Arquivo de janeiro, 2009

O canto do adeus

Quatro horas da manhã e ele já se posicionava sobre o avançado mais alto da cerca. Não tinha lugar melhor pra ver o sol nascer. Era uma emoção impulsionante, incontívelmente forte, fazia querer gritar. Assim como aprendera com seu pai que não era necessário reprimir seus desejos, ele também sabia que cinco horas da manhã já era tarde demais pra vislumbrar o sol nascendo.

Ninguém sabe quem inventou, ou porque inventou, mas o fato é que galo não canta as cinco horas da manhã. Mas mesmo assim a gente se surpreende com o fato deles cantarem muito mais cedo.

Deu seu primeiro grito e saudou o astro-rei. Certamente não era por mais um dia longe da panela que ficava do lado de fora presa a um prego enferrujado na parede do caseiro. Seu grito foi realmente emocionante, como um violino a solar uma triste canção romântica, ou um acordeom que cantam um velho tango argentino.

Bateu as assas de inconformidade; eram inúteis, nunca o levaria onde ele mais queria, onde a vida fazia sentido pra ele. Invejava os pardais, canários; invejava os uirapurus e os joão-de-barro. Liberdade era uma abstração apenas, um passatempo o qual ele fazia questão de jogar.

Foi nesse mesmo dia, nessa mesma manhã que ao dar o seu segundo grito, seu cacarejo mais retumbante, que ele se engasgou. Em um ato de desespero começou a tentar limpar a garganta cacarejando mais e mais forte, mas ao contrário do que se esperava ele não conseguia emitir tal saudação. Ao contrário do pretendido ele emudeceu…mas alguma coisa em seu corpo havia mudado. Suas vestes impecáveis começaram a crescer e por baixo, seu corpo inchava; sentiu uma certa morbidez aguardando o desfecho único do que parecia ser seu fim. Seu corpo foi ficando mais leve; sentiu seu peso sumir, suas patas já não tocavam o chão, tentou ciscar. Olhando para elas já não conseguia alcançar o puleiro, muito menos a cerca que sustentava aquele galinheiro. Sua casa começou a ficar distante e seu corpo cada vez maior. Seu inchaço começou a expulsar algumas penas como se fossem espinhas no rosto de um adolescente. Sua visão nunca tinha sido boa o suficiente pra se dizer que estava vendo coisas, mas se estava, eram bem pequeninas. Subindo e subindo, tudo começou a ficar mais calmo, ao seu redor apenas ar (não que ele pudesse ver). Então era o nada, flutuando sobre tudo e todos encontrou-se só, fazendo o que sempre mais quis. Nenhum uirapuru jamais havia chegado até ali. Olhava com desdém para aqueles pontinhos abaixo do seu peito que já tomavam conta da única paisagem por kilômetros e kilômetros.

De súbito um encontrão e algo passou fora do seu campo de visão, ou seja, passou pela sua cabeça. A surpresa foi tamanha que nem pensou com sua cabeça de ave, agora voadora, olhar para cima. Apenas alguns segundos depois foi que se deu conta e viu um lindo balão vermelho que já flutuava em outra direção e que sobre ele o astro-rei brilhava intensamente. Forte e vívido como sempre. Um espetáculo. Flutuando, pairando, voando, ele se viu aproximar do seu graal incandescente. Foi a maior emoção que ele jamais tinha ousado pensar. Tamanha era a beleza que ele só pensava em gritar, assim como seu pai havia ensinado. Contudo, se o seu cacarejar funcionasse ele poderia descer, cair, esvaziar, sabe-se lá o que poderia acontecer. Mas o que fazer diante de tanta beleza, diante de tal espetáculo; tão de pertinho! Continuou pensando e subindo, subindo e pensando…

Os Três Ranzinzas em : Ranzinza Secreto.

