Arquivo de agosto, 2008

Tirinha #2

Tirinha #2
É auto-explicativo. Sim, resolvi fazer tirinhas de quadrinhos. Todas as segundas nesse humilde espaço.
Dúvidas, críticas e sugestões – Quem se importa?
Puxações de saco, contratos milionários e veneração incondicional – leopoldo@cronistasreunidos.com.br

Tirinha #1

Tirinha #1
É auto-explicativo. Sim, resolvi fazer tirinhas de quadrinhos. Todas as segundas nesse humilde espaço.
Dúvidas, críticas e sugestões – Quem se importa?
Puxações de saco, contratos milionários e veneração incondicional – leopoldo@cronistasreunidos.com.br

Fenômeno.

–    Sabe…
–    Quê?
–    Ando diferente.
–    Como assim diferente?
–    Me sentindo diferente.
–    Tá triste, feliz, boiola, o que?
–    Não, não é isso. Tenho me sentido diferente mesmo. Fisicamente.
–    Não é por menos. Com a quantidade de Salgadinho Torcida que você come.
–    Você não me entendeu. Não tenho sentido essas coisas corriqueiras. Tenho sentido coisas que nunca havia sentido.
–    Tipo?
–    É estranho. Difícil de explicar. Mas tenho a sensação que estou ficando… melhor…
–    Melhor como?
–    Melhor. Em tudo. Meu raciocínio parece mais rápido, meus reflexos estão instantâneos, enxergo as coisas de muito longe.
–    Ah é?
–    É. Cada vez mais resolvo questões complicadas com rapidez. Nunca mais deixei cair nada, não sei mais o que é tropeçar. Parece que meus movimentos são todos perfeitos.
–    Mas isso não é impressão sua não?
–    Não é não. Eu achei que fosse no início. Que estava querendo acreditar nisso. Mas daí comecei a me testar, me submeter a provas.
–    Que tipo de provas?
–    Bem…
–    Que tipo? Você cospe pra cima e pega de novo? Atira bolinhas de papel no lixo? O que?
–    Os primeiros testes foram desse tipo sim.
–    E aí?
–    Perfeito. Tudo que eu fazia era perfeito. 100% de eficiência. Consegui até fazer malabarismos com panqueca na frigideira.
–    Uau!
–    É, mas isso não é o mais impressionante.
–    O que é?
–    Eu consigo aprender coisas complicadas em segundos.
–    Como assim?
–    Ontem peguei um dicionário de cantonês. Folheei. Após alguns minutos eu sabia falar o que quisesse em “Xing Ling”.
–    Caramba. Fala alguma coisa aí.
–    龍以向太陽
–    O que quer dizer isso?
–    O dragão falou com o sol.
–    Uau.
–    É. E isso é só uma das coisas. Todos meus sentidos estão desenvolvidos, resistência muscular. Tudo. Poderia ficar horas te dizendo coisas que sou capaz de fazer agora.
–    Então isso quer dizer o que? Que você está se tornando um tipo de super-herói?
–    Ah não sei. Essas coisas não existem né. Mas como explicar? O que você acha?
–    Olha, ás vezes você é como aquele cara, daquele filme.
–    Que filme?
–    Aquele que o cara parece comum, mas depois de certo momento percebe que ele é super poderoso e tal.
–    É, também pensei nisso. Você está falando de Corpo Fechado né, em que o Bruce Willis sobrevive a um desastre de trem e depois começa a ajudar pessoas com seus poderes.
–    Na verdade não. Pensei naquele que o John Travolta vira um gênio do dia pra noite, mas que na verdade estava doente e morre no final.

Jambaman, meu amigo.

