Categoria “Cronistas Leitores”

O som da vida

Para os mais afortunados a vida começa com um tum, tá ouvido diretamente do coraçãozinho que possuímos enquanto ainda estamos no ventre materno. Maravilhas da tecnologia? Chamem do que quiserem, mas ainda assim a vida começa aí, nessa luta inicial do corpo em prol da vida. O ritmo do coração se faz perceber, verte lágrimas, causa espantos, como um violino que de repente começa a ressoar e você fica hipnotizado.

Mas, desse nível, não estamos ouvindo a vida e sim a produzindo, para que outros a ouçam, estamos dando essa prova cabal para o mundo que começamos a nossa existência. Mesmo que ninguém escute, pelo menos nos mexemos dentro da barriga e isso já é uma causa cabal de alegrias e sons, e mais sons. E a música é isso, produção de uns para deleite dos outros, como o músico que de tão concentrado em dar o melhor de si não ouve a própria canção.

E do caos viemos. Da barulhenta vinda. Perceba o nascimento, aquele momento máximo, aquele ápice dissonante em que gritos e dores rasgam o silêncio trazendo sons desconexos à tona como que dando a matéria prim(a)ordial em prol de nossas futuras composições. Joga tudo aí, larga, depois alguém vai utilizar isso para fazer algo, o algo é a nossa vida, a vida de cada um, cada particularidade, a música continua, firme e forte.

Cada um vai arrumar suas notas, em suas pautas. Vai cabe a cada um tornar a composição suave, rítmica, estridente, e como existem composições estridentes, percursiva, quem sabe fazer um accapella, ou viver em seu eterno e infindável solo. Vai depender de cada um tentar usar com máximo primor o instrumento que tem. O que, particularmente, hoje vemos pouco compositores. Eu, mais particularmente ainda, vejo muitos daqueles que vivem de aproveitar a música alheia, “ei! esse som aqui, eu quero ele, muito bom”, ou então “nossa, como você faz isso? ensina?”

Quanto maiores ficamos menos tendemos a tentar, ousar, experimentar um novo uso da baqueta, um acorde a mais e por total inércia e comodismo vamos (re)tocando nossa mais singela e usual canção, cada vez mais sem graça e no automático. Como um cantor em fim de carreira que faz shows por todos os motivos menos o de querer tocar.

Pior! Temos muitos daqueles que querem ser ouvidos, eles não se contentam em tocar sua vida, em ressoar a própria existência. Percebam! Ouçam! Mas que cambada de idiotas, ninguém me ouve! Pobre daquele, pobre desse. Nem um é capaz e tocar por tocar e nem o outro é capaz de escutar o som do outro, e complementando, nenhum som é ruim, apenas estamos mal acostumados com sua presença. Música é costume, acostuma-te a ouvires isso ou aquilo e já já lhe parecerás lindo.

Ao contrário da vida, a música é sim costume, mas para os ouvidos e não para a ação. Aja! Toque sua sinfonia, faça seus solos de vez em quando, arrisque aquela variação, altere o compasso, brinque de regredir ao minimal, faça extravagâncias sonoras, mas não esqueçamos que ainda estamos tocando nossa música, não para ninguém, mas por nós, por tocar, para a ação, simples, de tocar. E muitas vezes temos que parar, cruzar os braços e ouvir o que os outros estão compondo, tocando, interpretando. Para que não fiquemos surdos, ou desacostumados com novos ritmos, novas nuances, novos meios de fazer o som da vida.
Riso

Palmas

Sapatos ressoando nos vários tipos de chãos

O farfalhar das árvores

O som do metal girando logo antes da água cair

Aquele silêncio que precede o portão bater

O girar da chave

Uma bela canção

O murmurinho dentro de um ônibus

O ladrar do cão

Uma buzina de automóvel

A pedra de um isqueiro

Moedinhas tilintando conjuntamente

O estourar da pipoca na panela

O pi pi pi final do microondas

Aquele som delicioso de página de livro sendo virada

O som da própria vida, o silêncio, há de ser escutado, também, como melodia, a mais básica. Sim! Conseguimos ouvir o silêncio. Naquela noite em que nada se move, não há ventos, não há barulhos, estamos sós, naquela aparente in-atividade do mundo, ele gira, tente ouvir o mundo girando!

Cabe a cada um compor sua própria melodia. Com-pôr sua própria sinfonia. Há aqueles que preferem apenas um bom assobiar. Ainda aqueles que preferem estalar dedos.

Toque, componha e ouça. Se fores sincero, como a vida pode ser ruim?