Em Janeiro a padaria fica bem menos movimentada. Seu Rubens, o dono, não gosta muito disso, mas já aprendeu a fazer uma reserva com o lucro das ceias de Natal que Dona Maria faz “pra fora” em dezembro, então tudo fica bem. Nesta tarde não tinha ninguém por lá, a não ser o velho Savério, invocado e pigarrento. Ele assistia uma reprise de “Lua de Cristal” (com Xuxa, Sérgio Mallandro, Duda Little e grande elenco) que passava na TV presa na parede. Fumava seu cigarro de sempre e comia uma porção de salame com limão, enquanto Rose, a faxineira, aproveitava pra lavar o chão do outro lado da padaria.
Entretido com as “moça bonita” que apareciam no filme, Savério não percebeu Adhemar e Jânio entrando lá (Adhemar trazia uma caixinha embrulhada com jornal e barbantes e Jânio, uma sacola de plástico branca) e só desgrudou os olhos da TV quando sentiu um tapa nas costas seguido da frase :
– Você tem idade pra ser o dinossauro de estimação delas, seu velho safado!
Com o susto, Savério solou todo seu repertório de tosses entrecortados com xingamentos absolutamente incompreensíveis, que amaldiçoavam Adhemar e todos seus descendentes. Impossível discordar que Savério é o Charlie Parker da tosse. Nunca alguém tossirá como ele.
Passado o entrevero inicial (e habitual), lá estavam os três ranzinzas sentados nos tronos que o mundo reservara pra eles. Adhemar, animado, gritou com o chapeiro Clebão, se virando para os colegas na seqüência :
– Me vê aquele de sempre, Seu Cléber, e agora vamos começar a brincadeira.
– Ma che brincadeira? Quer pular amarelinha? – retrucou Savério.
– Xi … o carcamano esqueceu. – disse, balançando a cabeça negativamente Jânio.
– A única coisa que eu tenho que lembrar na vida, é de passar na Nossa Caixa todo mês, pra tirar o dinheiro da aposentadoria. Esqueci do quê?
– Nosso amigo secreto … – respondeu Jânio.
– Ranzinza secreto, você quer dizer, né? – questinou Adhemar, feliz, depois do seu primeiro micro-gole de Cynar.
– Ma che amigo secreto? Aquele negócio dos papelzinho que tiramos o ano passado?
– Isso, Seu Savério. Lembra até que você me pediu ajuda pra ler o nome do seu papel, porque a letra tava muito pequena? – se intrometeu na conversa, Clébão, enquanto tirava o prato que vieram os salames.
– Ah … lembro sim! Era mesmo pra comprar presente?
– Não, Savério, era pra jogar veneno na comida do velho que você tirasse. – disse Adhemar, desistindo de esconder seu pacote, e batendo com a caixinha no balcão.
– Bom … Cléber, então me pega um pote de tremoço do bom, embrulha e traz aqui pra eu dar pro meu … meu … amigo secreto. É assim que fala, né?
– Tremoço? Você me tirou então? – levantou a cabeça assustado, Jânio, que estava abaixado tentando achar um tremoço que tinha caído no bolso do seu pulôver.
– Ma como você sabe? Não era pra ser surpresa?
– O ano virou e você ficou burro, Savério? Quem mais gosta de tremoço aqui? – atacou Adhemar, antes de beber outro gole.
– E quem disse que eu vou dar um presente que a pessoa gosta? – tentou disfarçar Savério.
– Mas como você me tirou, se eu me tirei? – ainda inconformado, Jânio.
– Seu Rubens, liga pra carrocinha e manda prender os dois, que tão sem coleira e num tomaram vacina. Um esquece e depois estraga toda a surpresa, o outro disse que se tirou no amigo secreto … Como, Jânio? A gente fez 3 sorteios até ninguém se tirar.
– É, eu sei … mas depois da segunda vez que eu me tirei, e depois que soube que o Ronaldinho vinha pro Corinthians, eu não resisti …
– Até nisso aqui esses maledetos envenenam meu fígado. – disse Savério, começando o tradicional ataque de coceira na unha do dedão esquerdo.
– Vai, Jânio … explica … ainda não entendi uma pinóia.
– Então, Adhemar … eu tava louco pra ter uma camisa nove do Timão. Sabia que o Savério num ia me dar isso de presente nem que a Sophia Loren pedisse pra ele …
– Eco! – Savério concordou veementemente.
– … você do jeito que é, me compraria uma camiseta dos porco, só pra ver minha cara de pastel a hora que eu abrisse o pacote.
– Eco … – continuou concordando, Savério.
– Então resolvi mandar vocês dois às favas e me comprei a camiseta. Portanto, meu amigo secreto é uma pessoa que eu gosto muito e torce pro mesmo time que eu. Jânio! Você é meu amigo secreto, parabéns! Abre o presente que acho que você vai gostar!
– Muito bem … – disse Adhemar aplaudindo. – … mas se você se tirou, como que o discípulo do Mussolini aqui, também te tirou?
– Boa pergunta. – falou baixinho, Cléber, enquanto limpava a chapa com uma espátula. Savério, meio sem graça, tentou explicar :
– É … olha … Esqueci que tinha esse negócio secreto, e aí depois que vocês me lembraram, foram tantos papelzinho que tiramos naquele dia, que num ia lembrar nunca quem eu tirei.
– E os tremoços? – perguntou Jânio, todo amarrotado, depois de finalmente vestir a camiseta nova(ao contrário, obviamente).
– Ah … eu arrisquei. Vai que era você!
Adhemar, já resignado, tentou continuar a brincadeira :
– Bom … ô Jânio, ou trocaram o símbolo do teu time por um nove enorme, ou você vestiu esse negócio errado.
– Merda … – disse, Jânio jogando um tremoço no chão, com força.
– Continuando … eu, velho, bêbado e despedaçando, fiz tudo certo. Tinha tirado o Savério, e comprei um cachimbo italiano pra ver se ele largava essa porcaria de cigarro.
– Ãn … obrigado, ãn … – respondeu Savério, numa tentativa bem forçada de ser simpático.
– Mas como deu tudo errado, e como eu sei que você é mais teimoso que uma mula e nunca vai largar essa porcaria, certo?
– Eco!
– Vou dar esse negócio pro Seu Rubens deixar ali no caixa, do lado dos carrinhos de metal e quando ele conseguir vender, eu recupero meu dinheiro.
– Justo … – responderam juntos Savério, e um monte de tecidos diferentes, disformes e agitados que escondiam Jânio.
Enquanto o enigma envolvendo uma camiseta roxa do Corinthians, um pulôver de lã bege e uma camisa azul clara não era solucionado, agora com ajuda da Rose, que costumava salvar Jânio nessas horas, os outros dois velhos, se dedicavam a ver a seqüência final do filme, bobos com aquelas “moça”.
Seu Rubens, encontrou um lugar privilegiado no seu caixa para o ex-cachimbo do Savério e tudo voltou ao normal. O “ranzinza secreto” foi um sucesso.