–    Uma pipoca grande e duas Fantas grandes.
–    Opa, com licença.
–    Pois não.
–    Pó cara, eu te sigo.
–    Hein?
–    Eu te sigo cara. Você não me segue, mas eu te sigo.
–    Numa boa, eu vou chamar a segurança.
–    Calma. Você não está entendendo. Eu te sigo no Twitter. Acompanho seu blog escuto seu Podcast. Você é o Six não é. Criador do zebragritando.com.br.
–    Sou eu mesmo. Cara, você me assustou. Mas como me reconheceu?
–    Pelas fotos do seu perfil do orkut.
–    Ah é, verdade.
–    E aí, comprou aquele monitor que tava querendo?
–    Hein, mas como…
–    Vi seu post sobre. Que tava trocando de monitor e que tinha ficado puto com o que você tem porque queimou pela terceira vez em dois meses.
–    Ah é verdade. Tinha esquecido que tinha postado sobre isso.
–    Postou sim. Foi depois daquele dia que você tinha comentado sobre a dificuldade que estava tendo em convencer sua namorada que não curtia fio-terra. Alias, essa é ela?
–    Errr…é….mas deixa pra lá…
–    Prazer em te conhecer Six Girl.
–    Olha cara meu filme já vai começar.
–    É, eu sei. Você twittou agora há pouco que tava na sessão das 22:20.
–    Isso. Tenho que ir. O Jambaman ta me esperando.
–    SABIA!
–    Deus, não precisa gritar. Sabia o quê?
–    Sabia que conhecia aquela voz.
–    Hein?
–    Não. É que eu tava ali na bilheteria e ouvi uma voz. Sabia que conhecia aquela voz. Mas olhei a pessoa e não reconheci.
–    E?
–    E, que era o Jambaman. Como ele não tem foto no orkut não sabia como ele era. Mas como sempre ouço o Jambacast reconheci na hora a voz dele.
–    Você reconheceu o cara pela voz?
–    Isso. Ouço toda semana. Reconheceria aquela voz até tomando banho.
–     Hein?
–    Nada não, deixa pra lá.
–    Então tá bom. Vou lá assistir meu filme.
–    Vai lá, mas não esquece de ir no banheiro antes hein. Lembro até hoje daquela vez que você falou que tava com vontade de ir no banheiro mas invés de sair acabou pegando o braço da cadeira e…
–    Shhh, shhh. Deixemos isso no passado. Deus me livre.
–    Hehehe, tudo bem, não conto pra ninguém.
–    Acho que não vai adiantar muito. Mas beleza.
–    Hehehehe, você é mais engraçado ao vivo.
–    Obrigado. Agora eu tenho que ir mesmo.
–    Beleza, mas posso te perguntar um coisa?
–    Fala.
–    Qual é seu nome de verdade?
–    Não me leve a mal cara, mas nem te conheço, quem sabe isso são só meus amigos íntimos.

Namorada de Aluguel

Nunca vou esquecer da primeira vídeo-locadora do bairro. Chamava “Maxi Vídeo”! Quer dizer … Hobby! Não, não … era Maxi mesmo. Quer dizer, olha … o nome eu não lembro, mas lembro direitinho do lugar! No último quarteirão da Vieira de Moraes antes da Vereador José Diniz, no Campo Belo. Lado direito, duas lojas depois da esquina (ou seria uma loja só?). Fachada amarela e janelas azuis.

Meu irmão (devia ter quase 18 anos na época, um adulto!) foi quem fez a ficha da família lá. Nosso número era 737. Disso eu lembro direitinho! Foi um dos primeiros números que eu decorei na vida.

Dentre as primeiras lembranças que eu tenho do local, era a estante com filmes esportivos. Na prateleira dos filmes de carro pra ser mais específico. Eu adorava a série “Havoc”! Uma seqüência de fitas que mostravam os acidentes de carro mais espetaculares de todos os tempos. A locução devia ser inglesa. Eu não entendia nada, mas lembro da legenda com um texto bem ácido. Uma das cenas que mais me marcou foi numa corrida de carros de série (não lembro se era rali ou pista) em que o veículo capotou e a porta acabou caindo. O piloto bravamente continuou na corrida, e o locutor disse : “E lá vai o piloto aproveitando seu novo ar condicionado!” Eu me matava de rir!

Mas isso tudo é só um aperitivo bem feito perto da minha maior lembrança. Eu devia ter entre 9 e 10 anos e, passando de carro por lá, me assustei ao ver uma placa branca com letras vermelhas dizendo : Temos Namorada de Aluguel. Uau!

Nessa época, namoro pra mim era algo absolutamente idealizado. Eu era ridiculamente romântico. Um menino bonitinho de olhos azuis, cabelos quase brancos de tão loiros e completamente despenteados. Perdidamente apaixonado pela menina mais bonita da classe. Mais bonita de todas! E não é que eu tava vendo coisa demais, não! Quase todos os meninos da classe queriam namorar com ela. Mas eu gostava muito mais. De doer a barriga, sabe?

Nessa época, minha auto-estima era equivalente ao dedo mindinho esquerdo do nosso nem tão excelentíssimo presidente : praticamente nula. Eu sabia que ela era areia demais pro meu caminhãozinho. E eu nem sabia plantar bananeira, como poderia conquistá-la ? Impossível!

Foi aí que a tal placa mágica apareceu. Eu lá, no banco traseiro do Monza verde do meu pai, debruçado na janela e lendo “Temos Namorada de Aluguel”. Que puxa …

Será que se eu fosse lá e pedisse uma menina com as mesmas descrições da minha amada, poderia fazer uma locação?

