Arquivo de setembro, 2009

“Pra Casar.”

Demorou, admitimos, demorou. Mas chegou o dia em que os homens estão entendendo o “big deal” que é o casamento. Por séculos os homens fugiram do casamento como noivo da noiva. Medo do comprometimento, da prisão, da castração social. Mas finalmente, o século 21 assiste os machos abraçando a tradição matrimonial.

Ainda que preserve tradições antigas, como a despedida de solteiro, também abro espaço para casar de branco, entrar na igreja com música, chá-bar, dia do noivo etc. Não que adote todos e todas, mas estou mais receptivo. É um grande passo para quem só aceitava se trajar de luto no grande dia.

Vamos nos divertir com as listas de presente, dando preferência para TVs de plasma e aparatos de churrasqueira mas espichando os olhos para travessas, baixelas e aparelhos de fondue. Sim é importante ter pratos para sopa, sobremesa, pizza e tartar. Seja lá o que for isso.

Vamos repassar a lista de convidados, entendo que realmente, aquele seu tio que acabou de sair da cadeia não pode ficar de fora. Padrinhos, podem ser seis casais sim, pega emprestado dois meus. Seu tio ladrão vai ser padrinho? Claro, ele precisa de apoio para voltar a sociedade. Vou sem relógio, você se importa?

Flores, lembranças, havaianas com os dizeres “tuquinho e tuquinha pra sempre”, eu apóio. Dinheiro? É detalhe, esse é o dia mais importante de nossas vidas não? Porque se importar com o financiamento do apartamento no mesmo prédio que sua mãe? Nós merecemos. Esse é seu dia de princesa, todos se curvarão a seus pés, mesmo que seja de bêbados, whisky 18 anos não vai faltar.

Lua de mel é um capítulo a parte. Faz todo sentido dividirmos entre Taiti e NY. Compras e lazer. Dias mágicos. Vamos nos divertir muito, assim como meu gerente. Não importa o que tenhamos que sacrificar, sabe porque?

Porque você é a coisa que mais amo no mundo, minha alma gêmea, nada é mais importante que isso. Quero passar o resto da minha vida com você, ter filhos, envelhecer juntos de mãos dadas na sacada nos nosso apartamento financiado em 87 anos.

Hein? Como assim? Você quer o que?  Focar na sua carreira, no seu desenvolvimento profissional? Não sabe se está fazendo isso na hora certa? Quer aproveitar mais suas amigas, conhecer o mundo, se sentir livre? Mas e o papo de alma gêmea? É bobagem? Temos de ser felizes sozinhos? Não eu não sou dependente de você, só queria ser feliz pra sempre. Como assim isso não existe. Ta, atende essa chamada do seu trabalho, você sempre dá preferência a eles mesmo. Mas depois disso você não me escapa. Depois de me enrolar por quatro meses…Será possível?

Hoje em dia…

– Não é a mão peluda que incomoda…

– Pra mim é sim. Prefiro lisa.

– Não tô dizendo que não faço depilação, é que a mão já é demais, eu acho!

– Mas hoje em dia não são, só, as unhas; é a mão inteira, fica cada vez mais importante essa coisa de estética e aparência.

– Sei bem… eu comecei pelas unhas. Quando você é criança só corta e vai brincar, depois é que vem aquela coisa de cuidar mesmo, lixar, passar base e tal.

– Verdade…

– Mesma coisa o cabelo…

– Nessa idade então, qualquer fio branco já parece que te envelhece anos.

– E no fim da vida o jeito é cortar cada vez mais curto porque o cabelo vai ficando fraco, cheio de pontas duplas. Inevitável.

– Inevitável é o mau gosto que certas pessoas têm pra se vestir. Em pleno Século XXI as pessoas, ainda, não sabem se vestir. Tudo pelo conforto, ok; mas não vamos exagerar também: conforto não é sinônimo de relaxo.

