Categoria “Especial Na Estante”

Sobre a Breviedade da vida

de Sêneca – Tradução de William Li
Editora Nova FronteiraO que dizer de um livro que tem cerca de dois mil anos e ainda é editado? No mínimo, que algum motivo para isso existe. As notas que abrem a edição dão uma boa idéia do por quê. Além de uma boa apresentação do autor, essas primeiras páginas explicam o contexto em que ele desenvolveu sua atividade filosófica e escreveu a obra apresentada na sequência.

Sêneca é definido como um estóico. Ao contrário de Platão, para quem o mundo material é uma símile pobre do real, que está no mundo das idéias, os estóicos vêem a perfeição na Natureza e no plano físico; neles aparece com força a busca da integração do homem a essa harmonia universal. Essa visão leva a uma filosofia voltada principalmente para a moral, para a aplicação da filosofia na vida em busca de uma existência virtuosa. Sob essa ótica, a criação de “Sobre a Breviedade da Vida” não deixa dúvidas acerca de suas motivações.

O entrave aqui é o fato desse mesmo filósofo ter sido um dos homens mais poderosos do Império Romano em sua época. Ele foi tutor de Nero e efetivamente comandou o governo nos quase dez anos que se passaram entre a morte do imperador e a ascensão do jovem herdeiro. Isso faz uma enorme diferença na leitura da obra. Há três datas possíveis:49d.C, 55d.C. e 62d.C.. Caso a data real seja 55 d.C., temos que a concepção desse pequeno tratado pode não ser motivo de aspirações nobres e da pura especulação filosófica, mas uma forma de resolver um problema desconfortável – a necessidade de remover o sogro Paulino de um cargo necessário para uma barganha política. Saber isso não invalida o tratado, claro, mas indica um viés difícil de ser ignorado: é um texto concebido para um fim.

Tanto a sua organização como seus lugares retóricos servem a esse objetivo. Os pilares são poucos e simples, mas formados por uma complexa rede de elementos. O texto se estrutura em uma espiral. Há, efetivamente, apenas um argumento: que a vida que vale a pena ser vivida é aquela dedicada à filosofia. Digo que ele é espiral porque além de circular – ir sempre retomando os mesmos conceitos – se move “verticalmente”. Cada vez que um conceito ou exemplo é retomado, ele é ampliado ou aprofundado. A repetição sistemática e a oferta de exemplos vão, aos poucos, se reforçando mutuamente, ampliando a força do caso como um todo. Além disso, são uma estratégia interessante para sufocar as objeções do alvo: uma primeira passagem mais geral dá tempo ao leitor de evocar contra-argumentos, que nas retomadas são expostos e refutados. Com isso, o autor se coloca sempre um passo à frente do leitor-modelo. Isso é fundamental já que se trata de uma peça que quer levar a uma ação. Com esse domínio assegurado, Sêneca joga sempre com a passagem do tempo para explorar o medo da morte – mostrando-a acentuada nas existências desperdiçadas e lassa para os que vivem na filosofia.

