Arquivo de outubro, 2008

Modo de morte

E aí, depois de tudo, o que resta? Na hora que os olhos fecharem para não mais abrir, o que acontece? Oficialmente não nos foi dito nada, apenas algumas suposições aqui e ali. As teorias não se comprovam cientificamente já que o testemunho de alguém que tenha passado pela experiência dificilmente é coletado ao vivo. Então cada um acredita no que quiser, escolhe o que vai ser depois que morrer.

Tem gente que acha que vai virar pó. Só isso. Apenas a substância alérgica mais conhecida do planeta. Anos e anos se munindo de espanadores e aspiradores para extinguir o pó e isso. Nós viramos pó e os compostos de plástico vão durar alguns milhares de anos.

Teoria similar tem alguns homossexuais. Eles reclama virar purpurina após o falecimento. Interessante. Uma versão glamurosa da teoria anterior. Mas não mais nobre. A purpurina conquistou um lugar muito pequeno no mundo. Mesmo fazendo o maior carnaval acabou sendo mais lembrada pelos gels de cabelo da década de oitenta. Não é algo que possamos chamar de legado.

O céu, ou as variações dele dependendo da religião, é mais uma opção. Na católica harpas, nuvens, paz, silêncio, anjos….zzzzzzzzz. Na mulçumana, se não me engano, rios de cerveja e 18 virgens, essa foi a parte que eu registrei pelo menos. Não daria certo, com tanta cerveja assim, virgens e galhos de árvore são a mesma coisa.

A reencarnação costuma agradar mais. Chega bem perto de oferecer algum conforto na morte. Você morre hoje e nasce amanhã como uma nova pessoa. Com uma nova chance para fazer tudo que não fez antes. Resolver suas questões existenciais, se entender com a insuportável cunhada, melhorar seu caráter. Ou seja, quando você achou que ia se livrar de todos esses problemas…

Existem muitas outras teorias, mas eu teria que morrer e reencarnar umas quatro vezes para contar todas. O fato é que assim como decidimos como vamos viver, devemos escolher o melhor modo de morrer. Eu escolhi o meu, quando morrer quero virar piada. Todo mundo gosta de piada, desde que seja boa é claro. Eu quero virar uma piada boa, ta decidido. Mas pode ser daquelas bem sujas, ou de humor negro, o que seria muito mais apropriado. Assim mantenho aquela sensação de desconforto, mas com um sorriso na cara. Taí um jeito bom de ser lembrado.

Tirinha #11

Da série “Piadas infames e mal-acabadas que nem deveriam ser publicadas“.
– Prometo tentar melhorar na próxima segunda.
leopoldo@cronistasreunidos.com.br

Em trânsito

Distraído com o trânsito, nem percebi. Não sei se ela entrou na minha frente ou já estava lá há algum tempo. Vi seu rosto de relance numa curva para direita. Parecia familiar. Loira de cabelos nos ombros, a franja varria a parte de cima de seus óculos retrô. Radiante no seu Peugeot preto.

Acelerei para emparelhar, mas um carro qualquer se intrometeu no meio. Vidros escurecidos, tiro os meus óculos, ainda assim só uma composição de reflexos, árvores, motos, ambulantes. Só vejo a franja e os óculos. Linda.

Ela vai pela faixa da direita e eu pela esquerda, passamos pelo intrometido, ela é rápida. Aceleramos juntos numa velocidade que nunca nos ultrapassaríamos. Fecha o sinal e tenho a impressão que agora vou conseguir. Emparelhamos mais uma vez e consigo a enxergar de perto. Rosto fino, ovalado, braços delicados, blusinha solta, o cinto de segurança a abraça firmemente. Ah que inveja. Linda.

O sinal abre, quando estávamos começando a ficar íntimos. Uma bifurcação e ela corta rapidamente para a direita. Eu fico na esquerda, os dois caminhos levam ao mesmo destino, mas qual levaria mais rápido? Chegamos juntos no primeiro sinal. Eu levo uma pequena vantagem. Ótimo, assim basta desacelerar e espera-la chegar até mim.

