Categoria “Especial Copa 2002”

Barbosa Silva e Silva

Nosso personagem nasceu no dia 14 de julho de 1950. Filho de eletricista e neto de pescador, sua mãe buscou nas redes inspiração para o nome do primogênito. Escolheu Barbosa, goleiro da seleção que perderia aquela partida histórica para o Uruguai dois dias depois. Pouco deu bola que Barbosa tinha mais cara de segundo, de terceiro ou até de quarto nome. Ficou assim mesmo, Barbosa Silva e Silva, no registro providenciado pelo tio Joel. O pai ausente andava doente da cabeça, em virtude de um acidente com um poste que lhe rendera dois galos na testa.

O garoto, pelo nome, foi ridicularizado pelo mundo antes mesmo de poder enxergá-lo. Teve infância sofrida e cresceu sempre envolto do azar e da injustiça. Há quem diga que, às vezes, esta se transveste daquele, ou então que o azar, como a sorte, não existe e tudo na vida é uma questão de injustiças. Cultivou o costume de ouvir pelo rádio as notícias do futebol e por ele se apaixonou. Sua definição do esporte era a soma do que ouvia dos locutores e com o que via em peladas na rua. Na Copa de 1958 pegou uma meningite daquele tipo mais severo, cuja cura é demorada e incerta, e ficou isolado num quarto de hospital até meados de julho, quando o fogo da comemoração já era brando.

Quatro anos depois, ainda menino, viu o pai ser vítima fatal de um estranho quadro febril, causado por vírus e raro na espécie humana. Foi obrigado a trabalhar para dar sustento à casa. Tio Joel o ajudou na falsificação dos documentos para provar que tinha mais de catorze anos e condições trabalhistas de virar ajudante de farmácia. Em tempos de Copa, todos sabem, os serviços que exigem plantonistas caem sempre na mão dos empregados mais moços. Foi assim que, para sua tristeza, Barbosa não acompanhou de perto o segundo título mundial da seleção brasileira de futebol.

O tempo foi passando e o jovem Barbosa aos poucos virou homem, escaldado pelas peripécias do destino e gato na idade, para usar palavra do jargão do futebol, tema principal do que tratamos aqui. Em 1966 serviu o exército nacional, lembrando que, para todos os efeitos legais, já tinha a idade requerida para a atividade. Pouco lhe importou a obrigação de ter mudado para uma cidade sul-mato-grossense, distante de até aonde a cobertura da Copa alcançava. Tinha sérias desconfianças na equipe brasileira como todos os torcedores mais fanáticos. Ruim mesmo foi ter permanecido ali, por compromissos da carreira militar, até agosto de 1970, se afastando mais uma vez da festança popular que é a conquista de uma Copa do Mundo.

A partir de então pouco se ouviu falar de Barbosa. Magoado com a vida, deprimido com as restrições que ela causava ao seu apreço pelo futebol, caiu no ostracismo. Um certo tipo de exílio, tão comum naquela época, mas com caráter voluntário. Perambulou por aí só com a companhia de garrafas de cachaça e nem em 1982 teve vontade de se reaproximar do mundo da bola.

Viveu assim até 1993, quando um certo jogador, convocado na última hora para o combate contra o velho conhecido Uruguai, teve a honra de classificar o país para o mundial do ano seguinte. Barbosa assistiu ao renascimento daquela paixão pelo esporte, por tantos anos dona exclusiva de seus sentimentos – e nos últimos 23 trocada pelo mal devastador que é o alcoolismo. Passou a se alimentar da animação e da ansiedade que os meses antecedentes à Copa dos Estados Unidos traziam. Contudo, refeições tão carentes de vitaminas e proteínas não eram suficientes àquele corpo tão maltratado pelos freqüentes baques do exagero. Um derrame cerebral manteve em coma nosso personagem entre maio e setembro no ano do tetracampeonato.