Coleção

– Espera um segundo que eu vou lá pegar.
– Pegar o quê?
– Ora, pegar minha coleção de selos.
– Você não está falando sério?
– Estou.
– Não acredito.
– Sim, eu te convidei pra vir a minha casa ver a coleção de selos.
– Mas hoje é noite de sexta-feira.
– E daí, os selos, geralmente, não saem pra lugar nenhum.
– Olha, deixa eu te explicar: nós dois, sozinhos em seu apartamento, adultos, descomprometidos.
– Justamente, por isso. Não há ninguém pra nos atrapalhar. Você ficaria maravilhada.
– Quero me maravilhar de outra forma.
– Como assim?
– Você não está sentindo que há algo entre nós.
– Claro. Tem essa mesa de canto, esse abajur …
– Não é isso! Você não percebe que estou fascinada?
– Mas só ficou desse jeito depois que eu te falei do meu selo persa, de mil novecentos e quinze, espertinha.
– Não, não.
– Olha, eu fui bem sincero : vai fazer alguma coisa hoje? Que tal vir aqui, ver minha coleção de selos?
– Você sabe que eu não sou uma mulher atirada.
– Pudera, estamos no décimo quinto andar.
– Mas eu coloquei minha roupa mais instigante.
– Hummm, sinceramente, não tenho vocação pra trabalhar com moda.
– Nem eu tenho vocação pra trabalhar nos Correios.
– Agora você está me ofendendo.
– Eu também estou me sentindo ofendida. Sempre te achei um sujeito bonito, inteligente e charmoso. Até seu jeito meio excêntrico me interessava.
– Onde você quer chegar?
– Quer mesmo saber? Que tal em um botão ou dois?
– Ahhhh. Você não vale nada mesmo. Agora entendi. Como eu fui bobo. Então, vamos lá pro meu quarto?
– Ótimo, já não era sem tempo.
– Mas vem cá, você quer começar vendo a minha coleção de botões de times da Europa ou do Brasil?

Os micos não contados do carnaval

A nossa Escola, naquela sexta, seria a última a entrar na avenida do samba. Diante disso, resolvemos passar na concentração, apanhar as fantasias e ir direto ao hotel; após um cochilo, rumar ao desfile.

Lá pelas onze da noite, estávamos a catar nossas fantasias e tivemos uma surpresa: ela não cabia no carro porque o seu costeiro (parte da fantasia colocada sobre os ombros) era formado por ferros pontudos de aproximadamente um metro de comprimento. De imediato, mudamos os planos e fomos para nosso programado cochilo.
Trimmmmmm…

O relógio despertou quase três da matina e eu ainda estava sem fantasia.

Os colegas da escola partiriam às três e meia da concentração em direção ao sambódromo… Liguei no quarto ao lado, para minha amiga de desfile e ouvi:

– Vamos desistir, ainda há tempo???

Depois de tamanha superação, não poderia morrer na praia.

– Desistir? Tá louca? Agora vamos de qualquer jeito….

Ao chegar na concentração, vimos que os ônibus estavam com seus motores ligados. Todos os sambistas praticamente enlatados com suas fantasias e nós, calmamente, a procurar os nossos benditos costeiros…

Bem, é hora de falar detalhadamente dos tais costeiros.

A minha fantasia era de “pescador encantado” e o costeiro, como eu disse acima, era formado de vários pedaços de ferro que formavam algo parecido com um leque. Na ponta desses ferros era enganchada uma fina corda de náilon, recheada de bolinhas, não tão pequenas, de isopor. Aos lados dos ombros caíam as bolas e dava-se a impressão de uma rede… Aí morava o perigo porque realmente formava uma rede e o peixe, no entanto, era eu.

Ao formar a ala, fui percebendo que a minha “rede” estava apta a enroscar em todas as redes do caminho. Poderia pescar, se quisesse…

A cada passo pelas ruas que davam ao sambódromo eu ia me especializando em me enroscar e aquela situação ia me dando calafrios. Há, ainda, um detalhe importante: era impossível me desvencilhar sozinho quando enredava algum colega de profissão, ou seja, outro pescador. Era necessária a presença da “mãe d’água” (mulheres da nossa ala) para fazer o papel da “desatadora dos nós”.

Rojões ao céu e o grito de guerra a ecoar quando ouvi a sirene ensurdecedora de uma ambulância. Imediatamente me desconcentrei e, obviamente, pesquei meu vizinho.

A ala toda se abrindo para ambulância passar e de repente percebi que todos os pescadores e mães d’águas miravam para a minha direção. Eu espantado e enroscado não sabia o que fazer…

– Pô, Cara, não tá vendo a ambulância?

Eu estava, nada mais, nada menos, que em frente ao portão de saída, enroscado ao meu colega. Meio desajeitado, dei um sinal para que desse um passinho pra frente e, como num passo sincronizado de balé, fomos os dois pra direita e a ambulância seguiu no seu desespero rotineiro.

