Categoria “Especial Glauco Mattoso”

MICRÔNICA [#12]

Pouca gente se lembra (até porque algum lobby assim prefere) que, se Ariel Sharon tem no sobrenome irônica semelhança com a palavra “shalom” (paz), tal semelhança parece ainda mais contraditória no sobrenome de Avraham Shalom, que nos 80 chefiou uma polícia secreta israelense chamada de Gestapo pelos palestinos e de Shin Bet pelos judeus. Na época foi abafada a denúncia de que os agentes do Shin Bet costumavam pôr em prática uma norma interna segundo a qual os palestinos deviam ser intimidados pela humilhação e obrigados a lamber os sapatos dos judeus sempre que enquadrados em qualquer patrulhamento rotineiro. Dizia-se que o ato de pisar na cara do inimigo era um gesto de superioridade previsto no texto sagrado. Não procurei na fonte hebraica, mas no Velho Testamento achei uma passagem (Isaías 49:23) alusiva ao domínio judaico, profetizando que “Reis serão os teus aios, e rainhas as tuas amas; diante de ti se inclinarão com o rosto em terra e lamberão o pó dos teus pés…” (citação que aproveitei no “Soneto Sionista”). O fato é que, na ocasião, a imprensa mundial divulgou (aqui saiu até na VEJA) fotos tiradas por Joel Kantor exibidas num museu de Jerusalém, nas quais um agente judeu punha o tênis no pescoço e no rosto dum civil palestino que lhe servia de capacho. Como vexame extra, a vítima fora obrigada a olhar para a câmera. O fotógrafo israelense acirrou a polêmica quando declarou: “Se você quer viver seguro dominando um milhão e meio de árabes, alguém tem que fazer o serviço sujo”. Quanto a Shalom, mesmo acusado de mandar torturar e executar prisioneiros palestinos, simplesmente demitiu-se e foi perdoado pelo então presidente Chaim Herzog. O tênis do policial judeu me excitou a ponto de quase me oferecer para lambê-lo no lugar do cidadão muçulmano, mas minha fantasia se satisfez com outro costume bíblico: dar um pé de sapato como sinal ao fechar um contrato, ao que respondi com o soneto abaixo. Deixo para outra vez minha homenagem ao pé do muçulmano.

SEGUNDO SONETO JUDAICO

Em Ruth expressa está a podolatria
num ato de comércio entre os judeus:
O sócio entrega ao outro um pé dos seus
calçados, em sinal de garantia.

A própria Ruth, serva crente e pia,
humilha-se ao seu homem como a Deus:
Estando ele nos braços de Morpheus,
deitava-se aos seus pés e ali os lambia.

Se tal costume aqui estivesse em voga,
eu só negociaria com alguém
que freqüentasse a minha sinagoga.

Mas isto aqui não é Jerusalém,
e o cego, que é podólatra, a Deus roga
o pé dum brasileiro, mesmo. Amém.

///

GLAUCO MATTOSO é poeta, letrista, ficcionista e humorista.
Seus poemas, livros e canções podem ser visitados no sítio oficial: http://sites.uol.com.br/glaucomattoso

Sugestão: aproveite para conferir o Dicionarinho do Palavrão, de Glauco Mattoso, à venda no Submarino.

MICRÔNICA [#11]

