Arquivo de abril, 2010

Beija Eu.

Nos flashes coloridos, ela se movia tenaz. Seu quadril, feito uma batedeira orbital, visitava as imediações de seu corpo perfeito com a velocidade de um daqueles bonequinhos de corda. O lábio inferior mordido sem esforço, sem tipo, só desejo. O cabelo lhe caía ao rosto como uma cortina de seda, revelando e escondendo as janelas de sua alma.

Ele, atordoado, segurava o copo de vodka a meia altura, molhando os pés de quem esbarrava. Tolos, não haviam notado a mulher mais espetacular do planeta, bem ali, ao lado de um senhor de meia idade girando as mãos como girava-se na idade média.

Dessa vez não poderia culpar o álcool que roubava o espaço do sangue em suas veias, muito menos os sete meses e meio que estava sem fazer sexo. Nem com ele mesmo. Era um chamado, como as sereias atraíam os velhos lobos do mar. Era magnetismo que o fazia atravessar a pista de dança para conhecer aquele espetáculo. Aquela batedeira orbital.

Como numa equação perfeita eles se entreolharam, sem escolha, sem apresentação, se outros casais diziam ter química, estes não. Tinham física, circundavam o mesmo ponto como fossem elétron e próton, agitados para se fundirem no mesmo núcleo.

Pernas enroscadas, ele a envolvia com um dos braços enquanto o outro segurava o copo de vodka, perigosamente próximo as mãos giratórias do senhor de meia idade. Ela apoiava os pulsos em seus ombros, as mãos ficavam penduradas de maneira relaxada, tocando com as pontas dos dedos seu trapézio.

A temperatura subiu, e com ela foi o copo de vodka, arremessado com um golpe certeiro do senhor de meia idade em direção ao globo de espelhos. As respirações ofegantes, sincronizadas é claro, eram divididas ao pé do ouvido, como quem quer mostrar o quanto está fora de si. Livre da vodka ele a laçou com o braço direito pela cintura, o movimento lançou seus cabelos dourados para trás revelando seu rosto assustado e excitado. Sem fechar os olhos, lentamente se aproximaram, o olhar dele era clássico, depois de seis doses de vodka, entreaberto, o dela estranhamente apreensivo, como se encarasse um desafio.

Ele finalmente a beijou, e o mundo parecia estar em câmera lenta. Para ele, desde que  encostou seus lábios aos dela, tudo parecia moroso como uma canção de João Gilberto, o tempo realmente não passava, seu gosto, os movimentos de sua língua, as escapadas que deixavam suas bochechas e queixo úmidos, aquele beijo parecia que nunca acabaria. Mas acabou. E depois de toda aquela tensão. ele finalmente a olhou nos olhos e disse:

– Sabe, eu tenho uma teoria. Não acredito que beijos sejam bons ou ruins. Eles simplesmente se encaixam ou não. Mas hoje eu percebi que estou errado. Seu beijo é como tentar alcançar um pudim de jiló no fundo de um copo longo e isso não deve agradar nem um Chow Chow no Cio.