A coreografia montada sobre o samba-enredo determinava que em certo momento todos dessem um giro de trezentos e sessenta graus. Pois é, vocês já podem imaginar o que aconteceu na hora do giro na ala dos pescadores… Isso mesmo, foi bolinha de isopor pra todo lado.

Que sufoco!

Além de tudo, eu estava numa das extremidades da ala e não parava de ser chamada a minha atenção por uma das dirigentes da ala.

– Você enroscou porque não prestou a atenção e está muito perto do seu companheiro!

– Não saia da ponta, não pode haver buracos na ala!

– Cante o samba, vamos!!!

Em meio a tanto estresse eu sambei, cantei, enrosquei, pesquei e me diverti.

O único problema é que a escola não ganhou o título porque perdeu 0,25 pontos na harmonia. A pergunta que não quer calar:

– Será que a minha pescaria contribuiu para a perda?

Mulher quer é gol

Quem disse que mulher não entende nada de futebol, das duas uma: ou não entende de futebol ou, pior, não saca nada de mulher. Sigam-me as boas. Quando o cara é um baita de um prego o que você faz? Joga para escanteio, não é? E quando o bacana dá uma pisada, você não o coloca na marca do pênalti? Se chiar ainda corre o risco de receber cartão vermelho.

Mulher não quer ter como parceiro um zagueirão retrancado. Prefere um atacante ofensivo que entre pela esquerda ou pela direita… tanto faz, desde que entre. Mulher quer é gol. Esse negócio de bola na trave é coisa para iniciante. Profissional entra com bola e tudo e se gritar na hora da comemoração melhor ainda. Não tem problema se estava na banheira, o que, aliás, já é um adianto. Mulher gosta é de atitude. O que vale é o resultado, o placar. Quanto mais avantajado melhor. Joguinho amarrado, magro de gols, não garante rodada dupla. Se a primeira partida foi na casa do adversário não tem jogo de volta.

Para mulher, toda partida é final. Se o bacana chega com cara de oitavas-de-finais é desclassificado por WO. É como se não tivesse comparecido. Mulher gosta é de emoção. Estádio lotado gritando lê, lêlêô!!! para ela é pouco. Parece exagero, mas é isso mesmo. Craque que é craque pode ir dando tratos à bola e encontrando novas estratégias de jogo. Quatro-dois-quatro, quatro-três-três, quatro-quatro-dois são posicionamentos que já não causam nenhum frisson. É como se o time já entrasse para perder. Mulher entende do riscado, não se entusiasma com qualquer preleção.

Quantas mulheres existem na comissão técnica do nosso valoroso Escrete Canarinho? Ali, dando palpite, orientando, metendo a mão na mesa, dando as cartas. Nenhuma. Depois não reclamem se voltarmos da Alemanha sem a faixa de campeões, ou, melhor dizendo, hexacampeões. Alô Parreira! Quem avisa amigo é.

No final dos anos 50 fizeram uma pesquisa, somente com mulheres, para saber quem elas consideravam ser o melhor jogador do Brasil, Pelé ou Garrincha. Quer saber quem ganhou? É obvio que foi Garrincha. Você já teve a curiosidade de saber o nome da cidade onde ele nasceu? E ainda dizem que mulher não entende nada de futebol. Que besteira. Isso é coisa de machista, coisa de porco chauvinista, para citar uma velha amiga, militante das antigas. Ela vai odiar tudo o que escrevi aqui, e com alguma razão, concordo. O meu trunfo é que de porco ela nunca vai poder me chamar, afinal, sou corintiano. Mosqueteiro. Espada. Se é que você me entende…

Palavrão

Tudo bem que a gente aprende desde pequeno que falar palavrão é feio. Acho isso uma injustiça danada, pois os adultos não nos ensinam as coisas direito. Minha mãe e meu pai sempre falaram que eu tinha a boca suja demais quando era pequeno. Na verdade, meu pai ainda fala isso pra mim. Acho apenas que deveriam nos ensinar que o palavrão é necessário, pois nada define determinadas coisas melhor do que um palavrão. E também nada nos alivia o stress com mais eficiência do que um palavrão bem colocado na hora certa. Claro que vou explicar tudo.

Tá parecendo óbvio que sou um fã incondicional de palavrões e que uso e abuso sempre desse maravilhoso artifício. Acho que todo mundo faz isso, uns com mais moderação outros com menos, mas a verdade é que quase todo mundo fala, e os que não verbalizam, com certeza pensam. Palavrões servem pra tudo.