Barbosa deixou o hospital e passou a viver vida regrada e tímida. Menos por vontade e mais por conseqüência das lesões funcionais irreversíveis que lhe acometeram. Sustentado por pensão militar, vive quase há oito anos em frente à televisão e, quando a compaixão vem lhe visitar, toma banho de sol. Viu e não entendeu a convulsão de Ronaldo em 1998. Venha o penta no presente ano, em 2006 ou em qualquer outra oportunidade, seu significado para o pobre Barbosa será nulo.

Seleção e eleição

Para muitos, a coincidência entre Copa de Mundo e as principais eleições do país deveria se estender para muito além do caráter quadrienal que as acompanha. A seleção de homens públicos que representam o país do futebol no maior evento esportivo do mundo deveria ser eleita pelo povo.

Antes, porém, um plebiscito decidiria, majoritariamente, se necessário em dois turnos, o esquema tático de jogo. Como fizemos aquela opção, há anos, entre o esquema de governo presidencialista ou parlamentarista. No mesmo pleito a nação votaria ou na chapa “futebol de resultados” ou na “futebol-arte” – sem nenhuma referência à monarquia e à república.

A televisão, obviamente, teria de ceder espaços para as propostas de cada candidato a técnico, preparador físico, massagista, quarto-zagueiro e por aí vai. Talvez o espaço não fosse gratuito e sim comercializado como propaganda. Uma espécie de vingança das emissoras contra o futebol. A mesma parte que recebe pelo direito de imagem em transmissões de jogos pagaria pelo direito de exibição no horário eleitoral do futebol.

Os jogadores formariam blocos ideológicos. A esquerda teria liderança de Roberto Carlos e Rivaldo, com Júnior e Denílson como seus suplentes diretos. Defenderiam um plano de jogo baseado na força da individualidade, com propostas de chutes fortes e incansáveis dribles. Às críticas que os líderes da chapa seriam egoístas e pouco objetivos responderiam com a experiência de já terem feito parte dos eleitos em outra Copa. Sem falar na pós-graduação no futebol espanhol e italiano, o que seria, digamos, comparável a estudos na Sorbonne. Ainda faria parte da coligação o moderado e calado goleiro Dida.

A direita entraria esvaziada na campanha. Há tempos nenhum grande nome não brilha tão intensamente naquela faixa de campo. Talvez a estrela do velho e finado índio de pernas tortas ainda ofusque novos ídolos. Mas estariam lá, pelo sim e pelo não, Cafu, Belleti, Juninho Paulista e Edílson. Vampeta iria na onda desse último, mais pelo companheirismo do que por real posição política. Meio a contra-gosto, para não se isolar, Rogério Ceni também. O partido representaria o equilíbrio e a polarização, elementos tão importantes numa democracia.

O centro estaria bem servido com a liderança carismática de Ronaldo. Ele, a bem da verdade, teria simpatia tanto por um lado como pelo outro. Uma habilidade de relação pública incomum, junto à bola ou longe dela. Só para evitar desagrados procuraria manter-se em cima do muro. Aproximações poderiam ocorrer, às vezes com a esquerda, às vezes com a direita, como que para mostrar desde já sua capacidade de embaixador, profissão possível a um jogador de futebol aposentado. Que o diga o rei do futebol.

O baixinho seria o candidato independente e certamente não ficaria fora dos eleitos. Levantaria a bandeira do “homem que faz” e pouco precisaria falar – ou chorar. Um populista por natureza, naquele sentido da palavra que diz “o que busca no povo os seus temas”.

Bom, no final das contas, já dizia aquele ex-presidente que a democracia não é mesmo um regime tão bom assim, mas, não havendo outro melhor, vamos com ele. Nós aqui, experientes em tempos de autoridade única, sabemos que, onde há sargento, há normas militares. Onde há normas militares, não há voz democrática. Se não há voz democrática, não há escolhas legítimas. E sem escolhas legítimas, haverá o penta?