Tenho a impressão de que a consciência da nacionalidade é tanto maior quanto menor for o território duma nação. Portugal e Cuba são bons exemplos, pelo menos nas glórias e vanglórias literárias. O mesmo parece valer para estados dentro de países muito vastos, até como indício de preservação cultural local contra uma diluição artificial tipo macumba para turista. No caso brasileiro, o cartão postal, quando não é praia e morro, é baiana vendendo acarajé na roda de capoeira ou canoinha perdida num rio cercado de selva tropical. Tudo bem, mas e os Pampas? E a Oktoberfest? E a festa do peão? E o Pantanal? E a caatinga? Também para consumo interno algumas regiões puxam com mais êxito a brasa para sua sardinha quando se trata de inventariar o que seria uma suposta brasilidade. Até as palavras soam como que cunhadas para ter sentido: mineiridade, baianidade, por exemplo, traduzem uma carga valorativa da qual o brasileiro tem quase que obrigação de se orgulhar. Já “paulistidade” é estranha ao ouvido e ao dicionário, como se prevenisse ser coisa feia alguém se orgulhar de São Paulo. “Paulistanidade”, então, é palavrão cabeludo. Engraçado, né? Por que será que o baiano é incentivado a se gabar das boas coisas de sua terra e o paulista se envergonha de fazer o mesmo? Mais curioso ainda é que, quando um paulista perde a vergonha e se gaba, os brasileiros de outros estados não lhe dão o mesmo crédito que dão ao baiano. Não bastante, os baianos e outros brasileiros que vivem em São Paulo falam mal do estado e da capital. Por que será? Enquanto os sociólogos do IBGE não oferecem uma tese conclusiva sobre essa má vontade contra o patinho feio da federação (que em vez de virar cisne se revela uma galinha dos ovos de ouro), eu, que já fui à Bahia e já vi in loco o que é que o baiano tem, resolvi fazer coro ao resto da nação e ao próprio mano soteropolitano. O Senhor do Bonfim sabe o quanto é sincera minha homenagem neste soneto do livro PANACÉIA:

SONETO 338 BAIANO

Caymmi já cantou. Não quero tanto.
Gregório poetou. Apenas sigo.
Amado descreveu, e estou contigo:
é tua terra altar de todo santo.

Me toca o berimbau. Me encanta o banto.
Retoca o pelourinho meu castigo.
Atrás do trio elétrico me instigo:
sou pós-tropicalista, e aqui te canto.

Baiano, tens meu sonho e meu tesão:
bananas, cocos, caras, cores… yes!
Pirocas, carurus, cuscuz, pirão…

Moquecas, vatapás, acarajés…
Delícias que, de longe, abaixo estão
do gosto salgadinho dos teus pés!

MICRÔNICA [#10]

Todo 25 de janeiro a TV Cultura tem inserido na programação poemas celebrando a cidade, declamados por vozes aclamadas, entre os quais meu soneto “Ao Metrô”. Resolvi compor outro soneto, mais a propósito, depois de constatar que São Paulo não aniversaria apenas em janeiro. Afinal, datas como 25 de março, 7 de abril, 24 de maio, 29 de junho, 9 de julho, 11 de agosto, 7 de setembro, 12 de outubro, 15 de novembro e 3 de dezembro evocam fatos que, direta ou indiretamente, têm relação com a cidade e, por conseguinte, com o país. Se fevereiro fica de fora é por ser mês de férias e de carnaval, coisas que não condizem muito com a capital do trabalho. Já maio, mês do dito, além das mães e das noivas, tem tudo a ver conosco. São Paulo é mãe para quem aqui nasceu, mãe em cujo coração sempre cabe mais um adotivo — ainda que seja desnaturada e muitos filhos lhe sejam ingratos. E é noiva dos poetas que, como eu, não desistem do compromisso — ainda que fique para tia, cada vez mais decadente e decaída. Para alguns, uma Tiazinha, que se mascara e trata a todos com chicote. Para mim, está mais para Tia Nastácia, a serviço duma Dona Benta federal e desrespeitada por Emílias, Narizinhos e Pedrinhos estaduais. Se Lobato fosse vivo, além de O PRESIDENTE NEGRO teria escrito A GOVERNADORA NEGRA e O PREFEITO NEGRO, enquanto seu Yellow Woodpecker’s Site já estaria sendo visitado virtualmente. Aos poetas restaria escrever O CIDADÃO NEGRO, cuja maternal estátua no largo do Paissandu (ainda estará lá?), somada ao Marco Zero e ao Pátio do Colégio, daria o panorama monumental da pluralidade étnica na edificação da metrópole. Maior capital nordestina fora do Nordeste, maior cidade fora do Primeiro Mundo, maior aglomerado humano fora do Planeta, São Paulo completa anos-luz a cada fração de segundo. Merece aniversariar todos os dias, inclusive no Zero de Zerembro. Inédito em livro, este soneto é, portanto, permanentemente oportuno:

SONETO 501 URBANIVERSADO

Feliz aniversário, Paulicéia!
Do Pátio do Colégio ao infinito,
o imenso não é feio nem bonito:
darás de megalópole uma idéia?