Vejam as medidas por exemplo: Onde você mora? Se for longe da minha casa é apenas longe, mas se for muito longe, um palavrão exemplifica muito melhor do que muito longe. Poderia falar que é longe pra caralho. Viu? A distância de “um longe pra caralho” é muito maior do que “muito longe”, não concorda? Está com sono? Com muito sono? Muito muito mesmo? Então diga que está com um puta sono que todo mundo vai identificar na hora a quantidade de sono que você está sentindo. Puta sono é muito mais do que muito sono. É capaz até de te trazerem um travesseiro para que você durma imediatamente. Claro, desde que seja um puta travesseiro gostoso com plumas de gansos belgas criados na Finlândia. Nem sei se existe gansos na Bélgica, mas tudo desse pais dá um ar de coisa chique.

Existem alguns palavrões que servem tanto para coisas boas como para coisas ruins. Se eu te falar que meu fim de semana foi, digamos assim, foda, você pode pensar que foi uma porcaria como também uma coisa boa. Mas vou ainda mais longe, ele pode ter sido foda nos dois sentidos ao mesmo tempo, ou melhor, em três sentidos ao mesmo tempo. Calma, já vou exemplificar.

Digamos que eu tenha ido para a Costa do Sauipe na Bahia em companhia de uma morena deliciosa. Por ela ser deliciosa você já imagina que foi foda, certo? Nesse caso, literalmente. Posso dizer também que o hotel era lindo e que o tempo estava foda, nesse caso, um sol maravilhoso. E por fim, posso te contar que a conta foi foda. Isso significa que foi caro demais e que será foda pagar a fatura do cartão de crédito. Viu só? Uma semana e três fodas diferentes.

Outra coisa que a gente faz o tempo todo é comer porcaria, sem dar conta de que isso acontece pelo menos uma vez por semana, caso você seja daqueles que se alimenta fora de casa com freqüência. O restaurante é bonito, mas a comida é uma merda. Ou seja, comemos cocô.

Livros, crônicas, revistas e outros tipos de leitura também têm seus sinônimos em forma de palavrões que podem ser positivos ou negativos. O novo livro do Marcelo Mello é uma bosta. Ou ainda, o livro é um tesão. Não sei quem transa com livros para acharem um simples calhamaço de papéis um tesão, mas enfim… tem louco pra tudo nesse mundo. Agora chega, cansei de escrever essa porra.

Mulher Desesperada

E a mulher lutou muito para obter direitos iguais, os mesmos salários, as mesmas oportunidades, as mesmas possibilidades de trair, etc. E ela chegou lá. É claro que ainda tem que trocar as fraldas de cocô, fazer o almoço de domingo, mandar a empregada gostosa embora e ir às reuniões pedagógicas na escola do filho ao meio dia quando tem milhões de coisas pra fazer! Mas a mulher está muito bem! Muito segura de si, muito orgulhosa! Feliz!

Na boate, lá pelas tantas horas e tantas cervejas…

– Oi.
– …
– Tudo bem?
– …
– Qual o seu nome?
– Mariana.
– …
– …
– Você vem sempre por aqui?
– …
– Você estuda, trabalha?
– Eu faço faculdade.
– Ah… De quê?
– De Administração.
– Eu faço medicina.
– Ah…
– Você veio sozinha?
– Não. Vim com amigas.
– Entendo… E tem namorado?
– Por que?
– É que…
– Ah?
– …
– Pode falar. Não fique tímido.
– …
– Não tenho namorado. Estou disponível, aberta a novos relacionamentos e pronta para outra…
– Claro. Eu só queria saber…
– Não que eu ache que os homens não prestam. É que meus últimos rolos e ex-namorados foram bem sacanas comigo e…
– Olha, eu…
– Eu sei que você vai dizer que é diferente, que nem todos os homens são iguais, mas vai ter que sambar muito pra me provar isso,viu, e…
– Deixa eu falar…
– Não. Peraí! Eu sei que nem todos são iguais, mas quer saber? Parece até que existe uma irmandade ou fraternidade oculta na crosta terrestre e que todos vocês, homens e ratos, vão pra aprender como maltratar e magoar as mulheres. Um dia eu entro lá disfarçada e pego todos no flagra!
– Mariana?
– Sabe o que é pior? É que vocês não podem ver um rabo de saia e já ficam doidos. Por que vocês não conseguem ser fiéis? Vocês entendem o que é amor?
– …
– Sabe, é por isso que não acredito em casamentos! Depois que casam, vocês, ratos, só querem que a mulher fique atrás do fogão enquanto vocês saem pra pegar as menininhas que tem idade para serem sua filha! E mais… Chegam em casa com a cara lavada e ainda querem sexo!
– Eu… Bem…
– Sexo! Vocês só pensam nisso. Só pensam em conversar com uma mulher quando querem fazer sexo! Custe o que custar. E aí, quando eu ficar gorda e velha você vai procurar sexo na rua, não é?
– Ah… Bem… Eu… Eh…
– Ta vendo? É isso mesmo. Ficou até sem fala! Viu só? Homem é foda!
– Desculpe, Mariana. Eu só queria te conhecer… Tchau.
– …