De mãos dadas.

Era um pátio sujo, praticamente vazio, um pouco de feno desarranjado em um canto, apoiado na parede sem janelas ou portas que um dia foi bege, hoje faz um horrível degradê de preto para marrom rumo ao firmamento. Este, intimidador, cinza grafite, com nuvens que corriam rápidas, como se fossem devorar toda a superficie. No centro do claustrofóbico local, uma pequena mesa de madeira de lei maltratada. Pregos, manchas, lascas entre outras histórias. De cada lado uma banqueta, mal feitas, desalinhadas, prestes a ruir, vencidas pelos cupins.

Eles, sem se preocupar em beijar o solo arenoso, se encaravam com as mãos entrelaçadas, apoiados cada um por uma banqueta. Olhavam-se nos olhos, com feições serenas, como se pudessem enxergar sonhos, memórias esquecidas, desejos ingênuos. O rosto dele, lascado pelo tempo, denunciava sua sensação de dor e alívio. Como se tivesse consciência de que estava vivendo o auge de sua vida e não chegaria e presenciar seu próprio declínio. Ela era bela, ainda que maltratada, despenteada, de olhos pesados, irradiava luz como o farol que poupa da tristeza, as esposas dos marinheiros. Seu semblante a rejuvenescia, as pequenas dobras no canto dos olhos eram ofuscadas pelos olhos úmidos de adolescente, os lábios corados ligeiramente abertos pareciam estar prestes a gritar uma declaração de amor, daquelas melosas, que só o receptor consegue entender.

Apesar do silêncio, a sensação era de que naquele momento, os dois estivessem derramando o conteúdo de uma vida inteira, suas primeiras palavras, tudo que descobriram juntos, todas as vezes que fora vencidos pelo medo, todos os grandes conflitos, que agora, tinham tanta importância quanto uma folha de calendário do mês passado. Não era discussão, não era conversa, era como um apanhado de tudo que pudesse os definir, que os levou até aquele momento.

Não restava muito tempo a favor e a tensão se percebia maior, conforme suas mãos se apertavam cada vez mais, dando a impressão de que a qualquer momento se fundiriam. O céu, antes cinza, agora era negro, como os cabelos dela. O vento se acentuou e trouxe juntos as primeiras gotas. Logo, a chuva tomou conta do pátio e a água que não fazia cócegas nas paredes imundas, tornava o solo macio e compacto. Eles permaneciam impassíveis, camuflados pela precipitação, agora faziam sua própria chuva. Encharcados de tristeza, derramavam ali cada plano feito, os filhos que não chegaram a ser, a cama espaçosa que nunca foi feita, o gramado largo e verde que nunca foi conhecido.

Pela estreita e única saída, alguém dava passos pesados que ecoavam pelo corredor lembrando o toque de grandes tambores. Nesse momento, cessaram as lágrimas, e um pouco desajeitados pelas algemas que cercavam seus pés e mãos, se levantaram. Arranhando uma nova história no tampo da velha mesa, inclinaram-se um para o outro, até suas bocas se encontrarem. Beijando-se como a primeira e última vez selaram a despedida inevitável, emoldurados por milhões de pingos d’água que os refletiam, ás vezes velhos, outras novos, muitas vezes felizes, e na mesma proporção tristes, mas em todas intensamente vivos.

Conduzidos pelo carrasco, caminharam em direção ao corredor, que apesar de estreito, os comportou lado a lado, de mãos dadas até o final.