Verde. Os carros a frente dela são mais ágeis, ela abre alguns carros de distância de mim. Tudo bem, voltamos para a mesma pista, consigo recuperar. Troco de faixa algumas vezes, fecho um taxista que me xinga. Ele me entenderia se soubesse meus motivos. Corto para a direita e a passo novamente. Pronto, estou no controle de novo. Olho pelo retrovisor e posso ver a lentes de seus óculos. Linda.

O trânsito anda, sigo lentamente, o quanto posso, mas pressionado por um enorme ônibus não consigo ir muito devagar. Ele buzina, ela tenta vencer alguns lerdos, ela está irritada, com razão, ela é rápida. E linda. Atravesso um cruzamento com os olhos grudados no espelho, a frente não me importa, só quando ela me passa. O cruzamento trava e o sinal fecha. Perco ela de vista.

O sinal fechou. Droga. Será que ela passou? Será que atravessou mesmo com o perigo de bater? Será que me viu?

Droga. O sinal fechou.

Os Três Ranzinzas, capítulo 01

Era numa daquelas típicas padarias de esquina paulistanas que tudo acontecia. Toda tarde. Senhoras passavam pra comprar seus paezinhos (algumas preferiam os branquinhos, outras os mais torrados). Garotos e garotas voltando do colégio desviavam seus caminhos de volta pra casa e entravam lá, com a desculpa de comprar sorvete. Eles queriam mais que uma lambida, elas queriam se sentir o melhor sorvete da escola. Eles nunca conseguiam o que queriam, elas sempre. Ainda sim, todos ficavam felizes. Tinha um gringo maluco que deixava sua bicicleta encostada no poste da esquina, sem cadeado, abria seu notebook e ficava trabalhando do lado do chapeiro. Semana sim semana não ele perguntava se já tinham instalado o “Wi-fi”. Clebão, o chapeiro, ria e comentava com o frango a ser fritado : “Num entendo uma palavra do que essa porra de gringo fala …”.

O balcão ficava do lado esquerdo da padaria. Era em formato de “U”. Entre a parede e a lateral esquerda do balcão estavam sentados três velhinhos. Eu ia dizer “simpáticos”, mas nem com muita boa vontade eu poderia afirmar isso.

Eram cinco e pouco da tarde. Sem aviso prévio, Savério, o velho do meio com a cara mais invocada dos três, teve um acesso de tosse. Violento. Barulhento. Estrondoso. Todos os outros clientes ficaram o olhando assustados, os funcionários já pareciam estar acostumados.

Jânio, à direita dele, fitou-o sem muita preocupação e protegeu sua porção de tremoço. Adhemar, o mais velho de todos, repousou o copo de “Cynar” no balcão, levantou com certa dificuldade até pegar seu andador encostado no canto da padaria.

Ele estava sentado lá no fundo. Lentamente, andou por trás de Savério no apertado corredor entre a parede e balcão, enroscou o andador num lixinho de plástico que ficava no caminho e, sem dar muita bola, chutou-o para longe. Passou por trás de Jânio. Virou a primeira esquina do “U”. Parou um pouco e ajeitou o andador para uma posição mais prática, já que agora tinha mais espaço. Voltou a andar, virou a segunda esquina e andou até a metade do outro balcão. Olhou para Savério, para Jânio, respirou fundo e abaixou. Depois de uns trinta segundos ele voltou à superfície. Parecia ter colocado alguma coisa no bolso.

Quando ia dar meia-volta, foi surpreendido por uma garota que ia pagar suas garrafinhas de iogurte light. Ela vestia roupa de ginástica (sem agasalho amarrado na cintura) e cantarolava uma música que estava ouvindo no mp3 player. Adhemar resmungou alguma coisa pra si mesmo. Pelo corpo da moça, e o olhar do velho, era bem claro o que ele estava pensando.

Com calma, ele se virou e começou a fazer o caminho de volta. Passou pela primeira esquina, avançou bravamente pela base do “U”, virou a segunda esquina e quando chegou exatamente no meio dos outros dois, ainda sentados, cutucou Savério com um sonoro : Ô !

– Que foi?! – respondeu o velho pigarrento, sem paciência.

Adhemar tirou a mão do bolso e deu um soco no balcão como se tivesse mostrando o “Zap” num jogo de truco. O barulho assustou a todos na padaria, e sem pestanejar ele disse, batendo no ombro de Savério :

– Toma! Teu pulmão.

