Arquivo de julho, 2008

Nem todo sonho é legal.

Normalmente dividimos nossas aventuras inconscientes durante o sono entre sonho e pesadelo. Via de regra pesadelo é uma aventura ruim, que traz medo, tristeza, desespero. Pesadelo é qualquer coisa que passamos durante o repouso que não gostaríamos de viver na vida real. O sonho, pelo contrário, costuma ser o que gostaríamos que acontecesse. Seja voar por cima do Himalaia ou conquistar a mulher mais bonita do mundo, mesmo que seja uma mera desconhecida.

Mas acredito que nem todo sonho é legal. Ainda que possa dar um gostinho de experiências quase impossíveis para ser humanos comuns, os sonhos podem trazer diversos sentimentos reais que evitaríamos a qualquer custo.

Já sonhei que ganhei na loteria uma vez. Era inacreditável. Era um desses sonhos em que dentro dele você pensa: “Acho que isso é um sonho”, mas rapidamente seu inconsciente te dá um tapa na cara e mostra quem está mandando. “Não, você não está sonhando, isso é real”. No sonho avisei meus pais, chamei-os pra conversar para dividir a bolada, ia finalmente compensar meu pai por todo seu investimento em mim com um investimento em sua empresa, minha mãe ia poder comprar o apartamento de seus sonhos para nunca mais ter que se preocupar em ficar desamparada. Minha irmã ia ganhar uma poupança gorda, daquelas que permitem buscar seus verdadeiros sonhos sem ser importunado por burocracias e contas do dia 5. Eu? Eu ia começar a me programar para sair do pais, viver onde acho que o mundo faz um pouquinho mais de sentido, só precisava arranjar as coisas pro casamento, viajar algumas vezes para escolher a cidade e a casa onde moraria com minha futura esposa, ia poder escrever sem ter que parar para fazer algo que não importa pra ninguém, algo que o mundo não sentiria a mínima falta.

Mas, como sempre, acordei. E o que senti quando acordei foi pior do que ter a noção de que não posso arrumar a vida de todos que amo. Foi a sensação de ter tido a chance, mas tê-la deixado escapar.  Sei que é besteira, tudo que aquilo que vivi por meio de  impulsos elétricos é tão real quanto uma nota de três reais. Não poderia ter “aproveitado a chance”, não tinha nada pra fazer para manter aquilo acontecendo em outro lugar alem de minha cabeça. Mas sentimento é assim mesmo, não pergunta se pode.

Não sei se isso é motivo para uma de minhas melancolias, se é estímulo para minha impressão de que tudo está errado, talvez fosse mais um dos meus boicotes a felicidade no mundo. Tudo é errado, maquiado, falso. Não sei, mas duvido que alguém que tenha o mesmo sonho que eu tive não se sinta um pouco decepcionado com a vida.

Sorrir depois de ter sonhado que estava voando é fácil, é gostoso, ás vezes tomamos controle da situação e é como se estivéssemos finalmente realizando a fantasia de todos os seres da Terra. Mas o que dizer do sonho que faz pensar, que te mostra como sua vida é pior do que poderia ser, o sonho que esfrega na sua cara sua mediocridade?

Tento focar nas pequenas coisas, numa risada longa de doer a barriga, de  uma hora olhando um mar perfeito, de um primeiro beijo, mas isso só me faz enxergar que a vida é cruel 100% do tempo, nos deixando ter momentos de felicidade só para termos saudades do que se foi.

O strass

O curioso foi que ela sorriu. Tempos atrás teria sido diferente; com certeza, diferente. Entre dentes teria rogado uma praga, mandinga ou qualquer coisa que o valha. Não aceitava sua condição insólita. Mente sã e valorosa em um corner e no outro, “seu” corpo voluptuoso de formas perfeitas. Deslumbrante seria a palavra para definí-la. Mas Ela era ela, o corpo era ela, mas Ela não era ela. O que podia fazer? Muita coisa. Seu corpo acabara de passar e pegar um táxi. Rubem Berta esse horário… não sairía do lugar durante alguns bons minutos, talvez algumas dezenas deles.
Foi fácil resolver a situação. Um simples aceno e já estava atrás do táxi, em outro é claro. A que ponto chegara, se estava atrás de si mesma, mesmo jurando ter dormido apenas alguns minutos (cochilado) no vôo corriqueiro das terças-feiras de manhã?

Ela desceu, digo ela, mas era Ela (pelo menos o corpo). Ela desceu em seguida. Seguindo a si própria, passo-a-passo, ela seguia sem notar a própria presença. Um certo medo mantinha a distância entre elas. O que poderia acontecer se ela se visse? O surgimento de um buraco negro, talvez a criação de uma quantidade de antimatéria que destruiria o local, o planeta, quem sabe? Deus nos livre.

O relógio já marcava metade do dia quando ela passou em frente a uma loja cuja vitrine jamais esqueceria. Toda rebuscada, moderna e rebuscada como seriam todas as vitrines na próxima estação. Muito brilho, muito luxo. No detalhe de um strass a ecatombe aconteceu. Em um breve instante ela tocou seus cabelos com o indicador e os colocou para trás da orelha. O gesto delicado revelou uma turva imagem que por trás dela surgia, pouco a pouco, como que um obturador a se regular.

Quando pôde enxergar nitidamente viu que a mulher que se prostrava atrás dela era familiarmente bonita e no instante seguinte os paramédicos tentavam ressucitá-la. Foi só o que ela lembrava. Nunca soube ao certo o que acontera diante daquele minúsculo strass. Mas o curioso foi que ela sorriu.