Felizmente essa apurada engenharia argumentativa não está a serviço apenas da necessidade de plantão. Se por um lado Sêneca não perde de vista que deve levar Paulino a uma ação, por outro trata de fazê-lo por meio daquilo em que acredita. E é aí que se completa a fórmula da longevidade do texto. A idéia central está ligada à busca estóica da vida virtuosa, resumida no trecho em que diz “Deve-se aprender a viver por toda a vida, (…) a vida toda é um aprender a morrer”. A vida que é aprendizado contínuo não é breve; é breve, sim, a de quem trata o tempo com displicência, distraída do caminho da sabedoria. Aí vem uma diferenciação importante, ao citar um oráculo – “Pequena é a parte da vida que vivemos” – e emendar: “Pois todo o restante não é vida, é tempo”. Assim, ” é breve e agitada a vida dos que esquecem o passado, negligenciam o presente e receiam o futuro; quando chegam ao termo (…), os pobres coitados entendem tardiamente que estiveram muito ocupado em nada fazer”; ao passo que “(…) A vida do filósofo estende-se por muito tempo, e ele não está confinado no mesmo limite que os outros. (…) Todos os séculos servem-lhe como a um Deus.” Qualquer coisa que não seja a dedicação ao ócio, entendido como a prática filosófica, é tempo gasto, não tempo vivido – pouco importa se o tempo foi desperdiçado na inatividade “dos prazeres sensuais” ou em busca da “glória vazia”; o fato é que foi desperdiçado. O desdobramento natural dessas considerações acaba nos levando a um outro tópico bastante interessante: a falta de propósito. As vidas sem filosofia, sem um objetivo, devem ser preenchidas de qualquer maneira e por qualquer coisa, porque “todo intervalo de tempo entre duas ocupações lhes é um fardo. (…) A espera de qualquer coisa por que anseiam lhes é penosa, mas aquele instante que lhes é grato corre breve e rápido, e torna-se muito mais breve por sua própria culpa, pois passam de um prazer a outro e não podem permanecer fixos num só desejo”. São questões particularmente agudas 20 séculos depois.

Parece que o homem nunca se sentiu tão oprimido pelo tempo como da segunda metade do século XX em diante. Nem é preciso dizer que a vida é curta; isso todo mundo já nasce e cresce sabendo. “Carpe diem” é a ordem, a vida a ser seguida. Melhor dez anos a cem do que cem anos a dez. Morreremos logo, a qualquer momento, lembra? Não há tempo a perder. A moderação é um luxo caro; a contemplação, um peso insustentável. E como fazer para viver no máximo o tempo todo? Ora, mergulhando numa sobrecarga sensorial, se perdendo na embriaguez sinestésica de estímulos múltiplos e simultâneos. Consumimos a ilusão do movimento; coisas como TV, raves, botox, lipo, psicotrópicos, blockbusters, revival não dos anos 80 mas da infância dessa década, celebridades instantâneas, sexo, reality shows, videogames, iPods TiVO e egocasting, etc, etc, etc. E apesar de tudo, a vida parece cada vez mais breve; as pessoas se dizem cada vez mais sozinhas; DDA culturalmente induzido, tarja preta, serotonina, depressão e termos análogos não só engrossam mas encabeçam o vocabulário de muita gente.

Costumo brincar que, quando você não sabe o que dizer sobre algo, deve recorrer ao pós-moderno – onde tudo é “super relativo, sabe?” – “e complexo”, não me deixa esquecer uma amiga. É engraçado, mas talvez seja uma ilação que cabe aqui. No fundo, “Sobre a Breviedade da Vida” fala sobre a importância de se ter um código moral como um fio condutor para a vida – seja ele coletivo ou individual, estanque ou capaz de evoluir a partir da experiência. Dois mil anos depois, o leitor que se dispuser a encarar as pouco mais de trinta páginas desse tratado pode não encontrar relevância no apelo a Paulino, mas se estiver atento, achará uma pergunta magistralmente elaborada e, com um pouco de sorte, a que mais faltava ser feita.

Recomendado para: pensar, mas com moderação.

Síndrome de Quimera

de Max Mallman
Editora Rocco

Expressões como “novo autor”, “nova geração” ou “jovens autores”, acompanhados ou não de advérbios de intensidade e adjetivos me provocam calafrios. Por isso, entrei com um pé atrás na Quimera, um dos menores “café-e-livraria” de Porto Alegre. Mas foi só dar a primeira passada de olhos pelo lugar para ver que minha desconfiança era infundada. Nada de anunciações na orelha: ela apresentava o enredo. Foi o suficiente para me desarmar e me deixar à vontade. Ponto para Max Mallmann e sua “Síndrome de Quimera”.

