Categoria “Crônicas”

O Melhor de Nós

O melhor de nós teve que sair mais cedo. Era o que ele sempre fazia. Há 12 anos, toda quinta-feira, ele ia embora mais cedo do que os outros seis. Tinha sono antes da gente porque sempre foi o primeiro a acordar. Era aquele tipo de gente que já acordava feliz. Irritantemente feliz. E fazia barulho. Batucava. Cantava. Tamborilava a mesa por cima e pontapeava por baixo, provocando um ataque de nervos no coitado que sentava na frente.

Às vezes tentava fazer vozes, mas proibimos ele desse negócio. A sua imitação do Dollyinho foi uma das piores coisas já produzidas pela humanidade. Se fosse pra fazer vozes, que fosse em outras línguas. Aí ele era bom. Vai entender…

Quando eu digo que ele era o melhor de nós, não é um clichê babaca póstumo. Na nossa arrogância intelectual, nunca admitimos coisas assim. O fato é que somos bobos e auto-referentes o suficiente pra criarmos uma lista. E ele sempre foi eleito o melhor de nós. Sem discussão nenhuma. Não vem ao caso aqui os motivos, porque também não admitimos sentimentalismos puros, mesmo que verdadeiros. Mas acreditem, ele sempre foi unânime como o melhor de nós. Tipo a Sheila Carvalho no tricampeonato da mais sexy do mundo pela VIP. Se bem que ele sempre preferiu a Luize Altenhofen.

O fato de ser o melhor de nós não fazia dele perfeito. Ele deturpava praticamente tudo que podia. Odiava chaves e fechaduras. Pedia combinações de pratos absurdos para garçons novatos. Fazia naninha sentado à mesa durante a nossa “missa”, mas tomava caldinho de feijão com toucinho e costela depois de acordar (se bem que isso sempre foi digno do nosso orgulho). E tinha a porra da cebola assada. Quem pede como acompanhamento uma cebola inteira assada junto do espeto de carne? Ele pedia. Toda quinta-feira.

O melhor de nós acordava antes da gente quase sempre. A mãe dele fala que a gente nunca vai ser rico porque somos arrogantes demais pra isso e porque sabemos ser felizes. A gente demorou pra aceitar essa ofensa grave. Como assim, ser felizes? Ele aceitou no ato. Nunca teve vergonha do trágico destino de ser feliz. Mesmo que não pudesse ter razão. E olha … isso foi muito antes dessa frase virar meme.

Ele também era uma enciclopédia de memes. Uma das maiores gargalhadas que dei esse ano foi com ele reproduzindo um dos primeiros memes da internet. O Volpa me fez chorar de rir fazendo vozes, mesmo estando proibido disso, aquele deturpador …

O melhor de nós ficava feliz com tudo que pudesse fazer ele ficar feliz. E era muita coisa que fazia ele assim. A esposa. As filhas. O violão. As quintas. E as pequenas bobagens … Qualquer tipo de aliteração era um deleite. Ou será que eram as assonâncias ? Talvez a figura de linguagem certa fosse a paranomásia. Droga… Ele saberia o nome. E se não soubesse, chutaria com a maior convicção de todas. O fato é que se tinha algum tipo de musicalidade esquisita, o melhor de nós entrava em um looping momentâneo de felicidade. E batucava. E fazia vozes. Não, não. Não pode fazer vozes, Volponi! Caraio!

O melhor de nós estava também treinando pra ser o Tio do Pavê primordial. Ele seria o melhor Tio do Pavê que todos os Tios dos Pavês teriam pavê.

Foi por causa do melhor de nós que publicamos um livro, um dos nossos grandes orgulhos. Foi por causa dele que tivemos um site sempre muito melhor do que merecemos.

E vamos parar com essa babação de ovo por aí. O resto é tudo culpa de nós sete juntos mesmo.

Sei lá porque, o melhor de nós teve que ir embora muito mais cedo do que de costume.

Não dá pra entender isso, não. Nem com toda nossa racionalidade. Nossa arrogância intelectual. Nossa ranzincice. E nossa fé no Monstro do Espaguete Voador.

Mas pode deixar, Volpa.

Pode deixar que vamos continuar nos vendo todas quintas. E você ter ido embora não vai deixar o melhor de nós acabar.