Argentina x Inglaterra

De um lado, o jovem Michael Owen, 22 anos, segunda Copa do Mundo, ídolo do Liverpool. Do outro, Gabriel Batistuta, 33, maior artilheiro da seleção de seu país, um matador por excelência. Os dois craques foram reunidos para um bate-boca, quero dizer, um bate-bola rápido. Assunto: a antiga rivalidade entre Argentina e Inglaterra e a partida do dia 7 de junho na cidade japonesa de Sapporo.

Michael Owen – My dear, o que você acha dessa história de grupo da morte, hein? Todo ano é a mesma coisa. Ou melhor, de quatro em quatro anos a bobagem se repete.

Gabriel Batistuta – Oye, chico, até que para sua idade você já está sacando bem as invenções desse pessoal da imprensa. E olha que eles vivem reclamando que a gente só usa chavão nas entrevistas. É sempre assim, mal acaba o sorteio da Fifa e os caras já inventam um grupo da morte. Já encheu o saco.

Owen – Well, mas uma coisa é verdade. Lá em Sapporo vamos fazer o jogo da morte. Se o sir Beckham não se recuperar a tempo é bem capaz que a gente coloque um hooligan para jogar. Aquilo que vocês fizeram foi uma maldade, golpe baixo, an unnecessary punch, como diria meu amigo Lennox Lewis.

Batistuta – Futebol não é coisa para las chicas, baby. Se o maricón não segura a onda, não agüenta uma dividida, sorte de vocês que ele não vai à Copa. E a pegada foi pelas Malvinas, em lembrança aos 20 anos. Acho que você nem era nascido, não é?

Owen – Você está falando das Falkland Islands? Que aliás, leva o “F” no nome, como nosso grupo na Copa. Reparou? Esse nome que vocês inventaram é weird demais. Aqui no meu país só conhecemos as Falkland Islands. Eu era um garotinho mesmo, mas cansei de aprender na escola que os argentinos tiveram muito mais do que os pés quebrados naquela região do South Atlantic Ocean. Depois você me conta se é verdade.

Batistuta – Veja bem, não sou especialista em pés, mas posso contar uma história de mãos. Era uma vez um jogo de fútbol, em 1986. A pelota foi lançada à área, Dieguito le pidió a Dios una mano e o maior jogador que já pisou qualquer gramado do mundo, com a melhor seleção de todos os tempos, desclassificou a Inglaterra. E olha que nós somos humildes.

Owen – That was a robbery! Nem Ronald Biggs seria capaz de tanto.

Batistuta – Bom, falando em assalto, podemos relembrar a Copa del Mundo de 1966, se você quiser.

Owen – Vamos mudar de assunto. Ouvi dizer que a Argentina teve problemas com presidentes neste ano. É verdade? Se precisar a gente pode mandar a Margaret Thatcher para a Casa Rosada. Ela acabou de lançar um livro e está doidinha para mandar em algum país outra vez.

Batistuta – Não, obrigado, entre los abuelos da política preferimos o Menen. Por falar em idade avançada, eu nunca vi povo tão bobo quando o seu, que chora a morte de uma coroa de 100 anos a semana inteira.

Owen – You envy our glory. Qualquer argentino gostaria de ter, como nós temos, uma digna família real.

Batistuta – Dios mío, não repita essa palavra. Real me lembra câmbio, câmbio me lembra dólar e dólar me lembra peso. Aliás, uma nota de 100 pesos nunca esteve tão leve quanto hoje.

Owen – Nesse ponto we agree. Exchange também é uma palavra complicada na Inglaterra. Os vizinhos querem instalar o euro por aqui. Mas a libra vale muito mais. Essa eles vão ter que engolir.

Batistuta – Ya he escuchado essa frase antes. Não é outro chavão do futebol?

Felipão, o teimoso

Nas poucas semanas que faltam para a estréia do Brasil na Copa do Mundo, nada parece mudar a obsessiva vontade de Felipão em manter o esquema de jogo com três zagueiros e dois volantes. A idéia fixa do técnico é o chamado 3-5-2. No caso do nosso selecionado, três especialistas em defender formam o “3” e dois meios-de-campo exclusivamente marcadores são parte do “5”. Somando, dá meia-dezena de contumazes defensores desprovidos de outra habilidade que não seja defender.

