Arquivo de abril, 2008

No espaço.

A estação espacial internacional vivia dias populosos. Vladmyr e Marcello (fazer o quê se a mãe gostava de cinema?) passavam os dias entre tarefas de rotina, refeições sem graça (a não ser que você seja uma criança de sete anos) e poucos momentos de lazer.

Vladmyr, o primeiro oficial, checou os tanques, escotilhas, plasístobos, jogou pra dentro uma pasta de arroz com tofu e abobrinha e surrupiou um pouco do reduzido estoque de vodka em cubos. Tarefas cumpridas, era hora de se divertir. Chamou por Marcello com um sotaque estranhíssimo, o que fazia o nome do companheiro lembrar o som de um koala caindo do vigésimo-quinto andar.

Marcello, o segundo oficial, esvaziou os reservatórios das latrinas, levou os dejetos até o exaustor subatômico, fez as camas e preparou um “PF” de vatapá siberiano com urucum. Sente saudades do óleo de dendê de sua vó, baiana que emigrou para a União Soviética por culpa de um marido marxista. Escutou o som de um koala caindo do vigésimo-quinto andar. Olhou pela janela e não viu nada. Resolveu ir encontrar Vladmyr.

Uma sala comum, branca e vazia, cercada de escotilhas apertadas era o compartimento PA2, mais conhecida cosmicamente como compartimento PRA2, após um incidente com uma americana e dois ucranianos em 93. Os compatriotas era mais ortodoxos e como bons russos planejavam jogar partidas de xadrez no PRA2. O jogo poderia até parecer meio parado, mas apimentado pelo fato da estação espacial estar orbitando a Terra a 26.000 quilômetros por hora.

As regras eram as de sempre, o tabuleiro era colado à fuselagem da estacao e as peças possuíam imãs na base, desde 95 quando George Orville quase se perdeu pelo cosmos atrás de um bispo. Vladmyr e Marcello se posicionaram um de cada lado. Vlad com as brancas e Cello com as negras. Decisão que parece simples mas não foi. Ambos queriam jogar com as peças negras. Foi assim nos primeiros dois meses, todos os dias tentavam jogar mas não saiam do lugar (em relação a estacão pelo menos). Um dizia que era a cor do time de coração, o outro era fã de Darth Vader. Intermináveis discussões até Vlad se convencer a jogar com as “branquinhas”. Afinal adorava uma “branquinha”.

Era a primeira vez que começavam com as cores definidas, a tensão tinha aumentado muito, o jogo psicológico havia chegado a níveis perigosos. Um dia a discussão fez com que Cello ameaçasse esvaziar o suprimento de água se não jogasse com suas peças favoritas. Agora finalmente iam conseguir definir quem era o melhor, quem estava certo ou qualquer coisa que não fosse as mesmas de todos os dias. Precisavam manter a sanidade de qualquer jeito, afinal só isso restaria quando voltassem pra terra, já sabiam que seus ossos ficariam tão resistentes quanto a primeira bolacha recheada de um pacote.

A postos se entreolharam e antes que Vladmyr pudesse mover o primeiro peão, Cello interrompeu.

– Você vai jogar assim?
– – Assim como?
– Assim, de ponta cabeça.
– Não estou de ponta cabeça. Você que está.
– Não estou não, estou alinhado com o tabuleiro.
– Que também está de ponta cabeça.
– O que importa? Estamos no espaço, gravidade zero, não tem ponta cabeça aqui.
– Discordo. Com você de ponta cabeça não jogo.
– Você que está!
– Não, você.
– Não, você.
– Não, você.

