Arquivo de julho, 2010

A Falácia do Solteiro

Poucas frases me provocam tanta vontade de rir como:
–    Ah se seu tivesse solteiro! Essa loira ia ver só …

Desculpe amigo, ela não ia ver nada que já não estivesse vendo.

Fico impressionado como a maioria dos homens que namoram/casam/se enrolam/etc. e tal, por um tempo razoável, começam a se sentir como grandes pegadores reprimidos.

Só porque já estão há um tempo com o “burro amarrado na sombra”, sentem que o mundo se transformou num cardápio delicioso de mulheres ao seu dispor que, infelizmente, eles não podem apreciar pela sua condição de “commited” (como dizia o orkut).

Não, amigos indisponíveis! Elas não estão ao seu dispor. Se você se esforçar um pouco pra se lembrar, quando solteiro você passava tanta vontade ao sentar num bar no verão, numa tarde de domingo na Vila Madalena, como passa agora, ao tentar disfarçar da sua pequena o olhar praquela morena gostosa de vestidinho, que teima em passar na sua frente o tempo todo, SÓ pra te provocar (nada a ver com o fato dela ser a garçonete daquela área do bar, imagina…).

Ok, devo reconhecer que o parágrafo anterior não se aplica ao Ricardo Mansur, Rodrigo Santoro, George Clooney e mais 3 ou 4. Mas, excluindo esses caras, todos nós, homens desgraçadamente comuns, não fazemos porcaria nenhuma em 90% dessas situações. A única vantagem da solteirice, no caso, é poder olhar pra tal morena sem táticas canalhas de disfarce.

O problema é que nos outros 10% fazemos algo. E aí dependendo das condições normais de temperatura e pressão a bola entra. Gol!!

E são essas bolas criam a tal “Falácia do Solteiro”.

Realmente existem noites (e dias) na solteirice, que seriam dignas de serem contadas pelo Hugh Hefner. Todo homem solteiro tem seus momentos. O grande problema é se enganar sentenciando a coitada da namorada/esposa/rolo/etc. e tal, como a grande culpada pela privação desses momentos mágicos. Mentira. Calúnia!

A moça não tem nada com isso, amigo. Você não ia fazer nada com a garçonete. Eu garanto. Se o relacionamento está bom, dê valor àquela que está com a mão repousada na sua coxa, mesmo você olhando praquela mocréia com um vestido breeega, que você ganha mais.

E pra piorar, existe a fase 2 (e mais perigosa) dessa falácia : o fim de relacionamento.

Conheço muitos caras que depois de décadas pra conseguir sair de um relacionamento doentio, daqueles que só existiam de verdade no status do Facebook, começam a questionar a solteirice, reconsiderando voltar pro inferno que estavam. O motivo?

– Num tenho ninguém pra sair esse sábado! Se for pra ficar sozinho, volto pra Fulana (também conhecida como aquela que xinguei pelos últimos 9 meses da minha vida).

Então, animal! É assim que funciona. Lembra que você vivia reclamando dos sábados que tinha que sair com aqueles amigos idiotas da mala da sua namorada? Pois bem, na solteirice vão existir noites tão chatas como aquelas (e você aí reclamando, sendo que seu PS3 ainda está coberto de pó e já faz 2 semanas que você acabou o namoro!).

Enfim … não sou a favor da solteirice, nem do comprometimento. Apenas sou a favor das coisas feitas pelos motivos certos.

Se está com alguém e na média a relação está legal. Fique feliz! Isso é cada vez mais raro.

Se está solteiro, curta!  E aproveita o lado bom disso sem medo, mesmo que a carência bata na porta de vez em quando.

A sabedoria está em se reconhecer que mesmo com os motivos certos (seja comprometido, seja solteiro) terão momentos que o outro lado vai parecer muito mais divertido. E não se pode culpar ninguém por isso. É assim que as coisas funcionam. Não se pode ter tudo.

De volta para o passado – parte 2

Nota do Autor : essa crônica é continuação de um texto que foi escrito no final de 1999, revisado no site dos Cronistas em 2002 por conta de uma publicação em uma compilação editada pelo Mário Prata. Para ler a parte 1, clique aqui.”

