14º

15 h 32′ 27″
– Sobe.
– 14º por favor.
– Pois não…

………….

15 h 32′ 53″
– O que foi isso?
– Parece que o elevador parou. Não se preocupa, senhora. Já estou chamando na portaria. Eles resolvem rapidinho. Em alguns minutos a gente sai.

…………

15 h 33′ 10″
– Tá demorando o técnico, não?
– Senhora, não tem 20 segundos que eu falei com o porteiro.
– Hum… tá.

…………

15 h 33′ 32″
– O senhor tá respirando muito.
– Como?
– Tá respirando muito. A gente está num lugar fechado, sem muito ar. Tem que economizar respiração.
– O técnico já está chegando senhora, ninguém vai ficar sem ar.
– Faz o seguinte, a gente divide: o senhor fica 40 segundos sem respirar e eu fico 10.
– Por que eu tenho que ficar 40 segundos prendendo a respiração e a senhora só dez segundos?
– Ah, porque o senhor é empregado e tem a obrigação de servir bem.
– Eu acho melhor a senhora ficar 40 segundos sem falar…
– Grunf…

…………

15 h 34′ 10″
– O técnico tá demorando mesmo.
– Não passou os 40 segundos.
– O senhor tá achando que pode me dar alguma ordem?
– Quem tá achando que pode dar ordem é a senhora.
– E não posso?
– Pode me pedir pra apertar o botão do andar.
– Parece que não funcionou.
– A culpa não foi minha.
– Nem minha.
– Ok, então a gente espera eles abrirem a porta do elevador e reclama com quem tem culpa.
– Pfffff.

…………

15 h 35′ 06″
– O senhor acha que isso pode ser algum tipo de atentado?
– Não, senhora. Não tinham porque fazer atentado aqui no prédio.
– Mas contra mim. Pode ser contra mim. Muita gente não gosta de mim.
– Hã, hã.

…………

15 h 35′ 49″
– O senhor tá roubando meu ar.
– Como?
– Não adianta se fazer de desentendido. Eu vi muito bem: o senhor virou a cabeça só pra roubar o meu ar.
– Minha senhora, eu estou tentando ser educado, mas tá difícil. Agora eu não posso mais virar a cabeça?
– Pra esse lado não, senão você rouba meu oxigênio e solta gás carbônico pra contaminar meu ar.
– Pfff…
– Não disse! Ó aí soltando gás carbônico!
– Grumf…

…………

15 h 36′ 22″
– O senhor não gosta de mim.
– Minha senhora, eu não gosto dessa situação.
– (chorando) Mentira, o senhor não gosta de mim. Nem conversar quer…
– Eu não quero falar muito pra não gastar o ar…
– AI MEU DEUS…
– Ai meu Deus.

…………

15 h 36′ 57″
– Que barulho é esse? Eu tô ouvindo vozes.
– Deve ser o técnico tirando a gente daqui.
– O senhor tem certeza que ele sabe o que está fazendo?
– Não. Eu não conheço o técnico.
– Ai, MEU DEUS EU VOU MORRER, EU VOU MORRER! ALGUÉM ME TIRA DAQUI.
– O técnico já está tirando.
– Mas o senhor não conhece as qualificações desse técnico, ele pode muito bem estar fazendo uma besteira e deixar o elevador cair.
– O elevador não vai cair.
– (chorando de novo) Como o senhor sabe???? AI MEU DEUS…
– Se a senhora continuar gritando daí é que acaba o ar.
– AI MEU deus…
– …

…………

15 h 37′ 27″
– Pronto, abriu. Foram só alguns minutinhos, senhora. Pode sair.

…………

15 h 41′ 25″
– Que andar?
– O da clínica psiquiátrica.
– Hum, 14º.

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6 Comentários on "14º"

  • Daniela, estreando no site dos cronistas em grande estilo!

    Eu sabia que aqueles gritos no elevador só poderiam ser de alguma maníaco-depressiva-histérica… ehehehehe….

  • Seja bem vinda Daniela. Parabéns pela crônica!

  • Dani diz

    Vocês gostaram mesmo? Não sei… Tô insegura… acho que vocês não gostam de mim de verdade. Só um segundo… estou ouvindo vozes…

  • Rafael diz

    Poxa, a gente ha um tempo atrás vivia incentivando as mulheres a participar do site. Olha só que surpresa boa! Parabéns, Dani. Curti pra caramba seu texto.

  • paulo roberto vasconcellos diz

    O lance do tempo cronometrado foi uma sacada bem legal, gostei.

  • manda diz

    dani!!! que legal o texto! amei! superparabéns :) (e foi mal pelas “!!!” que vcs odeiam ;p)

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