Ali Babá e os Quatro Aviões

A senzala das Américas está apreensiva. Não temos culpa nenhuma nisso e nem nos atreveríamos a ter, pois não há qualquer motivo para nos revoltarmos contra nossos generosos senhores. Porém, nossos lombos carregam na memória inúmeros castigos por faltas nunca cometidas, desencadeados simplesmente pelas variações de humor da Casa Grande.

Foi por isso que recebi com terror as palavras da senadora Hillary Clinton, no dia 12 de setembro de 2001, “day after” de um acontecimento de grandes proporções: “a partir de agora quem não estiver a favor dos Estados Unidos estará contra os Estados Unidos”.

Para nossos ouvidos, já temerosos dos ressentimentos da chibata financeira que serão descarregados em nossas costas, tal afirmação é assustadora. Será o nosso fim, se desconfiarem que estamos do lado dos infiéis. Para evitar essa calamidade, faz-se premente uma vigilância severa contra os inimigos da América, coibindo toda tentativa de profanação de nosso querido “american way of life”.

Primeira medida: Todos os Habib´s e Mister Sheiks devem ser fechados à força. Afinal, não temos como saber a tempo se eles utilizam ingredientes transgênicos capazes de reprogramar nosso DNA, transformando-nos em massa de manobra para seus planos diabólicos. Aliás, a pronúncia cotidiana de palavras no idioma bárbaro, como “esfiha”, “kibe”, “kafta” e “tabule” pode acelerar esse processo. Até mesmo “milk shake” tem um conteúdo fonético subliminar perigoso e deve ter seu nome mudado para “milk president”, reiterando assim nossos valores democráticos.

Segunda medida: A dança do ventre fica terminantemente proibida. Esse tipo de dança pode ser considerado uma técnica hipnótica poderosa, capaz de persuadir nosso inconsciente a aceitar e até mesmo desejar, com todo o ardor do nosso baixo ventre, os valores daquela civilização degenerada. Prova cabal de sua eficiência ideológica, é a proeza de nos convencer que uma barriguinha protuberante e trêmula pode ser algo sensual, levando-nos a pecar mortalmente contra a sacrossanta estética do fitness.

Terceira medida: Eliminar toda e qualquer expressão que divulga, mesmo que implicitamente, através de trocadilhos infames, o nome do deus adorado pelos infiéis. Expressões como “menu à la carte”, “alla putanesca” e “à labuta” passam a ser consideradas subversivas.

Quarta medida: Decretar a prisão preventiva do cidadão Djavan, sem direito a fiança ou habeas corpus, por ter revelado seus propósitos sinistros, em 1978, ao gravar a canção-cartão-de-visitas “Alagoas”, cujo refrão diz em alto e bom tom: “Alá, Alá, Alá, Alá, Alagoas”. Definitivamente, não pode ser considerado inocente o autor de uma canção em que o nome proibido é repetido 49 vezes.

A quinta medida, obviamente, é mudar o nome do estado de origem do cantor para DEUSgoas, evitando que milhares de brasileiros incorram na heresia de se considerarem ALAgoanos.

A sexta medida consiste em banir de conservatórios, gravações e salas de concerto a marcha “Alla Turca”, por incorrer em dupla apologia ao inimigo e provavelmente conter instruções cifradas para atentados terroristas em suas notas musicais. Já que não poderemos prender o já falecido cidadão W. A. Mozart, nada mais justo que eliminar por extensão qualquer registro do restante de sua obra.

É com satisfação que divulgo essas medidas ao povo brasileiro, pois as levando a cabo sem misericórdia, a Casa Grande terá provas suficientes de nossa obediência e certeza de que somos seus aliados na incansável luta pela liberdade e contra a intolerância, acima de tudo. Ou melhor, über alles.

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7 Comentários on "Ali Babá e os Quatro Aviões"

  • Ricardo diz

    Olha Rodolfo,

    Tudo bem que vc ganha a vida escrevendo, mas só posso dizer uma coisa da sua crônica: IMPAGÁVEL! Muito boa mesmo!!

    Meus parabéns!

  • Rafael diz

    Eu já havia dito isso antes, portanto não vou repetir: Boa, muito boa mesmo! Acho que você tem um potencial bastante grande para continuar limpando janelas. Hehehe, ficou muito legal, parabéns!

  • Paulo diz

    Pessoalmente, nao tenho nada contra darem um sumiço no Djavan…

    E no geral, tenho tudo a favor da sua crônica! Ficou MUITO legal!

  • Kris diz

    Tesão!!!!!!!!!

  • O alazão alado se alarmou com o alargamento do alambique. E o alaride alastrou o alarido do alaúde alaranjado.

    Tentem me pegar, seus americanos !!! Hahahahahahahaha !!!

    (PS: Tesão a crônica!)

  • Devo admitir que concordo plenamente em fechar o Habib´s e o Mr. Sheiks. Não por que apoio o Forest bush, e sim por que a esfiha deles não presta mesmo. Parabéns pela crônica!

  • Renata diz

    Muitobom, Rodolfo, mandou muito bem…

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