Arquivo de maio, 2008

Crescendo.

– Pai.
– Oi filho.
– Posso perguntar uma coisa?
– Claro filho.
– Quando eu for grande, eu vou ter que colocar gravata todo dia?
– Não necessariamente filho. Vai depender de onde você trabalhar.
– Hummm…
– Por quê?
– Por nada.
– Você não gosta de gravata?
– Ah…fica engargejando.
– Hehehehe, enga-o quê?
– Engargejando. Não dá pra respirar.
– Mas desde quando você usa gravata pra saber?
– Não uso, mas uma vez amarrei uma fronha pra ver como ficava e não conseguia respirar. Muito ruim.
– É filho, não posso falar que é das coisas mais confortáveis. Mas você se acostuma. Alem do mais, nos melhores trabalhos você tem que usar gravata.
– É mentira.
– Como assim mentira?
– Astronauta não usa gravata.
– É verdade. Astronauta não usa. Mas o resto usa.
– Bombeiro também não.
– Ok, ok, mas são poucos.
– O tio que controla a fila no Hopi Hari também não.
– Eu entendi. Você está certo.
– Nem o Ronaldinho. Ele só usa gravata quando vai ganhar prêmio.
– É verdade.
– Também, imagina que engraçado se ele jogasse de gravata. Ele correndo com ela pendurada voando?
– Ia ser engraçado.
– E se ele fizesse um gol de gravata. Pai, gol de gravata vale?
– Olha filho. Desde que a gravata não esteja em posição irregular deve valer sim.
– Quê?
– Valeria sim filho. Se vale de chuteira vale de gravata né. É tudo roupa.
– É verdade. Pai, quando eu for grande, eu vou poder pular no pula-pula?
– Só se for um pula-pula bem grande.
– Legal. Adoro pula-pula. E ganhar brinquedo? Eu vou ganhar brinquedo quando for grande?
– Ah filho, aí depende de quem for te presentear. Mas nada impede.
– Mas porque você nunca ganha brinquedo pai?
– Porque sua mãe acha que basta o tanto que eu brinco com os seus.
– E ela não gosta quando você brinca comigo pai?
– Gosta sim filho. Mas não o tempo todo.
– Porque pai?
– Porque se brincarmos o tempo todo não sobra tempo pra ela.
– Pra brincar com ela pai?
– Isso filho. Pra brincar com ela.
– E de que vocês brincam pai?
– Errr…de muitas coisas filho. Depende do dia.
– Depende do dia?
– É filho. Se sua mãe teve um dia bom, brincamos de uma coisa, se foi muito bom, de outra. Se é dia que chego tarde não brincamos de nada.
– Entendi. É que nem eu e a carlinha então. Quando a mãe dela briga com ela nós não brincamos. A mãe dela não gosta que ela brinque só comigo e não fique com ela.
– Isso filho. Comigo e sua mãe é quase igual.
– É difícil né pai.
– É filho. É difícil.

A Cinderella do Grajaú.

Depois da odisséia do Príncipe Encantado para achar a dona do famigerado sapatinho de cristal, as coisas estavam tranqüilas no Reino. Cinderella, a nova princesa do pedaço, era amada por todos os súditos, com seu jeito simples e sua cultura doméstica conquistava a todos, deixando para o Príncipe a tarefa árdua de comandar o Reino próspero.

O casal ia de vento em popa, Cinderella permanentemente encantada com o charme do Príncipe, que mesmo após batalhas sangrentas valsava religiosamente com ela toda noite no Salão Nobre do Castelo. Ela sempre ficava apreensiva quando chegava a meia-noite, achava que seu sonho acabaria. Ele a tranqüilizava, massageava seus pés após o dia duro em que ela fazia questão de arrumar todos os 74 aposentos reais. Velhos hábitos não morrem.

Pouco a pouco, do encantamento passaram a profunda admiração. O Príncipe babava pelo charme suburbano de Cinderella, aquela coisa meio Grajaú que a princesa exalava. Justo ele que sempre foi um playboyzinho enjoado. Acabou enfeitiçado pelo jeito da modesta Cinderella.

Cinderella não se acostumava com todo aquele luxo. Tanto ouro pra lá e pra cá, achava incrível como seu Príncipe estava sempre impecável, fosse para uma cerimônia monótona da corte ou para uma pelada contra os Duques do reino vizinho.