Tens cara de africana ou de européia?
Tens árvore de figo ou de palmito?
Tens catedral de taipa ou de granito?
Tens flor? É rosa, hortênsia ou azaléia?

Te tornas, ano a ano, mais mudada:
quem chega não se encontra com quem parte;
a rua não se avista da sacada.

Poetas não têm jeito de saudar-te;
tu, pois, que cantes, antes de mais nada,
que és obra, em fundo e forma, in progress: arte!

MICRÔNICA [#9]

Quando enxergava, lembro de ter visto na TV uma reportagem policial bem escabrosa mas que me rendeu dividendos excitantes. A notícia em si era broxante: aqui mesmo em Sampa, um homossexual enrustido (barbudo e com pinta de machão), que levava michês para casa, foi achado morto em seu apartamento. Das perfurações de arma branca o corpo sangrou muito (creio que houve luta) e o assassino, descalço, pisou nas poças e deixou pegadas pelo chão. A perícia, então, registrou a pista e por ali começaram a investigar. Todos os michês da área foram “convidados” a cadastrar seus pés para comparação. Em vez de “tocar piano”, deixando impressões digitais numa ficha, dançaram aquela música “Ai bate o pé, bate o pé, bate o pé…” e deixaram a impressão plantar num inusitado álbum podográfico que, para mim, revelou-se pornográfico quando a TV mostrou algumas das solas cadastradas. Parece que a polícia chegou ao culpado, mas o que me chamou a atenção foi o pé chato dum dos inocentados, cujo formato era tão reto que supriu minhas punhetas durante longo tempo, fissurado que sou pelos arcos caídos. Claro que não fui atrás, mas só o fato de saber que havia uma tábua daquelas disponível na praça aumentava minha alegria de viver. Não generalizo, mas ao compor o soneto abaixo (ainda inédito em livro) não pude deixar de lembrar daquele caso particular, cuja ameaça paira sobre todos os gays que decidem passar da fantasia à prática.

SONETO 505 MICHETADO

Mais serve ao cavalheiro do que à dama.
Mais jovem aparenta que o cliente.
Mais másculo se diz do que se sente.
Quer ser mais que um garoto de programa.

Nem tudo que combina faz na cama.
Se dá não quer. Se come não é quente.
Se chupa não engole. Se o diz, mente.
No par sempre é mamado. No bar, mama.

Seu pênis é mais canto que instrumento.
Seu tênis é maior do que seu pé.
Seu riso é menos gozo que lamento.

Aluga o que não tem e o que não é.
Mas cobra a fantasia e, ciumento,
“Amor!” espera ouvir, pago ao café.

MICRÔNICA [#8]

Quando Flávio Prado era repórter do Sylvio Luiz na TV Record, fez matéria comigo e me filmou cheirando seu pé, ao que Sylvio comentou no ar: “Pezinho que mamãe beijou, vagabundo nenhum põe a boca!” Na verdade, eu tinha dito ao Flávio que não quero beijar o pé do Sylvio (e sim do Serginho Chulapa, mas isto é outra história), porém o Sylvião não perdeu a deixa de elogiar a mãe, coisa que todo mundo, inclusive os árbitros do futebol, nunca esquecem, pelo menos quando o dia delas se aproxima. A recíproca, claro, é mais verdadeira ainda: até a mãe do João Gordo foi vista declarando ternura pela fofura do filhinho, tal como fez a mãe do Joey Ramone, se “gabbando” da belezura do seu baby numa entrevista. Excepcionais são casos como o do filme “Jogue a mamãe do trem” ou daquelas mães solteiras brasileiras que andaram jogando bebês vivos no lixo. O mais comum é a chantagem emocional de parte a parte, como naquela piada sobre a diferença entre a mãe italiana e a judia (a primeira diz ao filho: “Limpe o prato, senão eu te mato!”; a segunda diz: “Limpe o prato, senão eu me mato!”), mas todas as manhas são relevadas em nome do valor maior que seria o amor, materno ou filial. Tem gente, inclusive, que acha ser este o único amor possível e real, diante do qual não vou ser eu o estraga-prazeres a contestar. Portanto, aí vai minha homenagem a todas as mamães de vistas grossas, inclusive a minha, que não tem olhos mais cegos que os meus. O poema está no livro GELÉIA DE ROCOCÓ:

