Arquivo de fevereiro, 2009

Sorte Grande

Nunca fui muito de usar esse espaço pra contar experiências pessoais, em primeira pessoa, como Ricardo mesmo. E quando o fiz, sempre tentei escrever de um jeito que não soasse egomania pura. Só retratei aqui, experiências que considerei “universais”, histórias que achasse interessante independente de terem acontecido comigo.  Nunca tive a necessidade de contar algo apenas porque precisava contar, sem pensar se realmente interessaria para você, leitor. Mas, desta vez, peço licença e farei isso. Uma experiência tão especial assim precisava ser registrada, nem que fosse para mim mesmo, no futuro.
Conheci uma moça há uns 10 dias atrás. Linda. Do tipo de beleza que mais me atrai. Quase normal, mas, na verdade, assustadoramente linda. Corpo perfeito (para mim). Macia (existem mulheres que dá vontade de se deitar ao lado e ficar ali, quieto, por anos). Rabo de Cavalo de Gancho Duplo (um dia explico esse termo…). Estilo no ponto certo. O tipo de mulher que sinto uma pontada no estômago quando tenho a sorte de encontrar.
Por respeito não direi seu nome, apenas a chamarei de “Moça”. Simpático, não? Também acho.
Na verdade, já vinha cruzando com ela há uns bons meses, mas, como quase sempre, apenas registrava seu rosto na minha memória e torcia para que o destino me levasse a ela novamente, em boas condições para um começo de conversa. Nossos encontros esporádicos se davam, principalmente, no supermercado, de madrugada. Eu, com meu carrinho pequeno de dois andares, fazendo compras típicas de um cara que mora sozinho. Ela, idem, porém com as devidas adaptações para uma moça (leia-se : ao invés de Nescau, Ice Tea; ao invés de Hambuguer congelado, franguinho; ao invés de creme de barbear … vocês entenderam, né?).
Para não deixar vocês loucos de tédio, mas principalmente por consideração à privacidade da Moça, não vou contar aqui todos os pormenores e detalhes de nossa recente história, basta dizer que depois de alguns encontros “casuais” no caixa,  finalmente o primeiro contato foi feito: uma piada (tinha que ser…). A atendente, que já conhecia os dois praticamente pelo nome, se atrapalhou toda em certo momento, e eu e a Moça fizemos a mesma piada, para descontrair o clima. Uma tirada típica de Seinfeld. Ótima. Juntos.
Naquele momento a noite parou.
Foi surpreendente e inevitável. Não existia outro desfecho praquela noite. Do supermercado, direto para um café 24 horas. Tínhamos que, finalmente, saber quem era o outro. A voz dela parecia música da melhor qualidade. Seu jeito de mexer, ajeitar o cabelo, pedir um chazinho pra esquentar, tudo era absolutamente perfeito. Quando me ouvia, era com a avidez de uma criança. Quando falava, era tão eloqüente e fascinante que me esquecia completamente do quanto a achava bonita. Das minhas piadas boas ela ria, as ruins, ela as transformava em ouro, sem parecer bajulação e, principalmente, sem risos fáceis. Quando nos demos conta, estava amanhecendo, e parecia que mesmo que se ficássemos lá por toda a vida, seria pouco.
Telefones trocados, SMS’s deliciosos no dia seguinte. E mais um encontro marcado. Sem jogo, sem desculpas, sem traumas passados e sem problemas. Aos poucos ela ia se mostrando irônica e “maldosa” no ponto que acaba comigo.
O segundo encontro foi num jantar, seguido de uma sessão da meia-noite de um filme qualquer. Obviamente perdemos o cinema. O papo não deixou sairmos do restaurante antes das 02h00. E o gerente, não nos deixou ficar mais. A noite estava quente, mas deliciosa. Sem questionar, levei-a para o mar. Queria passar aquela noite com ela caminhando na areia. Ela não hesitou  ou estranhou a proposta, nem por um instante. Mulher forte, decidida e bem-resolvida, mas, ao mesmo tempo, doce e suave. Sabia exatamente seus movimentos, mas adorava ser conduzida, como numa dança perfeita. Pela segunda noite seguida, fomos Fred e Ginger.
Sentados na areia, e ao ver uma estrela cadente (tão piegas como teria que ser) nos beijamos. Não tinha dúvidas que seria bom. Mas foi muito melhor. Não sou poeta, portanto nem tentarei descrever o que sentimos.
Quando aquele beijo se acabou, abri meus olhos, segurei seu rosto e sussurrando, com os olhos um pouco mais úmidos que de costume, disse –  “será?”  -, ela riu. Riu timidamente, mas sem nenhum medo de me encarar. Havia uma força quase sobrenatural naquele olhar.