– Viu aquele carinha ali, Roberta?
– Sim. Ele tava te cantando?
– Hã! Cantando! Ele queria transar comigo! E aí foi só eu começar a conhecê-lo melhor pra saber que é um crápula! São todos iguais!
– É…

O telefonema

_Bom dia. Você ligou para a VERDA Telefonia Celular. A melhor em todo o território brasileiro. Se você já é um de nossos clientes, digite 1. Se você…
_1!
_Digite o número de seu celular começando pelo DDD, seguido de estrela.
_(15) 9129XXX3*
_Por favor, aguarde. Estamos transferindo a sua ligação para um de nossos atendentes.
(“…se eu não te amasse tanto assim…”)
_Não é possível, o que esses caras fazem? Tricô? ATENDE, C*!
(“…talvez eu visse flores… deeeeeeeeentro de mim…”)
_VERDA Telefonia Celular, 5% de desconto em chamadas internacionais, Juliana falando, bom dia, em que posso ajudar?
_Alô, bom dia, é o seguinte: já tô esperando vocês me atenderem a mais de meia hora; eu tô com pressa, preciso trabalhar! Chegou uma conta enorme para eu pagar, sendo que não fiz essas ligações. Tem até chamada para a África, não conheço ninguém lá!
_Qual o seu nome, senhor?
_João.
_Por gentileza, Seu João, poderia estar falando o número do seu telefone?
_Mas eu já digitei ele quando a gravação pediu!
_Mas preciso dessa informação, senhor.
_Mas para quê então vocês pedem para discar o número do celular no início da ligação?
(silêncio)
_Senhor João, poderia estar passando o número do seu telefone?
_Meu Deus do céu, você é surda? Por que não responde `as minhas perguntas?
_O senhor que não respondeu ainda, por favor, me fale o número do seu telefone,
_Arrrr… (15) 9129XXX3.
_O celular do senhor é pré ou pós pago?
_Minha filha, se eu falei que tenho que pagar conta, o que…
_Senhor, aqui consta que o senhor não pagou a última conta.
_Mas meu São Cristóvão, a senhora não ouviu o que eu falei? A conta veio errada, eu não vou pagar!
_Então não posso estar te ajudando, senhor.
_Escuta aqui mocinha…
_Juliana.
_Escuta aqui, Juliana, você é paga para quê?
_Para atendê-los bem, senhor.
_Tô vendo que você pode ser demitida por justa causa então.
_Aguarde 1 minuto, senhor, vou transferir a ligação para o setor de pós pago.
_Mas moça, por que você me fez esperar todo esse temp…
(“Oh! Don’t yo gooo… Stay with me one more daaay…”)
_Almeida, setor de pós pago, com quem falo?
–Almeida, pelamordedeus, eu já expliquei prá mocinha toda a história, não me diga que vou ter que repetir tudo?
_Com quem falo?
_João.
_João do que?
_Ai… João Senegal.
_Qual o número da sua linha?
_DE NOVO?
_Por favor, qual o número do seu telefone?
_(15) 9129XXX3.
_Aqui consta que o senhor não pagou a última conta.
_EU SEI DISSO! POR ISSO ESTOU LIGANDO!
_Então não deveria ser a gente ligando apar o senhor? Afinal, o senhor nos deve uma bolada!
_Realmente, a única coisa que estou pensando é em te dar uma bolada…
_O senhor está com problemas financeiros? Podemos parcelar esse pagamento…
_NÃO! A conta veio errada, eu não conheço ninguém na África! Por isso não vou pagar!
_Mas o senhor não se chama João Senegal?
__Sim, e o que tem isso?
_Senegal não fica na África?
–AAAAAAAAAA!!!
_Por favor, soletre Senegal para que eu localize no mapa.
_Grfjoiad….. S de sapo.
_De saco?
_Não, de sapo, com P de pato.
_Como?
_What ever!
Senhor, por gentileza, utilize nossa lingual nativa, brasileira, não Africana.
_Como se soletra VERDa, hein? Com M de Merd…
_Como, senhor?
_Olha só, eu já tô de saco cheio. Vou pedir pela última vez: Meu nome é João Senegal, com S de sapo, sou brasileiro, não conheço nenhum africano e recebi uma conta errada. Por favor, corrijam o erro e mandem a conta certa para que eu possa pagá-la.
_O senhor possui qual plano?
_O de 250 minutos.
_Ah, sim. Por favor, aguarde um minuto na linha, estarei transferindo sua ligação para o departamento responsável.
_NÃÃÃÃÃÃOOOOO!!
(“…se chorei ou se sorri… o importante é que emoções eeeeeu viviiiii…”)

Atlas

Chegou a hora que ele mais gostava.