SONETO 325 MATERNAL

Xodó como o de mãe não tem igual.
Tem dó do filho mesmo se ele for
um Chico Estrela ou Jack, o Estripador.
Beijinhos dá no monstro mais brutal.

Da mãe mama e desmama um animal.
Um filho não quer só dever favor:
quer vir a ser do amor merecedor,
ainda que se incline para o mal.

Algumas mães são casca de ferida,
piores do que o filho que lhes puxa.
Herdar pendor materno é lei da vida.

O gordo é procedente da gorducha.
Político é rebento da bandida.
O mago é primogênito da bruxa.

MICRÔNICA [#7]

Maio sempre abre com manifestações comemorativas e reivindicativas do proletariado, mas pouco se fala do chamado “campesinato”, mesmo depois de todo o barulho que o MST conseguiu espalhar. Em termos emblemáticos, celebra-se muito mais o martelo que a foice. Sem dúvida uma falha publicitária do movimento, cujo marketing tem se aperfeiçoado tanto, a ponto de furar o bloqueio israelense e visitar o QG de Arafat logo após ter invadido a fazenda presidencial sem que os serviços de inteligência tivessem tempo de abortar a operação. Mas sempre é tempo de mudar de tática e renovar a propaganda. Mesmo que a foice não seja um símbolo tão popular por aqui quanto a enxada, pode-se meter a foice alheia na nossa seara e criar slogans tipo “Briga de foice no claro” para ocupações diurnas com cobertura da mídia. Ou: “Mais vale ser martelo que bigorna, mas é melhor ceifar que malhar em ferro frio.” Por falar em lemas e dilemas, o movimento tem um belo pepino filosófico para resolver: é internacionalista (Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!) mas se opõe à globalização. Apóia os muçulmanos no Oriente Médio e os narcoguerrilheiros na América Latina, mas a lei islâmica condena traficantes à morte (exceto os papouleiros do Talibã)… Enfim, como as contradições e incoerências não são privilégio desta ou daquela ideologia, vale festejar o Dia do Trabalho, seja ficando sem trabalhar, seja trabalhando na luta contra o patrão que desfruta o feriado. Quanto aos lavradores, os palavradores como eu só têm a colocar, entre a foice e o martelo, uma pena em forma de espada, ou de alfinete, caso deste soneto do livro PANACÉIA:

SONETO 370 SEM-TERRA

Não há justiça agrária sem reforma,
repete o campesino rebelado.
“Ou cedem-me o terreno, ou eu invado!”
E o latifundiário se inconforma.

Marxismo primitivo, mas em forma:
Com práxis de guerrilha, lança o brado,
sitia, ocupa, pilha a safra, o gado,
arrepiando o estado, a lei, a norma.

Revolução começa pelo campo
e acaba na cidade, onde se junta
à massa de manobra a mão sem trampo.

No ar, só paira a histórica pergunta
que o inepto agente capta pelo grampo:
“Quem disse que a utopia era defunta?”