Voltamos pra São Paulo de dia e, como aquelas crianças que guardam o melhor doce pro final (sempre fui desse tipo), nos beijamos e voltamos, cada um para sua casa.
Mais SMS’s, MSN, e-mails, telefonemas e encontros durante a semana. Sempre fáceis, sempre tranqüilos. De quinta-feira, fui pra meu encontro religioso com os Cronistas Reunidos, sem nenhum receio. Sabia que na sexta eu a veria. Ela também fazia as coisas dela, sem me colocar nenhum peso. Livres e leves.
Na primeira sexta-feira que tivemos juntos, após outra noite de Fred e Ginger, ao fim do encontro, transamos. Não digo “fizemos amor”, porque os dois se mostraram do tipo que demoram o tempo que um amor deve levar, para ser considerado como tal. O que tínhamos era desejo puro, misturado com paixão, interesse, admiração, curiosidade e muita vontade. Naquela noite, transamos com a mais intensa das vontades. Loucos e felizes. E, mais uma vez, foi mágico.
Para melhorar, o dia seguinte não nos propiciou nenhum tipo de efeito colateral típico de quando o “encanto é quebrado”. Tudo que fazíamos, tinha gosto de “quero mais”; porém, com uma serenidade inacreditável. Fomos cuidando para não pularmos etapas. Tudo sendo curtido no tempo certo.
Nesta manhã, depois de outro beijo devastador olhei para ela e novamente perguntei : “Será?”. Ela riu, e dessa vez insinuou um “sim” com a cabeça.
E assim, seguimos. Sem medos, sem receios, sem sofrimentos.
Ontem, então, ela veio jantar em casa. Comemos, vimos um filme e rimos. Rimos, rimos, falamos, ouvimos, no fizemos cafuné, e rimos. Ela precisava ir embora, porque uma amiga havia pedido para dormir na casa dela. “Temos umas coisinhas pra resolver”, me disse, a Moça.
Sem problemas.
Por volta das 03h00 a tal amiga ligou, e então descemos até o térreo para curtir nossos últimos segundos juntos. Ao chegar ao lá, demos um último beijo. Terno, mas desinibido (o porteiro ainda estava dormindo…) e quando terminamos, enfim concluí minha pergunta – “Será … que finalmente tirei a sorte grande?”. Ela me olhou, com outro leve sorriso de canto de boca, com a mesma facilidade em me encarar, segurando meu rosto com uma das mãos, e disse – “Ahãn.”.
Mais uma vez num musical perfeito, o carro da amiga chegou antes que qualquer outra coisa pudesse ser dita ou feita para estragar a magia do momento.
Agora, como uma moça “de família”, a Moça me deu um beijo rápido e, “correndinho”, foi até o carro. A amiga, simpática, abriu o vidro e me deu um tchauzinho, como em agradecimento ao fato de eu não ter implicado com o seu pedido para a “minha” Moça.
Ao entrar no carro, então, as duas deram um beijo. Me pareceu um selinho, mas não tive certeza. A Moça me olhou novamente, e em seu doce olhar, tive certeza que tudo estava bem.
Porém, alguns frames antes dela voltar o rosto para a frente, sua pupila e sua íris ficaram totalmente brancas. Um vento forte começou a soprar. O som do carro, que apenas fazia um leve chiado aumentou de forma que me senti numa sala de cinema IMAX. Tapei meus ouvidos porque o barulho beirava o ensurdecedor. A música : uma versão ensandecida de Highway to Hell do AC/DC. O carro se partiu ao meio e um dragão gigante saiu de dentro, revelando uma enorme cratera por baixo do veículo. Rajadas de fogo começaram a atingir os prédios ao lado do meu. Da cratera, Wolverine apareceu e começou a fatiar o carro em pedaços com suas garras, enquanto a Moça e sua amiga, no meio da fumaça pareciam começar a voar. O prédio na frente do meu, que sempre me pareceu muito simpático, se revelou uma espécie de Transformer e, em não mais que 15 frames, agarrou o Wolverine e o triturou, em uma só dentada. Uma infantaria de cowboys fantasmas cruzou o céu em formação até encontrarem um bando de vikings montados em pterodátilos, iniciando-se então, uma batalha alada e sangrenta sobre mim. A Moça se transformou numa espécie de besouro gigante e sua amiga uma barata. Cada uma devia medir uns 9 metros. Rindo assustadoramente, as duas brigavam entre si. Era a luta principal, da qual todos os outros pareciam depender. Meus olhos não conseguiam desgrudar daquilo, e quando parecia que não faltava acontecer mais nada, o Céu se abriu e por trás do Universo, Deus apareceu. Gigante. Na forma do Kiko (amigo do Chaves) bravo, muito bravo.  Mas era Deus. Ninguém ali tinha dúvida. Todos pararam. Imediatamente. E Ele, com as veias da garganta saltadas, apenas apontou para trás. Como crianças mal comportadas, todos voaram quietos para lá. Sem dizer nada, ele me olhou e se retirou para trás do Universo.