Não se agüentando de tanto amor, os pombinhos começaram a andar pra cima e pra baixo juntos. Pra que sentir saudades se podiam ficar o tempo todo juntos? Ele adaptou uma garupa em seu cavalo para que ela pudesse o acompanhar em suas batalhas. Ela arranjou um balde extra para poderem limpar as janelas do castelo “coladinhos”. Era tudo alegria.

Mas como em todo conto de fadas, uma hora o feitiço de quebrou. Depois de algum tempo, o Príncipe viu que suas performances nas batalhas estavam prejudicadas pelo peso extra, além de adquirir um bico de papagaio infernal. Cinderella já não agüentava mais ver o Príncipe colando a boca e assoprando contra os vidros pra fazer graça para os criados.

O desgaste se refletiu no casal, trocavam olhares como não se conhecessem mais. O Príncipe deixou de andar engomado depois que percebeu como era difícil tirar e colocar a armadura para a faxina “castelal”. Cinderella no entanto começou a se empetecar toda, tinha que estar bonita para os desfiles da vitória. Ambos não tinham mais pique para as valsas noturnas, ora era Cinderella com dor de cabeça outra era o Príncipe concentrado para alguma guerra.

Tinham que tomar uma atitude drástica. Chamaram a fada-madrinha é claro.

Ela, que havia acabado de chegar de umas férias em Miami Beach, não precisou mais de dois minutos para resolver a questão. Mandou Cinderella passar uns tempos na casa da madrasta enquanto o Príncipe viajava para uma batalha ao norte.

Após alguns dias se encontraram no Salão Nobre do Castelo. Ela havia recuperado seu charme “rodriguiano” se apresentando com um esfregão nos braços, ele, impecável, trazia em sua mão direita a cabeça do rei dos Felcos.

Ela tirou os sapatos como se pudesse flutuar por alguns instantes. Ele arrancou o elmo como fosse sua própria pele. E valsaram felizes para sempre.

Hehehe.

–    Hehehe.
–    Que foi? Ta tirando sarro da minha cara?
–    Não, por que?
–    Essa risadinha de sacana.
–    Não tem nada de sacana, é minha risada normal.
–    Isso não é risada normal. É sacana. Ta rindo da minha cara.
–    Não to não. É meu jeito de rir. Carinha complexado, Deus me livre.
–    Não tem nada de complexo. Conheço uma risada normal e não é essa.
–    E qual é?
–    Hahaha.
–    Ah, mas essa é a risada de quando acho a coisa muito engraçada. Você não fez uma piada, apenas uma sacadinha inteligente.
–    Ué, então não precisava escrever nada.
–    Precisava sim.
–    Por que?
–    Porque é falta de educação não dar algum feedback. Tinha que responder com alguma coisa. Como não tinha nada a acrescentar mandei um tradicional “hehehe”. Mostra respeito.
–    Kkkkkkkkk, você é doido.
–    Que foi isso?
–    Isso o que?
–    Seu teclado ta com problema? Porque mandou esse monte de “k”?
–    To rindo do que você disse.
–    Rindo nada. Isso mais parece um pica-pau trabalhando.
–    É minha risada.
–    Não é não.
–    Ah, só faltava essa.
–    Conheço sua risada, não é assim.
–    É sim. É o jeito que escrevo pra mostrar que estou rindo bastante.
–    Achei que você desse risada escrevendo “rs”.
–    Não. Só quando estou com preguiça.
–    Preguiça? São 4 caracteres a mais. Não tem vergonha na cara?
–    Hihihi.
–    Que porra é essa agora?
–    O que?
–    Essa palhaçada de “hihihi”, você ta tirando com a minha cara?
–    Não, caramba. Uso o “hihihi”para aquela risada sem graça.
–    Não sabia dessa.
–    É. Uso pouco no entanto. Acho meio afeminada.
–    É mesmo.
–    Por isso evito, mas ás vezes escapa.
–    Hohoho.
–    Que que é isso?
–    É a risada nova que inventei.
–    Como assim?
–    Ué, você tem um monte de risadas. Resolvi fazer uma nova.
–    Legal, mas para usar ela você tem que arranjar umas renas de estimação também.
–    Palhaço!
–    Huahuahuahua…