Arquivo de dezembro, 2008

Sonhos do viajante sem rumo


dedicado a Winsor McKay

Estava finalmente na hora de voltar. Essas viagens, às vezes, começavam a ficar cansativas. Antes de ir embora, porém, ainda precisava providenciar uma encomenda para meu pai. Eu havia me esquecido do que era, mas tinha certeza que saberia encontrá-la. Era só descer na Estação Amendoim, lá deveriam ter o que procurava. Quatrocentos quilos seriam suficientes para alimentar o elefante, tinha dito meu pai, e se custassem caro demais eu poderia pagar fazendo uma careta. Para minha sorte, o metrô tinha uma saída do outro lado do Oceano, dentro da sala da casa onde moramos quando era criança. Eram dois elefantes, na verdade, a mãe e um filhote, e a mulher do meu pai me mostrava como era carinhoso o pequeno paquiderme, que estendia a tromba pedindo mais amendoins, e suas narinas úmidas abriam e fechavam num beijo pastoso, para agradecer salivadamente a mão, o pescoço e a face de quem o alimentava. A mãe, por sua vez, era temível quando se aproximava com toda sua corpulência para proteger o rebento daqueles reduzidos seres que o alimentavam sem sua permissão. Podíamos ouvir seus passos que ecoavam na cozinha, e o estrondo de sua tromba que nos alertava para que nos afastássemos, um ruído possante e persistente que só cessou quando apertei o botão do celular, e desliguei o despertador, ignorando-o. Ainda havia tempo para mais uma baldeação, pois na próxima estação, cujo nome eu havia esquecido, também era possível pegar a linha F, aquela que me levaria diretamente ao trabalho pelos caminhos mais absconsos, a menos que fossem as férias, e nesse caso ela conduziria à beira-mar, do outro lado da ilha, onde o vento insuportável descabelaria todos os cabelos da Terra, arrastando-os pela montanha russa mais antiga do Mundo, até que formassem uma massa de coral onde todas as baleias que restam viriam se reproduzir. Todavia, antes que eu pudesse compreender o que dizia o condutor do trem numa língua que eu sabia mas não compreendia mais, a sirene tocou com toda violência, obrigando-me a apertar o mesmo botão. Este provavelmente estava com defeito, pois assim que o pressionei o despertador tocou novamente, sem respeito algum pelos cinco minutos de silêncio aos quais eu tinha direito. O que me consolava era saber que a notícia do terremoto não passava de um pesadelo, e que meu irmão havia sobrevivido. Qual o quê. Juntando os pedaços de memória do dia anterior, lembrei-me finalmente, contra todas as aparências, de que era real, tão real quanto os paraquedistas que saltavam de uma torre metálica por puro prazer, quanto a colombina de pernas-de-pau que me cumprimentou numa esquina da Segunda Avenida. E para pôr um fim a tantas coisas estranhas, decidi tomar o desjejum costumeiro, uma fatia de pizza de abacaxi e aquele resto de suco de manga com cenoura.

Friends

Eles haviam se separado há 8 meses, e desde então nunca mais tinham se falado. Mas numa madrugada qualquer, chegando da balada seu telefone tocou.

 

       Alô.

       Alô.

       Oi.

       Então…

       Calma. Aconteceu alguma coisa? Porque você está me ligando?

       Nada.

       Então?

       Então, sabe aquele episódio do Friends, que o Ross e o Joey…

       Dormem juntos no sofá?

       Isso!!!

       Sei.

       Aquele episódio está no seu Top 5 de todas as temporadas.

       Fácil! É muito bom, principalmente quando o Joey admite pro Ross…

       Que foi o melhor cochilo da vida dele!

       É! E no fim o Chandler ainda pega os dois repetindo a soneca.

       É!!! Esse final é fantástico.

       Muito. Mas, porque está falando disso?

       Ah, porque hoje eu estava com um pessoal que nem achava tão bom, na verdade alguns deles nem lembravam desse.

       Como assim não lembravam? Esse é um clássico.

       Não é?

       Muito. Junto com aquele que o Chandler não consegue tirar foto pro casamento, ou aquele do “Is this friendship?”

       “I think so!” Nossa, muito bom esse também.

       Fantástico.

       Ah que bom. Estou mais tranqüila agora.

       Que bom. Sabe o que eu lembrei?

       O que?

       Esses dias estava numa balada, e do nada surgiu um papo sobre natureza, e como o verde é bom, essas bobagens. Numa boa, todo mundo concordando.

       Que bosta.

       Não é?

       Muito. Eu também vivo encontrando com gente que adora cavalo, boi, e ainda dizem que suas comidas preferidas são salada de pepino.

       Qual o problema dessa gente? Nunca comeram um bom hamburger?

       Ou uma pizza congelada antes de dormir?

       Duas né.

       Ok, ok.

       Putz. Bem lembrado. Faz uma cara que não como pizza congelada.

       Eu também.

       Acho que desde que…

       …nós terminamos.

       É.

       É.

       Você está bêbada?

       Muito.

       Eu também.

       É a vida.

       É.

       Então tá bom.

       Boa noite.

       Boa noite.

Tirinha #16


Desculpem o atraso devido à adaptação a minha vida alemã.
Breve devo fazer alguma tirinha sobre. Enquanto isso fico só no blog.
leopoldo@cronistasreunidos.com.br

Tirinha #15

(Praticamente) Todas segundas nesse espaço.
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