Mais do que isso : será que, assim como podíamos fazer nos filmes, a locadora tinha um andar secreto onde todas as namoradas ficavam perfiladas e a gente ia dando uma olhada a fim de escolher a melhor opção? (Gente, eu tinha 9 anos! Não tou falando em sacanagem!)

Só de pensar nessa possibilidade eu já ficava com um pouco de pena das outras meninas que estavam lá e não iam ser escolhidas. Na minha cabeça todas eram bonitas. Uma pena ficarem naquele lugar escuro.

Da onde será que elas vinham ? Os pais delas sabiam que elas estavam lá?
Essa história toda era um pouco esquisita, mas totalmente cabível na minha cabeça loira e despenteada (bons tempos aqueles dos cabelos …).

Com o tempo eu comecei a perceber que várias das locadoras que passávamos de carro tinham a mesma placa. O que complicava um pouco as coisas, pois nessa época eu tinha certeza que a gente só tinha uma alma gêmea. E em qual locadora ela estaria!?

Por sorte (ou azar … seria, no mínimo, uma ótima história pra ser contar agora), eu nunca tive coragem de entrar na tal locadora, devolver o “Havoc 5” e perguntar se a mulher da minha vida estava lá dentro.

Depois de um tempo a placa sumiu. Mal sabia eu, que ela devia fazer parte de um plano de marketing pré-histórico para lançamento do filme “Namorada de Aluguel”. Aliás, só fui ver esse filme na TV anos depois. E pra piorar, só me toquei que uma coisa tinha a ver com a outra bem depois dos meus 18 anos. Aqueles insights que você tem depois de velho sobre uma lembrança da infância, sabe como é?

Mas como bem diz meu amigo Kris, o bom dessa época é que todos esses questionamentos e sofrimentos amorosos, por mais intensos e verdadeiros que fossem, duravam até a hora que algum amigo interfonava ou tocava a campainha de casa falando : “Vamos descer pro térreo pra jogar bola?”

Bons tempos aqueles!

Bendita Torrada

Era uma manhã rotineira na vida de José Mário. Matemático, professor de faculdade e ateu convicto até o apocalipse, comia religiosamente 2 torradas com manteiga e geléia de morango. (Deus me livre se não houvesse geléia de morango!) Era uma equação simples. Duas passadas de faca na manteiga sem sal e uma colherzinha de geléia aplicada com uma força X, suficiente para espalhar a geléia, mas não o suficiente para quebrar a torrada. José Mário necessitava segurar a torrada com uma força Y= -X, para balancear as forças evitando que a torrada caia no chão. Caso Y>-X, inevitavelmente a torrada cairá com sua face geleística voltada para baixo, exatamente como ocorreu nessa manhã aparentemente rotineira.

A regra universal que dita a sujeira no mundo desde a gênese diz que se um objeto cai e fica por menos de 5 segundo no chão, o objeto ainda estaria limpo e pronto para o consumo. José Mário, como exímio conhecedor de regras universais e há muito morando sozinho, recupera a torrada do chão e qual sua grande surpresa? Estava lá. Claramente. Milagrosamente nítida. A cara de Jesus Cristo estampada em sua bendita torrada.

O que um ateu faz quando se depara com um milagre?

A primeira reação de um ateu é a contestação. Como São Tomé, primeiramente desconfia. Não, nada a ver. É coisa da sua imaginação. É como olhar as nuvens e encontrar formas. Mas olhando melhor, a imagem era divinamente clara. Havia até um certo brilho santo ao redor da imagem. Fez-se a luz nas camadas de manteiga. Qual era a chance disso acontecer? Calcula as probabilidades. Menos de 1 bilhão para um de tal evento acontecer com tanta precisão. É, os números estavam contra ele. Justo os números que tanto confiava. Tenta repetir o experimento. 2 pacotes de torradas de imagens disformes. O máximo que conseguiu foi em uma torrada que se olhada de um ângulo específico, até poderia se assemelhar, vagamente, a um coelhinho caolho sem orelhas. Resolveu parar, pois não poderia faltar a geléia de amanhã, e Deus me livre se não há geléia de morango!

Segunda reação de um ateu, a dúvida. E se fosse realmente um sinal divino? Todos esses anos comendo carne vermelha na sexta-feira santa? As vezes que cobiçou a mulher do próximo, as que via revistas de mulher pelada escondido no banheiro ou quando roubou figurinhas jogando bafo… Tudo isso seria uma passagem segura para o inferno? Seria um alerta para que ele começasse a frequentar a igreja?

