Arquivo de agosto, 2009

Marta? Amor?

– Sabe de uma coisa?

– Que?

– Você está linda hoje?

– Por quê?

– Hein? Como assim por que?

– É. Por quê?

– Porque está ué. Não posso te elogiar?

– Pode. Mas porque isso agora?

– Porque deu vontade falar ué. Olhei pra você pensei “nossa, como ela está bonita”. Mas desculpa, não falo mais.

– Não é isso. Tem alguma coisa aí?

– Alguma coisa? Que coisa? Não tem coisa alguma.

– Tem sim. O que foi? Você fez algo errado?

– Não, não fiz nada. Não é possível que você vai fazer isso.

– Isso o que?

– Transformar um elogio meu numa briga.

– Não é briga. É que você disse uma coisa estranha então deve explicações.

– Explicações??? Como assim explicações? Ta bom. Gostei do jeito que seus cabelos estão caindo sobre seus ombros. Da sua feição feliz.

– José Roberto, não me provoca.

– Te provocar???

– É, fica fazendo gracinha pra escapar.

– Escapar do que???

– Do que??? Que cara de pau. Do que você fez de errado.

– Errado? O que eu fiz de errado?

– Você quem me diz.

– Isso ta ficando louco demais. Eu retiro ta bom. Você não está linda hoje.

– Quer dizer que estou feia?

– NÃÃÃÃÃÃOOOOO! Inferno.

– Não o que?

– Não você está feia. Está linda como sempre. Como todos os dias.

– Quer dizer que você está entediado. Que não tem mais tesão por mim. Por isso foi procurar outra mulher?

– Que outra mulher????

– Você quem me diz.

– Eu que te digo? Como assim. Só te fiz um elogio.

– Vai José Roberto. Assume logo.

– Assumir o que?

– Não vai assumir?

– Não tenho o que assumir.

– Então é isso?

– Isso o que?

– O fim.

– Fim do que?

– De nós. De nossa história.

– É. É sim. Estou cansada de aturar essas coisas.

– Essas coisas? Que coisas? Pera, Marta, volta, prometo nunca mais te elogiar. Marta? Amor?

A caixa

Por fora, uma casa velha, estilo inglês com uma pequena entrada na frente, escadinha, soleira, porta. Geminada. Lá dentro, acabava de acordar, suado e inquieto. Um sonho terrível o havia acometido, um pesadelo onde um homem de estatura média, bem barbeado, distinto, deixava a soleira de sua porta uma caixa e … Bateram à porta: três golpes dados com as juntas dos dedos médio e indicador. Abriu a porta e não havia mais ninguém; também pudera, entre o bater na porta e sua abertura existia a imensa preguiça, além do atordoamento advindo da noite mal dormida.  Olhou para a esquerda, para a direita e nada. Apenas um leve cheiro de pós-barba no ar, mentolado ou coisa assim. Olhou para baixo e viu uma caixa. Uma pequena caixa branca como ele mesmo havia sonhado. Coincidências a parte, nunca havia acreditado muito em sonhos.

Entrou com a caixa sob as axilas, trancou a porta e sentou-se à mesa. A surpresa da situação não o impediu de abrir imediatamente a caixa. Dentro, um objeto de plástico, infantil, um botão que aparentemente não estava ligado a nada e muito menos parecia eletrônico. Junto, dentro da caixa, um evenlope surrado e envelhecido. Cuidadosamente abriu e tirou uma carta que poderia conter a única informação sobre a bizarra caixa ali deixada.

Pegou um copo plástico na pia que acumulava louça de alguns dias e encheu de café frio ou requentado, não vem ao caso, e começou a ler:

Indústrias Xing

Nós das indústrias Xing & Ling enviamos um símbolo do nosso maior apreço. Um símbolo do poder de transformação. Dez milhões de dólares que podem ser seus assim que estabelecermos os termos de aquisição.

Primeiro; você não poderá dizer em nenhuma hipótese de onde vem o dinheiro.

Segundo; aceitando esta quantia, uma pessoa, uma única pessoa sem distinção de raça, credo ou cor terá a vida tirada.

Escolha com sabedoria.

Nesse momento, nesse exato momento o ar a sua volta parou e vagarosamente sua mão que ia em direção ao botão até quase apertar e parou. Primeiro pensou que aquela brincadeira, uma tremenda bobagem tinha que acabar com o descaso que merecia. Aperta o botão e vai pra sala assistir Tv. Pensou no que tinha acabado de acontecer, uma caixa deixada na sua porta com uma carta velha e um brinquedo que era um botão. Não podia ser assim. Ele ecabara de sonhar com isso. Não que acreditasse em sonhos como já dissemos mas a coincidência valia a hesitação.

Levantou da cadeira e ficou lendo e relendo a carta sem remetente, apenas indústrias Xing. Quem se daria o trabalho de fazer uma brincadeira daquelas, muito tempo dispendido para ser uma simples brincadeira. E se não fosse, então? Mas envolvia a morte de uma pessoa. Será que seria possível provar isso em um tribunal? Envolvia, também, muito dinheiro, na verdade, todo o dinheiro que jamais imaginou. Tantas pessoas morrendo no mundo; de fome, de sede, doenças, assaltos, guerras, desastres e ele ali pensando em uma única pessoa.  Seria muito egoísmo não apertar aquele botão: o dinheiro poderia ser convertido para beneficiar dezenas de outras pessoas e salvá-las da própria morte, era como sacrificar uma vida para salvar outras dez. Isso mesmo, valia a pena arriscar, afinal, estava só e quando digo só não quero dizer momentaneamente. Sem pais, parentes ou amigos fiéis, ele tinha a si mesmo e o compromisso com a sua felicidade e agora com a felicidade e  a generosidade de salvar mais outras vidas.

Ninguém presente foi mais fácil apertar o ridículo botão e esperar. Se nada acontecesse ele poderia rir de si mesmo por acreditar nessas bobagens que chegam via correspondência e tudo mais. Bateram novamente na porta. Já imaginando a brincadeira que faria ao perceber que tinha sido pêgo, abriu sorridente a porta e ficou boquiaberto ao encarar um sujeito de estatura média, bem barbeado, distinto.  Percebendo que não haveria qualquer tipo de conversa se ele não a iniciasse, o sujeito cumprimentou e entregou em mãos um cheque de dez milhões de dólares. Atônito com a velocidade e resolução do dilema ou com a iminente morte de um indivíduo através dos seus atos, convidou o distinto cavalheiro a entrar. Precisava apenas da caixa e já estava de partida. Agora milionário, pegou hiponóticamente a caixa e a dispensou juntamente com seu barbeado portador.

Sentou-se no sofá e olhou para o que tinha em mãos: um cheque de dez milhões de dólares, um lindo e velho cheque de dez milhões de dólares, nunca sacados; pelo estado do material.

Soube, então, que não tinha mais tempo.