Jânio teve um acesso de riso e acabou engasgando com um tremoço mais desobediente. Savério começou a xingar alto Adhemar, meio em português, meio em italiano, meio em língua de velho.

Adhemar ria de canto de boca, enquanto apoiava seu andador no canto das paredes, até se sentar, voltando a segurar o copo de “Cynar”.

Seu Rubens, o dono da padaria que sempre ficava no caixa, deu o troco meio sem jeito, rindo amarelo e se desculpando para uma senhora que estava comprando leite.

– Quer dizer que pra encher o meu saco você solta esse copo?

Adhemar não respondeu. Apenas fez o gesto trêmulo de “um brinde” e deu mais um micro-gole.

– Falando em copo. Não tá na hora do senhor parar de beber, não Seu Adhemar? – disse Rose, a faxineira que sempre se divertia com os três, enquanto reposicionava o lixinho.
– Olha, minha filha…
– Lá vem… – disse Jânio, já começando a rir.
– Se com oitenta e cinco anos eu não morri por causa dele – apontando para o copo – não é agora que eu vou parar, não é?
– Mas aí, pelo menos, você não tava andando com essa porcaria pra cima e baixo. – bradou Savério, ainda emburrado com a brincadeira.
– Porcaria que foi buscar teu pulmão cheio de nicotina lá do outro do balcão …
– Ah … ma va fan culo!
– Vai você …
– Vamo “pará” com essa briga vocês dois. Parece duas criança – tentou Jânio.
– Vá, vá, vá !! – disse Savério.

Adhemar, apontando para Jânio, chamou o do meio :

– Falou a Madre Tereza, ali.
– Boa! – retrucou, Savério.
– Que Madre Tereza? Porquê, hãn?!
– Num bebe, num fuma, num faz porcaria nenhuma e ainda fica enchendo nosso saco …
Eco, Adhemar! – disse Savério – Num faz nada disso, é ainda é Corintiano, ô maledeto.
– Que que tem que eu sou corintiano!?
– Que que tem que hoje é quarta-feira. – replicou Adhemar.
– E daí?!
– Ué? Corintiano só pode aparecer aqui na Segunda! – retrucou Savério emendando uma gargalhada que se misturou com a do Adhemar.
– Mas vocês são dois idiota. Tavam se pegando agora há pouco e ficam fazendo jogral pra me atazanar a vida.

Os dois não paravam de rir.

– Quer saber? Eu vou embora!
Má che? Má che? Nem acabou os tremoço! Senta aí! – disse Savério tentando segurar Jânio, que já se levantava.
– Se bem que, segundo o Seu Rubens, é bom não exagerar com esses daí, heim? – disse Adhemar, segurando o riso, agora em tom preocupado.
– Por quê? – perguntou Jânio, curioso.
– Porque esses tremoço são de segunda! Hahahahaha!!

Dessa vez, nem seu Rubens, nem o chapeiro se agüentaram, e começaram a rir.

– Vão pro quinto dos inferno vocês. Eu vou embora! – disse Jânio agora levantando definitivamente, jogando atrapalhado, umas moedas em cima do balcão e aproveitando pra tentar pra arremessar um tremoço dentro do copo de Cynar do Adhemar.
– Errou! – gritou o velho pinguço – Volta aqui na segunda e traz o Lulinha pra te ajudar. Quem sabe ele não acerta o alvo!

E assim, Jânio foi embora resmungando, Savério esqueceu do mau-humor momentaneamente e Adhemar pode degustar seu Cynar tranquilamente.

Pra quem via de longe, há quase dez anos, toda tarde era exatamente igual. Mas, na verdade, só os três sabiam o quanto cada tarde era diferente e especial pra cada um deles.

Ok, ok … Eu admito. Eles são simpáticos sim.

Tirinha #10

 (Praticamente) Todas as segundas, nesse espaço.
leopoldo@cronistasreunidos.com.br

Tirinha #9


(Praticamente) Todas as segundas, nesse espaço.
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A Ranger Amarela

Sempre me apeguei a meus carros. Não pelo lado material em si e sim pelo sentimental. Tudo que passei com eles, os momentos de amor e ódio, as noites estreladas e as quase enchentes. Tantas vezes em que achava que o danado ia me deixar na mão, morrendo no meio de uma cidade em caos e ele resolve pegar mais uma vez. Relevando o fato de eu ser negligente em algumas revisões.

