

– 19º ano (1998):
“Tá na hora d’eu começar a procurar um estágio. Se eu conseguir um cedo, entro numa agência e minha vida tá feita!”

“Bom … já que tou de bobeira vou aprender a fazer sites. Essa internet é o futuro, né?”

– 20º ano (1999):
“Será que eu aceito esse emprego no Bank Boston ou continuo na aqui na TV Cultura? A grana lá é ótima … mas poxa … vou ter que largar uma faculdade, usar terno … sei não.”

“Ô Mamute! O que você acha de começarmos a escrever crônicas no teu site?”

“Pra terminar : CHUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUPAAA!! CHUUUUUUUUUUUPA, MARCELINHO!!!! (Não tem jeito! Só esse time pra me fazer ficar gritando e xingando na sacada de casa junto com meu pai. Puta coisa boa!)”

– 21º ano (2000):
“Ô aninho esquisito. Quero explodir a ESPM, a ECA até que continua legal, o namoro tá frio, o estágio está acabando … Eu me formo em breve e não tenho a menor idéia do que eu quero ser da vida. Pelo menos minha crônica foi publicada naquela compilação do Prata …”

“Quer saber? Acho que eu vou vender o carro, pegar toda a grana do estágio e fazer uma loucura!”

– 22º ano (2001):
“Cara … você tem idéia que a gente vai passar os próximos 3 meses em Los Angeles estudando cinema e filmando todo dia?!?!”

“Então … eu sei que o namoro acabou, mas não conheço direito quase ninguém aqui na produtora e fiquei tão desnorteado que precisava falar com você. Eu vi o os prédios caindo ao vivo na TV. Que absurdo.”

– 23º ano (2002):
“Esse é o ano que eu começo a ficar rico! Virei 1º assistente de direção … Tou trabalhando um monte, agora foi! Uhúú!”

– 24º ano (2003):
“É isso mesmo! Agora eu compro meu carro, os cd’s que eu sempre quis, não preciso mais pensar em grana! Na boa, eu sou o cara!”

– 25º ano (2004):
“São 7 da manhã, eu virei a noite trampando, meu corpo inteiro tá latejando e ainda sim eu não consigo dormir. Pára! Não agüento mais! Quero férias. Vou procurar outro lugar pra trampar. Nunca mais eu vou passar por isso. Promessa!”

“Namoro com alguém que você conhece pela net : Será que funciona? Bom, agora que eu tenho mais tempo pra mim, talvez até role.”

“É … de qualquer jeito não vou agüentar as prestações. Melhor vender o carro e pegar um popular.”

“Puta merda … por que ela mora tão longe e não dá a mínima pra mim quando tá por aqui?! Acho que não vai dar pra continuar, não …”

– 26º ano (2005):
“Tchau, Vô. Saudade, muita saudade!”

“Pensando bem … esse negócio de ser pára-raio de louco tá cansando. Acho melhor eu pensar em alguma outra coisa …
Já sei! Vamos publicar nosso livro, aí de repente rola de escrever pra algum site ou revista. Começar a ganhar pra isso … É uma, viu ?”

– 27º ano (2006):
“Não acredito que eu vou virar sócio desse louco! Isso só pode dar merda, preciso chamar alguém pra me ajudar a segurar a onda.”

(em cima do palco, com o troféu na mão o repórter Vesgo diz : Vem pra cá, HATEEN!!!!)
YEEEEEESSSS!! CARAAALHO! Finalmente!! GANHEEEI 1 VMB! GANHEEEI!!”

“É, Mamute … infelizmente a nossa produtora durou 2 sabonetes. Que pena …”

– 28º ano (2007):
“Bom … Sozinho na luta, de novo. Ai ai … Acho que eu devia ter escolhido uma profissão de verdade. Eu era tão bom de exatas …”

“Quer saber? Vou morar sozinho! Alguma coisa boa disso vai sair. Não sei porquê, mas sei que vai!”

– 29º ano em diante :
Só Deus sabe …

Nota do autor : Essas lembranças são tão precisas e exatas como qualquer lembrança. Não necessariamente as mais importantes, não absolutamente verdadeiras, apenas significativas o suficiente pra virem à tona numa tarde de reflexão.