–    Bom dia.
–    Bom dia … Olha, só!
–    Heim?
–    Velho Ricardo, você voltou?
–    Pois é …
–    Hehehehe.
–    Rindo do quê, moleque?
–    “Pois é…” era o título de todas minhas crônicas na época que nos encontramos a primeira vez …
–    Verdade. Bem lembrado. Hehehehe.
–    Pois então, meu Velho. Com todo respeito, claro. Por que voltou?
–    Ué … faz 10 anos que você me chamou direto do seu futuro pra brincar numa crônica nossa. Bastante coisa aconteceu depois disso. Achei que 10 era um número forte pra reaparecer.
–    “Ten sounds official!”
–    George Carlin! Quase nem me lembrava mais dele …
–    Isso mesmo, velhote. Até que a cabeça ainda funciona, heim?
–    Ó o respeito, Ricardo! Stand Up continuou uma paixão. Aliás, cabelo que é bom, nada, heim?
–    Olha quem tá falando!
–    Eu sou velho, tenho álibi e uso nossa boa e velha boina sem dó, mesmo com alergia a lã!
–    E eu sou … sou estiloso! Que nem o Kelly Slater, tá?!
–    Isso … depois da gripe espanhola! Hahahaha.
–    Humpf …
–    Quanta coisa aconteceu nesse tempo, heim? O Prata publicou a crônica do nosso encontro, você foi estudar e trabalhar com cinema, foi morar na casa que era da Vovó …
–    Pois é …
–    Agora fez aquela viagem pra Nova Iorque com o Otávio e o Hermínio, ou já estamos depois daquela vez que ….
–    OOOOU!!! Pára! Pára!!
–    Que foi?
–    Num fiz viagem nenhuma ainda. Só emiti as passagens! Só viajo em Outubro.
–    Iche …
–    Tá louco?! Quase começou a me contar algo sobre o futuro…
–    Hihihihi ….
–    Como assim!? Num é pra rir, não velhote! Lembra daquela história de quebra do espaço contínuo. A lição que o Dr. Emmett Brown  nos ensinou!
–    Sei, sei …
–    Então! Hold your horses!
–    Num lembrava que você tava todo metido a usar frasezinhas prontas em inglês nessa época …
–    Ah, vá te catar !!
–    Hum … Já tá há um tempo na O2, né? Convivendo demais com publicitários…
–    E você num tem duas faculdades disso no currículo também, né, malandrão?
–    Pois é … Pra mostrar que a gente já num era criativo nem quando tinha cabelo …
–    Vai dizer que você acha que a gente ficava bem de cabelo?
–    Pô … você vai ver só o sucesso que vai fazer depois do implante …
–    Hahahahaha . Viado! Se fosse verdade você num tinha falado! Hahaha!
–    Garoto esperto.
–    Você era bastante também, na minha idade!
–    Bobinho … Mas então, já que voltei acho que não seria muito errado te falar uma coisa …
–    Nã-não … Vamo ficar falando de cabelo. Pode ficar zuando que eu sou deficiente capilar. Nada além disso! Meu presente tá ótimo, só quero curtir. Num venha me encher com meu futuro!
–    Hahahaha!
–    Que foi?
–    Deficiente capilar … essa eu não tinha anotado em lugar nenhum! Boa tirada. Hahaha !
–    Pra variar, não é nossa! É do Paulão.
–    Eu sei, eu sei … A gente foi se aperfeiçoando em melhor adequar as idéias dos outros, né?
–    Acho que sim … Tá me caindo essa ficha recentemente …
–    Então … o que eu queria te falar tem um pouco a ver com isso…
–    Mas não quero saber, Seu Ricardo!
–    Mas num é nada, claaaro assim sobre o futuro.
–    Num interessa …
–    Mas vai ajudar!
–    E vai que eu mudo tudo por causa da dica, viro um lutador de MMA e morro aos 34. Você num vai mais existir …
–    Tudo bem. Já tou velho memo!
–    Ah … num vem com essa! Se agora eu já sou bem encanado com a vida, velho eu sei que vou querer durar o máximo possível …
–    Mas você num vai me fazer uma bobagem grande. A gente até que é inteligente, você vai usar a informação com parcimônia.
–    Tou bem, velho! Num quero saber.
–    É o seguinte :
–    Tou indo nessa! Té mais!
–    Volta aqui!
–    Foi um prazer te rever. Com 41 a gente conversa de novo. See ya!
–    Ah frasezinha bicha de novo, não! Volta aqui, moleque! Fala comigo … Catso … Num vai voltar … Droga …

