Arquivo de abril, 2009

Perfeição

Não deveria haver Sol; não deveria haver Lua; deveria haver apenas dia e noite, e que na ignorância fundamental pudéssemos nos equiparar à perfeição criativa. Deus, Alah, Cosmo ou Destino, não fossem desculpas e sim palavras como dedo, livro, luneta ou relógio. Que a última preocupação fosse a existência ou inexistência de um mártir. Que  a conquista de uns não implicasse na derrota de outros. Que o incomensurável e inatingível não tivessem representação, fossem apenas palavras. Pois sendo palavra, apenas, teriam esvaziadas sua razão e emoção; tirando das entranhas o que é doutrina, dogma restando somente as letras, juntas e não ajuntadas; banindo a fé como significante, mostrando a beleza de uma simples palavra que não encontra eco e viaja para o infinito distante e longínquo, exasperador.

Se não houvesse Sol e Lua, só luz e sombra, seriam desperdiçados lindos poemas de amor, seriam rasgadas histórias de felicidade e tristeza; não haveria despedidas ao entardecer nem mesmo as frias manhãs de pureza campestre.

Se não houvesse Sol e Lua, não haveria calor e frio; não haveria Verão … Inverno também não. Seria um tempo morno, de opiniões nulas e consensuais. O Sim seria afirmativo e o Não significaria não e pronto; sem talvez.

Mas há Sol e há Lua. Luz e sombra, calor e frio, ligados completamente pela impossibilidade de se tocarem, distantes o suficiente para se contar quantos infinitos há entre um e outro. Sinceramente… eu conto três.
Somos assim: muito distantes da perfeição.