Ora, mesmo deixando de lado o vício que é a numerologia do futebol (3-5-2, 4-4-2, 4-4-3 e demais variações), fica óbvio o caráter defensivista e bitolado da equipe armada pelo técnico gaúcho. E dá para fazer uma lista de motivos para comprovar que teimar em jogar assim é uma relutância inútil e equivocada.

Primeiro de tudo: o Brasil é glorioso quando seu ataque é insistente, não quando defende por capricho do técnico. Basta ver a história de nossas conquistas e quase conquistas em Copas. Quando ganhamos ou quando tínhamos condições de ter ganhado, o time era ofensivo. Buscar o gol com afinco foi sempre a maior teimosice da seleção, bem maior do que defender com 5 jogadores. (Tudo bem, em 1994 não éramos tão ofensivos assim, mas qual jogador – convocado ou não – Parreira poderia ter colocado no lugar do então pouco produtivo Raí? Perto de Felipão, Parreira tem apenas uma ligeira inclinaçãozinha pela retranca.)

Segundo: o esquema 3-5-2, de novo, não tem nada. Tem muito é de maçante. O Brasil nunca teve apego nem obsessão por copiar esquema dos outros, ainda mais quando nem os outros ainda o utilizam. Pelo contrário, a pertinácia da seleção brasileira sempre foi inventar esquema de jogo, chegar lá e arrebentar. Seja com o também embirrento Zagallo fazendo o falso ponta em 1958, ou com Gérson, Rivelino, Tostão e Pelé insistindo em não dar bola para o esquema do treinador em 1970, ou com a ausência de dois pontas viciados em 1982.

Terceiro: só na Copa de 1990 o Brasil foi intransigente em jogar com três zagueiros especialistas. O técnico era um (outro) cabeçudo, Sebastião Lazaroni. Lembram-se do resultado? Suamos para ganhar da Costa Rica e da Escócia por 1 x 0, fomos desclassificados nas oitavas-de-final e acabamos a Copa em 9º lugar.

Quarto: olhando o passado recente, os clubes brasileiros que montaram belas – e vencedoras – esquadras jogavam com dois, só dois, zagueiros de profissão. Seus técnicos fizeram questão de não mudar isso. A persistência, do meio pra frente, era o toque de bola e o gol. Nada de meios-de-campo “cabeças-de-bagre” também.

Foi assim com o São Paulo de Telê Santana em 1992 e 1993. Com o Palmeiras de Vanderlei Luxemburgo em 1993, 1994 e 1996. Com o Corinthians de Luxemburgo e Osvaldo de Oliveira de 1998 e 1999. E mais ou menos assim com o Grêmio do cabeça-dura Felipão, que ganhou a Libertadores (a bem da verdade, o time jogava bem mais feio que os anteriores, mas também tinha dois zagueiros).

A mais recente escusa de Felipão, o opinioso, para manter os cinco defensores foi que Cafu, nosso ilustre ala-direito, não sabe marcar. Ele quis dizer, provavelmente, “desaprendeu a marcar, esqueceu como é”, já que toda a história do jogador mostra que ele sempre soube. Por exemplo, na Copa de 1998, Cafu só deixou de ser um perseverante marcador no jogo em que foi obrigado, pelos cartões amarelos, a ceder seu lugar ao lateral reserva. O próprio jogador andou dizendo que é só pedir para ele jogar assim ou assado que ele vai lá e, sem ponderações, joga.

Talvez por pirraça, Felipão vai manter a seleção jogando contra sua própria história na Copa. A nós, brasileiros, cabe cultivar a mania de torcer por quem quer que esteja nos representando (pela ocasião, os dois Ronaldos e seus lampejos criativos). E rezar para que sejam escassas as narrações da TV dizendo “Roque Júnior teima em sair da defesa com a bola dominada” ou “Gilberto Silva insiste com mais um lançamento”.