A Sandália

Pedaço por pedaço, eu ia rasgando o papel higiênico e forrando o assento da privada. Como todos sabem, esta técnica milenar passada de pai para filho é o único meio de evitar que sua epiderme glútea entre em contato com milhares de bundas de procedência duvidosa. (Quem nunca fez isso ou é um porco ou nunca freqüentou banheiros públicos).

Confortavelmente instalado, minha concentração foi quebrada pelo barulho da porta. Até então, encontrava-me sozinho no recinto. E não sei por que motivo, diante de tantas cabines idênticas, o infeliz escolheu justo uma ao lado da minha.

Eu já imaginava que se ele havia ignorado as calhas era porque suas necessidades eram de natureza sólida. O barulho da tampa sendo abaixada confirmou minha teoria. Quando eu já estava esperando pelo barulho de papel higiênico rasgado e todo aquele ritual… Ouço o barulho dele sentando na privada! Meu Deus! O cara sentou na privada sem forrar! Que absurdo! Não era possível que alguém tivesse tanto desprezo pela própria bunda. Rapidamente olhei pelo vão que existe em praticamente todos os banheiros públicos e pude perceber que o escroto ao lado usava uma daquelas sandálias de couro, estilo Patropi, que realçavam ainda mais o aspecto asqueroso daquele pé grotesco. Por sinédoque, tomando o pé e a sandália como referência, comecei a imaginar a fisionomia do nojentão. Mas fui logo interrompido por uma orgia de sons vulgares provenientes do trombone anal daquele infeliz. O cara tava podre. E a barulheira era tão intensa que senti vontade de vomitar; porém, o temor de que aquela vibração flatulenta entrasse em ressonância com a estrutura do prédio e pusesse tudo abaixo me manteve consciente.

Quando a cacofonia, ou melhor, a cocofonia terminou, fiquei aliviado. Ouvi o barulho da descarga. O da porta da cabine. O da porta do banheiro. Ufa! Estava livre… Mas espera aí: Barulho da descarga, porta da cabine, porta do banheiro… Meu Deus! O cara não lavou as mãos! Era óbvio! Não ouvi barulho de água nem de mãos sendo enxugadas. Conclusão: o cara era um porco, uma ameaça à sociedade!

Mas a vida tem compensações. De volta à mesa, encontrei o meu calzone quentinho que acabara de chegar. Não pude deixar de reparar o quanto aquele shopping de Joinville era simpático e tranqüilo. Como tudo era limpo e organizado. O Sul é mesmo uma maravilha. Aliás, nunca comi um calzone tão gostoso. O calzone do Sul é outra coisa. Dá até vontade de ir cumprimentar o cozinheiro. Pensando bem, é melhor não; vai que ele está de sandália de couro.

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6 Comentários on "A Sandália"

  • Renata diz

    EEEECA! Você provocou várias imagens mentaris! E não sei te dizer se isso é bom ou mau!

  • Uma crônica de utilidade pública, quem diria?Muito boa Paulo!

  • Paulo diz

    hahahahahahahahaa…. Ler Sandálias foi a primeira coisa que fiz quando cheguei na agência depois de pegar um puta trânsito. Valeu! Me diverti!

  • Rafael diz

    Um texto delicado e sutil. Que categoria!

  • Vou verificar os pés do maitre toda vez que entrar num restaurante. Vai que ele está de sandália… heheehe…

  • Noêmia diz

    como foi clicando sobre “pesquisa google” eu vim parar aqui?

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