Entre o Céu e o Inferno

O Rock foi colocado entre o céu e o inferno. Quantas vezes não foi dito que ele é uma ‘coisa do Demo’?? Hoje em dia falam também que ele é ‘coisa do Senhor’.

A nova febre agora é o Rock Gospel. Sim, o Rock de Deus. Um dia um moleque trouxe aqui em casa um disco de uma banda chamada Mortification.

Eu odeio Death Metal, mas fui gentil com o moleque e parei para ouvir. Era uma banda onde o vocalista urrava mais que um cão louco com raiva. Quando ele me disse que era uma banda de White Metal e explicou o que era isso , “o contrário do Death Metal com as letras falando de Deus”, fiquei estarrecido de vez.

Quem diria também que uma banda que roda demais nas Fm’s , onde o tal do vocalista é um cover piorado do Renato Russo, cantaria ‘aleluia’ tentando usar aquele mesmo timbre de voz que algum dia o Renato usou para cantar algo sobre ‘um general que ficava atrás da mesa com o cú na mão’ ?.

É uma maravilha imaginar que o Rock hoje em dia é que nem uma bolinha de tênis. Uma hora jogada para o lado do Senhor e logo em seguida rebatida para o lado do ‘Demo’…

Mas afinal, Rock é coisa do bem ou do mal? As pessoas que fazem o Rock são do mal ou do bem?

Vou pegar um exemplo clássico do nosso amigo Ozzy Osbourne, vocalista da ‘ternura’ de banda que é o Black Sabbath. Aquela velha reputação que o quase sexagenário Ozzy Osbourne sempre quis ter de um enviado maligno que come morcegos e jorra sangue pela boca , num espetáculo circense, teve um golpe enorme nos últimos dias. Tudo porque o mesmo disse que começou a freqüentar a igreja e ainda parou de fumar maconha depois dos atentados terroristas de 11 de setembro.

Será que a pessoa Bin Laden é mais temerosa do que o próprio Satanás a ponto de fazer um Ozzy se converter? Ou a força da palavra de Bin Laden é tão forte que conseguiu o que inúmeros enviados do Senhor tentaram e não conseguiram : levar o Ozzy para a igreja por causa do medo?.

Uma vez na casa de um velho amigo, o Julião, vi uma versão da capa de disco em vinil do Black Sabbath mais sinistra e medonha da minha vida . Era a do disco ‘Born Again’ . Detalhe : nesse disco ‘Born Again’, o vocalista era o Ian Gillian (Deep Purple). Ele que apareceu numa das ‘centenas ‘de trocas de vocalistas na carreira do Sabbath.
A capa do ‘Born Again’ do Julião estava toda roída nas pontas, deixando a forma do vinil em toda a sua volta . Perguntei o que tinha acontecido e ele me disse :” foi uma ratazana que roeu”.
Outro detalhe : ‘Born Again’ é aquele disco que tem um desenho que lembra um felino gordo com chifres e ‘rabo de seta’ sugestivos.

Será que esse acontecimento com a capa do disco foi uma obra das forças do mal? Garanto o seguinte : o que restou da capa do disco é a obra-de-arte mais sinistra que eu já presenciei na minha vida. E era a capa de disco mais fedida também : uma mistura de bolor, xixi de rato, veneno e afins…

Bem Rock n’roll mesmo.

Uns 6 anos atrás eu assisti uma banda nacional de Heavy Metal , com os caras no palco cheios daquela ‘velha atitude Headbanger’, bem infernal mesmo. Eles faziam bem o que mandava o script para a rapaziada fã e vestida de camisetas do Iron Maiden, Metallica , Sepultura e similares.

Os caras da banda interpretaram muito bem aquelas músicas pesadas e energéticas, com todo o seu visual negro típico. As músicas tinham letras que destacavam temas sobrenaturais, algumas com referências a anjos negros e também de figuras que representavam os seres das profundezas. A performance muito marcante da banda dava a impressão também que eles vieram do mesmo lugar.

Após o show acabei nos bastidores conhecendo melhor os caras e presenciei um outro mundo, esse bem real.

O baixista eu percebi que estava muito triste, cabisbaixo, com os olhos molhados… Descobri que ele tinha brigado com a namorada e estava em trapos arrependidos, louco para se abrir.

O baterista, com o rosto cheio de espinhas denunciando a sua adolescência , estava eufórico e só tocava num único assunto: o vestibular que iria prestar no final do ano, as provas que tinha perdido por causa dos shows ,o vestibular que iria prestar no final do ano, como era difícil estudar e o vestibular que iria prestar no final do ano.

O tecladista, muito tímido, quase não falava uma palavra. O seu pai, que era empresário da banda, era o contrário com o seu cheiro de cachaça pura. Era impossível entender alguma palavra que ele dizia de tão mamado e agitado que estava. De repente, conversa vai e conversa vem , o garoto de 19 anos apareceu com a sua inseparável garrafinha de água mineral na mão e, envergonhado , falava para ‘o véio cinquentão’ : “Pô pai, manera ae”.

Na internet eu vi outro dia uma noticia, num site de uma cidade do interior, que um show Gospel terminou em pancadaria. O vocalista da banda acabou brigando com algumas pessoas da platéia e acabou saindo com o rosto ensangüentado pelo belo corte na testa. Ele foi atingido pelo seu adversário de luta com um microfone, o mesmo que tinha acabado de usar para dizer palavras de paz para a rapaziada presente.

Também de maneira curiosa, entrei no site de uma banda nova do rock britânico. Uma banda chamada Simian. O site, muito bem feito, tem várias imagens de pentagramas e desenhos medievais de bodes e afins. O som da banda? Tão fofinho e inofensivo como o do Belle and Sebastian.

Bem… é isso… o Rock vive entre o céu e o inferno. O tempo todo. Será que ele ‘é uma coisa do Demo’ ou ‘uma coisa do Senhor’?. Eu sinceramente não sei. A única coisa que eu sei é que é bom demais !!!

O Rock para mim é algo inseparável na vida. Sou um amante praticamente desta religião.

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3 Comentários on "Entre o Céu e o Inferno"

  • É isso aí, Daniel! Rock nas veias, não importa se do lado do céu ou do inferno. Por mim, prefiro curtir o som, e deixar o bate-cabeças teológico com quem quer perder tempo… heehehe….

  • felipe diz

    É muito bom esse texto. Quem escreveu?

    Renato Cabral? Você é mexicano Cabral?

  • Cássio Miranda diz

    Pô meu, texto irônico..pensei que tu era um fuleiro, quero dizer, funkero tirando sarro dos rockeiros..mas ó..muito show seu texto!

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