Vamos ter que aprender a encontrar o melhor de nós sem você na mesa.

Não vai ser nem um pouco fácil. Mas vamos descobrir rindo, fazendo barulho e quem sabe batucando um pouco.

Só não vai rolar a porra da cebola assada.

Mal aê!

Cara Nova

Mais uma vez o www.CronistasReunidos.Com.Br mudou de cara.

E se mudança é aquela coisa que faz a gente dar uma olhadinha no que estava meio escondido lá no fundo do armário antes de botar na caixa de papelão, as crônicas escritas por aqui desde 1999 têm muita coisa pra mostrar sobre a trajetória de cada um de nós, já nem tão Cronistas assim, mas ainda bastante Reunidos. Amém!

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Eu, Spock e meu pai.

Leonard Nimoy representou um dos papéis mais icônicos da história do cinema. Todo mundo conhece o “Spock”. Todo mundo faz (ou tenta fazer) o sinal com as mãos. Vida longa e próspera. Eu o conheci bem pequeno, quando ainda não tinha idade para entender todas as nuances daquelas histórias. Meu pai, fã da série, foi quem me apresentou. E foi com Star Trek que tentei me apresentar a meu pai.

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Na avenida solidão

Na avenida da solidão, você pode encontrar a paz. Um sossego inebriante, distinto da tristeza e amargura que acompanham a própria idéia de solidão.

Lá você pode enlouquecer da forma mais pura, por prazer, pelo simples fato de poder; correr em círculos fazendo caretas como as que você fazia quando era criança. Se você ainda é, faça o que quiser.

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A Casa do Bié

Existe uma cidade de São Paulo que nunca vi, mas acabei conhecendo muito bem por conta das histórias que ouvi minha vida toda. Tudo porque meus bisavós chegaram por aqui no comecinho do século passado, construíram umas chácaras quando um tal de Jardins era só mato e por conta disso meus avós se conheceram, se casaram, meu pai nasceu e por aí vai.

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Eduardo e Mônica 2014

(Sugestão do autor para leitura: abra o Youtube numa outra janela, coloque a versão original da música para tocar e leia cantando no mesmo ritmo até o final!)

Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

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Sozinho

Acordou sozinho e foi fazer exercício. Sozinho.

Correu, curtiu o Sol, suou e se sentiu bem. Ainda sozinho.

Foi almoçar, era domingo. E sentou numa mesa na calçada, pra ver o passeio, como diziam os antigos.

Pediu o prato e então se surpreendeu com um motoqueiro parando no cruzamento à sua frente.

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Todo dia, ou a breve história de Seu Paschoal e Dona Elvira

Todo dia, ele saía de casa pra trabalhar bem cedinho.

Todo dia, ela acordava bem cedinho pra fazer a marmita dele.

Todo dia, ele parava em frente ao portão, olhava pra trás e acenava.

Todo dia, ela corria pra chegar na janela e acenar de volta.

Certo dia, perguntei :

– “Vô, por que você faz isso todo dia?”

E ele respondeu :

– “A gente nunca sabe se vai voltar.”

Todo dia.

Da série “Macho Moderno no Divã” : Caixinha

Eu não sei dar caixinha. Desde pequeno, vejo meu pai dando caixinhas pro manobrista, frentista, empacotador do supermercado, e isso sempre me pareceu algo muito natural e bacana. Dar a caixinha é algo que os adultos fazem.

Só lá pelos meus trinta e poucos anos, fui me dando conta de algo muito sério: eu virei adulto. Mas isso não contribuiu de forma alguma para a minha relação com a tal caixinha.

Fiquei pensando então, em qual o motivo desse desconforto, mesmo depois de ter bem menos cabelos que meu pai.

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Travessia de Vida

As caspas se foram, ficaram-se os fios; brancos também.

Achando bom saber das coisas, ser mais velho e maduro. Fato é que o niilismo passou a ser uma força incontrolável que de existente, começa a ser preponderante; e nesse oceano sem fim que é a vontade humana, acabo chegando há uma baía, lindíssima, onde o sol te aquece sem queimar a pele, onde a brisa fresca te traz o alívio, onde a natureza estanca o mar.

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