– Mas depende da demanda também, você há de concordar que não existem muitas opções, sempre que eu entro em uma loja fico me perguntando se realmente existe uma roupa que eu ache legal/inovadora, uma peça que faça a diferença no visual e isso eu já bem sei em qual caminho vai dar.

– Passei por isso esses dias quando fui comprar um tênis. Inacreditável. Bom, chega de papo furado! Como vai ser? Barba, cabelo e bigode?

– O de sempre Alaor, o de sempre!

Ciclos de Vida

Com o passar dos anos está ficando muito claro pra mim que, assim como no ciclo de vida tradicional, na vida profissional passamos pelo mesmo processo. A parte do “reproduz” no segundo caso pode dar justa causa, mas em linhas gerais, acho que dá pra fazer um paralelo bem próximo.
É mais ou menos assim.

– Universitário = Bebê. O projeto de profissional ainda vive num ambiente controlado, mimado por todos os lados, sem saber lidar nem com as próprias cagadas. Sua principal preocupação é a hora da comida (cervejadas, churrascos, e por aí vai …) e tudo que virá pela frente, ainda está longe demais pra virar preocupação.
Expressões típicas : Buááááá!!, Cof-cof-cof-cof!!, Burp!, Uhúúúúúú!!, Aêêêêêê!!, Zzzzzzzz!!.

– Estagiário = Criança. A pessoa já aprendeu a falar, já sabe o que é errado e o que não é. Chora um pouco nos primeiros dias de aula, mas depois começa até achar divertido. Fazer as lições é um pouco chato e repetitivo, mas ainda assim, tem medo de levar bronca das professoras e diretores, então vai levando (mesmo porque apesar de chatos, os deveres nem são tão difíceis). Adora mesmo a hora do lanche (principalmente nas festas de fim de ano), pra ficar zuando com os novos amigos.
Expressões típicas : Buááááá!! Uhúúúúúú!!, Aêêêêêê!!, Zzzzzzzz!!, Nossa!!, Que legal!!, Eu quero!!, Não foi culpa minha!!, Estagiária nova!!

– Profissional Júnior = Adolescente. O cara começa achar que já entende da parada. Afinal de contas, já fez faculdade, passou por um estágio e agora tá no ponto de dominar o mundo! Aquele bando de velhos que estão acima dele não sabem de nada. Se ele tivesse no lugar deles, aí sim a vida ia ser boa. Mas quando tem que assumir qualquer responsabilidade maior, reclama que nunca tinha tido que fazer aquilo antes. Em contrapartida, normalmente tem uma energia irritante pra trabalhos braçais (que considera os mais importantes de todos) e se acha o máximo fazendo viagens só porque a firma tá pagando tudo (trouxas!). Alguns começam tentar a seduzir os pais das formas mais questionáveis pra ganhar aumento na mesada. Outros acham esse tipo de vida tão louco, mano, que prefere ficar por aí ad infinitum.
Expressões típicas: Que legal!! Eu quero!!, Não foi culpa minha!! Se eu tivesse no lugar dele …, Esse final de semana eu me acabo!, Não vai dar tempo! Essa estagiária nova, heim?!

(Nota do autor: daqui em diante, a coisa fica um pouco mais nebulosa. É muito mais fácil falar duma fase que você já passou por completo …)

– Profissional Pleno = Adulto. Algumas alegrias e decepções depois, a pessoa já sabe que nem tudo funciona como deveria, mas é assim que as coisas funcionam. Na média, o profissional entende que tem uma série de deveres e responsabilidades. Maiores responsabilidades incrementam a conta bancária mas também podem diminuir as horas de sono e vida pessoal. Vai da personalidade da pessoa caminhar na direção que mais a realiza.
Expressões típicas: Se eu tivesse no lugar dele…, Esse final de semana é melhor eu descansar., Ainda não tá pronto?, Eu mato aquele moleque!, Bela estagiária …