MICRÔNICA [#6]

Ao Brasil não falta tamanho, mas parece faltar lugar. Em matéria de habitação, todo mundo tira de letra, ou muda de letra, ou bota mais letra, já que sempre cabe mais uma. Do sapê ao apê, do barraco ao barranco, o brasileiro não mora: mura; não habita: se habitua. E como tudo é relativo neste mundo, serve de consolo que, se aqui um apartamento mais parece apertamento, no Japão os primeiro-mundistas, com todo seu poder aquisitivo, dormem engavetados em paredes coletivas por falta dum espaço que qualquer terceiro-mundista bem mais pobre (como eu) tem de sobra a preço muito menor. Claro que acho minha taxa de condomínio escorchante para um caixote de cimento, mas prefiro pagá-la com sacrifício a ficar ao relento. No verão meus vizinhos parecem preferir passar a noite na rua a suportar um quarto abafado, mas quando chega o inverno ninguém inveja aqueles que dormem na rua por falta de opção. Nessas horas todos se lembram do indigente, mas só para sentir o alívio de não estarem no lugar dele, ou antes, na falta de lugar. Do outro lado, o consolo é que, ao menos, os desabrigados já não se consideram tão desobrigados e começam a ter consciência de que a casa própria é uma causa própria. Ainda que dependa de desapropriações. Quanto a mim, apropriei-me dos personagens da MPB para sonetar esta homenagem aos “homeless” no livro PANACÉIA:

SONETO 369 SEM-TETO

Maloca a mais saudosa foi aquela
que fez do Adoniran cronista urbano.
O Joca, o Mato Grosso e outro fulano
são símbolos que a música congela.

Cortiço ou invasão? Bairro ou favela?
Blocado, sublocado ou subumano?
Qualquer habitação serve de pano
de fundo para o enredo da novela.

Paredes têm ouvidos, não têm olho.
Um simples papelão pode ser casa.
O pobre não precisa de ferrolho.

Noel também foi gênio: é cama rasa
a folha de jornal na qual me encolho.
O orvalho é o teto, e o cego ave sem asa.

MICRÔNICA [#5]

Aqui com meus botões (da braguilha) penso no famoso patinador Chico Estrela, que ficou mais conhecido como o Maníaco do Parque, ninguém menos que o maior serial killer brasileiro. Disseram que ele não lavava o pau e juntava sebinho, e eu me perguntava por que ninguém comentou sobre o chulezinho dele. Mas não é disso que quero falar agora, e sim da fama que ele não perdeu. Pelo contrário, colocou as pretendentes em fila e, mesmo na cadeia, já escolheu a primeira para casar. Ora, se até um estuprador homicida tem seu fã-clube, daqui a pouco vão aparecer as galeras de teens torcedores do doutor Eugênio e de seus colegas soltos, incluindo padres, pastores, professores, treinadores e… políticos. Já fico imaginando um MST (Movimento Simpatizante Teenager) fazendo ato público a favor do doutor Eugênio na porta do xadrez, enquanto pais indignados expulsam de casa os moleques eugenistas como drogados ou alcoólatras. Delírio meu? Veremos. Voltando ao Chico Estrela, que além de patinador era moto-boy, me ocorre que, se o doutor Eugênio cobrava (e caro), o mais comum é o contrário, já que a molecada esperta trampa cedo e aprende a fazer bico, se não com o bico da chuteira, freqüentemente com o bico da chaleira, arregaçado para quem pagar o cachê do michê, quase uma caixinha em tempos de crise. E como muitos garotos de programa são moto-boys ou seus coleguinhas de P2, ou seja, os office-boys, aí vai minha homenagem aos batedores de sola, do livro PANACÉIA:

SONETO 367 OFFICE-BOY

Moleque de recados não é tudo:
um leque de pecados é seu forte.
Quer seja por dinheiro ou por esporte,
trambica, transa, trampa, encara o estudo.

O tênis é surrado, o pé taludo.
O braço calejado no transporte.
Conhece o centro velho, a zona norte,
os campos, os jardins. É surdo-mudo.

Podendo, é da madame o gigolô.
As bichas chupam loucas sua caceta.
Rockeiros cheiram rindo seu cocô.

Somente no momento da punheta
esquece de se ver como um robô.
É virgem a menina do estafeta.