Tudo estava normal.
O porteiro me encarava, incrédulo e assustado, como se eu tivesse parte naquela demência toda. Eu não conseguia mover um músculo.
Após uns bons minutos, juntei forças e comecei andar em direção ao meu apartamento novamente. Meu celular apitou.
“Nova Mensagem de MOÇA”.
Tremi.
O texto :
“Obrigada pela noite, querido!! Acabei de perceber que esqueci meus brincos no seu sofá. Guarda pra mim? Amanhã eu volto. Antes de amanhecer. rsrsrs. Beijo, lindo! Dorme bem!”
São 4:39 AM e os brincos continuam aqui.
Acho que ainda não foi dessa vez …

Duas Opções

Ele estava saindo de casa com seu carro. Free-lancer, um pouco atrasado, mas nada tão grave que o obrigasse a otimizar o tempo apenas colocando o cinto de segurança no primeiro farol vermelho. Assobiava uma música qualquer no rádio.
Ela caminhava com seu shorts branco, blusinha frente única cinza, Ray-Ban e belas coxas. Dia de folga, com calma, passeando com o seu cachorro grande e apressado ao puxar a coleira, mas nada tão intenso a ponto de tirar o encanto dela ao caminhar. Murmurava uma música qualquer no seu mp3 player.
No primeiro farol, o sinal avermelhou bem na hora que o carro ia passar, mas ele, atento, numa freada um pouco brusca, parou o carro pra que ela atravessasse. Ela olhou para o carro e num rápido movimento, como mulheres como ela sempre fazem, deixou claro que viu quem ele era, mas só. Ele perdeu momentaneamente o ritmo da música. Coxas. Seu fraco sempre foram coxas.
Seguindo seu caminho ele fez a volta no quarteirão, como de costume, e quando foi virar numa daquelas esquinas que Lúcifer passa seu tempo quando está de cabeça cheia, foi virar à esquerda olhando pra ver se não vinha nenhum carro pela direita. Ela, num pulo rápido, recuou seus dois passos na direção da rua e evitou o atropelamento, contrariando às estatísticas de que fone de ouvido aumenta o risco de acidentes desse tipo.
Ele, atrapalhado ao perceber a barbeiragem, deixou o carro morrer e reconhecendo aquelas coxas, foi surpreendido por um olhar agora não mais indiferente. Não era um olhar raivoso, porque ela parecia doce demais pra isso numa situação dessas, mas bravo. Sim, ela estava bravinha.
Ele, ainda sem graça, não se conteve e disse :
– Olha … O destino só tá me dando duas opções : Ou te atropelo ou te convido pra jantar comigo hoje, amanhã e quem sabe todo resto de nossas vidas.
– Hã?
Ele fez sinal pra que ela tirasse os fones de ouvido e, ainda que na dúvida se a questão dos fones não tinha matado o timming da piada, repetiu :
– Olha … O destino só tá me dando duas opções : Ou te atropelo ou te convido pra jantar comigo hoje, amanhã e quem sabe todo resto de nossas vidas.
Ela não conteve um riso contido.
Ele agradeceu à Lúcifer.
O carro de trás, que não tinha nada a ver com o destino deles, buzinou.
O cachorro pareceu se assustar com a buzina e tentou correr pro lado oposto.
Ela, quase desajeitada, disse:
– Ele é ciumento demais!
– Seu marido está no carro de trás?!
– Não, bobo! Meu cachorro.
– Ufa …
Outra buzinada. Mudando de tática, o cachorro começou a latir na direção dos carros.
Ela, então, começou a mostrar seu desconforto com a situação. Odiava chamar muita atenção, seja pelo que fosse (a não ser as coxas, claro).
Ele, começando a se preocupar também, repetiu a pergunta sorrindo:
–  E então? Atropelamento ou jantar?
–  Hmm … Você mora por aqui?
– No quarteirão de baixo …
– Eu no de cima.
– Bom!
– Fazer o seguinte : se o destino quiser isso mesmo, a gente se cruza de novo por aqui de novo, então … Aí podemos jantar.
– Hmm …
– Que acha?
Um pouco hesitante, por instantes, ele mudou a expressão e sorriu :
– Claro. Por que não?
E, ainda sorrindo, fez o gesto para que ela atravessasse tranquilamente a rua.
Quando ela chegou bem no meio do carro, ele não teve dúvida e acelerou brutalmente, atropelando a moça (o cachorro escapou, porque no susto ela soltou a coleira).
Lúcifer de mau-humor era um inferno naquelas bandas.