Mas sempre passo pelo mesmo drama. Esse mundo capitalista não permite que eu tenha vários carros. Me obriga a vender um, ás vezes meio sem vontade, para comprar um novo. Ainda que eu saiba que com o novo vai ser muito legal, não perco o sentimento pelo que vendi. Afinal, tantas histórias. Mas o que tem que ser feito tem que ser feito.

Tive uma Ranger amarela. É, amarela. Foi um dos carros que mais gostei em toda a minha vida, e olha que ficamos juntos apenas 8 meses. Mas que 8 meses. Fomos pra Barretos juntos, vimos o sol nascer em Franca, participamos (e ganhamos) de campeonato de som em Itararé e choramos ouvindo “The Dance” em Piraju.

Um dia ela me deixou na mão, e seduzido por um carro mais novo, cheio de tecnologia, zero kilômetro, acabei me separando da minha paixão. Seguimos nossos rumos, com meu novo carro não tive muita sorte. O bati quatro vezes em três meses, sendo que destes três,  um ele ficou na loja de som. Ela eu não sei se teve melhor sorte, nunca mais a vi, sobraram as fotos e uma chave reserva, só para eu achar que ainda poderia dirigi-la, mas saber que já a tinha perdido.

Desde então ando apreensivo pelas ruas, já tive vários carros bacanas, gostei muito de diversos deles, inclusive encontrando-os de vez em quando. Mas a Ranger não, uns amigos meus diziam tê-la visto, outro sabia onde ela ficava guardada, mas eu preferi não saber de nada. Como seria quando a reencontrasse? Como eu reagiria? Será que todos aqueles sentimentos aflorariam? Será que a realidade me jogaria na cara a besteira que fiz em não ter a tratado direito? E pior, como seria ver um novo dono dirigindo a MINHA Ranger? E se ele fosse um maloqueiro que colocou uns pneus ridículos na coitada, que impossibilitada, aceitou sem ver o que estava acontecendo? Seria demais pra mim.

A tensão é inevitável, numa esquina ou outra posso dar de cara com ela, e tudo que mais temo pode acontecer, mas torço para que isso não aconteça, me engano que ela está velha e enferrujada, que alguém a tenha pintado de um entediante preto, ou que ela tenha sido vendida para outro estado. Mesmo sabendo que do jeito que ela foi pra mim sempre vai ser. Enquanto isso espero a próxima troca de carros, quem sabe o próximo supere a lendária Ranger Amarela.

A última corrida

O cheiro de esgoto que subia era um odor qualquer. Grudava por dentro das narinas, e se ele tivesse prestado atenção perceberia que aquilo descia pela garganta como um chá quente de carqueja. Horrível. Só que não ia para a barriga; estufava o peito cheio de ansiedade que esperava, à sombra, a coragem chegar para atravessar a fita de chegada.

O dia quente com o ar parado, úmido, pastoso. Piscava lentamente enquanto o suor que se criava na testa, por baixo dos grossos fios de cabelo da franja, escorria pelas têmporas e tocava a barba cerrada que havia feito no dia anterior.

Olhou o retrovisor e São Jorge protetor, pendurado, encarando com serenidade seu humilde servo. Se é verdade que sua vida passa sob seus olhos no caminho certo até o paraíso, que fosse aquela, então, a sua hora.

Com o pescoço tenso, balançou em gesto afirmativo a cabeça que vestia pela última vez o mesmo capacete. Até o momento a proteção que seu corpo sempre precisara. Pensou na mulher, na filha; beijou São Jorge, que até o momento protegera a sua alma e sempre trouxera, à galope, a coragem que vez ou outra titubeava.
O carro estava pronto. Ele estava pronto. Os nervos à flor da pele, testa franzida por baixo da viseira. Um simples inseto atravessou o seu campo de visão. Perceber aquele ínfimo ser entre ele e o pára-brisas foi como um sinal de prontidão. Seus sentidos estavam aguçados e sua mente concentrada para seguir em frente.