– Sócios, Donos, etc. = Idoso.  O sujeito já entendeu como funciona o jogo. Não tem mais paciência pra lidar com o que não faz diferença. Adora ter gente achando que é mais esperta que ele por perto, porque sabe que aí as coisas vão continuar sendo feitas como ele quer. Tem uma certa complacência com aqueles que seguem um caminho próximo ao seu e por conta disso, algumas vezes, protege gente que ninguém entende o motivo. Continua tocando o negócio mais por hábito do que por necessidade.
Expressões típicas: Não quero saber!, Não me interessa!, Quando eu comecei …, Num tenho mais idade pra isso! Esses meninos …,Que que essa menina faz aqui mesmo??,

– Aposentado = Morto.  Pode acabar no Céu ou no Inferno.  O resultado de todas suas ações ao longo de vida vai determinar o seu destino final.
Expressões típicas: No meu tempo …, Num tenho mais idade pra isso!, Esses meninos …, Cadê meu pulôver?, Ah se eu fosse mais jovem …

Enfim … Agora só resta torcer pra chegar nessa fase pronto pra assumir um lugar lá em cima. E me dá licença que vou pra minha missa. Xo Satanás!!

O dilema do sabão em pó

Você pega sua lista de compras e vai até o supermercado. Há um corredor inteiro, com vários metros de altura, só com opções de sabão em pó. Sabão de ação direta, dupla ação, tripla ação, multiação, com alvejante, com ação bleach (porque “alvejar” não é um termo claro o suficiente), com suavizante, com poder rosa, com solução anil, com 02, fresh, para roupas brancas, para roupas coloridas, para roupas sensíveis. E agora? Multiação é quantas vezes maior que tripla ação? Ou será que é menor? Não seria melhor ação direta? Para cuecas, o poder rosa está definitivamente fora de cogitação. Mas é melhor ter cuecas alvas ou suaves?

E os xampus? Hidratante, anti-queda, anti-caspa, para cabelos oleosos, secos e indefinidos, com condionador, dois-em-um, três-em-um. Onde está aquela opção “um-em-um”, xampu-xampu, mesmo? Não tem. É um beco sem saída. Você sabe que, independente da escolha que fizer, vai deixar lá na prateleira todas as outras opções. Só há uma única certeza: você vai escolher errado.

Se sentindo levemente derrotado, você se encaminha para a seção dos alimentos. Pobre alma. Café: alta mogiana ou baixa sorocabana? Forte, extra-forte, fraco ou equilibrado? Cereais matinais: com sete, oito ou nove vitaminas? Integrais ou com açúcar? Não seria melhor ver caixa por caixa, comparando os ingredientes?

Aí você, segurando aquele “iogurte sabor morango com pedaços de fruta adicionada de ferro e cálcio sem gordura trans em embalagem econômica compre três leve quatro”, enxerga aquilo. Aquilo. Você nem se lembrava, mas ela está lá. Inexorável, impenetrável, implacável: a tabela nutricional.

Suas opções foram multiplicadas exponencialmente. Agora, além de escolher sabor, cor, textura, marca, fabricante e ingredientes, há também lipídios, protídios, cálcio, ferro, fósforo e vitamina A. E calorias, meu Deus, calorias. É mais fácil deixar um notebook dentro do carrinho, planilha de cálculo aberta, preparando comparações e gráficos para ajudar a escolher, usando pontuações e ponderações de média para cada característica dos biscoitos recheados disponívels.

É muita coisa. Não dá tempo. Você pensa que a melhor solução seria pedir demissão do trabalho para poder comparar corretamente as diferentes opções de pão de forma. Talvez até abrir uma empresa de consultoria em empanados de frango congelado. Ou criar um curso de especialistas em avaliação nutricional de jujubas de ursinho.

Antes de cair espumando de desespero no caminho para o corredor de bebidas, você se lembra que existem esmaltes para unhas. E agradece aos céus por nunca ter que pintá-las. Ainda bem.