Tempos Modernos

O café está na mesa. A nova família margarina a postos. Um jovem pai solteiro e saudável acompanhado da velha filha adolescente vegetariana e emo. Ele com sono, ela nervosa. Ele com preguiça de ter pressa, ela com pressa de ter tranqüilidade. Antes de pegar seu leite de soja, ela passa o leite com baixo teor de lactose para o pai e diz :
– Pai. Preciso te contar uma coisa importante.
– Fala filha. – brincando – Quer o sal?
– Não, brigado. Ainda não. Mamão com sal não me faz bem de manhã.
– Faz sentido.
Ela toma fôlego e solta numa única respirada:
– Acho que quero namorar um cara.
– O quê!?
– Passa o sal?
– Não vem com essa! Como assim?!
– Ah pai …
– Como assim, filha?! Você não é como se diz … “Emo”? “Gay”?
– Sou, pai … sou … mas …
– Como “mas”?! Não tem nada de “mas”! Você gosta dessas bandas de gente depressiva, você beija meninas, você usa maquiagem preta como todas as sua amigas da sua classe. Eu não preciso me preocupar com moleques desproporcionais e fedidos pulando em cima de você! É assim que as coisas funcionam hoje em dia. Não tem “mas”!
– Eu sei, pai! Mas é que eu tava lendo uma entrevista da Ana Carolina …
– Quem ?
– Ana Carolina, aquela que comeu a Madonna …
O pai, surpreso :
– Sério?! Comeu? Tem vídeo no youtub-
– Não, pai! Num tem! Tou falando da música. Ela fala isso na música.
– Poxa, interessante … – voltando à postura de pai bravo – Ahãn! E daí. Que que tem a entrevista dela?
– E ela disse que tá querendo namorar um homem agora.
– Ah é? Por quê?
– Ah … porque as mulheres são muito complexas … disse que os homens são bem mais simples.
– Não me diga.
– Ah … e também porque homem é muito bom pra transar.
– KLASPIT! – e com esse som, o jovem pai teve toda sua cavidade nasal inundada por leite com baixo teor de lactose.
– Pai! Você tá bem?!
Tentando se recuperar do estrago físico, psicológico e moral, ele afastou o prato de torradas, agora com leite, e verificou o estado da sua roupa que felizmente não foi atingida. Finalmente disse:
– Olha filha, não tou muito não.
– Quer que eu te prepare outro leitinho?
– Não … acabou. Esse era o resto do meu leite. Esqueci de comprar mais …
– Pode tomar do meu. É bom leite de trigo!
Foi a gota d’água :
– Que leite trigo?! Tá louca, menina?
Ela se assustou.
– Desde quando trigo dá leite!? Onde fica a teta do trigo, heim?! Heim!? Fala pra mim!?
– T-tá bom, pai. De-desculpa.
Ao ver que a filha estava a beira de um choro realmente sincero, ele tenta se controlar, respira fundo e baixa o tom de voz:
– Eu que peço desculpa. Me descontrolei.
Ela desvia o olhar. Ele suspira e continua :
– Vamos lá então, mocinha … o negócio agora é beijar meninos?
– É pai … acho que é.
– E o seu lado gay, filhinha? Como faz?
– Então … tou pensando em ser uma gay mais moderna, sabe?
– Ah … quer dizer que você vai beijar meninos agora, mas continuar sendo gay.
– Isso.
Tentando entender o raciocínio, ele pergunta:
– Então, ainda assim você não vai querer roupa da Zara de presente?
– Até vou, pai. Tem roupa masculina lá!
Ele apenas olha pra ela, quase desistindo. A menina continua:
– Sei lá, pai. Tou cansada da complicação das mulheres.
– Sei bem como é …
– Quero ser uma menina mais moderna.
– Precisava ser tão moderna assim?
– Ah pai! Deixa de ser heterofóbico!
– Heim?!
– É! Isso mesmo! É só ver a repercussão da entrevista da Ana. Não vai ser fácil pra mim! Eu sei que é estranho, eu sei que é bizarro, mas eu quero ver como é sair com um cara. E demorei um monte pra me convencer disso, tá? Eu também era heterofóbica! Ficava me culpando das vezes que assistia os jogos com você,  esquecia um pouco do esquema tático e parava pra olhar pras pernas dos caras.
– O quê?! Você esquecia de torcer pro nosso tricolor e ficav-
– Não pai! Só nos jogos da seleção. Fica tranqüilo!
– Tá bom, vai. Lá tem o Kaka … eu entendo.
– E o Pato, né?
– Tá …
– E o Dung-
– Pára! Tem limite, filha!!
– Desculpa.
– Bom … – pausa – … é uma decisão definitiva?
– Sim.
– E a Gigi?
– Pois é … é por isso que eu tão tou nervosa. Não sei como acabar com ela.
– Nossa … ela ainda não sabe? Eu fui o primeiro?
– Foi pai. Precisava de um conselho de como acabar um namoro com uma mina.
– Sei …
Resignado, o jovem pai ficou olhando para a lista de compras presa na geladeira. O primeiro item era “leite sem lactose”.
– Tá vendo aquela lista, filha?
– Tou …
– Você consegue ler qual é o primeiro item?
– Consigo.
– Reparou que a parte que mais me exaltou dessa conversa toda foi a hora do leite.
Agora rindo, ela apenas sacode a cabeça concordando.
– Pois é … eu sempre pulo o primeiro item da lista. Que normalmente é o mais importante, diga-se de passagem.
– Sei …
– Sabe porque eu faço isso?
– Não …
– Nem eu … Só sei que é batata. Não precisa torcer que aconteça. É só esperar. Não tem erro.
– O que isso tem a ver com história, pai?
– Nada filha … Eu só reparei isso recentemente e tentei fazer um paralelo interessante.
– Não deu certo …
– Percebi.
Silêncio.
– Olha, filha. Não sei o que te falar, não. Concordo com a cantora quando ela diz que nós somos rasos e retos, e que vocês são profundas e oblíquas … acho que, apesar de anti-natural hoje em dia, até faz sentido você querer experimentar essas coisas novas …
A menina olha para o pai com um olhar agradecido e ao mesmo tempo admirado. Ele continua:
– Mas tenho certeza que você não vai simplificar muito mais as coisas, não. É só ver o que aconteceu comigo e a sua mãe.
– Eu não vi nada, né, pai? Vocês separaram no meio da gravidez dela.
– É verdade. Não tou acertando uma, hoje.
Risos.
– Mesmo sem saber o que te falar agora. Eu vou estar do seu lado, filha. E vou tentar te ajudar no que eu puder.
Ela se derrete ainda mais, agora pulando em cima dele:
– Pai, você sabe que eu te amo muito, né!? Por isso que quis te contar antes de todo mundo.
– E eu fico muito feliz por isso, filhinha. Tou bem assustado, mas ainda assim feliz.
-Lindo!
Separando o abraço, e olhando para ela muito sério, ele diz :
– Mas posso só te pedir uma coisa ?
– Claro, paizinho.
– Nunca, mas nunca mais fala pra mim de você transando com um homem.
– Tá …
– Não tem pai nenhum no mundo preparado pra isso.
– Uhum!
– E principalmente com o Dunga …
Mais risos.
– E passa essa droga de leite de soja pra cá que eu tou com sede.