Pensou na filha mais uma vez. Pisou fundo.
Foi tudo muito rápido… como um mergulho juvenil na represa. Toda tensão que se cria antes de pular até que você se liberta e solta a musculatura das pernas para que em uma explosão de energia, entre a euforia e o medo, elas te levem ao sublime instante em que a gravidade e apenas a gravidade torna-se sua rainha. Perde-se o fôlego e submerge até que se passe uma pequena eternidade e emerja, então, o novo rei. Sua filha adoraria ser uma princesa.

Foi tudo muito rápido como eu disse. Entre sair dos escombros retorcidos, ainda de capacete, e sacar a 9mm da cintura foram poucos segundos. Muito menos durou o assalto à joalheiria, já toda quebrada pelo Voyage 84, menos ainda para que um tiro disparado por um segurança de outra loja fizesse o seu trabalho. Sua filha adoraria ser uma princesa.

Tirinha #8

Todas as segundas, nesse espaço.
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No Meu Mundo

Chove no meu mundo. Chove uma chuva que veio de repente, sem aviso. Uma chuva-chuva, que não é garoa nem tempestade. Daquelas monótonas, exatas, sem raiva, que cobrem tudo num véu de água. Do tipo que esvazia o coração e afoga o peito. 

Sei que é comum chover lá fora, no mundão. Vivo por ali, velado por céus cinzentos e juízos nublados. Ficar lá é pedir para se molhar. Mas aqui não é comum chover, não. O firmamento ri à toa. Neste meu mundo a previsão nunca erra: o tempo é sempre perfeito. Quer dizer, quase sempre, porque agora chove. Então, o tempo aqui é quase sempre perfeito.

Ninguém sabe qual é o segredo. Dizem que um dos motivos é que a base do tempo é boa – ele se sustenta em uma terra semeada de bons princípios. Firmes, eles não se vergam aos ventos nem acompanham a sua direção. Tem quem aponte para o azul do céu, um azul que de tão profundo é cintilante. A gente do local diz o que esse brilho todo é coisa da fé, que ela é que faz o azul mais profundo e mais cintilante. Só que aqui não tem religião. Parece que quando falam de fé, falam da enxergar no fundo de cada uma das gentes o desenho acabado do rascunho que elas são e, depois, de ver nos desenhos de todas as gentes um quadro que ainda não foi pintado. Já ao contentamento que amanhece preenchendo os espíritos daqui chamam de outra coisa: lucidez. A temperatura, gostosa, atribuem à fumacinha das nossas cabeças, que não param de procurar, investigar, entender. São essas as teorias para o tempo daqui – exceto nas poucas vezes quando está chovendo.

Não que muita gente saiba, porque aqui é terra de poucos habitantes e raros turistas – o consulado é encrenqueiro e não dá visto para qualquer um. Exigente, não quer saber de boas pessoas, mas de boas almas. As severas políticas para concessão de visto são um olhar seguido de “bem-vindo, entre e fique quanto quiser” ou um “venha quando puder, estaremos aqui”, porque as boas almas se reconhecem. Como se reconhecem, se cultivam, em sinceras – e incontáveis, porque nenhuma delas cuidou de contar a primeira – recíprocas.

Mesmo sem revistar ninguém, a alfândega daqui sabe que cada alma traz uma biblioteca na bagagem. É que está na constituição do meu mundo uma letra escrita há muito tempo. Ela diz que cada alma é uma biblioteca. Como já sabemos isso de saída, tratamos de praticar um câmbio justo, pagando afeto, imaginação e curiosidade a preço de face. Os que também trazem do mundão sensibilidade ganham com o ágio. Trata-se de artigo raro naquelas bandas, apesar de sua fácil autenticação no lampejo dos olhos. Assim, a economia também garante um céu de brigadeiro.

Acontece que bibliotecas teimam em fechar. Algumas vezes com aviso, na maioria, sem. Aí meu mundo fica mais pobre e o céu deixa de ser de brigadeiro. Porque aqui os céus se dobram às bibliotecas que se fecham. Porque aqui os céus choram pela biblioteca que também era um cachorro. Chove no meu mundo.