Depois de um dia longo de trabalho, um banho rápido numa bacia e uma sopa rala, ele acende a lamparina e começa a folhear mais uma vez as páginas do Atlas já velho e amarelo não só devido ao tempo, mas às mãos sujas também.

Jamais leu um livro, revista ou jornal inteiro, achava muito chato. Seu Atlas, porém, só era chato nos pólos, pensava. Encontrou-o numa montanha de entulho há mais de duas décadas e desde então, é uma fissura enorme para que cada noite chegue o quanto antes.

Conhecia todos os cantos do planeta, cada ilha, formação rochosa ou golfo. Capital da Suazilândia? Mbabane. A segunda maior ilha? Sumatra. A profundidade do mar amarelo? 91 m. Riu sozinho se perguntando qual o idiota teria dado um nome tão ingrato para a capital da República Tcheca ou se foi mesmo um mascate quem fundou a capital de Omã.

Nunca pensou em visitar qualquer um desses lugares. Ele sabia como eram. Cidades são pontos ou quadradinhos; uns pretos, outros vermelhos. O que há mais para se conhecer nelas? Nada, não vale a pena ir, dizia.

Gostava mesmo era de viajar de uma cidade à outra, sem norte ou limite de páginas. Por um tempo usou as ferrovias, mas de uns anos pra cá seguia pelas estradas. Mais opções para ir e vir e, além disso, gostava da cor. São como sangue correndo pelas veias do mundo.

E lá se vai o dedo indicador a 2.000 Km/h entre Berlin e Varsóvia, de lá para Bucareste, Istambul, Ancara… Ficava assim sozinho, horas a fio com o mundo inteiro, matando sua depressão.

Pegou no sono provavelmente quando chegava a algum lugar da China. Dormiu como uma pedra. Acordou junto com a aurora, lavou o rosto, tomou café e o único caminho que realmente conheceu na vida. De casa para o trabalho, distante 2 km.

Andou devagar sem olhar para os lados, como se carregasse o peso do céu nas costas.

O Hipotálamo

Quando começaram a namorar, um dos motivos que fez com que ficasse caidinho da silva foi o fato dela ser tão organizada com seus horários. Nunca havia visto uma pessoa assim, com essa força de vontade e disciplina.

Claro que os olhos verdes e as pernas bem feitas também ajudaram, mas isso é detalhe. Não suportaria viver com uma mulher que não soubesse colocar ordem em seu quarto, o que dirá na própria vida.

E então o sorriso liso e os longos cabelos encaracolados contribuíram para que aquela paixão pegasse fogo. Era a mulher de sua vida, definitivamente.

– Não, hoje não posso. Você sabe, depois das onze e meia, cama.

Não demorou muito a descobrir algumas desvantagens. Noite de sábado, ele queria levar aquelas pernas e o sorriso para passear, mas não, só se fosse mais cedo. Onze e meia o alarme tocava e o prazo era improrrogável.

– Só meia horinha. Amanhã você dorme até mais tarde.

Em vão. Nem os sábados escapavam. O que dirá os domingos?

– Um churrasquinho inocente. O que tem de errado?
– O problema não é o churrasco. É o horário.
– Mas você não pode só uma vez na vida almoçar às duas? É domingo!

Mas não, nem adiantava argumentar. Uma das outras qualidades que fez com que ele se apaixonasse por ela foi a sua determinação. Um ano e alguns meses depois, a determinação virou teimosia. Ah, o tempo… impiedosamente, o tempo apaga as chamas e deixa os restos do incêndio ali, os escombros escancarados, e tudo se transforma, inclusive os pontos de vista.

Certa vez, tiveram uma briga terrível e chegaram a pensar em romper. Os olhos da menina pareciam duas lagoas cheias de água até a borda, e o verde das íris quase foi engolido pelo vermelho que o contornou. E, embora a paixão estivesse esquecida, o amor continuava forte. Ele não queria, percebeu que não queria, viver longe daquela pele que, de tão branca, parecia aveludada.

– Tudo bem, eu lhe conto a verdade, explico tudo.

Nunca pensou que houvesse um segredo entre eles, embora não tivesse contado que aquele troféu que guardava na sala de sua casa, do campeonato de futebol infantil, havia sido conquistado quando ele fazia parte do banco de reservas.

– Explicar o quê?
– Eu só obedeço a ordens. É ele que me manda fazer tudo isso.
– Ele quem? Fazer o quê?
– Acordar às oito, comer ao meio-dia, depois às quatro e depois às sete. Até ir ao banheiro… bem, não queria dar detalhes assim, tão sórdidos, mas até o horário de ir ao banheiro, eu desconfio que seja ele quem controla.
– Mas ele quem???