MICRÔNICA [#4]

O Brasil faz mesmo o gênero do país mambembe-envergonhado, que tenta disfarçar sua indigência atual e quer varrer as mazelas do passado pra debaixo do tapete. Nossa história pouco estuda conflitos como a Guerra dos Farrapos ou a Guerra dos Mascates, talvez porque gente maltrapilha e vendedores ambulantes dão má impressão na foto colorida do cartão postal. Pelo mesmo motivo os governantes do momento não sabem como lidar com moradores de rua ou camelôs, cuja presença nunca foi lá muito decorativa nas pranchetas dos projetistas das belezuras. Dos rueiros falarei noutra oportunidade. Agora penso nos marreteiros e exemplifico com uma experiência pessoal. Quando quis comprar novos óculos escuros para proteger meus olhos cegos dos ciscos e esbarrões, procurei num shopping um modelo que tapasse bem dos lados com haste larga. Caí de costas com os preços dos “sun glasses” importados, mais caros que um televisor. Só por causa da grife? Um simples pedaço de plástico! Num camelô achei o modelo que queria pelo preço dum chinelo. Fiquei com mais raiva das butiques e já encaro os ambulantes com mais simpatia. Acho que estes são mais brasileiros e mais iguais a mim e a meu bolso, embora o Brasil oficial seja mais cego que eu face à realidade. Ao vendedor dos meus óculos escuros dedico este soneto do livro PANACÉIA:

SONETO 365 MARRETEIRO

Miçangas, badulaques, miudezas.
Ao sol, quinquilharia, livre feira.
Na esquina, na calçada, na ladeira,
ofertas, novidades e surpresas.

Muambas que deixaram de ser presas.
Comidas que não vão à geladeira.
Gorjetas na sarjeta, na sujeira.
Achaques a pessoas indefesas.

O rapa passa rápido e reprime.
Mais rápido, o ambulante se mistura
ao povo, cuja luta não é crime.

Nas veias da metrópole, a fartura
afronta a autoridade, que se exime
da culpa, da lição, da ação, da cura.

MICRÔNICA [#3]

Esse negócio de siglas dá pano pra manga. O humorista Sérgio Porto até inventou uma pra título de sua obra: FEBEAPÁ (Festival da Besteira que Assola o País). Mas nem falo das inventadas, já que as reais intrigam por si mesmas. Algumas são coincidentes: COPOM tanto pode ser Comando da Polícia Militar como Conselho de Política Monetária. Outras têm paralelas sem existência comprovada. PCC pode ser Primeiro Comando da Capital, mas também Partido Comunista da Criminalidade. OAB pode ser Ordem dos Advogados do Brasil, mas também Organização de Apoio à Bandidagem. Podem até pintar dissidências como um PC do C (Partido Comunista do Crime) ou, no Rio, além do CV e do TC, uma dissidência da ADA (Amigos dos Amigos) chamada IDI (Inimigos dos Inimigos). No tempo da ditadura houve um Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (INAN) cuja sigla lembrava inanição e refletia a penúria mental dos tecnocratas. Mas de longe a mais famosa é IBOPE, que virou substantivo comum. Isso me lembra que as pesquisas estão na ordem do dia, não só as eleitorais. Quando fiquei cego, estive tão por baixo que resolvi pesquisar a opinião do meu “universo” de leitores. Uma das perguntas ditadas na correspondência era do tipo: se os cegos têm maior aptidão para massagistas, deveriam compulsoriamente chupar rola? Sim ou não? O resultado eu divulguei em forma de soneto no livro PANACÉIA:

SONETO 346 PERCENTUAL

Mandei um questionário por correio.
Indago sobre o cego, se o boquete
é sua obrigação. Responde à enquete
um grupo que desfruta o azar alheio.

“O cego é um inferior”, diz um, “e creio
que até tem de chupar pau de pivete.”
Um outro diz que o cego se submete
ciente que é cobaia no recreio.

Resumo da pesquisa: dez por cento
são contra a humilhação do ser humano
e poupam ao ceguinho outro tormento.

Noventa, porém, curtem rindo o dano
moral e corporal do pau que agüento
na boca, ouvindo o gozo do fulano.