Mais tranqüilo, deixei que me fossem apresentados Vito, o protagonista, e Bruno, seu melhor amigo. O primeiro vive com o peito apertado, uma angústia de fundo que parece não ter fim; o outro, em compensação, não tem o menor problema para esvaziar a cabeça. O que faz os dois para lá de especiais é que, em ambos os casos, a causa desses fenômenos psicológicos e emocionais tem origens bem concretas. Vito tem uma cascavel enrolada no coração. Já Bruno costuma destampar a cabeça e tirar o cérebro para relaxar. Juntos, montam “A Quimera”, um acanhado café-livaria na capital gaúcha – uma daquelas idéias típicas de bêbados em boteco. Enquanto a loja vira o point de tipos estranhos como eles, os sócios lutam para fechar o mês com as contas pagas, o fígado em dia e um fiapo de romance ou sexo, o que der. O melhor, no entanto, é que por mais fantásticas que sejam as situações, os cenários e as pessoas, o que vemos ali é absolutamente humano e pé no chão. A busca de todos eles é aquela de toda geração quando começa a andar com as próprias pernas: pelo seu espaço e sua identidade. Tropeçando bastante no caminho, claro.

Dono de um texto leve, Mallmann não tem problemas para imprimir à narrativa um ritmo ágil, mas sem ser apressado. Contada em primeira pessoa pelo Vito, a história flui sem dificuldades, alternando as impressões do protagonista com as interações objetivas com o mundo exterior, normalmente em diálogos bem construídos. Além de compatíveis com cada enunciador em forma e conteúdo, o autor se vale deles para tentar evitar ou subverter, ainda que em graus modestos, clichês – é o caso da primeira conversa entre Vito e Falena. Só faço reparos a três pequenos excessos: às intermináveis referências à serpente enrolada no coração do Vito (no começo, funciona; depois, vira ruído); à enorme quantidade de vezes em que ele desmaia ou ameaça desmaiar por conta dela; às pequenas “explosões” do protagonista, que parecem um pouco fora de caráter e um recurso algo cafajeste para esquentar certas cenas. Em quase todos os casos em que essas ferramentas são usadas, elas são desnecessárias. A tensão já estava ali naturalmente, por conta de um bom trabalho na hora de apresentar os leitores ao passado e ao psicológico dos personagens – existe um conhecimento prévio sobre o que determinado fato significa e uma expectativa sobre a reação a ele. Assim, sublinhar esses momentos com estouros indignados ou síncopes acaba enfraquecendo a seqüência em vez de emprestar a ela dramaticidade.

A trama se desenrola numa estrutura clássica em três atos, com a apresentação dos personagens – especialmente Vito, que é o fio condutor -, depois a mudança de status quo e finalmente o desfecho. O conflito é bem construído ao longo das duas primeiras partes, com revelações interessantes e consequentes, bem como com a exploração competente das características especiais dos protagonistas. A galeria de coadjuvantes exóticos – uma menina feita de papel, um outro que se alimenta de eletricidade e assim por diante – e a criação de cenas inusitadas – como os ácaros no porão ou as sessões de férias para o cérebro de Bruno – são um showzinho à parte. Criam uma atmosfera que, ao mostrar os detalhes desse mundo ao leitor, confere realidade e verossimilhança ao livro. A terceira parte, no entanto, deixou a desejar para mim. Por mais que o entorno seja saboroso, o foco do enredo está na condição especial de Vito e na sua história pessoal. Depois de mexer todas as peças e armar uma situação intrigante, a resolução vem de forma quase automática, rápida e alheia às ações do protagonista, provocando um final anti-climático. O epílogo, porém, amarra bem as pontas soltas e é bastante satisfatório.

No fim das contas, o resultado é positivo. “Síndrome de Quimera” é entretenimento de primeira. Original e envolvente, o livro com certeza fará com você encontre, circulando entre as mesas de café com copos de vodka e as estantes organizadas de acordo com um código próprio, seus próprios amigos. Aquele pessoal sempre descrito – não sem um sorriso de canto de boca e cheio de segundas intenções – como “especial”, mas que se debate com um dia-a-dia tão normal.

Recomendado para: mostrar que de perto todo mundo é, sim, normal.