A menina não tinha pai, havia sido criada pela mãe, que não se casou de novo. Nenhum padastro, portanto. Sem irmãos. Os avôs haviam morrido quando era pequena. Não encontrou qualquer possibilidade entre a família de haver um homem que mandasse nela assim. O ex-namorado talvez… não, ele mataria o cafajeste!

– É aquele seu ex, não é? Aquele cara do brinco. Ah, mas eu acerto as contas com ele, de hoje não passa!
– Não é nada disso. Nunca mais vi o Esquilo.
– Então quem diabos é ele?
– Promete que vai ser compreensivo?
– Prometo. Agora responda: quem é?
– O Hipotálamo.

Depois de um breve silêncio recheado de interrogações, ela resolveu continuar a explicação.

– Você conhece, né? O Hipotálamo.

Ele não conhecia. Estudava Economia há três anos, entendia tudo de mercado de capitais e variações cambiais, mas, decididamente, o Hipotálamo não conhecia.

– Quem é esse cara? Quem é???

E antes que ele ficasse furioso e começasse a quebrar o apartamento, ela tratou de contar tudo. Havia sido apresentada ao talzinho nas aulas de Medicina e sua vida nunca mais foi a mesma desde então. Não, não precisa ficar com ciúmes, bobo. O Hipotálamo faz parte de mim, está aqui dentro. Não adiantou. Ele só ficou com mais ciúmes ainda. Até que enfim, a menina resolveu dar informações técnicas.

– Está no meu cérebro, faz parte da Hipófise, uma glândula-mãe que regula grande parte das funções hormonais do corpo. Por exemplo: é o Hipotálamo que tem a função de cuidar de perto do sono-vigília, ou seja, regula a hora de dormir e de acordar.
– E eu não tenho esse Hipotálamo?
– Claro que tem, todos nós temos.
– Pois eu é que mando no meu. Grande bobagem! Deito e durmo em qualquer lugar, não tem hora marcada.
– Pode ser, mas o meu é temperamental. Ou faço tudo como ele quer, ou estou perdida.

Foi estranho aceitar que aquela menina que parecia tão forte e decidida, na verdade era uma completa submissa a esse misterioso Hipotálamo. Um pau mandado, isso sim. Não gostou nada daquela história, e chegou a desconfiar dela. Mais lágrimas depois, a menina dos olhos verdes lhe deu um livro enorme, com não sei quantas páginas descrevendo o dito cujo. Então ele começou a entender melhor aquela história, ao menos era científico. E contra a ciência, que diabos? Estava lá, nos livros, não era algo a ser contestado assim. Vai ver que a teimosia toda nem era culpa da menina, o grande vilão da história era o bendito Hipotálamo!

Ainda tentou levar a história adiante e ser compreensivo como havia prometido, mas aquilo era demais para ele. Não poderia conviver com um terceiro naquela relação. Gostava muito da menina, sofreu horrores quando terminou tudo. O problema não era ela, entende? Só não podia separar aqueles dois, um não viveria sem o outro, literalmente. Se ainda houvesse uma possibilidade, qualquer possibilidade… mas não, ele teve que se resignar e aceitar o fato de que se casasse com a menina do nariz de boneca e pele de veludo, não estaria levando somente ela para a sua vida. Teria que aceitar definitivamente aquele Hipotálamo e não sabia se estava preparado para isso. Já pensou se o talzinho resolvesse lhe dar ordens também? Pior: se resolvesse ensinar ao seu como é que deveria agir? Não, não queria correr esse risco. Gostava de sua vida assim, com ele no comando de tudo.

É verdade que de vez em quando chegava a desconfiar da complacência do seu Hipotálamo. Com o da menina não tinha remédio, nem brincadeira. Era tudo ali, na risca. Será que o seu era assim, tão relaxado, de propósito? De maneira premeditada, fazia-se de bom companheiro para passar despercebido, mas na verdade, poderia ser só uma estratégia para não haver revoltas. Muito esperto…

Hoje, quando sente os olhos pesarem de sono, ele resiste. E nunca acorda no mesmo horário, nem que seja com um minuto de diferença, para mostrar quem é que manda. Está pensando o quê? Perdeu a mulher da sua vida porque não suportaria viver com um intruso em sua casa, imagine isso, viver com intruso dentro de sua cabeça!

Domingo em Antananarivo

Cheguei ontem à noite, via Johannesburgo. Vôo da Air Madagascar, avião velho e usado, mas limpo, pessoal de bordo gentil; símbolo pintado na cauda, a palmeira em forma de leque. A cara do país.

Aeroporto modesto, espera-me o Monsieur Leonnel, que jamais respondeu a meus e-mails. Burocrata sério, introvertido. Embarcamos em uma Renault 19 em estado de avançada decrepitude, chego a duvidar que nos leve até a cidade. No trajeto, conversa sobre importações da China, têxteis, concorrência desleal, possibilidades de aumentar tarifas, medidas de defesa. Estrada asfaltada mas sem qualquer sinalização, prédios modestos. Chegamos. Cansaço. Apanha-me no hotel segunda-feira, 8:00 da manhã.