Clube do Apito Final

No salão de festas da sede do Ameriquinha carioca um evento secreto é realizado todo ano de Copa, assim que acaba a competição mais comentada em todo planeta.
O primeiro a chegar sempre é o presidente. O beija-flor, o dono da solucionática e do gol de velotrol : Dadá Maravilha. Fundador do clube e titular vitalício da cadeira. Normalmente chega acompanhado do vice. Debochado, de risada alta e andar malandro: Paulo César Caju.
Juntos, ambos começam o ritual de montagem da cerimônia. Posicionando as mesas em forma de “U”, preparando as plaquinhas com o nome de cada integrante e trazendo o tão esperado telão.
Nesse ano, na seqüência, chegou meio tímido e deslocado, Luizão. Acho que nem ele ainda se convenceu que faz parte do seleto grupo, mas foi convocado em 2002, não tinha como excluí-lo. De qualquer forma, chegou cedo e ajudou na preparação com muita boa vontade.
A “diretoria” veio depois com Viola, Edmundo e Renato Gaúcho. Formada pelos 3 cavaleiros que tiveram a maior honra pra um integrante do Clube: entrar nos minutos finais de uma partida com o destino já sacramentado, pra tentar o impossível.
Aí a coisa animou, entre os abraços e cumprimentos, quando se deram conta, todos estavam lá. Aqueles que já foram citados, além do Casagrande, Fred, Denílson e Roberto Dinamite.
Todos estavam loucos para começar o ritual de assistir e comentar suas rápidas participações nas Copas do Mundos, mesmo que apenas sentados no banco, dando entrevistas para canais menos favorecidos pela CBF, ou (a glória!!) entrando no final, com mais vontade que todos os jogadores em campo e dando demonstrações como aquela dura no Rivaldo na final de 98 (Fair Play uma hora dessas?!?!), ou numa jogada que quaaase definiu a parada sem precisar de pênaltis em 94.
No momento que todos sentaram, como que por mágica, chegou o homenageado da noite : Grafite. Ainda abatido com o pífio desempenho da seleção contra a Holanda, mas emocionado ao ver aquelas grandes figuras do futebol brasileiro o aplaudindo. Entregou para o Fred, ex-calouro, um dvd com seus momentos na Copa e sentou no seu lugar pra ouvir as histórias dos colegas, ansioso.
Aos poucos todos foram se posicionando, e num momento inesperado o foco de luz foi então para a mesa da presidência. Após uma ou outra piada sobre médios-volantes e zagueiros, um clássico por lá, Dadá pediu a palavra:
“- Amigos! Antes de fazermos o de sempre, gostaria de dizer algumas frases. Estamos aqui mais uma vez reunidos pra celebrar a continuação desse clube. Não somos os craques do time. Não somos quem levanta a taça, e nem aqueles que levam a bola de ouro. Somos mais do que isso! Somos o ilógico, o irracional. Somos o clube dos atacantes reservas, o clube do último suspiro, o clube da espera de um milagre, o nosso querido “Clube do Apito Final”. – aplausos –  Não importa o que aconteça com a seleção nas eliminatórias e na primeira fase da Copa, é sempre no final angustiante de um jogo decisivo que nosso clube ressurge. São nesses minutos finais que o atacante reserva se transforma na vontade do povo materializada! Nesses instantes que até cego vê que só um de nós pode fazer todo país acreditar que o que já tá escrito, pode mudar. E você, meu querido, Grafite, sinta-se honrado de estar aqui. Num vai fazer como o Fenômeno que veio um ano, e depois esqueceu que era um dos nossos, heim!? Porque o que representamos aqui é muito maior do que qualquer título, não é Dinamite?
Mesmo com 6 volantes, mesmo falando que o Brasil só tem guerreiros, ou qualquer outra bobagem desse tipo, o dia que a seleção brasileira não tiver um de nós no banco de reservas, aí sim pode ter certeza que o Futebol acabou! Porque quem nos convoca não é o técnico. Quem nos convoca é a voz de Deus – ou o Médici, gritou o Casão, em tom de brincadeira. Dadá, emocionado, continuou – Que venham os novos Zagallos, os novos Parreiras e os novos, Deus que me perdoe, Dungas! Enquanto um dos nossos tiver lá sentado, no jogo final, pronto pra lembrar pro Brasil inteiro que a magia é a última salvação da seleção, o Brasil ainda continuará a ser o País do Futebol. Não importa o resultado do jogo. Muito obrigado!”
Aplausos e assovios!
Bem mais emocionado que de costume, Dadá chorou. Com razão. Reza a lenda que antes da convocação dessa copa cogitaram até em suspender o evento. Foi por pouco … Muito pouco …