Arquivo de janeiro, 2010

O homem que absorvia felicidade

Fosse novidade, não teria despertado tanto interesse como foi o caso da chegada pontual de Oliveira, mal sabia que antes que ele chegasse as pessoas realmente se divertiam a valer. Trazia consigo essa impressão desde os tempos de colégio. Nunca se achou muito popular, mas não era pra tanto. As pessoas sorriam como se fossem amigos há anos… e de fato eram. Como pôde ser tão ingênuo a ponto de não perceber o que acontecia? Risadas rasgadas, risonhas falas de um grupo que se conhecia bem. Mas ele não conhecia.

Seu trauma só se comparava ao dia que  descobrira que seu pai não era seu pai e que sua mãe e ele eram a única família por assim dizer. Sem querer dizer, mas já dizendo, a mãe era uma bela sem vergonha … era sabido. Mas mãe é mãe em qualquer lugar e fica tudo o dito pelo não dito.

Saiu de casa e foi passear, não era à toa que sempre sentia um mal estar na presença dos outros. Achava que era coisa da sua cabeça, mal do século, sei-lá-o-que, mas nunca, nuca, entendera que a sua simples presença desanimava os demais. O simples contato com a sua pessoa devia ser mortal para o humor dos colegas, um golpe rasteiro na energia vital das pessoas que ele considerava importantes, afinal, não tinha família; e família e amigos eram todos uma só coisa, não sabia a diferença. Pois então, percebeu a diferença crucial. Seus colegas, amigos, a sua família: sempre estiveram ao seu lado. Impossível que eles não tivessem percebido a situação, impossível nunca ter havido um questionamento a respeito das coisas que aconteciam todas as vezes que ele, Oliveira, chegava. Seu suspiro foi de alívio, um certo conforto no coração. De certo eles sempre souberam mas nem por isso o abandonaram, por isso tantas reuniões com horários estranhos, por isso a fama de atrasado inveterado – nunca havia chegado em uma reunião ou festa que não fosse um dos últimos, ou o próprio último. Sossegou.

Dobrou as pernas lentamente e sentou-se. Seu coração era um baleiro lotado de chicletes coloridos fosse cada um uma emoção diferente, boa ou má, e ele se via sem uma moeda para tirar um chiclete, fosse qual fosse, do baleiro que parecia cada vez mais cheio. Percebeu que não seria o caso e foi descendo lentamente do beiral do pára-peito. A angústia já não era tão grande assim. Na verdade, era uma sensação boa de querer bem, de ser querido, uma felicidade achada na constatação da desgraça, mas nem por isso menos intensa e verdadeira. Foi esticando as canelas e num alongamento libertador, escorregou e caiu.

Felizmente a via estava deserta e o ridículo não foi testemunhado. Saiu caminhando, dando risadas de si mesmo.