Hotel Colbert, colonialismo moderno francês. Decoração francesa, com leve sotaque local. Exotismo light.

Café da manhã. Croissant de verdade (1 só, promessa). Croissant é teste fatal. Só francês sabe. Suco de grenadelle = maracujá.

Bermuda, tênis, óculos escuros, uniforme de turista. Direção ao mercado. Ambulantes em quantidade oferecem jornais, frutas, artesanato, algumas crianças pedem esmola. Coleção de estandes de alvenaria, telhas francesas, tetos pontudos, quase orientais. Transição entre África e Ásia, como os genes locais. Formas tradicionais (tetos inclinados das cabanas), materiais europeus (pedra e cimento). Belo conjunto arquitetônico, equilíbrio de linhas e volumes.

Escadas entre casinhas, quase barracos, ladeiras. Rumo ao Palácio da Rainha Mankamiadana, meados do séc XIX. Edifício quadrado, 4 andares altos, torres quadradas salientes nos quatro ângulos. Domina a cidade. Elementos decorativos clássicos. Ruínas, incêndio em 1995. Reconstrução lenta, parada. Não troquei dinheiro para comprar entrada (2500 Ariary = 1 Euro). Choferes de táxi na entrada, bela sombra de um imenso jacarandá, matam o tempo jogando pedrinhas em um tabuleiro riscado no cimento do beiral. Pedrinhas brancas e negras. Meninos oferecem visita guiada. Que jogo é esse? Uma espécie de damas. Venez, Monsieur, quer aprender a jogar? Chama-se Fanorna (fa-nú-rn). Regras simples, mas infinitas possibilidades de ataque e defesa. Um deles explica: antigo jogo hebraico (as linhas do tabuleiro formam estrelas de David), trazido há séculos por mercadores judeus e árabes. Sobrevive no Madagascar, popularizado pela nobreza, treino de estratégias de batalha. Monsieur vem de onde? Brasileiro – futebol, Ronaldo, um cantarola Aquarela do “Brasil, Brasil…”. Quem diria, Ary Barroso no Madagascar. Repasso as regras de movimento das pedras. Me desafiam para uma partida. Empate, sorte de principiante – ou gentileza com o estrangeiro. Observo os outros, jogam rápido, a cada movimento muitos palpites em malgaxe, língua estranha, sonora. Todos bilíngües. Jogo termina com a chegada de dois orgulhosos galos de briga, seus donos igualmente. Limpam o chão de terra – só treino. Combate mais tarde, com direito a sangue e apostas. Meu irmão Walter no Madagascar.

Continuo o passeio, esplanada com belíssima vista para a cidade, colinas. Demoro-me. Mendigo levemente alcoolizado puxa conversa, sente pena de ver monsieur sozinho olhando paisagem. Oferece-me rum local no gargalo. Non, merci. Abre a garrafa, joga um pouco no chão, “pour les ancêtres” – pro Santo (!) – dá vários goles. Bêbado igual no mundo inteiro. Rio sozinho.

Mais abaixo, catedral católica, final séc XIX, rosácea gótica. Multidão em trajes domingueiros (senhoras com finas estolas de seda nos ombros, elegantes; senhores de terno e gravata). Não ouso entrar (bermuda). Pela porta principal, o som de grande órgão, Ave-Maria de Schubert, cantam em malgaxe, grande fervor. A 200 metros, a igreja Episcopal, nova multidão, todos de bíblia em punho. África herdeira e futuro do Cristianismo.

À tarde, Jardim zoo-botânico de Tsimbazaza. Palmeiras e leguminosas estranhas, outras plantas ornamentais populares no Brasil. Evito as jaulas, com exceção da dos lêmures, mistura de gato e macaco. Observo. Dois senhores saem de trás das casinhas em forma de círculo. Sussurram “venez, monsieur”. Entro por um pequeno portão, deve ser proibido. Depois me pedirão umas moedas. É hora de alimentar os bichos. Nomes científicos (“macaco fulvio” !), várias espécies, pequenos, maiores, impressionantes olhos verdes, outros olhinhos azuis muito claros, lindas pelagens, uns com coroas brancas, douradas, todos com pequenas patas, mãozinhas, cinco dedos, lambem mel dos dedos do senhor mais moço. O mais velho acaricia os bichos fora das jaulas: são monogâmicos, têm poucos filhotes, às vezes nascem gêmeos, algumas poucas espécies têm ninhadas. Fêmeas, sempre de pelagem mais clara, dominam os bandos. O senhor mais moço, com orgulho: só existem no Madagascar, são únicos. O mais velho retruca: cada um é único.