Terceira reação de um ateu, a revolta. José não se daria por vencido. Ele não jogaria a batina assim tão fácil. Não seria uma torrada a romper toda a sua (des)crença. Quer briga? Então olha o que eu faço com sua torrada! José aproxima a torrada à boca, lentamente abre sua bocarra e prepara uma grande mordida entre a coroa de espinho e a sobrancelha esquerda de Jesus.

Quarta reação de um ateu, a redenção. Espera! Talvez seja melhor não comer a torrada. Afinal ela caiu no chão. Talvez tenha passado mais dos 5 segundos. Pode haver micróbios. Pode causar dor de barriga. Imagina se dá um piriri. E com piriri não se brinca! Pior que as pragas do Egito! Lavo minhas mãos. Melhor pegar outra torrada.

Resolveu deixar a torrada milagrosa de lado. Mas a cara de Jesus continuava encarando-o. A pulga atrás da orelha ainda coçava. Há de haver uma explicação mais razoável que uma entidade toda poderosa sem ter mais o que fazer além de pregar peças em matemáticos ateus. Existe algum fator que passou despercebido. Algo que dê a luz sobre esse mistério. Olhe atentamente, analise friamente…

Eureca!

Como não havia visto isso antes! Era óbvio! A vida volta a fazer sentido. A figura na torrada não é o Jesus Cristo! É o Humberto Gessinger! Claro, por que acreditar em um Ser Supremo invisível, inatingível? O Humberto Gessinger era real, estava ali, ao alcance de todos! É lógico! O Papa é Pop! Quem mais sofreu tantas perseguições e foi crucificado pela crítica? Quem mais ressucitou o Engenheiros do Havaí quando ninguém mais esperava?

Satisfeito, José Mário guardou a torrada junto com os antigos álbuns do Engenheiros e saiu cantarolando. Esse Humberto Gessinger é foda! A Infinitaaaa Hiiiiighwayyyyy…

Alma gêmea, não posso esperar

Olá, aqui é sua alma gêmea. Sim, sou eu, aquela pessoa especial que só existe neste mundo para complementar você. Eu sou sua cara-metade. A tampa para sua panela. A pessoa mais importante que você pode ter ao seu lado na vida. Aquela pessoa. “A” pessoa. Eu. Moi. Me. Enfim, acho que você já entendeu.

Estou lhe escrevendo porque estou muito, muito preocupada com a sua demora em me encontrar. Essa demora está me matando. Eu quero acreditar que o destino irá nos unir no final, mas não estou muito segura disso. Você não está ajudando muito, alma gêmea. Não está.

Sabe aquele dia em que você não esperou a moça do caixa lhe entregar a nota fiscal, e saiu correndo pro teatro? É uma pena… se você tivesse esperado, perderia segundos importantes do seu tempo, você não conseguiria pegar o ônibus em tempo, o que faria você chegar atrasado para a peça. Ficaria do lado de fora, inconformado. E iria me encontrar, tão inconformada como você. Nós reclamaríamos do teatro, do trânsito, falaríamos de como é difícil encontrar peças boas e dos boatos sobre o sexo de Shakespeare. Acabaríamos num café charmoso do centro, agradecendo por termos perdido o teatro e encontrado um ao outro. Mas…

Você não esperou a moça do caixa! Não esperou! Como pôde? Você não quer me encontrar? É isso?

E o curso de desenho artístico que você foi fazer? Errado! Muito errado! Se tivesse feito fotografia, teria me encontrado. Eu estava lá, na mesma escola. Poderíamos ter feito muitas coisas juntos. Tirar fotos um do outro. Ver as coisas por outro ângulo. Re-enquadrar nossas vidas. Mas não. Você quis fazer desenho artístico. E eu quis um caso com o professor de fotografia, que era um gato, achando que, dessa vez, era você. Só que não era.

Sabe aquele dia chuvoso, em que você saiu sem o seu guarda-chuva? E se eu estivesse passando por você na mesma calçada, preocupada com a chuva, e você tivesse como oferecer abrigo para mim? Você não pensa nisso, não é? E se naquele dia fosse eu quem estivesse de guarda-chuva para dividir com você, você não pode sair de casa com ele! Ou seja: saia de casa com guarda-chuva, sempre. Ou não, dependendo do dia. Você me entendeu.

Estou perdendo a paciência. É tudo tão aleatório… Você está lendo isso numa lan-house? Olhe pra trás, pode ser eu. Tsss… errou de novo. Alma gêmea, não demore. Olha lá, o professor de fotografia atravessando a calçada. Não sei se posso esperar…