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Ainda Sobre o Ponto - (05-11-2001) - por Guilherme Pita (Jacaré) O ponto morre de inveja das palavras. Elas podem existir sem o ponto. Agora, o ponto só existe porque veio uma palavra antes. Ele depende dela. O ponto é o último mas nunca vai ser o primeiro. Ele é restrito; só separa ou termina. A palavra explica, dá idéia de alguma coisa. Se a palavra constrói, o ponto destrói. É a jogada do Ricardinho morrendo no Galeano. É o Pedrinho parando no Otacílio. Ou, com os dois no mesmo time, é o Ricardinho tocando pro Otacílio, que perde o domínio e deixa sair pela lateral. A palavra tem gênero, número, grau. Mais do que isso: tem classe. O ponto é um plebeu, igual a outro ponto. A palavra pode ser verbo, substantivo, pronome. Como reis, duques, condes. Mesmo quando é pequeno como um artigo, é mais nobre mais que o ponto. As letras, matéria-prima das palavras, vivem se reagrupando. E formando mais palavras. O ponto não consegue deixar de ser ele mesmo. E até em outras línguas ele continua lá, sempre no mesmo lugar, moribundo. Está cheio de autor desafiando o ponto. Primeiro foram os poetas. A maioria das poesias dispensa o ponto. Fazem-se só de palavras. Não sentem falta dele. Na prosa, o Saramago já escreveu páginas e páginas sem precisar do ponto. O Raduan Nassar também. Dá para viver sem ele. Já o contrário, não. Nunca vi texto só de ponto. Fica sem sentido. . Menor que um texto, um parágrafo só de ponto não tem graça nenhuma/ Fica como esse aí acima/ E tem mais: se a gente enjoar do ponto, troca ele por barra e ninguém nem percebe/ O ponto está condenado a ser um ponto por toda a eternidade. A palavra, dependendo de seus vizinhos, pode ser muita coisa. E mesmo quando mora sozinha na rua é de uma significação imensa. Explícita. Clara. Lógica. Pobre ponto. Não leva vantagem em nada. A palavra ainda pode contar que existe uma delas, “ponto”, que diz ponto sem que se escreva o próprio. E, para ser cruel, fala que há mais uns cinqüenta sentidos para ponto além do ponto que falamos aqui. Ninguém faz declaração de amor dizendo “não há pontos para expressar o que sinto”. Para falar a verdade, ninguém nunca lembra do ponto. Exagerando sua insignificância, por mais de uma vez as palavras quiseram dar um fim ao ponto. A primeira tentativa foi frustrada porque, na hora H, o ponto pediu uma forcinha a Deus. Então as palavras foram divididas em grupos que não se entendiam – é o que, de fato, se passou na Torre de Babel. Em outra operação malsucedida, o ponto virou e disse biblicamente: “Não tenho raiva de ti por quereres me matar, mas compaixão. Farei com que chegues onde nunca sonhaste.” E, junto com o traço, criou o código Morse. As palavras não desistiram. Mas o ponto não ressentia o mal. “Enquanto queres que eu suma, desejo levar-te aos que nunca te viram”. Fez-se o braile. Tudo isso não mudou muito coisa. As palavras continuam guardando aquela vontade de exterminar os pontos, algum dia. De vez em quando pegam um cronista aqui e outro ali para manifestar a tal expressão de superioridade. Vamos ver onde essa história termina. Se num ponto ou numa palavra. |
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Paulo - paulocoelho@cronistasreunidos.com.br 05-11-2001 07:54
Aê, Jaca, show! Muito legal. Especialmente inspiradas as passagens sobre o código Morse e o braile. Two thumbs up. |
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Murilo Boudakian Moyses - link - mumoyses@hotmail.com 05-11-2001 08:12
Muito boa Jacaré. Acho que depois da sua crônica o ponto deu seu último suspiro. |
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Ricardo Alter - ricardob@fox.com 05-11-2001 10:26
Jaca ficou animal a sua crônica gostei pra cacete e foi muito bem pontuada :.) |
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Ricardo - ricardo@cronistasreunidos.com.br 05-11-2001 11:20
Viu só rapaz!! hehehe Sabia que ia dar samba dos bons! Muito boa mesmo, e ponto ! |
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paulo roberto vasconcellos - prvasc@terra.com.br 06-11-2001 01:32
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Renata - renata.natacci@jwt.com 06-11-2001 06:04
Muito bom, Jaca! |
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maria margarida cruz - marmarga@uol.com.br 09-11-2001 07:57
Guilherme |
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maria margarida cruz - marmarga@uol.com.br 11-11-2001 07:45
Guilherme |
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Abrao Aqueri - link - mail@aqueri.com 15-01-2002 02:14
E assim comungavam em silêncio: “que entre dois pontos sempre haverá infinitos pontos” Parabéns amigo, pela grata surpresa. |