Ainda Sobre o Ponto

O ponto morre de inveja das palavras. Elas podem existir sem o ponto. Agora, o ponto só existe porque veio uma palavra antes. Ele depende dela. O ponto é o último mas nunca vai ser o primeiro. Ele é restrito; só separa ou termina. A palavra explica, dá idéia de alguma coisa.

Se a palavra constrói, o ponto destrói. É a jogada do Ricardinho morrendo no Galeano. É o Pedrinho parando no Otacílio. Ou, com os dois no mesmo time, é o Ricardinho tocando pro Otacílio, que perde o domínio e deixa sair pela lateral.

A palavra tem gênero, número, grau. Mais do que isso: tem classe. O ponto é um plebeu, igual a outro ponto. A palavra pode ser verbo, substantivo, pronome. Como reis, duques, condes. Mesmo quando é pequeno como um artigo, é mais nobre mais que o ponto.

As letras, matéria-prima das palavras, vivem se reagrupando. E formando mais palavras. O ponto não consegue deixar de ser ele mesmo. E até em outras línguas ele continua lá, sempre no mesmo lugar, moribundo.

Está cheio de autor desafiando o ponto. Primeiro foram os poetas. A maioria das poesias dispensa o ponto. Fazem-se só de palavras. Não sentem falta dele. Na prosa, o Saramago já escreveu páginas e páginas sem precisar do ponto. O Raduan Nassar também. Dá para viver sem ele. Já o contrário, não. Nunca vi texto só de ponto. Fica sem sentido.

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Menor que um texto, um parágrafo só de ponto não tem graça nenhuma/ Fica como esse aí acima/ E tem mais: se a gente enjoar do ponto, troca ele por barra e ninguém nem percebe/

O ponto está condenado a ser um ponto por toda a eternidade. A palavra, dependendo de seus vizinhos, pode ser muita coisa. E mesmo quando mora sozinha na rua é de uma significação imensa. Explícita. Clara. Lógica.

Pobre ponto. Não leva vantagem em nada. A palavra ainda pode contar que existe uma delas, “ponto”, que diz ponto sem que se escreva o próprio. E, para ser cruel, fala que há mais uns cinqüenta sentidos para ponto além do ponto que falamos aqui.

Ninguém faz declaração de amor dizendo “não há pontos para expressar o que sinto”. Para falar a verdade, ninguém nunca lembra do ponto.

Exagerando sua insignificância, por mais de uma vez as palavras quiseram dar um fim ao ponto. A primeira tentativa foi frustrada porque, na hora H, o ponto pediu uma forcinha a Deus. Então as palavras foram divididas em grupos que não se entendiam – é o que, de fato, se passou na Torre de Babel.

Em outra operação malsucedida, o ponto virou e disse biblicamente: “Não tenho raiva de ti por quereres me matar, mas compaixão. Farei com que chegues onde nunca sonhaste.” E, junto com o traço, criou o código Morse.

As palavras não desistiram. Mas o ponto não ressentia o mal. “Enquanto queres que eu suma, desejo levar-te aos que nunca te viram”. Fez-se o braile.

Tudo isso não mudou muito coisa. As palavras continuam guardando aquela vontade de exterminar os pontos, algum dia. De vez em quando pegam um cronista aqui e outro ali para manifestar a tal expressão de superioridade. Vamos ver onde essa história termina. Se num ponto ou numa palavra.

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9 Comentários on "Ainda Sobre o Ponto"

  • Paulo diz

    Aê, Jaca, show! Muito legal. Especialmente inspiradas as passagens sobre o código Morse e o braile. Two thumbs up.

  • Muito boa Jacaré. Acho que depois da sua crônica o ponto deu seu último suspiro.

  • Ricardo Alter diz

    Jaca ficou animal a sua crônica gostei pra cacete e foi muito bem pontuada :.)

  • Ricardo diz

    Viu só rapaz!! hehehe Sabia que ia dar samba dos bons! Muito boa mesmo, e ponto !

  • paulo roberto vasconcellos diz

  • Renata diz

    Muito bom, Jaca!

  • maria margarida cruz diz

    Guilherme

    Existe em Portugal uma expressão em que dizemos “você é um ponto” – é sempre exclamativa e denota admiração expressa de uma forma ligth, bem humorada, risonha, por vezes irónica e é essa a expressão que tenho para você mas considere que elevada à vigéssima potência dado o imenso potencial que demonstra esta crónica, simplesmente das melhores que já li por aqui e por ali ao longo da bem longa e pontuada vida desta aprendiz que vem junto a você dizer parabéns mesmo, você vale a pena – pode acreditar no que lhe diz esta desconhecida

    Margarida

    (aniquilação total da teoria do ponto indispensável)

  • maria margarida cruz diz

    Guilherme

    Agora sem gracinhas de pontuação: legal seu email de agradecimento.

    Mas o que venho aqui dizer é que me surpreende que esta sua crónica não continue a ser comentada, dado o alto po(n)tencial que revela sobre a sua facilidade de tratar com a palavra. Ah, a palavra! Essa coisa fugidia e fantástica, que alguns conseguem quase esquecer que existe e outros passam a vida perseguindo.

    Imagino você no 2o. grupo. Boa caça para você. Bons momentos de encontro.

    Um abraço

    Maria Margarida

  • E assim comungavam em silêncio: “que entre dois pontos sempre haverá infinitos pontos”

    Parabéns amigo, pela grata surpresa.

    Sucesso

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